Ttulo: Juntos ao Luar.
Autor: Nicholas Sparks.
Ttulo original: Dear John.
Dados da Edio: Editorial Presena, Barcarena, 2006.
Coleco "Grandes Narrativas", n 335.
Gnero: romance.
Digitalizao e correco: Dores Cunha.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de pgina: rodap.

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JUNTOS AO LUAR
Nicholas Sparks
Traduo de Alice Rocha
FICHA TCNICA
Ttulo original: Dear john
Autor: Nicholas Sparks
Copyright (c) 2006, by Nicholas Sparks
Traduo (c) Editorial Presena, Lisboa, 2006
Traduo: Alice Rocha
Fotografia: (c) Getty Images l ImageOne
Capa: Catarina Sequeira Gaeiras
Composio, impresso e acabamento: Multitipo - Artes Grficas, Lda.
1 edio, Lisboa, Novembro, 2006
Depsito legal n 248 862/06 . ?
Reservados todos os direitos
para Portugal e pases africanos lusfonos 
EDITORIAL PRESENA
Estrada das Palmeiras, 59
Queluz de Baixo
2730-132 BARCARENA
Email: info@presenca.pt
Internet: http://www.presenca.pt
AGRADECIMENTOS
Escrever este romance constituiu tanto uma alegria como um desafio: uma alegria, porque espero que as personagens reflictam a honra e a integridade de todos os que 
servem as foras armadas; e um desafio, porque... bom, para ser franco, todos os romances que escrevo representam para mim um desafio. H pessoas, no entanto, que 
tornam o desafio muito mais fcil, e, sem mais delongas, gostaria de agradecer a todas elas.
 Cat, a minha mulher, com quem partilho de todo o corao a minha vida. Obrigado pela tua pacincia, mida.
Ao Miles, ao Ryan, ao Landon,  Lexie e  Savannah, os meus filhos. Obrigado pelo vosso inesgotvel entusiasmo, midos.
A Theresa Park, a minha agente. Obrigado por tudo.
Ao Jamie Raab, o meu editor de texto. Obrigado pela tua bondade e sabedoria.
A David Young, o novo director-executivo da Hachette Book Group USA, Maureen Egen, Jennifer Romanello, Harvey-Jane Kowal, Shannon O'Keefe, Sharon Krassney, Abby 
Koons, Denise DiNovi, Edna Farley, Howie Sanders, David Park, Flag, Scott Schwimer, Lynn Harris, Mark Johnson... Estou-vos grato pela vossa amizade.
Aos meus colegas treinadores e atletas da equipa de atletismo do New Bern High (que venceu os campeonatos do estado da Carolina do Norte, quer em pista coberta quer 
em pista ao ar livre): David Simpson, Philemon Gray, Karjuan Williams, Darryl Reynolds, Anthony Hendrix, Eddie Armstrong, Andrew Hendrix, Mike Weir, Dan Castelow, 
Marques Moore, Raishad Dobie, Darryl Barnes, Jayr Whitfield, Kelvin Hardesty, Julian Crter e Brett Whitney... que poca, rapazes!
PRLOGO
O que significa amar verdadeiramente algum?
Tempos houve na minha vida em que eu pensei que conhecia a resposta: significava que eu gostava mais da Savannah que de mim prprio e que iramos passar o resto 
das nossas vidas juntos. No seria preciso muito. Em certa ocasio ela disse-me que a chave da felicidade era ter sonhos concretizveis, e que os dela no tinham 
nada de extraordinrio. Casamento, famlia... o essencial. Significava ter um emprego certo, uma casa com uma vedao de estacas branca, uma carrinha ou um jipe 
suficientemente grande para levar os midos para a escola, ou ao dentista, ou aos treinos de futebol e aos recitais de piano. Dois ou trs filhos, a Savannah nunca 
foi muito precisa a esse respeito, mas o meu palpite era que, quando chegasse a altura, ela haveria de sugerir que deixssemos que a Natureza seguisse o seu curso 
e permitir que fosse Deus a tomar a deciso. A Savannah era assim - religiosa, quero eu dizer - e suponho que essa foi uma das razes por que me apaixonei por ela. 
Mas, independentemente do rumo que as nossas vidas levassem, eu era capaz de me imaginar deitado ao lado dela na cama, ao fim do dia, abraado a ela, enquanto ramos 
e conversvamos, entregues nos braos um do outro.
No parece muito improvvel, pois no? Quando duas pessoas se amam? Era tambm assim que eu pensava. E, apesar de uma parte de mim continuar a desejar acreditar 
que  possvel, sei que isso no vai acontecer. Quando eu me tornar a ir embora daqui,  para nunca mais voltar.
Todavia, por agora, vou continuar sentado na encosta sobranceira ao rancho onde ela mora,  espera de a ver surgir. A Savannah no me
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poder ver,  claro. No exrcito, aprendemos a fundirmo-nos com o ambiente que nos rodeia, e eu aprendi bem a lio, porque no queria morrer longe da minha terra, 
numa qualquer aldeia atrasada em pleno deserto iraquiano. Mas no podia deixar de regressar a esta pequena montanha da Carolina do Norte para descobrir o que  que 
acontecera. Quando uma pessoa desencadeia um processo qualquer, h uma sensao de mal-estar, quase de angstia, at ficar a saber a verdade.
Mas duma coisa no me restam dvidas: a Savannah nunca haver de saber que eu estive aqui hoje.
Uma parte de mim sofre ao v-la to perto e no entanto to inatingvel, mas as nossas vidas so agora vidas distintas. No me foi fcil aceitar esta verdade simples, 
porque houve tempos em que as nossas vidas eram uma s, mas isso deu-se seis anos e duas vidas atrs. H recordaes que so de ambos,  claro, mas eu descobri que 
as recordaes so capazes de ter uma presena viva, quase fsica, e tambm nisto eu e a Savannah somos diferentes. Se as dela so estrelas no cu nocturno, as minhas 
so o vazio assombroso que as separa. E, ao contrrio dela, tenho sido atormentado por perguntas que dirigi a mim prprio mil e uma vezes desde o nosso ltimo encontro. 
Por que  que fiz o que fiz? E voltaria a fazer o mesmo?
 que, esto a ver, fui eu que acabei tudo entre ns.
Nas rvores  minha volta, as folhas esto no ponto em que comeam a adquirir lentamente a cor do fogo, reluzindo  medida que o Sol espreita por cima do horizonte. 
Os pssaros deram incio aos seus chamamentos matinais, e o ar ressuma ao perfume do pinheiro e da terra, diferente do ar salgado do mar da minha cidade natal. A 
certa altura, a porta da frente abre-se e  nesse momento que eu a vejo. Apesar da distncia que nos separa, dou por mim a suster a respirao  medida que a Savannah 
penetra na madrugada. Ela espreguia-se antes de descer os degraus da entrada e contorna um dos lados da casa. Atrs dela, o pasto dos cavalos cintila como um oceano 
verde, e a Savannah atravessa a cancela que conduz a ele. Um cavalo relincha em sinal de cumprimento, outro segue-lhe o exemplo, e a primeira coisa que me ocorre 
 que a Savannah parece demasiado pequena para se movimentar entre eles com tanta desenvoltura. Mas ela sempre se sentiu  vontade na companhia dos cavalos, e estes 
na sua companhia. Meia dzia mordiscam na erva junto ao poste da vedao, sobretudo cavalos Quarto de Milha, e o Midas, o seu rabe preto de cascos brancos, mantm-se 
 distncia. Uma vez fui montar com ela, por sorte sem me magoar, e, enquanto eu me agarrava  vida com todas as foras que tinha, lembro-me de pensar que ela tinha 
um ar to descontrado na sela que poderia estar a ver televiso. Agora a Savannah detm-se uns instantes a cumprimentar o Midas. Esfrega-lhe o nariz enquanto lhe 
sussurra qualquer coisa, d-lhe palmadinhas na garupa, e, quando se vira para se dirigir ao celeiro, o animal espeta as orelhas.
A Savannah desaparece, torna a aparecer, carregada com dois baldes de aveia, calculo eu. Pendura os baldes em dois postes da vedao, e uns quantos cavalos vo a 
trotar at l. Quando a dona recua para lhes dar espao, vejo-lhe o cabelo ondular  brisa antes de ela ir buscar uma sela e um freio. Enquanto o Midas come, ela 
aparelha-o para o passeio, e uns minutos mais tarde est a conduzi-lo do pasto para os trilhos da floresta, igualzinha ao que era seis anos atrs. Eu sei que no 
 verdade - via-a de perto no ano passado e reparei que as primeiras rugas se lhe comeavam a notar aos cantos dos olhos -, mas o prisma atravs do qual a vejo mantm-se 
para mim inaltervel. Para mm, ela ter sempre vinte e um anos, e eu terei sempre vinte e trs. Eu havia sido destacado para uma base da Alemanha; ainda me faltava 
ir para Fallujah ou para Bagdad, e receber a carta dela, que li na estao de comboios de Samawah nas primeiras semanas da campanha; e faltava-me ainda regressar 
a casa depois dos acontecimentos que mudaram o curso da minha vida.
Agora, aos vinte e nove anos, por vezes interrogo-me acerca das escolhas que fiz. O exrcito tornou-se a nica vida que conheo. No sei se deveria ficar contrariado 
ou satisfeito com isso; a maior parte do tempo, dou por mim a oscilar entre uma sensao e outra, dependendo do dia. Quando algum me pergunta, digo-lhes que sou 
soldado de infantaria, e estou a dizer a verdade. Continuo a viver numa base alem, devo ter uns mil dlares em poupanas, h anos que no tenho uma namorada. J 
 raro ir fazer surf, mesmo quando estou de licena, contudo, quando estou de folga, se estiver para a virado, passo o dia montado na minha Harley. A Harley foi 
a nica coisa de jeito que alguma vez ofereci a mim prprio, apesar de na Alemanha me ter custado uma fortuna. Convm-me, uma vez que me tornei um tanto ou quanto 
solitrio. A maior parte dos meus camaradas j deixou o servio militar, mas o mais certo  eu daqui a uns meses tornar a ser mandado para o Iraque. Pelo menos, 
 o rumor que corre pela base. Quando eu conheci a Savannah Lynn Curtis - para mim, ela ser sempre Savannah Lynn Curtis -, era incapaz de prever que a minha vida 
levaria a volta que levou nem de acreditar que faria a minha carreira nas foras armadas.
Mas conheci-a;  isso que torna a minha vida actual to estranha. Apaixonei-me por ela enquanto estvamos juntos, e depois apaixonei-me
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ainda mais profundamente durante os anos em que estivemos separados. A nossa histria tem trs partes: um princpio, um meio e um final. E apesar de ser assim que 
todas as histrias se desenrolam, ainda me custa a crer que a nossa no tenha continuado para sempre. Reflicto nestas coisas e, como sempre, o tempo que passmos 
juntos volta-me  memria. Dou por mim a recordar como tudo comeou, pois agora estas recordaes so tudo o que me resta.
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PRIMEIRA PARTE
CAPITULO UM
Wilmington, 2000
Chamo-me John Tyree. Nasci em 1977 e cresci em Wlmington, Carolina do Norte, uma cidade que se orgulha de possuir o maior porto do estado, bem como uma longa e 
emocionante histria, mas que agora mais se me afigura como uma cidade que nasceu por um acaso.  claro, o clima era ptimo, e as praias, perfeitas, mas no se achava 
preparada para a vaga de reformados da Nova Inglaterra que rumaram ao Sul em busca dum stio acessvel onde passarem os seus anos dourados. A cidade est situada 
numa ponta de terra relativamente estreita, limitada pelo rio Cape Fear dum lado e pelo oceano de outro. A auto-estrada 17 - que conduz a Myrtle Beach e a Charleston 
- divide a cidade ao meio e serve-lhe de artria principal. Quando eu era mido, conseguia ir com o meu pai de carro do bairro histrico junto ao rio Cape Fear at 
Wrightsville Beach em dez minutos, mas tm sido construdos tantos plos de atraco e centros comerciais que agora  capaz de levar uma hora, sobretudo ao fm-de-semana, 
quando a cidade  inundada de turistas. Wrightsville Beach, localizada numa ilha prxima da costa, fica na extremidade norte de Wilmington, e  de longe uma das 
praias mais frequentadas do estado. As casas ao longo das dunas atingem preos exorbitantes, e muitas delas esto alugadas durante todo o Vero. Os Outer Banks podem 
exercer um poder de atraco mais romntico, dado o isolamento, e os cavalos selvagens, e aquele voo que tornou os irmos Wright famosos, mas, deixem-me que vos 
diga, a maior parte das pessoas, quando vai passar as frias na praia, s se sente  vontade quando encontra um McDonald's ou um Burger King nas proximidades, para 
o caso de os pequeninos no gostarem
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da cozinha local, e quer ter muito por onde escolher quando se trata de diverses nocturnas.
Tal como todas as cidades, Wilmington  rica nuns stios e pobre noutros, e visto que o meu pai tinha um dos empregos mais estveis e de maior responsabilidade  
face da terra - fazia a distribuio da correspondncia local - vivamos razoavelmente. No bem, mas razoavelmente. No ramos ricos, mas morvamos suficientemente 
prximo da zona dos ricos para eu poder frequentar um dos melhores liceus da cidade. Contudo, ao contrrio das casas dos meus amigos, a minha era velha e pequena; 
parte do alpendre comeara a afundar, mas o jardim era o que a salvava. Tnhamos um grande carvalho nas traseiras, e, quando tinha oito anos, constru uma casa na 
rvore com restos de madeira que fui buscar a umas obras. O meu pai no me ajudou a construi-la (s por acidente, ele pregaria um prego); foi no mesmo Vero em que 
aprendi a fazer surf. Calculo que me devo ter apercebido ento de como era diferente do meu pai, mas isso s prova o pouco que sabemos a respeito da vida quando 
somos novos.
O meu pai e eu no podamos ser mais diferentes do que ramos. Enquanto ele era passivo e introspectivo, eu andava sempre dum lado para o outro e detestava estar 
sozinho; enquanto ele atribua um grande valor  educao, para mim, a escola era como um clube social com actividades desportivas. Ele tinha m postura e tendncia 
a arrastar os ps; eu andava sempre a saltar dum lado para o outro, sempre a pedir-lhe para cronometrar quanto tempo eu levava a correr at ao fundo do quarteiro 
e a voltar. Quando cheguei ao oitavo ano, j era mais alto que ele, e passado um ano era capaz de lhe ganhar no brao-de-ferro. Tambm do ponto de vista fsico, 
ramos completamente diferentes. Enquanto o meu pai tinha cabelo louro-claro, olhos cor de avel e sardas, o meu cabelo e os meus olhos eram castanhos, e em Maio 
j a minha pele cor de azeitona estava bem bronzeada. Alguns dos nossos vizinhos estranhavam que fssemos to diferentes, o que tinha a sua razo de ser, suponho 
eu, tendo em conta que o meu pai me criou sozinho. No poucas vezes durante a minha infncia e adolescncia os ouvi a comentar em surdina o facto de a minha me 
ter fugido de casa quando eu ainda nem tinha um ano de idade. Embora eu mais tarde viesse a desconfiar de que a minha me tinha conhecido outra pessoa, o meu pai 
nunca confirmou a minha suspeita. Tudo o que me disse foi que ela se tinha apercebido de que cometera um erro ao casar-se to nova e que no estava preparada para 
ser me. Ele no a desprezava nem a enaltecia, mas fazia sempre questo de que eu a inclusse nas minhas oraes, independentemente de onde
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ela estivesse ou do que tivesse feito. "Tu fazes-me lembrar dela", dizia o meu pai em certas ocasies. At hoje, eu nunca dirigi uma nica palavra  minha me, nem 
tenho intenes de o fazer.
Estou convencido de que o meu pai era feliz. Coloco as coisas assim, porque ele no era dado a grandes demonstraes afectivas. Beijos e abraos foram uma raridade 
durante a minha criao, e, quando aconteciam, costumavam parecer-me mortios, uma coisa que ele fazia porque achava que era sua obrigao, no porque sentia vontade. 
Sei que o meu pai me amava pela forma como se dedicava a cuidar de mim, mas j tinha quarenta e trs anos de idade quando eu nasci, e h algo em mim que me diz que 
ele teria mais vocao para monge que para pai. Era o homem mais sossegado que algum dia conheci. No me fazia muitas perguntas a respeito da minha vida, e, embora 
fosse raro zangar-se, tambm era raro dizer piadas. Vivia para a rotina. Fazia-me ovos mexidos, torradas e bacon todas as manhs sem excepo, e ficava a ouvir-me 
falar sobre a escola enquanto comamos o jantar que ele tambm cozinhava. Marcava as idas ao dentista com dois meses de antecedncia, pagava as contas ao sbado 
de manh, lavava a roupa ao domingo  tarde e saa de casa todas as manhs s 7h35m em ponto. Tinha dificuldade em sociabilizar e passava muitas horas por dia sozinho, 
deitando embrulhos e molhos de cartas nas caixas do correio ao longo do seu itinerrio. No tinha namorada nem passava os seres de sbado a jogar pquer com os 
amigos; o telefone era capaz de estar semanas sem tocar. E, quando tocava, ou era engano ou telemarketing. Reconheo as dificuldades que deve ter tido para me criar 
sozinho, mas nunca se queixou, nem mesmo quando eu o desiludi.
Eu passava todos os seres sozinho. Depois de todas as tarefas do dia estarem finalmente cumpridas, o meu pai refugiava-se no seu cantinho para estar de volta das 
suas moedas. Era aquela a sua nica grande paixo na vida. Nada o satisfazia mais que ficar sentado no seu refgio, a estudar um boletim informativo dum negociante 
de moedas denominado Greysheet e a tentar descobrir qual a prxima moeda que deveria acrescentar  sua coleco. Na verdade, foi o meu av a dar incio  coleco 
de moedas. O heri do meu av era um homem chamado Louis Eliasberg, um financeiro de Baltimore que  a nica pessoa a ter conseguido reunir uma coleco completa 
de todas as moedas dos Estados Unidos, incluindo todas as diversas datas e cunhagens. A sua coleco rivalizava, para no dizer mesmo ultrapassava, a coleco do 
museu Smithsonian, e, depois da morte da minha av, em 1951, o meu pai ficou absorvido pela ideia de fazer uma coleco com o filho. Todavia, ao contrrio de Louis 
Eliasberg, o meu av no era rico - possua uma
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loja que vendia um pouco de tudo em Burgaw e que foi  falncia quando os supermercados Piggly Wiggly abriram as portas do outro lado da cidade -, e nunca teve oportunidade 
de chegar aos calcanhares da coleco de Eliasberg. Ainda assim, cada dlar extra ia para as moedas. O meu av usou o mesmo casaco durante trinta anos, toda a vida 
guiou o mesmo carro, e tenho quase a certeza de que o meu pai foi trabalhar para os servios postais em lugar de ir para a faculdade porque no havia um cntimo 
de sobra para ele poder ir alm do ensino secundrio. O meu av era uma ave rara, disso no restam dvidas, tal como o meu pai. Tal pai, tal filho, l diz o provrbio. 
Quando o velhote l acabou por morrer, deixou bem explcito no testamento que a casa onde morava devia ser vendida e o dinheiro usado para comprar ainda mais moedas, 
o que meu pai provavelmente faria de qualquer das formas. Quando o meu pai herdou a coleco, j esta tinha um valor considervel. Quando a inflao subiu vertiginosamente 
e o ouro atingiu os 850 dlares a ona, valia uma pequena fortuna, mais que suficiente para o meu pai, um homem frugal, se reformar vrias vezes, e mais valeria 
decorrido um quarto de sculo. Mas nem o meu av nem o meu pai se dedicavam ao coleccionismo a pensar no dinheiro; dedicavam-se-lhe pelo entusiasmo de andar  caa 
e pelo lao que este permitia criar entre ambos. Havia algo de emocionante em passar imenso tempo afincadamente  procura duma moeda especfica, em finalmente a 
localizar e em seguida negociar com astcia para a conseguir adquirir por um bom preo. Por vezes as moedas eram acessveis, outras no, mas todas as peas que acrescentavam 
 coleco eram um tesouro. O meu pai esperava fazer despertar a mesma paixo em mim, incluindo o sacrifcio que requeria. Na minha infncia e adolescncia, eu tinha 
de pr mais cobertores na cama no Inverno e nunca me davam mais que um par de sapatos por ano; nunca havia dinheiro para me comprar roupas, a menos que viessem do 
Exrcito de Salvao. O meu pai nem uma mquina fotogrfica tinha. A nica fotografia que alguma vez nos tiraram foi numa exposio de moedas em Atlanta. Um negociante 
tirou-a enquanto estvamos junto da barraca dele e enviou-no-la. Passou anos empoleirada na secretria do meu pai. Na fotografia, o meu pai tinha o brao por cima 
dos meus ombros e ambos exibamos largos sorrisos. Na mo, eu segurava uma moeda flor de cunho de cinco cntimos com um bfalo gravado no verso, da srie D de 1926, 
uma moeda que o meu pai acabara de adquirir. Achava-se entre as mais raras de todas as moedas com um bfalo no reverso, e acabmos por passar um ms a cachorros-quentes 
e a feijes, visto que foi mais cara que o que prevamos.
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Todavia, no nos poupvamos aos sacrifcios - durante uns tempos, pelo menos. Quando o meu pai me comeou a falar em moedas - eu devia andar no primeiro ou no segundo 
ano, na poca falou comigo de igual para igual. Vermos um adulto, especialmente o nosso pai, a tratar-nos de igual para igual entusiasma qualquer criana pequena, 
e eu deleitei-me com a ateno que ele me dava, absorvendo todas as informaes. Naquele tempo, eu era capaz de dizer quantas moedas concebidas por Saint-Gaudens 
com duas guias haviam sido cunhadas em 1927 em comparao com as de 1924, e por que  que uma Barber de cinco cntimos de 1927 cunhada em Nova Orlees era dez vezes 
mais valiosa que a mesma moeda cunhada em Filadlfia. Para dizer a verdade, ainda sou. Contudo, ao contrrio do meu pai, eu acabei por me saturar de coleccionar 
moedas. O meu pai no parecia ter outro assunto de conversa, e aps seis ou sete anos de fins-de-semana passados na companhia dele em vez de na dos meus amigos, 
eu comecei a ficar com vontade de desistir. Tal como a maioria dos rapazes, fui desenvolvendo outros interesses: desportos, e namoradas, e carros, e msica, sobretudo 
e, por volta dos catorze anos, pouco tempo passava em casa. O meu ressentimento comeou a crescer na mesma medida. A pouco e pouco, comecei a reparar em diferenas 
na forma como vivamos quando comparada com grande parte dos meus amigos. Enquanto eles tinham dinheiro para ir ao cinema ou comprar um par de culos de sol com 
estilo, eu dava por mim a vasculhar o sof  procura de moedas de vinte e cinco cntimos para comprar um hambrguer no McDonald's. Vrios amigos meus receberam um 
carro quando fizeram dezasseis anos; o meu pai ofereceu-me um dlar de prata concebido por George T. Morgan de 1883 que havia sido cunhado em Carson City. Havia 
uma manta a tapar os rasges no nosso sof velho, e ns ramos a nica famlia que eu conhecia que no tinha televiso por cabo nem microondas. Quando o nosso frigorfico 
se avariou, o meu pai comprou um usado da tonalidade de verde mais medonha deste mundo, uma cor que no condizia com mais nada que havia na nossa cozinha. Eu ficava 
envergonhado s de pensar em convidar amigos l para casa, e atribua a culpa disso ao meu pai. Sei que no era justo para com ele - se a falta de dinheiro me incomodava 
tanto como isso, eu podia ter ido cortar relva ou arranjado uns biscates, por exemplo -, mas era assim que me sentia. Eu era cego como um caracol e burro como um 
camelo, mas ainda que vos possa dizer que me arrependo agora da minha imaturidade, no posso fazer nada para consertar o passado.
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O meu pai pressentiu que alguma coisa estava a mudar, mas no fazia a mais pequena ideia do que fazer a esse respeito. Todavia, tentou, da nica forma que sabia, 
da nica forma que o pai dele soubera. Falou de moedas - era o nico assunto acerca do qual era capaz de conversar com facilidade - e continuou a fazer-me o pequeno-almoo 
e o jantar; contudo, com o passar do tempo, o nosso distanciamento foi aumentando. Em simultneo, fui-me afastando dos amigos de longa data. Eles comeavam a dividir-se 
em grupos, baseados em primeiro lugar nos filmes a que iam assistir ou nas camisolas que mais recentemente tinham comprado no centro comercial, e eu dei por mim 
posto de lado, a ver. Que se lixassem, pensei. No liceu, h sempre lugar para toda a gente, e eu comecei a dar-me com ms companhias, umas companhias que se estavam 
nas tintas para tudo, e eu no tardei a estar-me nas tintas para tudo tambm. Comecei a faltar s aulas, a fumar e fui suspenso trs vezes por andar  pancada.
Deixei tambm de praticar desporto. Tinha jogado futebol americano e basquetebol, e praticado atletismo at ao meu segundo ano do liceu, e embora, ocasionalmente, 
quando eu chegava a casa, o meu pai me perguntasse como  que me andava a sair, mostrava-se pouco  vontade se eu entrava em pormenores, visto que era bvio que 
no percebia nada de desporto. Nunca em toda a sua vida participara numa equipa. Assistiu uma nica vez a um jogo de basquetebol durante o meu segundo ano do liceu. 
Ficou sentado nas bancadas, um tipo de ar esquisito, em vias de ficar calvo, envergando um blazer coado e meias desirmanadas. Embora no fosse obeso, as calas 
estavam-lhe apertadas na cintura, dando-lhe aspecto de estar grvido de trs meses, e eu sabia que no queria ter nada que ver com ele. Sentia-me envergonhado s 
de olhar para ele, e, depois do jogo, evitei-o. No me orgulho disso, mas era assim que eu era.
As coisas pioraram. Durante o ltimo ano de liceu, a minha rebeldia atingiu o auge. As minhas notas vinham a descer havia dois anos, mais por preguia e desmazelo 
que por falta de inteligncia (ou pelo menos assim me apraz pensar), e, em mais que uma ocasio, o meu pai me apanhou a entrar sorrateiramente em casa a altas horas 
e com o hlito a cheirar a lcool. A polcia foi acompanhar-me a casa depois de ter sido encontrado numa festa animada pelas drogas e pelo lcool, e quando o meu 
pai me ps de castigo, fui passar umas semanas a casa dum amigo depois de lhe gritar que no metesse o nariz na minha vida. No fez qualquer comentrio quando regressei; 
ao invs, todas as manhs, como de costume, encontrava ovos mexidos, torradas e bacon em cima da mesa. Por pouco no chumbei o ano, e suspeito
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de que a escola permitiu que eu conclusse o secundrio apenas para se poder ver livre de mim. Sei que o meu pai andava preocupado, e, esporadicamente, com a timidez 
que o caracterizava, aflorava o tema da faculdade, mas nessa altura j eu me decidira a no ir. Queria ter um emprego, queria ter um carro, queria ter os bens materiais 
sem os quais vivera ao longo de dezoito anos. S lhe falei nisso no Vero depois de concluir o secundrio, contudo, quando se apercebeu de que eu nem me tinha candidatado 
sequer a um curso universitrio de dois anos, trancou-se no seu refgio durante toda a noite e, na manh seguinte, enquanto comamos os nossos ovos mexidos com bacon, 
no me dirigiu a palavra. Nessa noite, tentou envolver-me em mais uma conversa a respeito de moedas, como se procurasse recuperar o companheirismo que existira entre 
ns e que, sem darmos por isso, se perdera.
- Lembras-te de quando fomos a Atlanta e tu descobriste aquela moeda de cinco cntimos com uma cabea de bfalo de que andvamos h anos  caa? - comeou ele. - 
Aquela vez em que nos tiraram uma fotografia? Nunca me hei-de esquecer do teu entusiasmo. Fez-me lembrar de mim e do meu pai.
Eu abanei a cabea, toda a frustrao da minha vida com o meu pai a vir  superfcie. - Estou farto at  ponta dos cabelos de ouvir falar de moedas! Devia era vender 
a maldita coleco e fazer outra coisa. Qualquer coisa.
O meu pai no disse nada, mas ainda hoje me recordo da sua expresso pesarosa quando por fim deu meia-volta e foi a arrastar os ps at ao seu refgio. Eu magoara-o, 
e embora me tentasse convencer de que no fora essa a minha inteno, l bem no fundo sabia que me estava a enganar a mim prprio. O meu pai nunca mais tornou a 
falar em moedas. Nem eu to-pouco. O assunto tornou-se um abismo imenso entre ns, e deixou-nos sem nada que dizer um ao outro. Passados uns dias, apercebi-me de 
que a nica fotografia em que aparecamos os dois tambm tinha desaparecido, como se ele julgasse que mesmo a mais leve aluso a moedas fosse suficiente para me 
ofender. Na altura, provavelmente seria, e embora eu tenha partido do princpio de que o meu pai a deitara fora, isso no me incomodou rigorosamente nada.
Durante a minha infncia e adolescncia, nunca considerei ingressar no exrcito; nunca me passou pela cabea. No obstante o facto de a zona leste da Carolina do 
Norte ser uma das reas mais densamente militarizadas do pas - h sete bases  distncia dumas horas de carro de Wilmington -, eu costumava pensar que a vida de 
soldado era
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para os falhados. Quem  que estava para passar a vida a receber ordens dum monte de lacaios de cabelo cortado  escovinha? Eu no, e para alm duns tipos do ROTC1, 
muita gente no meu liceu tambm no. Ao invs, a maior parte dos que eram bons alunos foram para a Universidade da Carolina do Norte ou para a Estatal da Carolina 
do Norte, ao passo que os que no tinham sido bons alunos ficaram para trs, vadiando de emprego miservel em emprego miservel, a beber cerveja e a no fazer nada, 
e a evitar o mais possvel tudo o que implicasse um pingo de responsabilidade.
Eu enquadrava-me nesta ltima categoria. Nos anos seguintes a ter concludo o liceu, passei por uma srie de empregos, desde ajudante de empregado de mesa no Outback 
Steakhouse, rasgar bilhetes no cinema da localidade, carregar e descarregar caixas no Staples, fazer panquecas na Waffle House at trabalhar como caixa numa das 
lojas para turistas que vendiam tralha a quem vinha visitar a cidade. Gastava tudo o que ganhava at ao ltimo cntimo, no tinha qualquer iluso a respeito de poder 
vir a subir a gerente, e acabava por ser despedido de todos os empregos. Durante uns tempos, no quis saber. Estava a viver a minha vida. Era ptimo a ficar a fazer 
surfat altas horas e a acordar tarde, e, visto que ainda morava com o meu pai, nada do que eu ganhava era necessrio para coisas como renda, comida, pagar seguros 
ou acautelar o futuro. Para alm do mais, nenhum dos meus amigos se estava a sair muito melhor que eu. No me lembro de me sentir particularmente infeliz, mas, passado 
um tempo, acabei por me fartar daquela vida. No a parte do surf- em 1996, os furaces Bertha e Fran assolaram a costa, e aquelas foram as melhores ondas em anos 
-, mas de parar no Leroys depois. Comecei a sentir que todas as noites eram iguais. Bebia cerveja e cruzava-me com algum que conhecia desde o liceu, e essa pessoa 
perguntava-me como  que me estava a correr a vida, e eu respondia-lhe, e ela contava-me o que  que andava a fazer, e no era preciso ser-se um gnio para perceber 
que nenhum de ns chegaria alguma vez a lado algum. Ainda que morassem numa casa s sua, o que no era o meu caso, eu nunca acreditava quando me contavam que gostavam 
do emprego que tinham
1. Reserve Officer Training Corps - programa dirigido pelo exrcito norte-americano nas escolas e universidade do pas e que se destina a angariar e treinar alunos 
para o desempenho futuro de funes de liderana nas foras armadas. No mbito do ROTC, estes alunos tm a sua formao acadmica paga, comprometendo-se em troca 
a prestar servio militar por um perodo que varia entre dois e quatro anos. (NT)
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a cavar fossas, ou a lavar janelas, ou a transportar casas de banho portteis, porque sabia perfeitamente que no fora com esse gnero de ocupaes que tinham passado 
a vida a sonhar. Posso ter sido preguioso nas aulas, mas estpido no era.
Durante esse tempo, namorei com dzias de mulheres. No Leroy's, havia sempre mulheres. A maior parte eram relaes para esquecer. Eu usava as mulheres, e permitia 
que elas me usassem a mim, e mantinha sempre os meus sentimentos resguardados. Apenas a minha relao com a Lucy durou mais que uns meses, e por um breve perodo 
antes de inevitavelmente nos afastarmos, pensei estar apaixonado por ela. A Lucy estudava na Universidade da Carolina do Norte, em Wilmington, era um ano mais velha 
que eu e queria trabalhar em Nova Iorque depois de concluir a licenciatura. "Eu gosto de ti", disse-me ela na ltima noite que passmos juntos, "mas tu e eu temos 
objectivos diferentes. Tu podias fazer muito mais da tua vida, mas, no sei porqu, contentas-te em deixar-te ir na corrente." Ela hesitou antes de prosseguir: "Mas, 
mais que isso, eu nunca sei dizer o que  que sentes por mim." Eu sabia que a Lucy tinha razo. Nunca lhe disse o quanto ela significava para mim. Passado pouco 
tempo, ela apanhou um avio sem sequer se preocupar em se despedir de mim. Um ano mais tarde, depois de pedir o nmero de telefone dela aos pais, liguei-lhe e tivemos 
uma conversa que durou vinte minutos. Estava noiva dum advogado, contou-me ela, e ia casar-se em Junho prximo.
O telefonema afectou-me mais que julguei possvel. Tinha acabado de ser despedido - mais uma vez - e fui consolar-me ao Leroys, como sempre. Encontrei l os falhados 
do costume, e subitamente apercebi-me de que no queria passar outra noite intil a fingir que a vida me corria bem. Ao invs, comprei uma embalagem de seis latas 
de cerveja e fui sentar-me na praia. Foi a primeira vez em muitos anos em que me pus a pensar a srio no que andava a fazer da minha vida, e perguntei-me se no 
deveria seguir o conselho do meu pai e tirar um curso universitrio. Mas eu j deixara de estudar h tanto tempo que a ideia me pareceu estranha e ridcula. Chamem-lhe 
sorte ou azar, mas nesse preciso momento passaram por mim dois fuzileiros navais a fazer jogging. Jovens e em forma, irradiavam uma autoconfiana descontrada. Se 
eles eram capazes, pensei para mim prprio, ento eu tambm seria.
Matutei no assunto durante alguns dias, e, no fim, o meu pai acabou por ter algum peso na minha deciso. No que eu conversasse com ele a esse propsito,  claro 
- nessa altura, j no nos falvamos de todo. Certa noite, estava eu a caminho da cozinha, e vi-o sentado  secretria, como de costume. S que, desta vez, observei-o 
atentamente. O cabelo quase desaparecera, e o pouco que lhe restava tornara-se completamente branco junto s orelhas. Estava a preparar-se para a reforma, e eu fui 
atingido pela ideia de que no tinha o direito de continuar a desiludi-lo depois de tudo o que ele fizera por mim.
Por isso, ingressei nas foras armadas. A minha inteno inicial era entrar para os fuzileiros navais, uma vez que era com eles que estava mais familiarizado. Wrightsville 
Beach estava sempre apinhada de marines de Camp Lejeune ou Cherry Point, mas quando chegou a altura, escolhi o exrcito. Calculei que em qualquer dos casos me dariam 
uma espingarda para as mos, mas o que decidiu o assunto foi o facto de o recrutador dos fuzileiros navais estar a almoar quando eu passei por l e no estar imediatamente 
disponvel, e o recrutador do exrcito - cujo gabinete ficava mesmo do outro lado da rua - estar. No fim, a deciso pareceu-me mais espontnea que planeada, mas 
assinei na linha pontilhada o contrato para um alistamento de quatro anos, e quando eu me preparava para me ir embora e o recrutador me deu uma palmada nas costas 
e os parabns, dei por mim a perguntar-me no que  que me fora meter. Isso foi no final de 1997, tinha eu vinte anos.
O campo de treino em Fort Benning foi to mau quanto eu estava  espera. Tudo parecia concebido para nos humilhar, nos esvaziar o crebro e seguirmos ordens sem 
questionar, por muito disparatadas que pudessem ser, mas eu adaptei-me melhor que a maioria dos outros recrutas. Quando cheguei ao fim, optei pela infantaria. Passmos 
os meses seguintes a fazer uma enorme quantidade de simulaes em stios como a Louisiana e o bom e velho Fort Bragg, onde basicamente nos ensinam as melhores maneiras 
de matar gente e estragar coisas, e, decorrido algum tempo, a minha unidade, integrada na Primeira Diviso de Infantaria - tambm conhecida por Big Red One -, foi 
enviada para a Alemanha. Eu no falava uma nica palavra de alemo, mas no tinha importncia, uma vez que a maior parte das pessoas com quem lidava falavam ingls. 
A princpio foi fcil, depois a vida militar acabou por se impor. Passei sete meses miserveis nos Balcs
- primeiro na Macednia, em 1999, depois no Kosovo, onde ficmos at ao fim da Primavera de 2000. No exrcito no se ganhava bem, mas, tendo em conta que no havia 
renda, despesas com a alimentao nem nada em que gastar o cheque do salrio, isto quando o recebia, pela primeira vez na vida tive dinheiro no banco. No muito, 
mas o suficiente.
Passei a minha primeira licena em casa do meu pai, no mais puro tdio. Passei a minha segunda licena em Las Vegas. Um dos meus
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camaradas fora l criado, e trs de ns instalmo-nos em casa dos pais dele. Estoirei quase tudo o que tinha poupado. Na minha terceira licena, depois de regressar 
do Kosovo, estava a precisar urgentemente de descanso e decidi voltar para casa, na esperana de que o tdio da visita fosse suficiente para me acalmar. Por causa 
da distncia, era raro eu falar com o meu pai ao telefone, mas ele escrevia-me cartas cujo carimbo apresentava sempre a data do primeiro dia do ms. No eram como 
as que os meus camaradas recebiam das mes, das irms ou das mulheres. Nada de muito pessoal, nada de lamechices, e nem uma palavra a sugerir que sentia a minha 
falta. Nem to-pouco tornou a referir-se s moedas. Em lugar disso, escrevia sobre as mudanas na vizinhana e alongava-se desmesuradamente a falar do tempo; quando 
eu lhe escrevi a contar-lhe a propsito duma troca de tiros violenta em que estivera envolvido nos Balcs, o meu pai respondeu-me a dizer que estava contente por 
eu ter sobrevivido, mas nada mais. Percebi, pela forma como comps a resposta, que preferia no tomar conhecimento das situaes perigosas em que eu me metia. O 
facto de eu correr perigo amedrontava-o, por isso comecei a omitir os acontecimentos assustadores. Ao invs, escrevia-lhe cartas a dizer-lhe como estar de sentinela 
era sem sombra de dvida a tarefa mais enfadonha que j tinha sido inventada, e que a nica coisa emocionante que me acontecera em vrias semanas fora tentar adivinhar 
quantos cigarros  que o outro tipo fumava numa nica noite. O meu pai conclua todas as cartas com a promessa de que no tardaria a escrever-me e, mais uma vez, 
no me desapontou. Ele era, h muito tempo que me convenci disso, um homem muito melhor que eu algum dia serei.
Porm, eu tinha amadurecido nos ltimos trs anos. Pois, j sei, sou um clich ambulante - entra para a tropa um rapaz, sai de l feito um homem e tudo o mais. Mas 
no exrcito toda a gente  obrigada a crescer, sobretudo se estiver na infantaria como eu. Entregam-nos para as mos equipamento que custa uma fortuna, as outras 
pessoas depositam a sua confiana em ns, e, se fazemos asneira, o castigo  bem mais grave que ser mandado para a cama sem jantar. Claro, h demasiada papelada 
e momentos de tdio, e toda a gente fuma, e no  capaz de construir uma frase sem lhe meter um palavro pelo meio, e tem caixotes cheios de revistas pornogrficas 
debaixo da cama, e temos de prestar contas a tipos do ROTC acabados de sair da faculdade que pensam que soldados como eu tm um QI de Neandertal, mas somos obrigados 
a aprender a lio mais importante da vida, ou seja, que temos de estar  altura das nossas responsabilidades, e mais vale fazer as coisas como deve ser. Quando 
nos do uma ordem, s nos resta
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cumpri-la. No  exagero nenhum dizer que h vidas em jogo. Uma deciso errada, e o teu camarada pode morrer.  este facto que permite ao exrcito funcionar. E o 
grande erro que a maior parte das pessoas comete quando se pergunta como  que os soldados so capazes de colocar as suas vidas em jogo numa base diria ou como 
 que conseguem lutar por algo em que no acreditam. Porque, a realidade  que nem toda a gente acredita. J trabalhei com soldados vindos de todos os quadrantes 
polticos, conheci alguns que detestavam a vida militar e outros que queriam fazer dela a sua carreira. Conheci gnios e idiotas, mas, depois de tudo dito e feito, 
ns fazemos o que fazemos uns pelos outros. Por amizade. No pelo pas, no por patriotismo, no porque somos programados como mquinas assassinas, mas por causa 
do camarada ao nosso lado. Lutamos pelos nossos amigos, para os manter vivos, e eles lutam por ns, e tudo no exrcito se fundamenta nesta simples premissa.
Mas, tal como j disse, eu tinha mudado. Quando ingressei no exrcito, era fumador e por pouco no expeli um pulmo ao tossir no campo de treino de recrutas, mas, 
ao contrrio de quase toda a gente da minha unidade, deixei o tabaco e havia mais de dois anos que no tocava num cigarro. Moderei o consumo de lcool ao ponto de 
uma ou duas cervejas por semana me chegar, e podia passar-se um ms sem beber nenhuma. A minha folha de servios era exemplar. Fora promovido de soldado raso a cabo 
e depois, seis meses decorridos, a sargento, e descobri que tinha capacidade de comando. J liderara homens em trocas de tiros, e o meu peloto tomou parte na captura 
dum dos mais procurados criminosos de guerra dos Balcs. O meu oficial de comando recomendou-me para a Escola de Candidatos a Oficiais (OCS), e eu andava hesitante 
entre tornar-me oficial ou no, mas muitas vezes isso significava mais papelada, e eu no tinha a certeza de ser isso que pretendia. Para alm do surf, quando ingressei 
no servio militar, havia anos que no fazia exerccio fsico; quando tirei a minha terceira licena, tinha adquirido quinze quilos de msculo e perdido o pneu da 
barriga. Passava grande parte do tempo a correr, a jogar boxe e a levantar pesos com o Tony, uma montanha de msculos de Nova Iorque que falava sempre aos gritos, 
jurava a ps juntos que a tequila tinha efeito afrodisaco e era de longe o meu melhor amigo na unidade. O Tony convenceu-me a fazer tatuagens em ambos os braos, 
tal como ele prprio, e, a cada dia que passava, a recordao daquele que eu em tempos fora ia-se tornando a cada dia mais distante.
Eu tambm lia bastante. No exrcito, temos imenso tempo para ler, e os soldados vo trocando livros entre si ou vo levant-los  biblioteca
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at as capas ficarem completamente gastas. No quero dar a impresso de que me tornei uma pessoa culta, porque no tornei. No me interessava por Chaucer, Proust 
ou Dostoivski, nem nenhum desses tipos que j morreram; eu lia sobretudo livros de mistrio e policiais, bem como as obras de Stephen King, e desenvolvi uma predileco 
especial por Carl Hiaasen, porque a sua escrita flui com facilidade e faz-me sempre rir. No podia deixar de pensar que, se as escolas inclussem estes livros nas 
aulas de Ingls, haveria muito mais leitores neste mundo.
Ao contrrio dos meus camaradas, eu retraa-me perante qualquer perspectiva de companhia feminina. Parece estranho, no ? Na primavera da vida, trabalho carregado 
de testosterona, haveria alguma coisa mais natural que procurar libert-la com a ajuda duma mulher? Isso no era para mim. Embora alguns dos tipos que eu conhecia 
tivessem namorado e mesmo chegado a casar com mulheres oriundas de Wurzburg, a localidade onde se situava a nossa base, j ouvira histrias que chegassem para saber 
que esses casamentos raramente resultavam. A vida militar dificultava as relaes em geral - j vira divrcios suficientes para saber que a verdade era essa - e, 
embora eu no me tivesse importado de desfrutar da companhia duma pessoa especial, simplesmente nunca aconteceu. O Tony no conseguia perceber isto.
- Tens de vir comigo - insistia ele. - Nunca vens.
- No estou para a virado.
- Como  que podes no estar para a virado? A Sabine jura que a amiga dela  um espectculo. Alta e loura, e adora tequila.
- Leva o Don. Tenho a certeza de que ele vai gostar.
- O Castelow? Nem pensar. A Sabine no o suporta. Eu fiquei calado.
-  s para passarmos um bom bocado.
Abanei a cabea, a pensar que preferia ficar sozinho a voltar a ser o tipo de pessoa que fora, mas dei por mim a perguntar-me se no acabaria por levar uma vida 
de monge como o meu pai.
Ciente de que no me conseguia fazer mudar de ideias, o Tony no se conteve em demonstrar o seu descontentamento ao sair: - s vezes no te compreendo.
No dia em que o meu pai me foi buscar ao aeroporto, no me reconheceu logo e teve um sobressalto quando eu lhe bati ao de leve no ombro. Pareceu-me mais baixo que 
o que me lembrava. Em lugar de me dar um abrao, estendeu-me a mo e perguntou-me se a viagem correra bem, mas nenhum de ns sabia o que dizer a seguir, por isso
fomo-nos embora. Estar de volta a casa provocava-me uma sensao estranha e desorientadora, e eu sentia-me nos limites, tal como da ltima vez em que estivera de 
licena. No parque de estacionamento, quando estava a atirar os meus pertences para dentro do porta-bagagem, deparei-me com um autocolante na traseira do seu velho 
Ford Escort que anunciava a quem passava: APOIEM AS NOSSAS TROPAS. No sabia ao certo o que aquilo significava para o meu pai, mas no foi por isso que deixei de 
ficar satisfeito.
Em casa, arrumei os meus pertences no meu antigo quarto. Ao que me lembrava, tudo continuava no seu lugar, at mesmo os trofeus cobertos de p na prateleira e uma 
garrafa meio vazia de Wild Turkey escondida no fundo da minha gaveta da roupa interior. O mesmo se passava no resto da casa. O sof continuava tapado com uma manta, 
o frigorfico verde parecia gritar-nos que no pertencia quela cozinha e o televisor s apanhava quatro canais e, ainda assim, mal. O meu pai preparou esparguete; 
s sextas-feiras, comamos sempre esparguete. Ao jantar, tentmos entabular conversa.
-  bom estar de volta - disse-lhe eu.
O seu sorriso no se demorou. - Ainda bem - respondeu. Ele bebeu um gole de leite. Bebia sempre leite ao jantar. Concentrou-se na refeio.
- Lembra-se do Tony? - aventurei-me. - Acho que lhe falei dele numa das minhas cartas. Mas, seja como for... oua s isto... ele acha que est apaixonado. A rapariga 
chama-se Sabine e tem uma filha de seis anos. Eu j o avisei de que  capaz de no ser boa ideia, mas ele no me d ouvidos.
O meu pai polvilhou cuidadosamente queijo parmeso por cima da massa, certificando-se de que no deixava nenhum espao por cobrir. - Oh - disse ele. - Est bem.
Depois disto, eu comecei a comer e nenhum de ns tornou a dizer palavra. Bebi um gole de leite. Dei mais algumas garfadas. O relgio na parede ia fazendo tiquetaque.
- Aposto que est ansioso por se reformar este ano - comentei eu. - Pense s, vai poder finalmente tirar umas frias, conhecer o mundo. - Estive quase para lhe dizer 
que me podia ir visitar  Alemanha, mas contive-me. Sabia que ele no iria e no pretendia embara-lo. Fomos enrolando o nosso esparguete em simultneo enquanto 
ele reflectia na melhor resposta.
- No sei - disse finalmente.
Desisti de tentar conversar com ele, e da em diante no se ouviu mais nada para alm dos nossos garfos a tocarem nos pratos. Quando acabmos de jantar, seguiu cada 
um o seu caminho. Exausto da viagem de avio, fui logo para a cama, acordando de hora a hora, tal como fazia na base. Quando me levantei, na manh seguinte, o meu 
pai j sara para o trabalho. Tomei o pequeno-almoo e li o jornal, tentei entrar em contacto com alguns amigos em vo, depois agarrei na minha prancha de surfe 
fui para a praia. As ondas no estavam grande coisa, mas no fazia diferena. Havia trs anos que no me punha em cima duma prancha e a princpio senti-me ferrugento, 
mas mesmo as pequenas ondas me fizeram desejar que a minha base fosse perto do oceano.
Estvamos no princpio de Junho de 2000, j fazia calor e a gua provocava-me uma sensao refrescante. Da posio privilegiada de que desfrutava em cima da prancha, 
podia ver umas pessoas a levarem os seus pertences para uma das casas mesmo por detrs das dunas. Tal como j referi, a praia de Wrightsville era muito frequentada 
por famlias que l alugavam casas por uma semana ou mais, porm, ocasionalmente alunos universitrios de Chapel Hill ou Raleigh faziam o mesmo. Era sobre estes 
ltimos que recaa o meu interesse, e reparei num grupo de estudantes em biquini que se estava a instalar na varanda das traseiras duma das casas junto ao ponto. 
Fiquei um bocado a observ-las, a apreciar a vista, depois apanhei outra onda e passei o resto da tarde perdido no meu pequeno mundo.
Pensei em fazer uma visita ao Leroys, mas imaginava que nada nem ningum tivesse mudado excepto eu prprio. Ao invs, fui buscar uma garrafa de cerveja  loja da 
esquina e sentei-me no ponto a desfrutar do pr do Sol. A maior parte dos pescadores j se tinha comeado a ir embora, e os poucos que restavam achavam-se a limpar 
a safra e a atirar para a gua o peixe rejeitado. A cor do oceano foi passando gradualmente de cinzento-ferroso a cor de laranja, depois a amarelo. Nas ondas que 
rebentavam para l do ponto, eu via pelicanos montados no dorso dos golfinhos que deslizavam sobre a gua. Eu sabia que aquele fim de tarde traria a primeira noite 
de lua cheia. o tempo que passara no campo tornara-me essa percepo quase instintiva. No estava a pensar em nada de concreto, limitava-me a deixar a minha mente 
vaguear. Acreditem no que vos digo, conhecer uma rapariga era a ltima coisa que me passava pela cabea.
Foi nesse momento que a vi a percorrer o ponto. Ou melhor, duas raparigas a percorrerem o ponto. Uma era alta e loura, a outra morena e atraente, ambas ligeiramente 
mais novas que eu. Estudantes universitrias, com toda a certeza. Ambas vestiam cales e camisolas a apertar atrs no pescoo, e a morena trazia um daqueles grandes 
sacos
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de croch que as pessoas geralmente levam para a praia quando planeiam l passar umas horas com os filhos. Eu ouvia-as a conversarem e a rirem-se  medida que se 
aproximavam, com ar de quem no tem preocupaes no mundo e est pronto para gozar as frias.
- Eh - chamei-as quando estavam prximas. Nada que pecasse por excesso de delicadeza, e no posso dizer que estivesse  espera de obter resposta.
A loura deu-me razo. Deitou uma olhadela  minha prancha de surf e  cerveja que eu tinha na mo e ignorou-me com um revirar de olhos. A morena, no entanto, surpreendeu-me.
- Ol, desconhecido - respondeu-me com um sorriso. Aproximou-se da minha prancha. - Aposto que apanhaste grandes ondas hoje.
O comentrio dela apanhou-me desprevenido, e pressenti uma amabilidade inesperada nas suas palavras. Ela e a amiga prosseguiram at ao fundo do ponto, e eu dei 
por mim a olhar para a rapariga debruada sobre o parapeito. Hesitei se haveria de ir ter com ambas e apresentar-me, mas acabei por decidir em contrrio. No eram 
o meu gnero ou, mais precisamente, o mais provvel era eu no ser o gnero delas. Dei um grande gole na minha cerveja, esforando-me por ignor-las.
Porm, por muito que me esforasse, no conseguia evitar que os meus olhos se desviassem para a morena. Tentei evitar ouvir a conversa entre as duas raparigas, mas 
a loura tinha uma daquelas vozes impossveis de ignorar. No parava de falar a respeito dum rapaz chamado Brad, e do quanto estava apaixonada por ele, e de que a 
repblica universitria dela era a melhor da UCN, e de que a festa que tinham realizado no fim do ano tinha sido a melhor de sempre, e de que a outra deveria ir 
tambm no prximo ano, e que a maior parte das amigas delas andavam a sair com o pior que havia entre os rapazes das repblicas, e que uma at tinha ficado grvida, 
mas que a culpa era toda dela uma vez que o fulano j a tinha avisado. A morena quase no abriu a boca - no percebi se a conversa a estava a divertir ou a aborrecer 
-, contudo, de quando em vez, ria-se. Mais uma vez, a sua voz deixava transparecer um tom amigvel e compreensivo, algo semelhante a um regresso a casa, o que, vejo-me 
forado a admitir, no fazia qualquer sentido. Quando pousei a minha garrafa de cerveja, reparei que ela tinha colocado o saco em cima do parapeito.
Elas estavam ali havia cerca de dez minutos quando os rapazes entraram no ponto - rapazes da repblica universitria, calculei eu - com camisolas cor-de-rosa e 
cor de laranja Lacoste por cima
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dos cales tipo bermudas. A primeira ideia que me ocorreu foi que um daqueles dois deveria ser o Brad acerca de quem a loura estivera a falar. Ambos traziam cervejas, 
e assumiam um ar cada vez mais furtivo  medida que se aproximavam das raparigas, como se quisessem pregar-lhes um susto. O mais provvel  que as raparigas se mostrassem 
contentes de os ver, e, depois dum leve sobressalto de surpresa, acompanhado dum guincho e dalgumas palmadas amigveis nos braos, voltassem todos para trs, entre 
risinhos e gargalhadas, ou a fazer o que quer que os casais de estudantes universitrios fazem.
As coisas podem de facto ter-se passado assim, pois os rapazes comportaram-se tal e qual como eu esperava. Mal chegaram perto delas, assustaram-nas com um grito; 
ambas as raparigas guincharam e deram-lhes as tais palmadas amigveis. Os rapazes assobiaram, o da camisola cor-de-rosa entornou um bocado de cerveja. Debruou-se 
sobre o parapeito, junto ao saco, uma perna por cima da outra, os braos atrs das costas.
- Eh, no tarda, vamos acender a fogueira - anunciou o da camisola cor de laranja, pondo os braos em volta da loura. Beijou-lhe o pescoo. - Vocs esto prontas 
para voltar?
- Ests pronta? - perguntou a loura olhando para a amiga.
- Claro - respondeu a morena.
O da camisola cor-de-rosa afastou-se do parapeito, mas, sem querer, a mo dele deve ter tocado no saco, porque este escorregou e tombou da beira. Caiu com um barulho 
que parecia um peixe a saltar na gua.
- O que foi isto? - indagou ele, dando meia-volta.
- O meu saco! - exclamou a morena com a voz entrecortada.
- Tu atiraste-o  gua.
- Desculpa l - disse ele, com ar de quem no estava preocupado por a alm.
- A minha carteira estava l dentro!
Ele franziu o sobrolho. - J pedi desculpa.
- Tens de o ir buscar antes que v ao fundo!
Os irmos da repblica ficaram petrificados, e eu percebi que nenhum deles fazia tenes de saltar  gua para ir buscar o saco. Para comear, o mais provvel era 
nunca mais o encontrarem e em seguida teriam de ir a nadar at  margem, algo pouco recomendvel depois de se ter bebido, o que era obviamente o caso de ambos. Creio 
que a Morena tambm percebeu isto pela expresso dele, porque a vi colocar ambas as mos na trave superior do parapeito e um p na inferior.
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- No sejas parva. J l vai - declarou o da camisola cor-de-rosa, pondo as mos em cima das dela para a deter. -  um perigo saltar daqui. Pode haver tubares l 
em baixo. Eu compro-te um novo.
- Eu preciso daquela carteira! Todo o dinheiro que tenho est l dentro!
No era nada da minha conta, bem sabia. Mas tudo o que me passou pela cabea quando me levantei e me precipitei para a beira do ponto foi: "Oh, quero l saber...

CAPITULO DOIS
Creio que ser melhor explicar por que motivo me atirei  gua para ir buscar o saco. No era que estivesse  espera de que ela visse em mim um heri, nem porque 
quisesse impression-la, nem to-pouco porque estivesse minimamente preocupado com a quantidade de dinheiro que ela pudesse ter perdido. Teve antes que ver com a 
autenticidade do seu sorriso e com o entusiasmo das suas gargalhadas. Ainda no tinha saltado para a gua e j via o ridculo da minha reaco, mas nessa altura 
j era tarde de mais. Atirei-me s ondas, mergulhei fundo e vim  superfcie. Estavam quatro caras a olhar-me fixamente desde o parapeito. O da camisola cor-de-rosa 
mostrava-se claramente aborrecido.
- Onde  que ele est? - gritei-lhes.
- Mesmo alm! - gritou a morena. - Acho que ainda o estou a ver. Est a comear a ir ao fundo...
Levei uns instantes a localiz-lo  luz do crepsculo, e a corrente martima estava a fazer o melhor que podia para me empurrar para o ponto. Nadei lateralmente, 
em seguida segurei o saco acima da gua o melhor que podia, embora este j estivesse a ficar encharcado. As ondas tornaram o regresso  margem mais fcil que eu 
temia, e de quando em vez eu olhava para cima e via as quatro pessoas a seguirem os meus movimentos.
Por fim, senti que tinha p e arrastei-me para fora da zona de rebentao. Sacudi a gua do cabelo, pisei a areia e fui ao encontro deles a meio caminho da praia. 
Levava o saco na mo.
- Aqui tens.
?- Obrigada - disse a morena e, quando os nossos olhares se cruzaram, senti um clique, como uma chave a rodar na fechadura. Acreditem no que vos digo, eu estou longe 
de ser romntico e, apesar de
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j ter ouvido tudo o que havia para ouvir a respeito do amor  primeira vista, nunca acreditei nisso, e continuo a no acreditar. Mas, ainda assim, havia ali alguma 
coisa, alguma coisa indesmentivelmente verdadeira, e no fui capaz de desviar o olhar.
Vista de perto, a rapariga era ainda mais bonita do que a princpio me parecera, mas isso prendia-se menos com a sua aparncia que com a maneira de ser. No se tratava 
apenas do seu sorriso com uma ligeira falha, era a forma instintiva como afastava uma madeixa solta de cabelo, a atitude descontrada com que se movimentava.
- No era preciso teres feito isso - disse ela com um certo tom de admirao na voz. - Eu ia busc-lo.
- Eu sei. - Assenti com a cabea. - Eu vi-te a preparares-te para saltar.
A rapariga inclinou a cabea para um dos lados. - Mas sentiste uma necessidade incontrolvel de socorrer uma donzela em apuros?
- Mais ou menos.
Ela ficou uns instantes a ponderar na minha resposta, em seguida virou a sua ateno para o saco. Comeou a tirar coisas de l de dentro: a carteira, os culos de 
sol, uma viseira, uma bisnaga de protector solar; e entregou-as todas  loura antes de comear a torcer o saco.
- As tuas fotografias ficaram molhadas - observou a loura, abrindo a carteira.
A morena ignorou-a, continuando a espremer o saco dum lado e depois do outro. Quando finalmente se deu por satisfeita, tornou a pegar nos objectos e a guard-los 
dentro do saco.
- Mais uma vez obrigada - disse ela. Tinha um sotaque diferente do da Carolina do Norte, mais nasalado, como se tivesse sido criada nas montanhas prximo de Boone 
ou perto da fronteira ocidental da Carolina do Sul.
- No foi nada de especial - resmunguei eu, mas no me mexi.
- Eh, se calhar ele est  espera duma recompensa - interveio o da camisola cor-de-rosa, em voz alta.
Ela relanceou-o, em seguida tornou a olhar para mim. - Queres uma recompensa?
- No. - Acenei com uma mo. - Fico contente por ter sido til.
- Eu sempre soube que ainda havia cavalheiros - proclamou ela. Tentei detectar algum laivo de sarcasmo, mas nada no seu tom de voz me indicava que estivesse a troar 
de mim.
O da camisola cor de laranja olhou-me de alto a baixo, reparando que usava o cabelo  escovinha. - Andas nos fuzileiros navais? perguntou-me ele. Tornou a pr os 
braos em volta da loura.
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Abanei a cabea. - No sou um dos poucos nem dos orgulhosos. Eu queria ser tudo o que estivesse ao meu alcance, por isso alistei-me no exrcito.
A morena riu-se. Ao contrrio do meu pai, ela havia de facto visto os anncios na televiso.
Eu sou a Savannah - apresentou-se. - Savannah Lynn Curtis.
E estes so o Brad, o Randy e a Susan. - Estendeu-me a mo.
Eu chamo-me John Tyree - respondi eu, apertando-lhe a
mo. Era uma mo quente, suave como veludo em alguns stios, mas calejada noutros. Tomei subitamente conscincia de h quanto tempo no tocava numa mulher.
- bom, eu sinto que devia fazer alguma coisa por ti.
- No precisas de fazer nada.
- J comeste? - perguntou-me ela, ignorando o meu comentrio. - Ns estamos a preparar-nos para fazer uma refeio ao ar livre, e h comida de sobra para todos. 
Gostavas de vir connosco?
Os rapazes trocaram olhares. O Randy da camisola cor-de-rosa fez um ar completamente desanimado, e tenho de admitir que isso me deixou satisfeito. "Eh, se calhar 
ele est  espera duma recompensa." Que descaramento.
- Isso, anda l - disse finalmente o Brad, num tom muito pouco satisfeito. - Vai ser divertido. Ns alugmos a casa ao p do ponto.
- Ele apontou para uma das casas na praia, onde meia dzia de pessoas estavam estendidas na varanda que dava para as traseiras.
Apesar de eu no ter vontade nenhuma de perder mais tempo com estudantes de repblicas, a Savannah dirigiu-me um sorriso to caloroso que as palavras me saram antes 
que eu as conseguisse impedir.
- Deve ser divertido. Deixem-me s ir buscar a prancha ao ponto e j vou ter com vocs.
- Encontramo-nos l - interps-se o Randy. Deu um passo na direco da Savannah, mas ela ignorou-o.
- Eu vou contigo - decidiu a Savannah, afastando-se do grupo.  o mnimo que posso fazer. - Ajeitou o saco ao ombro. - J
vamos ter convosco, est bem?
Encaminhmo-nos para a duna, onde as escadas nos dariam acesso ao ponto. Os amigos dela hesitaram por uns momentos, mas quando viram que ela vinha atrs de mim, 
deram meia-volta devagar e tomaram o caminho da praia. Pelo canto do olho, vi a loura a virar a cabea e a espreitar-nos por baixo do brao do Brad. O Randy fez 
o mesmo, com ar amuado. S percebi que a Savannah tinha reparado neles quando j tnhamos percorrido uma boa distncia.
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- A Susan deve achar que sou maluca - observou ela.
- Maluca porqu?
- Por vir contigo. Ela est convencida de que o Randy  perfeito para mim, e anda a tentar juntar-nos desde que aqui chegmos esta tarde. Ele no me tem largado 
um minuto que seja. .
Eu assenti com a cabea sem saber ao certo o que dizer. Ao longe, a Lua, cheia e cintilante, comeara a sua lenta ascenso a partir do oceano, e eu reparei na Savannah 
a contempl-la. As ondas que rebentavam e se espraiavam na margem emitiam um reflexo prateado, como se tivessem sido apanhadas pelo flash duma mquina fotogrfica. 
Chegmos ao ponto. O parapeito estava spero da areia e do sal, e a madeira exposta aos elementos comeava a ganhar lascas. Os degraus rangeram sob o nosso peso.
- Em que base  que ests colocado? - interrogou-me ela.
- Na Alemanha. Vim umas semanas a casa de licena para visitar o meu pai. E tu s das montanhas, no s?
Ela lanou-me um olhar surpreso. - De Lenoir. - Examinou-me atentamente. - Deixa-me adivinhar,  a minha pronncia, no ? Tu achas que eu falo como se viesse da 
provncia,  isso?
- Nem pensar.
- bom, mas venho. Da provncia, quero eu dizer. Cresci numa cabana de toros de madeira, e tudo o mais.  verdade, eu sei que tenho sotaque, mas j houve quem me 
dissesse que o achava encantador.
- O Randy parece ser dessa opinio.
Saiu-me antes que eu fosse a tempo de me conter. No silncio embaraoso que se seguiu, a Savannah passou uma mo pelo cabelo.
- O Randy parece-me ser um rapaz simptico - comentou ela passado um bocado -, mas eu no o conheo bem. Eu no conheo as pessoas que esto a morar na casa l muito 
bem,  excepo do Tim e da Susan. - Ela afugentou um mosquito com a mo. - Ele  impecvel. Vais gostar dele. No h quem no goste.
- E vieram todos passar uma semana de frias aqui?
- Um ms, para dizer a verdade... Mas, no, no estamos mesmo de frias. Estamos a fazer trabalho voluntrio. J ouviste falar da Habitat for Humanity, no j? Estamos 
aqui para ajudar a construir algumas casas. A minha famlia est h anos envolvida nesta organizao.
Por cima do ombro dela, a casa parecia estar a ganhar vida na escurido. Surgiram mais pessoas, o volume da msica aumentou, e de vez em quando ouviam-se gargalhadas. 
O Brad, a Susan e o Randy j se achavam rodeados por um grupo de amigos a beber cerveja e que tinham mais ar de midos da faculdade  procura duns momentos bem passados 
na companhia dum membro do sexo oposto que de voluntrios duma organizao de solidariedade. A Savannah deve ter reparado na minha expresso e seguiu o meu olhar.
S vamos comear na segunda-feira. No tarda, eles vo perceber que nem tudo  divertimento.
Eu no disse nada...
Nem era preciso dizeres. Mas tens razo. Para a maior parte
deles,  a primeira vez que colaboram com a Habitat, e s se dispuseram a fazer este trabalho para terem uma coisa diferente a acrescentar ao currculo quando conclurem 
a licenciatura. Nem lhes passa pela cabea a quantidade de empenho que isto exige. Mas, no final, o mais importante  as casas ficarem construdas, e vo ficar. 
Ficam sempre.
- J fizeste isto antes?
- Todos os veres desde os meus dezasseis anos. Costumava fazer isto pela nossa igreja, mas quando me mudei para Chapel Hill, fundmos aqui um grupo. bom, para dizer 
a verdade, quem o fundou foi o Tim. Ele tambm  de Lenoir. Acabou agora a licenciatura e vai entrar para o mestrado no prximo Outono. J nos conhecemos h uma 
eternidade. Em lugar de passarmos o Vero em empregos temporrios ou a fazer estgios, pensmos que podamos oferecer aos estudantes a possibilidade de marcar a 
diferena. As contas da casa so divididas entre todos durante um ms, cada um paga as suas despesas pessoais e no cobramos nada pela mo-de-obra. Por isso era 
to importante para mim reaver o meu saco. Sem ele, ficaria o ms inteiro sem dinheiro para comer.
- Tenho a certeza de que eles no te deixariam morrer  fome.
- Eu sei, mas no seria justo. Eles j esto a fazer uma coisa meritria, e isso  mais que suficiente.
Eu sentia os meus ps a enterrarem-se na areia.
- E porqu em Wilmington? - indaguei. - Quer dizer, porqu vir construir casas aqui, em vez dum stio como Lenoir ou Raleigh?
- Por causa da praia. Tu sabes como so as pessoas.  bastante difcil conseguir que os estudantes estejam dispostos a trabalhar como voluntrios durante um ms, 
mas, se for num stio como este, torna-se mais fcil. E quanto mais pessoas tivermos, mais podemos ajudar. Este ano tivemos trinta inscries.
Eu assenti com a cabea, consciente da proximidade com que caminhvamos. - E tu, tambm j acabaste o curso?
- No, passei para o ltimo ano. E a minha cadeira principal  educao especial, se estiveres interessado em saber.
- Estou. .
- J calculava. Quando andamos na faculdade,  o que toda a gente nos pergunta.
- Toda a gente me pergunta se gosto de estar no exrcito.
- E gostas?
- No sei.
Ela riu-se, uma gargalhada to meldica que eu percebi que desejava ouvi-la novamente.
Chegmos  extremidade do ponto, e eu peguei na minha prancha. Atirei a garrafa de cerveja vazia para o lixo, ouvindo-a bater no fundo. As estrelas estavam a comear 
a despontar no cu, e as luzes das casas que contornavam as dunas fizeram-me lembrar abboras iluminadas.
- No te importas se te perguntar o que  que te levou a entrares para a tropa? Uma vez que no sabes se gostas ou no, quero eu dizer.
Demorei um momento a arranjar uma resposta para aquela pergunta, e mudei a prancha para o outro brao. - Acho que o mais seguro  dizer que naquela altura era do 
que eu precisava.
A Savannah ficou  espera de que eu adiantasse mais alguma coisa, porm, quando viu que eu no o fazia, limitou-se a assentir com a cabea.
- Aposto que ests contente por poderes voltar a casa durante algum tempo - observou ela.
- Sem dvida. "?
- E o teu pai tambm deve estar contente, no ?
- Acho que sim.
- Est com certeza. Estou certa de que deve estar muito orgulhoso de ti.
Agarrei-me com mais fora  prancha, enquanto reflectia. - Espero que sim.
- No me pareces muito seguro a respeito disso.
- Terias de conhecer o meu pai para poderes compreender. Ele no  l muito falador.
Eu via-lhe o luar reflectido nos olhos escuros, e a sua voz era suave quando disse: - Ele no tem de falar para estar orgulhoso de ti. Pode ser o gnero de pai que 
demonstra isso de outras maneiras.
Ponderei naquelas palavras, na esperana de que correspondessem  verdade. Entretanto, ouviu-se um grande grito vindo da casa, e vislumbrei alguns jovens junto da 
fogueira. Um dos rapazes tinha os braos em volta duma rapariga e estava a empurr-la para a frente; ela ria-se enquanto tentava libertar-se dele. O Brad e a Susan 
estavam aconchegados um no outro ali ao p, mas o Randy desaparecera.
- Disseste que no conhecias a maior parte das pessoas com quem vais morar?
A Savannah abanou a cabea, o cabelo a roar-lhe nos ombros. Afastou outra madeixa. - No muito bem. Encontrmos a maior parte deles pela primeira vez durante o 
acto de inscrio, e depois hoje, quando aqui chegmos. Quer dizer,  possvel que nos tenhamos visto no campus uma vez por outra, e acho que muitos deles j se 
conhecem, mas no sei. A maioria pertence a repblicas de estudantes masculinas e femininas. Eu continuo a morar num dormitrio. Mas parecem-me ser um grupo simptico.
 medida que a ouvia falar, fiquei com a sensao de que a Savannah devia ser o gnero de pessoa que nunca dz mal de ningum. A considerao que mostrava pelos 
outros afigurou-se-me estimulante e madura, e, contudo, por estranho que pudesse parecer, isso no me surpreendeu. Fazia parte daquela qualidade indefinida que vislumbrei 
nela logo que a conheci, uma atitude que a destacava de todos os outros.
- Que idade tens? - perguntei-lhe quando nos estvamos a aproximar da casa.
- Vinte e um. Fiz anos no ms passado. E tu?
- Vinte e trs. Tens irmos?
- No. Sou filha nica. Somos s eu e os meus pais. Eles ainda moram em Lenoir, e so felicssimos juntos, j h vinte e cinco anos. Agora  a tua vez.
- A mesma coisa. S que no meu caso, sou s eu e o meu pai. Eu sabia que a minha resposta iria suscitar mais perguntas a
respeito do estatuto da minha me, mas, para minha surpresa, no foi isso que aconteceu. Ao invs, ela indagou: - Foi ele quem te ensinou a fazer surf?
- No, aprendi sozinho quando era mido.
Tens jeito. Estive a ver-te h bocado. Ds a impresso de ser to gracioso. Tive vontade de saber fazer o mesmo.
Se quiseres aprender, terei todo o gosto em te ensinar - ofereci-me. - No  to difcil como parece. Amanh vou andar na gua. A Savannah deteve-se e fixou o olhar 
em mim. - bom,  melhor no fazeres promessas que no tens inteno de cumprir. - Ela pegou-me no brao, deixando-me sem palavras, e em seguida encaminhou-se na 
direco da fogueira. - Queres vir conhecer umas pessoas?
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Eu engoli em seco, sentindo a garganta subitamente spera, e deve ter sido a coisa mais estranha que algum dia me aconteceu.
A casa era um daqueles monstros enormes de trs andares com garagem no piso inferior e, provavelmente, uns seis ou sete quartos. Uma varanda imensa contornava o 
rs-do-cho; viam-se toalhas penduradas nos parapeitos, e eu ouvia o som de mltiplas conversas vindo de todas as direces. Havia um grelhador na varanda, e cheirava 
a cachorros-quentes e a frango a grelhar; o rapaz encarregue da cozinha estava em tronco nu e usava um leno na cabea atado na nuca, numa tentativa para passar 
uma imagem urban cool. No estava a resultar, mas pelo menos deu-me vontade de rir.
Na areia, diante de ns, tinham acendido uma fogueira numa cova, e viam-se diversas raparigas com sweat-shirts vrios nmeros acima do que vestiam sentadas em cadeiras 
 volta, todas elas fingindo-se completamente desinteressadas nos rapazes em seu redor. Entretanto, os rapazes encontravam-se mesmo atrs delas, em poses destinadas 
a acentuar a envergadura dos braos e dos abdominais bem musculados e a comportar-se como se nem dessem pela presena das raparigas. J tinha visto tudo aquilo em 
Lenoir; quer tenham educao ou no, os midos so sempre midos. Tinham pouco mais de vinte anos, e o desejo sentia-se no ar. Juntssemos-lhe a praia e a cerveja, 
e eu j estava mesmo a ver o que  que iria sair dali mais tarde, mas nessa altura j me teria ido embora h muito tempo.
Quando a Savannah e eu nos aproximmos, ela abrandou antes de apontar. - Ento e que tal aqui, ao p da duna? - sugeriu.
- Claro.
Escolhemos um lugar de frente para a fogueira. Umas quantas raparigas ficaram a olhar para ns, a examinar o recm-chegado, voltando de seguida s respectivas conversas. 
Por fim, o Randy acabou por vir at junto da fogueira com uma cerveja, viu-me a mim e  Savannah, e apressou-se a virar costas, seguindo o exemplo das raparigas.
- Frango ou cachorro-quente? - perguntou ela, aparentemente alheia ao que se estava a passar.
- Frango.
- O que  que queres para beber?
A luz proveniente da fogueira conferia-lhe um ar misterioso.
- O mesmo que tu beberes est bem para mim. Obrigado.
- No demoro.
A Savannah encaminhou-se para os degraus, e eu tive de me conter para no ir atrs dela. Em vez disso, fui para junto da fogueira, despi a camisola e estendi-a em 
cima duma cadeira vazia, em seguida
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voltei para o meu lugar. Ao erguer o olhar, vi o do leno atado atrs da nuca a meter-se com a Savannah, senti um arroubo de tenso, depois afastei-me para clarear 
as ideias. A verdade  que pouco sabia acerca dela e menos ainda acerca da opinio dela a meu respeito. Para alm disso, no fazia tenes de comear nada a que 
no pudesse dar seguimento. Da a umas semanas ir-me-ia embora, e aquilo acabaria inevitavelmente por no dar em nada. Tentei convencer-me de tudo isto e acho que 
j estava quase decidido a voltar para casa logo que acabasse de comer quando os meus pensamentos foram interrompidos pela viso de algum que se aproximava. Alto 
e desengonado, com o risco do cabelo escuro, no qual j se comeavam a notar as entradas, cuidadosamente penteado, fez-me lembrar um daqueles homens que encontramos 
ocasionalmente e do a ideia de que desde a nascena tm ar de estar na meia-idade.
- Deves ser o John - dirigiu-se-me ele com um sorriso, acocorando-se a meu lado. - Eu sou o Tim Wheddon. - Estendeu-me a mo. - J me contaram o que fizeste pela 
Savannah... Sei que ela ficou agradecida de tu l estares.
Eu apertei-lhe a mo. - Prazer em conhecer-te.
Apesar da minha desconfiana inicial, o sorriso dele era mais genuno que o do Brad e o do Randy. E nem sequer mencionou as minhas tatuagens, o que era raro. Julgo 
que ser melhor dizer que elas no eram exactamente pequenas e que me cobriam grande parte dos braos. J me avisaram de que, quando for mais velho, me irei arrepender, 
no entanto, quando as fiz, no dei grande importncia a isso. E continuo a no dar.
- Importas-te que me sente ao p de ti? - indagou ele. - Est  vontade.
O Tim instalou-se comodamente, nem muito perto nem demasiado distante de mim. - Ainda bem que vieste. Quer dizer, no  grande coisa, mas a comida  boa. Ests com 
fome?
- Para dizer a verdade, estou esfomeado.
-  o que acontece depois de fazermos surf. -? Tu tambm fazes?
No, mas quando passo muito tempo dentro de gua, fico sempre cheio de fome. Lembro-me disso das frias que fiz em mido. Todos os veres costumvamos ir para Pine 
Knoll Shores. J alguma vez l estiveste?
- S uma vez. L  que se estava bem.
Pois era, acho que tens razo. - Ele apontou para a minha prancha. - Gostas de pranchas grandes, hein?
- Gosto tanto das grandes como das pequenas, mas hoje as ondas estavam a pedir uma prancha grande. Para desfrutar verdadeiramente duma prancha pequena, s fazendo 
surf no Pacfico.
- J l estiveste? Havai, Bali, Nova Zelndia, stios assim? J li que so o mximo.
- Ainda no - respondi-lhe, admirado por ele os conhecer. Um dia, quem sabe?
Um toro estalou, despedindo pequenas falhas em direco ao cu. Eu entrelacei as mos, sabendo que era a minha vez. - Ouvi dizer que esto aqui para construir casas 
para pessoas sem posses.
- A Savannah falou-te nisso? Pois,  isso que est previsto. So para algumas famlias que precisam mesmo, e eu s espero que no final de Julho j tenham uma casa 
onde morar.
-  uma boa aco da tua parte.
- No sou s eu. Mas, j agora, queria fazer-te uma pergunta.
- Deixa-me adivinhar, queres que eu me oferea como voluntrio? O Tim riu-se. - No, no  nada disso. Mas no deixa de ter a sua graa... J no  a primeira vez 
que ouo isso. As pessoas vem-me chegar e em geral fogem a sete ps. Acho que devo ser muito transparente. Mas adiante... Sei que  pouco provvel, mas estava a 
pensar se no conhecerias um primo meu. Ele est colocado em Fort Bragg.
- Lamento - respondi-lhe. - Eu estou na Alemanha.
- Em Ramstein?
- No. A  a base da fora area. Mas eu estou relativamente perto. Porqu?
- Eu estive em Frankfurt em Dezembro ltimo. Fui l passar o Natal com a minha famlia.  l que se encontram as nossas razes, e os meus avs ainda l moram.
- Vivemos num mundo pequeno.
- J sabes falar alemo?
- Nem por sombras.
- Nem eu. O que  triste  que os meus pais falam fluentemente alemo e h anos que eu ouo falar alemo em casa e at cheguei a ter umas aulas antes de ir para 
Frankfurt. Mas no fui capaz de apanhar nada, sabes? Acho que j foi uma sorte passar no curso, e o mximo que eu conseguia fazer  mesa do jantar era assentir com 
a cabea como se estivesse a perceber lindamente a conversa. O meu nico motivo de consolo  que o meu irmo estava no mesmo barco que eu, por isso sentamo-nos 
os dois uns idiotas.
Eu ri-me. O Tim tinha uma expresso franca e aberta, e, mesmo contrafeito, gostei dele.
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 Eh, queres que te traga alguma coisa? - perguntou-me.
A Savannah j est a tratar disso.
J devia ter calculado. Ela  uma anfitri perfeita. Sempre a
conheci assim.
Ela disse-me que vocs cresceram juntos?
O Tim assentiu com a cabea. - O rancho da famlia dela fica mesmo ao lado do nosso. Frequentmos as mesmas escolas e a mesma igreja durante anos, e agora andamos 
na mesma universidade. Para mim, ela  como se fosse uma irm mais nova.  uma pessoa especial.
Apesar do comentrio sobre a irm, pela maneira como o Tim disse "especial", fiquei com a impresso de que os sentimentos dele a respeito da Savannah eram um pouco 
mais profundos que o que pretendia deixar transparecer. Porm, ao contrrio do Randy, no demonstrou nem uma ponta de cimes por ela me convidar a estar ali. Antes 
de eu ter tempo de perceber do que se tratava, a Savannah apareceu nas escadas e desceu para a areia.
- Vejo que j conheces o Tim - constatou, assentindo com a cabea. Numa mo trazia dois pratos com frango, salada de batata e batatas fritas; na outra, duas latas 
de Diet Pepsi.
- Pois, s vim ter com ele para lhe agradecer o que fez - explicou-se o Tim -, mas depois decidi ma-lo com a histria da minha famlia.
- ptimo. Estava com esperana de que tivessem oportunidade de se conhecer. - Ela estendeu as mos; tal como o Tim, no fez caso de eu ter despido a camisola. - 
A comida est pronta. Queres ficar com o meu prato, Tim? Eu posso ir buscar outro para mim.
- Na, deixa estar que eu vou l - ofereceu-se o Tim, levantando-se- - Mas, de qualquer das formas, obrigado. vou deixar-vos a comer em paz. - Sacudiu a areia dos 
cales. - Eh, gostei de te conhecer, John. Se estiveres por aqui amanh, ou quando te calhar, s sempre bem-vindo.
Obrigado. Tambm gostei de te conhecer.
Passado um instante, o Tim j estava a subir os degraus. No olhou para trs, limitando-se a dirigir um cumprimento amigvel a algum que seguia em sentido contrrio, 
depois continuou o seu caminho.
A Savannah entregou-me o meu prato juntamente com uns talheres de plstico, trocou de mo e ofereceu-me a bebida, sentando-se em seguida ao meu lado. Prximo, reparei 
eu, mas no o suficiente para que os nossos corpos se tocassem. Amparou o prato no colo, depois estendeu a mo para chegar  lata, hesitante. Levantou a lata.
- H bocado vi-te a beber cerveja, mas disseste-me para te trazer o mesmo que eu ia beber, por isso trouxe-te uma destas. No tinha bem a certeza do que querias.
- A Pepsi serve perfeitamente.
- Tens a certeza? H cerveja de sobra nas geleiras, e j sei como so os tipos que andam na tropa.
Eu soltei uma gargalhada desdenhosa. - No tenho dvidas a esse respeito - retorqui, abrindo a lata. - Presumo que no bebas lcool.
- Pois no - confirmou ela. No tom de voz dela no havia uma atitude defensiva nem presumida, reparei eu, apenas a verdade. Agradou-me.
A Savannah levou  boca uma garfada de frango. Eu fiz o mesmo, e, no silncio, perguntei-me o que se passaria entre a Savannah e o Tim, e se ela teria conscincia 
dos verdadeiros sentimentos do amigo por ela. E perguntei-me ainda o que sentiria ela por ele. Alguma coisa havia ali, mas o que era eu no conseguia perceber, a 
menos que o Tim estivesse a ser sincero e fosse uma relao de irmos. No sei porqu, mas duvidei de que fosse esse o caso.
- O que  que fazes no exrcito? - interrogou-me ela, pousando finalmente o garfo.
- Sou sargento de infantaria. Peloto de armas.
- E como  que ? Quer dizer, o que  que fazem todos os dias? Andam aos tiros, ou fazem explodir coisas, ou qu?
- s vezes. Mas, para falar com franqueza, a maior parte do tempo  bastante aborrecido, pelo menos quando estamos na base. Reunimo-nos logo de manh, mais ou menos 
por volta das seis, para nos certificarmos de que est toda a gente presente, e depois dividimo-nos em pelotes para nos exercitarmos. Basquetebol, corrida, levantamento 
de pesos, seja l o que for. H dias em que temos aulas, por exemplo, para aprendermos a montar e a desmontar armas, ou uma aula nocturna no terreno, ou ento podemos 
ir para a carreira de tiro, ou outra coisa qualquer. Se no houver nada programado, limitamo-nos a voltar para as camaratas e ficamos a jogar jogos de vdeo, a ler, 
a treinar outra vez, ou isso assim, durante o resto do dia. Depois tornamos a reunir-nos s quatro da tarde para ficarmos a saber o que temos de fazer no dia seguinte. 
E estamos despachados.
-Jogos de vdeo?
- Eu treino e leio. Mas os meus camaradas so peritos em jogos. E quanto mais violento for o jogo, mais eles gostam.
- O que  que costumas ler?
Eu expliquei-lhe, e ela ponderou no que ouvia. - E quando vo para uma zona de guerra?
Isso - disse-lhe eu acabando de comer o frango - j  outra
coisa. Temos de estar de sentinela, e h sempre coisas que se estragam e que precisam de ser arranjadas, por isso mantemo-nos sempre ocupados mesmo quando no andamos 
em patrulha. Mas as tropas de infantaria so as foras no terreno, por isso passamos muito tempo fora do aquartelamento.
- Nunca tens medo?
Eu procurei a resposta certa. - Tenho. s vezes. No  que andemos constantemente aterrorizados, mesmo quando temos um inferno  nossa volta. O que se passa  que 
temos de... reagir, tentar sobreviver. Acontece tudo to depressa que no temos tempo de pensar em muita coisa, a no ser cumprirmos o nosso dever e evitarmos morrer. 
Em geral, costuma afectar-nos mais tarde, depois de nos livrarmos daquilo.  nesse momento que nos apercebemos do perigo que corremos, e por vezes do-nos tremuras 
e vomitamos, ou isso assim.
- Acho que no seria capaz de fazer o que tu fazes.
No sei ao certo se ela estava  espera de que eu lhe respondesse, por isso mudei de assunto. - Porqu educao especial?
-  uma histria um pouco longa. No te importas de a ouvir? Quando me viu assentir com a cabea, a Savannah respirou bem
fundo.
- Em Lenoir h um rapaz chamado Alan, e ns conhecemo-nos desde que nascemos. Ele  autista e, durante muito tempo, ningum sabia o que fazer com ele nem como conseguir 
comunicar com ele. E isso tocou-me, sabes? Sentia-me to mal por causa dele, mesmo quando era mida. Quando eu fiz perguntas aos meus pais sobre o assunto, eles 
responderam-me que talvez Deus tivesse um desgnio especial para ele. A princpio, isto no fez sentido para mim, mas o Alan tinha um irmo mais velho que tinha 
sempre imensa pacincia para ele. Quando eu digo sempre, era mesmo sempre. Nunca se exasperava com ele e, a pouco e pouco, foi conseguindo ajudar o Alan. O Alan 
no  nem de perto nem de longe perfeito: continua a morar com os pais e nunca h-de ser independente... mas no est to perdido como estava quando era mais novo, 
e eu acabei por decidir que queria ajudar crianas como ele.
- Que idade tinhas quando tomaste essa deciso?
- Tinha doze anos.
- E tu queres trabalhar com elas numa escola?
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- No - afirmou a Savannah. - Eu quero fazer o que o irmo do Alan fazia. Ele servia-se dos cavalos. - Fez uma pausa para reorganizar as ideias. - As crianas autistas... 
 como se vivessem encerradas no seu prprio mundo, por isso, em geral, as aulas e a terapia so baseadas numa rotina. O que eu quero fazer  dar-lhes acesso a experincias 
que lhes possam abrir novas portas. J vi isso acontecer. Isto , a princpio, o Alan tinha um medo terrvel dos cavalos, mas o irmo insistiu com ele e, passado 
um tempo, o Alan chegou a um ponto em que era capaz de os acariciar e de lhes esfregar o focinho, e depois at de lhes dar de comer. Posteriormente, comeou mesmo 
a montar, e eu ainda me lembro da cara dele da primeira vez que o vi em cima dum cavalo... Foi to incrvel, sabes? Quer dizer, ele estava a sorrir, to feliz como 
s as crianas conseguem ser. E  isso que eu quero que estes midos experimentem. Apenas... felicidade, ainda que seja por uns breves momentos. Foi a que soube 
exactamente o que queria fazer da minha vida. Talvez abrir uma escola de equitao para crianas autistas, onde possamos mesmo trabalhar com elas. Talvez assim elas 
possam sentir a mesma felicidade que o Alan sentia.
A Savannah pousou o garfo, como se estivesse envergonhada, em seguida afastou o prato para o lado.
- Isso deve ser maravilhoso.
- Vamos ver o que acontece - concluiu ela, pondo-se de p. Por enquanto, no passa dum sonho.
- Ao que vejo, tambm gostas de cavalos?
- Todas as raparigas adoram cavalos. No sabias? Mas sim,  verdade. Tenho um cavalo rabe chamado Midas, e h ocasies em que me di s de pensar que estou aqui 
quando podia estar a mont-lo.
- A verdade vem sempre ao de cima.
- E  assim que deve ser. Mas fao tenes de continuar aqui. Posso montar o dia todo, todos os dias, quando voltar para casa. Sabes andar a cavalo?
- Uma vez andei.
- Gostaste?
- No dia seguinte, sentia-me dorido. Custava-me a andar.
A Savannah soltou uma gargalhada, e eu apercebi-me de que gostava de conversar com ela. A conversa flua de forma desenvolta e natural, o que no me acontecia com 
toda a gente. Via a cintura de Orion por cima da minha cabea; mesmo acima da linha do horizonte, no mar, Vnus surgira com o seu esplendor dum branco intenso. Os 
rapazes e as raparigas continuavam a subir e a descer os degraus, seduzindo-se mutuamente com uma audcia propiciada pelo lcool. Soltei um suspiro.
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Se calhar o melhor  eu ir andando, para poder fazer um pouco
de companhia ao meu pai. J deve estar a perguntar-se onde  que me terei enfiado. Isto , se  que ainda no se foi deitar.
Queres ligar-lhe? Podes telefonar-lhe daqui.
No, acho que me vou embora. Ainda fica longe.
No tens carro?
No. Hoje de manh vim  boleia.
Queres que o Tim te leve a casa? Tenho a certeza de que no se
incomoda.
- No, no tem importncia.
- No sejas ridculo. Tu disseste que era longe, no disseste? vou pedir ao Tim que te leve. J to trago.
A Savannah desatou a correr antes de eu ter tempo de a deter, e, passado um instante, vi o Tim a sair de casa atrs dela. -? O Tim faz todo o gosto em te levar - 
declarou ela, com um ar mais que satisfeito consigo prpria.
Eu virei-me para o Tim. - Tens a certeza?
- No  incmodo nenhum - garantiu-me ele. - A minha carrinha est em frente  casa. Podes pr a prancha l atrs. - Apontou para a prancha. - Queres ajuda?
- No - disse eu, levantando-me. - Eu levo-a. - Abeirei-me da cadeira e vesti a camisola, em seguida peguei na prancha. - Mas j agora, obrigado.
- O prazer  meu - respondeu o Tim. Levou a mo ao bolso.
- vou s buscar as chaves.  a carrinha verde que est estacionada no relvado. Encontramo-nos l.
Quando ele se foi embora, virei-me para a Savannah. - Gostei de te conhecer.
Ela susteve o meu olhar. - Tambm eu. Nunca tinha estado a conversar com um soldado. Sinto-me protegida... Acho que o Randy no me vai incomodar mais esta noite. 
 bem provvel que as tuas tatuagens o tenham assustado.
Afinal, a Savannah sempre tinha reparado nelas. - Talvez nos vejamos novamente por a.
- Tu sabes onde me encontrar.
No tive a certeza se ela queria dizer que a fosse visitar outra vez ou no. Sob muitos aspectos, a Savannah foi sempre um mistrio para mim. Todavia, nessa altura, 
eu mal a conhecia.
- Mas estou um bocadinho desapontada por te teres esquecido acrescentou ela, quase como uma reflexo tardia.
- Esquecido do qu?
?- No prometeste que me ensinavas a fazer surf?
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Se o Tim tinha alguma ideia, por mais pequena que fosse, do efeito que a Savannah exercia sobre mim ou que eu a tornaria a visitar no dia seguinte, no deu qualquer 
sinal disso. Ao invs, concentrou-se sobretudo na conduo, certificando-se de que estava no caminho certo. Ele era o gnero de condutor que pra o carro mesmo quando 
o semforo est amarelo e ainda tinha tempo para passar.
- Espero que te tenhas divertido - disse-me ele. - Eu sei que  sempre estranho quando no se conhece ningum.
- Mas o que  facto  que me diverti.
- Tu e a Savannah engraaram mesmo um com o outro. Ela  qualquer coisa de especial, no ? Acho que gostou de ti.
- Tivemos uma conversa agradvel - confirmei.
- Fico satisfeito. Eu estava um pouco apreensivo com a vinda dela para aqui. No ano passado os pais dela vieram connosco, por isso  a primeira vez que est por 
sua conta e risco. Eu sei que a Savannah j  uma rapariga crescida, mas ela no se costuma dar com este gnero de pessoas, e a ltima coisa que eu queria era que 
ela tivesse de passar a noite a esquivar-se deste e daquele.
- Tenho a certeza de que ela se sabe defender sozinha.
- Claro, tens toda a razo. Mas tenho a impresso de que alguns destes tipos sabem ser muito persistentes.
- Sem dvida. So homens.
O Tim riu-se. - Acho que  isso. - Apontou para a janela. Para que lado?
Eu conduzi-o atravs duma srie de curvas, depois finalmente disse-lhe para abrandar. Ele parou em frente da casa, onde eu via a luz do refgio do meu pai, amarela 
a brilhar.
- Obrigado pela boleia - despedi-me eu, abrindo a porta.
- No tens de qu. - O Tim debruou-se sobre o meu banco.
- E j sabes, tal como eu disse, ests  vontade para passares l por casa sempre que te apetecer. Ns trabalhamos durante a semana, mas em geral temos as noites 
e os fins-de-semana livres.
- No me esqueo - prometi-lhe.
Quando entrei em casa, fui logo ter com o meu pai ao seu refgio e abri a porta. Ele estava a estudar o Greysbeet e ficou sobressaltado. Apercebi-me de que no dera 
pela minha chegada.
- Desculpe - disse eu, sentando-me no nico degrau que separava o refgio do resto da casa. - No tive inteno de o assustar.
- No faz mal - foi tudo o que ele disse. Hesitou em pr o Greysheet de lado, mas foi isso que acabou mesmo por fazer.
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Hoje as ondas estiveram ptimas - comentei eu. -J quase
no me lembrava da sensao fantstica que a gua nos proporciona.
O meu pai sorriu, mas no disse nada. Eu ajeitei-me ligeiramente no degrau. - Como  que correu o trabalho? - questionei-o.
O mesmo de sempre - respondeu-me.
Ele tornou a mergulhar nos seus pensamentos, e tudo o que eu seria capaz de dizer era que sempre assim acontecia em todas as nossas conversas.
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CAPITULO TRS
- O surf  um desporto solitrio, um desporto em que longos perodos de tdio so entrecortados por breves momentos de actividade frentica, e que nos ensina a fluir 
com a natureza, em lugar de nos debatermos contra ela... Trata-se de atingir a zona. Pelo menos  isso que dizem as revistas da modalidade e, seja como for, eu at 
concordo. No h nada mais excitante que apanhar uma onda e viver dentro duma parede de gua que se vai enrolando na direco da margem. Mas no sou um desses tipos 
com a pele gretada do frio e cabelo de palha de ao que passam todo o dia, todos os dias, a fazer o mesmo, porque esto convencidos de que a essncia e o propsito 
da vida se resumem a isso. No resumem. Para mim, tem mais que ver com o facto de o mundo ser quase constantemente um lugar catico e barulhento e, quando estou 
na gua, no ser assim. Tornamo-nos capazes de ouvir os nossos prprios pensamentos.
Era isto que eu estava a dizer  Savannah enquanto nos amos lentamente encaminhando para o mar no domingo pela manh. Pelo menos, era isto que eu pensava que lhe 
estava a dizer. A maior parte do tempo, eu limitava-me a divagar, a tentar disfarar o prazer que v-la de biquini me proporcionava.
-  como andar a cavalo - comentou ela.
- Sermos capazes de ouvir os nossos prprios pensamentos.  por isso que eu tambm gosto de andar a cavalo.
Eu tinha ido busc-la uns minutos antes. As melhores ondas aparecem geralmente logo de manh, e estava um desses dias lmpidos de cu azul a prometerem calor e praias 
cheias de gente. Encontrei a Savannah sentada nos degraus das traseiras, enrolada numa toalha, com os vestgios da fogueira  sua frente. Embora fosse bvio que 
a
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festa se prolongara por vrias horas depois de eu me ter vindo embora, no se via uma nica lata vazia nem qualquer sinal de lixo. A minha impresso do grupo melhorou 
ligeiramente.
Apesar da hora matutina, o ar j estava quente, e deixmo-nos ficar alguns minutos na areia  beira-mar, passando em revista os princpios elementares do surf, e 
eu expliquei  Savannah como  que se salta para cima da prancha. Quando ela considerou que estava preparada, eu pus mos  obra e peguei na prancha, caminhando 
ao lado dela.
Eram poucos os surfstas na gua, os mesmos que eu vira no dia anterior. Estava a tentar descobrir o melhor stio onde a Savannah pudesse ficar  vontade, quando 
me dei conta de que j no a via ao meu lado.
- Espera a, espera a! - gritou ela atrs de mim. - Pra, pra... Dei meia-volta. A Savannah estava em bicos de ps, por causa dos salpicos de gua que lhe comeavam 
a molhar a barriga, e tinha a parte superior do corpo completamente arrepiada. Parecia que se queria elevar de dentro de gua.
- Deixa-me habituar ao frio... - Soltou uns arquejos, breves mas audveis, e cruzou os braos. - Uau. Est mesmo fria. Minha santa me!
Minha santa me? No era propriamente uma expresso que os meus amigos usariam. - Acabas por te habituar - disse-lhe eu, com um sorriso de troa.
- Eu no gosto de sentir frio. Eu odeio o frio.
- Tu vives nas montanhas, na neve.
- Pois , mas l temos umas coisas chamadas casacos, luvas e chapus, que usamos para nos aquecermos. E no temos o costume de nos enfiarmos no mar rctico logo 
pela manh.
- Que engraado - retorqui.
Ela continuou aos pulinhos. -  engraado, no ? Jesus!
Jesus? Escancarei um sorriso. A respirao dela l se foi regularizando, mas a pele continuava arrepiada. Deu mais um passinho em frente.
-  mais fcil se nos limitarmos a saltar duma vez e mergulharmos logo em lugar de nos andarmos a torturar aos poucos - aconselhei-a.
Tu fazes  tua maneira, que eu fao  minha - ripostou a Savannah, pouco impressionada com a minha prola de sabedoria. Mal posso crer que tu tenhas querido entrar 
na gua a uma hora destas. Eu estava a pensar vir mais para a tarde, quando a temperatura tivesse subido acima de zero.
- Esto mais de vinte e cinco graus.
- Deve ser, deve - disse ela, comeando finalmente a aclimatizar-se. Descruzou os braos, fez algumas respiraes e, em seguida, mergulhou mais uns centmetros. 
Reuniu coragem e molhou ligeiramente os braos. - Pronto, acho que j me estou a habituar.
- No andes a correr por minha causa. A srio. Demora o tempo que precisares.
-  isso mesmo que vou fazer, obrigada - declarou Savannah, ignorando o meu tom de troa. - Pronto - repetiu, mais para si prpria que para mim. Deu mais um passinho, 
depois outro.  medida que avanava, o rosto dela era uma mscara de concentrao, e aquela expresso agradou-me. To sria, to intensa. To ridcula.
- Pra l de te rires de mim - protestou ela, reparando no meu ar.
- No me estou a rir de ti.
- A tua cara diz tudo. Ests a rir-te por dentro.
- Est bem, eu paro. Por fim, ela l acabou por chegar ao p de mim, e quando a gua
me tocava nos ombros, a Savannah subiu para a prancha. Eu segurei-a, tentando no lhe olhar para o corpo, o que no era fcil, considerando que estava mesmo  minha 
frente. Obriguei-me a concentrar-me nas ondas atrs de ns.
- E agora?
- Lembras-te do que  que tens de fazer? Remas com os braos com fora, agarras a parte da frente da prancha de ambos os lados, depois pes-te em p.
- J percebi.
- Ao princpio,  um bocado difcil. No te admires se cares, mas, se isso acontecer, deixa-te simplesmente levar pela corrente. Em geral, no se consegue logo 
 primeira.
- Est bem - disse ela, e eu vi uma pequena onda a aproximar-se.
- Prepara-te... - avisei-a, calculando o tempo. - Pronto, comea a remar...
Quando a onda nos atingiu, eu empurrei a prancha, dando-lhe uma certa acelerao, e a Savannah apanhou a onda. Eu no sei bem do que  que estava  espera, mas do 
que no era com certeza foi de a ver empoleirar-se imediatamente, conseguir manter o equilbrio e cavalgar a onda at  margem, onde esta acabou por se esgotar. 
Na gua pouco profunda, a Savannah saltou da prancha enquanto esta abrandava e virou-se para mim com um ar teatral.
- Que tal? - chamou-me ela.
Apesar da distncia que nos separava, eu no consegui desviar os olhos. "Oh, meu", pensei subitamente, "que grande sarilho que eu fui arranjar."
- Eu pratiquei ginstica durante muitos anos - admitiu a Savannah. - Sempre tive uma boa noo do equilbrio. Acho que te devia ter falado nisso quando me avisaste 
de que eu ia cair.
Passmos mais duma hora dentro de gua. Ela conseguiu sempre montar em cima da prancha e fazer as ondas at  margem com facilidade; embora no fosse capaz de orientar 
a prancha, eu no tinha quaisquer dvidas de que, se quisesse, poderia aprender rapidamente.
Mais tarde, voltmos para casa da Savannah. Eu esperei c em baixo enquanto ela foi ao quarto. Apesar de algumas pessoas j se terem levantado - estavam trs raparigas 
na varanda a contemplar o mar -, a maior parte ainda no recuperara da noite anterior e no se via em lado algum. A Savannah apareceu passados alguns minutos com 
uns cales e uma T-shirt vestidos e trazendo duas chvenas de caf. Sentou-se a meu lado nos degraus e deixmo-nos ficar a ver o mar.
- Eu no disse que tu ias cair - esclareci eu. - Eu s disse, que, se casses, te devias deixar levar pela corrente.
- Hum, hum - fez ela com uma expresso travessa. Apontou para a minha chvena. - O caf est bom?
- Est ptimo - assegurei-lhe.
- S consigo comear o dia depois de beber caf.  o meu vcio.
- Toda a gente tem de ter o seu.
Ela olhou-me de travs. - Qual  o teu?
- No tenho nenhum - respondi-lhe, e ela surpreendeu-me dando-me uma cotovelada na brincadeira.
- Sabias que a noite passada foi a primeira noite de lua cheia? Eu sabia, mas achei melhor no admitir. - A srio? - indaguei.
- Eu sempre adorei a lua cheia. Desde mida. Gosto de pensar que encerra alguma espcie de pressgio. Queria acreditar que prometia sempre algo de bom. Do gnero: 
se eu estivesse a fazer algum disparate, teria a possibilidade de comear do zero.
A Savannah ficou-se por ali. Levou a chvena aos lbios, e eu fiquei a ver o vapor envolver-lhe o rosto.
Quais so os teus planos para hoje? - perguntei-lhe. Temos uma reunio prevista ainda no sei a que horas, mas, para alm disso, mais nada. bom, a no ser ir  missa. 
Isto , eu vou  missa. E quem mais quiser, claro. O que me faz lembrar... que horas so? Eu consultei o relgio. - Passam uns minutos das nove.
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- J? Acho que j no tenho muito tempo. A cerimnia comea s dez. ?
Eu assenti com a cabea, percebendo que o nosso tempo juntos estava quase a chegar ao fim.
- Queres vir comigo? - ouvia-a a perguntar-me.
-  missa?
- Sim,  missa - confirmou. - No queres vir?
Eu no sabia ao certo o que dizer. Era bvio que era importante para ela, e, embora no pretendesse desapont-la, tambm no lhe queria mentir. - Nem por isso - 
confessei. - H anos que no ponho os ps numa igreja. Quer dizer, em mido costumava ir, mas...
- A voz sumiu-se-me. - No sei porqu - conclu.
A Savannah esticou as pernas, a ver se eu acrescentava mais alguma coisa. Quando viu que isso no acontecia, arqueou uma sobrancelha.
- Ento?
- Ento o qu?
- Queres vir comigo ou no?
- No estou com roupa para ir  missa. Quer dizer, s trouxe isto vestido e duvido de que consiga ir a casa, tomar duche e voltar a tempo. De contrrio, iria.
Ela mirou-me de alto a baixo. - Muito bem. - Deu-me uma palmadinha no joelho, a segunda vez que me tocava. - Eu arranjo-te umas roupas.
- Ests ptimo - assegurou-me o Tim. - Fica-te ligeiramente apertada no colarinho, mas acho que ningum vai reparar.
Ao espelho, vi um desconhecido de calas de caqui, camisa engomada e gravata. J no me lembrava da ltima vez que usara gravata. No sabia dizer se aquilo me deixava 
satisfeito ou no. Entretanto, o Tim mostrava-se radiante com o acontecimento.
- Como  que ela te conseguiu convencer? - interrogou-me.
- No fao ideia.
Ele riu-se e, baixando-se para apertar os sapatos, deitou-me uma piscadela de olho. - J te tinha dito que ela gosta de ti.
Ns temos capeles no exrcito e a maior parte deles so fulanos bastante simpticos. Na base, cheguei a conhecer alguns deles razoavelmente bem, e um deles - o 
Ted Jenkins - era o tipo de pessoa que conquista de imediato a nossa confiana. Ele no bebia lcool, e no estou a pretender dizer que fosse um dos nossos, contudo, 
sempre que aparecia, era bem-vindo. Era casado, tinha dois filhos
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pequenos, e estava h quinze anos ao servio da igreja. Tinha experincia pessoal no que se referia aos desafios da vida familiar e militar em geral, e, se alguma 
vez no senrssemos a conversar com ele, ouvia mesmo o que tnhamos para lhe dizer. No lhe podamos contar tudo - afinal de contas, tratava-se dum oficial - e acabou 
por se revelar bastante duro para alguns tipos do meu peloto que no mostravam grande pejo em confessar as suas escapadelas, mas a verdade  que ele tinha o gnero 
de presena que nos d vontade de nos abrirmos completamente. No sei a que tal se deveria para alm do facto de se tratar dum homem bom e dum excelente capelo 
do exrcito. Falava de Deus com a mesma naturalidade com que ns nos poderamos referir a um amigo, e no no tom irritante e de sermo que em geral me faz perder 
o interesse. Nem to-pouco nos pressionava para assistirmos  missa aos domingos. Este capelo deixava isso mais ou menos ao nosso critrio e, dependendo do que 
ia acontecendo e da gravidade da situao que atravessvamos, podia dar por si a falar para meia dzia de pessoas ou para uma centena. Antes de o meu peloto ter 
sido enviado para os Balcs, deve ter baptizado uns quinze soldados.
Eu fui baptizado em mido, por isso no optei por esse caminho, mas, tal como j referi, havia muito tempo que no ia  missa. H muitos anos que deixara de ir com 
o meu pai, por isso no sabia o que esperar. Nem posso dizer honestamente que estava ansioso por isso, mas a cerimnia at acabou por no ser m de todo. O pastor 
era discreto, a msica era bonita, e as horas no se arrastaram como parecia sempre quando eu era mido. No estou a dizer que aproveitei grande coisa, mas, ainda 
assim, fiquei satisfeito por ter ido, quanto mais no fosse para ter algum tema de conversa com o meu pai. E tambm porque me proporcionou mais algum tempo na companhia 
da Savannah.
A Savannah ficou sentada entre mim e o Tim, e eu pus-me a observ-la pelo canto do olho a v-la cantar. Cantava em voz baixa, mas nunca desafinava, e eu gostei de 
a ouvir. O Tim manteve-se concentrado nas escrituras, e,  sada, foi cumprimentar o pastor enquanto a Savannah e eu ficmos c fora  espera dele,  sombra do abrunheiro 
defronte da igreja. O Tim conversava animadamente com o pastor.
- So velhos amigos? - questionei-a, acenando com a cabea na direco do Tim. Apesar de estarmos  sombra, eu comeava a ficar com calor, e j sentia a transpirao 
a escorrer.
- No. Acho que foi o pai dele quem lhe falou deste pastor. Ontem  noite ele teve de usar o MapQuest para descobrir onde ficava este lugar. - Ela abanou-se com 
um leque; de vestido de
alas, fazia lembrar uma verdadeira beldade do Sul. - Estou contente por teres vindo. ??
- Tambm eu - assenti.
- Ests com fome?
- Quase.
- Temos alguma comida em casa, se te apetecer petiscar alguma coisa. E podes aproveitar para devolver a roupa ao Tim. J percebi que ests desconfortvel e cheio 
de calor.
- Podes crer no que te digo, esta roupa no faz nem de perto nem de longe tanto calor como os capacetes, as botas e as couraas.
A Savannah inclinou a cabea na minha direco. - Gosto de te ouvir falar de couraas. So raros os rapazes da minha faculdade que falam como tu. Acho interessante.
- Ests a gozar comigo?
- Estou s a tomar nota para no me esquecer. - Apoiou-se graciosamente na rvore. - O Tim j deve estar quase despachado.
Eu segui-lhe o olhar, no dando por qualquer diferena. - Como  que sabes?
- Ests a ver como ele juntou as mos? Isso significa que se est a preparar para se despedir. No tarda, vai estender a mo, vai sorrir ou assentir com a cabea, 
e depois vem-se embora.
Eu vi o Tim a fazer exactamente o que a Savannah previra e a encaminhar-se devagar na nossa direco. Reparei na sua expresso divertida. Encolheu os ombros. - Quando 
moramos numa cidade pequena como eu, no h muito mais que fazer para alm de observar as pessoas. Passados uns tempos, comeamos a reconhecer padres.
Na minha modesta opinio, deveria ter havido ali observao do Tim a mais, mas no me sentia muito disposto a reconhecer este facto.
- Ento... - O Tim ergueu uma mo. - J esto despachados?
- Estvamos s  tua espera - salientou a Savannah.
- Desculpem l - disse ele. - Deixmo-nos absorver pela conversa.
- Tu no paravas de falar com toda a gente.
- Eu sei - reconheceu ele. - Ando a tentar ser mais reservado. Ela riu-se, e, embora a troca de comentrios familiares me tivesse colocado momentaneamente fora do 
crculo de intimidade de ambos, tudo isso foi ultrapassado no momento em que regressvamos ao carro e a Savannah me deu o brao.
Quando voltmos, encontrmos toda a gente acordada, e a maior parte j estava de fato de banho e a trabalhar para o bronze. Alguns achavam-se estendidos na varanda 
do piso superior; a maior parte decidira reunir-se na praia. Da casa vinha msica em altos berros, as geleiras estavam novamente cheias e a postos, e vrios deles 
estavam a beber, a cura milenar para quem sofre das dores de cabea da ressaca. No estou a tecer juzos; na verdade, uma cerveja at me saberia bem, porm, uma 
vez que acabara de estar na igreja, achei melhor esquecer.
Mudei de roupa, dobrando a do Tim da maneira que aprendera na tropa, depois voltei para a cozinha. Encontrei-o a preparar uma travessa de sanduches.
- Serve-te  vontade - disse-me ele com um gesto. - C em casa h montanhas de comida. Podes ter a certeza... Fui eu quem passou ontem trs horas nas compras. - 
Passou as mos por gua e enxugou-as numa toalha. - Pronto. Agora  a minha vez de mudar de roupa. A Savannah deve estar mesmo a descer.
O Tim saiu da cozinha. Sozinho, olhei em meu redor. A casa estava decorada num estilo tradicional de praia: imensa moblia de verga de cores vivas, candeeiros feitos 
a partir de conchas, pequenas estatuetas de faris por cima da consola da lareira, pinturas a pastel da costa.
Os pais da Lucy tinham uma casa como aquela. No ali, mas em Bald Head Island. Nunca a alugavam, preferiam l passar os veres.  claro que o pai dela ainda tinha 
de trabalhar em Winston-Salem, e ele e a mulher regressavam a casa alguns dias por semana, deixando a pobre Lucy sozinha. Excepto pela minha presena, claro est. 
Tivessem eles descoberto o que se andava a passar ali, e o mais provvel era que no nos deixassem sozinhos.
- Ento - disse a Savannah. Vestira novamente o biquini, embora estivesse tambm de cales. - Vejo que regressaste ao normal.
- Como  que percebeste?
- J no tens os olhos salientes por causa do colarinho apertado. Sorri-lhe. - O Tim preparou umas sanduches.
- Que maravilha. Estou esfomeada - disse ela, comeando a andar de volta da cozinha. - J tiraste alguma?
- Ainda no - respondi-lhe.
- bom, ento tira. Detesto comer sozinha.
Deixmo-nos ficar a comer na cozinha. As raparigas que se achavam na varanda no deram pela nossa presena, e eu estava a ouvir uma delas a falar sobre o que fizera 
com um dos rapazes na noite anterior, e nada do que dizia dava a ideia de que ela se encontrava ali numa misso de solidariedade para com os mais carecidos. A Savannah 
franziu
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o nariz, como que a dizer:  informao a mais", em seguida virou-se para o frigorfico: - Estou cheia de sede. Queres beber alguma coisa?
- Pode ser gua.
A Savannah inclinou-se para pegar numas garrafas. Tentei evitar colar os olhos nela, mas no fui capaz e, para ser sincero, gostei. Perguntei-me se ela percebia 
que eu estava a fit-la e parti do princpio de que sim, porque, quando ela se levantou e se virou, tinha outra vez aquele sorriso travesso. Pousou as garrafas em 
cima da bancada.
- Depois de comermos, queres ir outra vez fazer surf?
Como poderia eu resistir?
Passmos a tarde dentro de gua. Por muito que eu apreciasse a viso da Savannah estendida em cima da prancha que me estava a ser proporcionada em grande plano, 
gostava ainda mais de a ver a fazer surf. Para compor ainda mais o quadro, ela pediu-me que a deixasse ficar a ver-me enquanto se aquecia na areia, e eu pude usufruir 
da minha viso exclusiva enquanto desfrutava das ondas.
A meio da tarde, achvamo-nos deitados nas toalhas lado a lado, mas sem ser demasiado prximos, o resto do grupo nas traseiras da casa. Uns quantos olhares curiosos 
vaguearam na nossa direco, mas a grande maioria no parecia incomodada com a minha presena ali,  excepo do Randy e da Susan. A Susan franziu intencionalmente 
o sobrolho  Savannah; o Randy, entretanto, contentava-se em fazer de vela ao Brad e  Susan, enquanto ia lambendo as feridas. Do Tim no havia sinal.
A Savannah estava deitada de barriga para baixo, uma viso tentadora. Eu encontrava-me estendido de costas ao lado dela, tentando adormecer ao calor indolente, mas 
demasiado concentrado na presena dela para me conseguir descontrair completamente.
- Eh - murmurou-me ela. - Fala-me das tuas tatuagens. Eu virei a cabea na areia. - O que  que elas tm?
- No sei. O que  que te levou a faz-las, qual  o seu significado.
Eu apoiei-me num cotovelo. Apontei para o meu brao esquerdo. Que tinha uma guia e uma bandeira. - bom, isto  a insgnia da infantaria, e isto - indiquei as letras 
-  a nossa identificao: companhia, batalho, regimento. Toda a gente no meu peloto tem uma tatuagem destas. Fizemo-las enquanto estvamos a comemorar o final 
do curso de treino bsico que recebemos em Fort Benning, na Gergia.
- Por que  que diz "Pegar de Empurro" por baixo?
- Isso  a minha alcunha. Puseram-ma durante o treino bsico, obsquio do nosso adorado sargento de exerccios militares. Eu no estava a conseguir montar a arma 
com rapidez suficiente, e o que ele me disse basicamente foi que, se no me despachasse, fazia uma certa parte da minha anatomia pegar de empurro. E a alcunha pegou.
- Ele parece ser uma pessoa muito agradvel - ironizou ela.
- Sem dvida. Chamvamos-lhe Lcifer pelas costas.
A Savannah sorriu. - E o arame farpado por cima, para que ?
- Para nada - respondi-lhe, abanando a cabea. - Essa j a tinha quando me alistei.
- E o outro brao?
Caracteres chineses. Eu no queria abordar aquele assunto, por isso abanei a cabea. - Isso foi quando eu andava na fase: "Ando  deriva e nas tintas para isso". 
No significa nada.
- No est escrito em caracteres chineses?
- Est.
- Ento o que  que quer dizer? Tem de querer dizer alguma coisa. Do tipo bravura, honra, ou isso assim.
-  uma blasfmia.
- Oh - fez ela, com um pestanejar dos olhos.
- Tal como j disse, para mim, agora j no significa nada.
- Mas olha, se alguma vez fores  China, talvez seja melhor no andares por l a exibi-la.
Eu soltei uma gargalhada. - Pois, bem pensado - concordei.
A Savannah manteve-se alguns instantes em silncio. - Ento eras rebelde, ha?
Assenti com a cabea. -J foi h muito tempo. bom, no tanto como isso. Mas a mim parece-me que foi.
- Era a isso que te referias quando disseste que nessa altura a tropa te fazia falta?
- Tem-me feito bem.
Ela ponderou nas minhas palavras. - Diz-me uma coisa... Nesse tempo ter-te-ias atirado  gua para me ires buscar o saco? No. O mais certo era ter-me rido do que 
te sucedeu.
A Savannah pesou a minha resposta, como que a decidir se deveria acreditar em mim ou no. Por fim, respirou fundo. - Ainda bem que te alistaste. O saco fazia-me 
mesmo falta.
?- Ainda bem.
- E que mais?
- Que mais o qu?
Que mais  que me tens a contar sobre a tua vida?
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- No sei. O que  que queres saber?
- Conta-me uma coisa que mais ningum saiba a teu respeito. Eu considerei o pedido. - Posso dizer-te quantas moedas de dez
dlares com um ndio e o rebordo levantado foram cunhadas em 1907.
- Quantas?
- Quarenta e duas. No estavam destinadas ao pblico. Foram uns funcionrios da casa da moeda que as fizeram para si prprios e para oferecer aos amigos.
- Gostas de moedas?
- No sei ao certo.  uma longa histria.
- Temos tempo.
Eu hesitei enquanto a Savannah estendia a mo para ir buscar o saco. - Espera um segundo - disse-me, vasculhando o saco. Tirou uma bisnaga de Coppertone. - Podes 
contar-me depois de me pores protector nas costas. Estou a ficar vermelha.
- Oh, posso, ?
Ela piscou-me o olho. -  o que est no nosso acordo.
Apliquei-lhe o protector solar nas costas e nos ombros e o mais provvel  ter exagerado um pouco, mas convenci-me de que ela estava a ficar vermelha e que, com 
um escaldo, no dia seguinte no conseguiria trabalhar como deve ser. Em seguida, falei-lhe resumidamente sobre o meu av e o meu pai, sobre as exposies de moedas 
e o bom e velho Eliasberg. O que eu evitei foi responder concretamente  pergunta dela, pela simples razo de que no tinha a certeza absoluta de qual fosse a resposta. 
Quando cheguei ao fim, a Savannah virou-se para mim.
- E o teu pai ainda colecciona moedas?
- No faz outra coisa. Pelo menos,  a impresso que eu tenho. Mas j no temos conversas a respeito de moedas.
- Por que no?
Contei-lhe tambm essa histria. No me perguntem porqu. Eu devia estar a dar o meu melhor e a impingir-lhe tretas para a impressionar, mas com a Savannah isso 
no era possvel. Fosse l por que motivo fosse, ela dava-me vontade de lhe contar a verdade, embora mal a conhecesse. Quando acabei, vi-lhe uma expresso curiosa.
- Eu sei, fui um cretino - admiti, ciente de que haveria provavelmente palavras mais adequadas para descrever as minhas atitudes naquela poca, todas elas suficientemente 
blasfemas para a ofender.
- D ideia disso - observou ela -, mas no era isso que eu estava a pensar. Estava a tentar imaginar como  que serias nesse tempo, porque agora, no te pareces 
rigorosamente nada com esse tipo de pessoas.
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O que poderia eu dizer que no soasse a falso, ainda. que fosse a verdade? Inseguro, optei pela abordagem do meu Pai e no disse nada.
- Como  que  o teu pai?
Fiz-lhe uma breve sntese. Enquanto eu ia falando, a Savannah desenterrava areia com a mo em concha e deixava-a escapar-se-lhe por entre os dedos, como se estivesse 
concentrada nas Palavras que eu usava. No fim, surpreendendo-me a mim prpri? uma vez mais, reconheci que ramos praticamente estranhos.
- Pois so - concordou ela, recorrendo a um tom Prosaico e isento de juzos de valor. - Tu j ests afastado? h alguns anos, e at mesmo tu prprio reconheces que 
mudaste. Como e que ele te poderia conhecer?
Sentei-me. A praia estava cheia de gente; era a hora do dia em que todas as pessoas que tinham planeado l passar o dia j l se encontravam, e ainda no apetecia 
a ningum ir-se embora. O Randy e o Brad achavam-se a jogar Frisbee  beira-mar, a correr e a gritar. Alguns dos outros tinham-se-lhes juntado.
- Eu sei - admiti. - Mas no se trata apenas disso. Ns sempre fomos como dois estranhos.  que eu tenho imensa dificuldade em falar com ele.
Mal acabei de dizer isto, apercebi-me de que ela era a primeira pessoa a quem admitia isto. Estranho. Mas a verdade  que a maior parte daquilo que eu lhe estava 
a contar me parecia estranho.
- H muita gente da nossa idade que diz o mesmo a respeito dos pais.
" possvel", pensei. Mas aquilo era diferente. No se tratava de diferenas entre geraes, era o facto de o meu pai ser completamente incapaz de travar uma conversa 
banal, a menos que fosse sobre moedas. Todavia, eu no adiantei mais nada, e a Savannah alisou a areia  sua frente. Quando falou, a sua voz era suave. - Eu gostaria 
de o conhecer.
Eu virei-me para ela. - A srio?
- Parece-me ser uma pessoa interessante. Sempre gostei de pessoas que tm... paixo pela vida.
- A paixo dele  por moedas, no pela vida - emendei-a eu.
- Vai dar ao mesmo. Paixo  sempre paixo.  o entusiasmo que separa os momentos de tdio, e no importa ao que  dirigido. - Ela arrastou os ps na areia. - bom, 
a maioria das vezes, pelo menos. No estou a incluir os vcios.
- Como tu e a cafena.
Ela sorriu, exibindo a pequena falha entre os dentes da frente. Precisamente. Podem ser moedas, desportos, poltica, cavalos, f... as
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pessoas mais tristes que j encontrei na vida so as que no se interessam verdadeiramente por nada. A paixo e a realizao andam de mos dadas, e, sem ambas, a 
felicidade  apenas temporria, porque no h nada que a faa durar. Eu adoraria ouvir o teu pai a falar sobre moedas, porque  nessas alturas que vemos as pessoas 
no seu melhor, e eu j descobri que a felicidade dos outros , em geral, contagiosa.
As palavras dela impressionaram-me. No obstante a opinio do Tim, que a considerava ingnua, a Savannah pareceu-me bastante mais madura que a maior parte das pessoas 
da sua idade. Mas a verdade  que, tendo em considerao a maneira como o biquini lhe assentava, ela poderia ter debitado a lista telefnica  minha frente que eu 
teria ficado impressionado na mesma.
A Savannah sentou-se a meu lado, e o olhar dela seguiu o meu. O jogo de Frisbee atingira o seu momento alto;  medida que o Brad lanava o disco cheio de vigor, 
dois dos outros precipitaram-se para o apanhar. Ambos mergulharam para agarrar o disco, caindo na areia e batendo com a cabea um no outro. O dos cales vermelhos 
ficou de mos a abanar, praguejando e segurando a cabea, os cales cheios de areia. Os outros riram-se, e eu dei por mim a sorrir e a retrair-me em simultneo.
- Viste aquilo? - perguntei  Savannah.
- Espera um instante - disse-me ela  laia de resposta. - Venho j. - Correu at ao dos cales vermelhos. Este viu-a a aproximar-se e ficou petrificado, tal como 
o rapaz que estava com ele. A Savannah, apercebi-me eu, provocava um efeito semelhante em todos os rapazes, no era impresso minha. Eu via-a a falar e a sorrir, 
dirigindo um olhar srio ao rapaz, que ia assentindo com a cabea  medida que ela falava, com um ar de adolescente que leva um castigo. Ela voltou para junto de 
mim e tornou a sentar-se. No lhe fiz qualquer pergunta, uma vez que no era nada da minha conta, mas sabia que a minha curiosidade era indisfarvel.
- Em circunstncias normais, eu no lhes teria dito nada, mas pedi-lhe para ter cuidado com a lngua, por causa das famlias que aqui esto - explicou-me. - H imensos 
midos aqui em volta. Ele prometeu que sim.
Eu devia ter calculado. - Sugeriste-lhe que usasse "minha santa me" e Jesus" em vez disso?
Ela deitou-me uma olhadela travessa. - Tu gostaste mesmo dessas expresses, no gostaste?
- Estou a pensar em ensin-las ao meu peloto. Vo contribuir para aumentar o nosso factor de intimidao quando andarmos a arrombar portas e a arremessar RPGs.
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- Ela soltou uma leve gargalhada. - No h dvida de que deve ser muito pior que praguejar, uma vez que eu nem sequer sei o que so RPGs.
- Granadas lanadas por uma bazuca. - Apesar de isso ir contra a minha vontade, a cada minuto que passava eu gostava cada vez mais dela. - O que  que fazes logo 
 noite?
- No tenho nada programado. bom, a no ser a tal reunio. Porqu? Estavas a pensar em levar-me a conhecer o teu pai?
- No. bom, pelo menos hoje  noite no. Um dia destes. Hoje queria levar-te a conhecer Wilmington.
- Ests a convidar-me para sair contigo?
- Estou - admiti. - Trago-te a casa  hora que quiseres. Sei que tens de ir trabalhar amanh, mas h um stio fantstico que queria que conhecesses.
- Que gnero de stio?
- Um restaurante de cozinha tpica. E especializado em marisco. Mas  mais pela experincia que vale a pena.
A Savannah abraou-se aos joelhos. - No costumo aceitar convites de desconhecidos - acabou ela por dizer -, e s ontem  que nos conhecemos. Achas que s de confiana?
- Nem por isso.
Ela riu-se. - bom, nesse caso, talvez eu possa abrir uma excepo.
- Ah sim?
- Sim - confirmou ela. - Sou incapaz de resistir a tipos honestos com cabelo  escovinha. A que horas?
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CAPTULO QUATRO
Cheguei a casa s cinco da tarde, e embora no sentisse a pele queimada - l estava a minha pele caracteristicamente mediterrnica -, quando me meti debaixo do duche, 
o escaldo tornou-se-me bvio. A gua magoava-me  medida que me fazia ricochete no peito e nos ombros, e sentia a cara como se estivesse com febre baixa. Em seguida, 
fiz a barba pela primeira vez desde que chegara a casa e vesti um par de cales lavados e uma das poucas camisas razoavelmente boas que tinha, azul-clara. Fora 
a Lucy quem ma oferecera e jurara que a cor me ficava a matar. Arregacei as mangas e deixei a camisa por fora do cs, depois pus-me  procura dum velho par de sandlias 
dentro do armrio.
Atravs da fresta na abertura da porta, via o meu pai  secretria, e dei-me conta de que, pela segunda noite consecutiva, eu fizera planos para jantar fora. Nem 
sequer lhe fizera companhia durante o fim-de-semana. Ele no se iria queixar, disso eu j sabia, mas senti apesar de tudo uma pontada de culpa. Depois de termos 
deixado de falar de moedas, limitvamo-nos a tomar o pequeno-almoo e o jantar juntos, e at disso eu o estava agora a privar. Talvez eu no tivesse mudado assim 
tanto como pensava. Estava a viver em casa dele e a comer da comida dele, e estava prestes a pedir-lhe se no se importava de me emprestar o carro. Por outras palavras, 
vivia a minha vida e, entretanto, ia-me servindo dele. Perguntei-me o que diria a Savannah quilo, mas acho que j sabia a resposta. A Savannah por vezes assemelhava-se 
muito a uma vozinha que se tivesse instalado dentro da minha cabea, mas que nunca se dava  maada de pagar a renda, e neste preciso momento estava a sussurrar-me 
que, se me sentia culpado, talvez fosse porque no estava a proceder bem. Decidi que iria passar a fazer mais companhia ao meu pai. Era uma desculpa, e estou pronto 
a reconhecer isso, mas no sabia que mais fazer.
Quando abri a porta, o meu pai dirigiu-me um olhar de espanto. Ol, pai - cumprimentei-o, sentando-me no meu poiso habitual -
Ol, John. - Mal acabou de dizer isto, deitou uma olhadela 
secretria e passou uma mo pelo cabelo a rarear. Quando viu que eu no acrescentava nada, o meu pai apercebeu-se de que era a sua vez de me fazer uma pergunta. 
- Como  que te correu o dia? - acabou por indagar.
Pouco  vontade, ajeitei-me na cadeira. - Por acaso, foi ptimo. Passei a maior parte do tempo com a Savannah, a rapariga de que lhe falei ontem  noite.
Oh. - Os olhos dele desviaram-se para o lado, recusando-se a
encontrar os meus. - Ainda no me tinhas falado nela.
- A srio?
- Sim, mas no tem importncia. J era tarde. - Pela primeira vez, deu mostras de reparar que eu estava bem vestido, ou pelo menos de que nunca me tinha visto to 
bem vestido, mas no teve coragem para me perguntar aonde  que eu ia.
Puxei pela camisa, poupando-o ao embarao. - Pois, eu sei, tenho de fazer o possvel para a impressionar, no ? vou lev-la a jantar esta noite - disse-lhe eu. 
- No se importa de me emprestar o carro?
- Oh... est bem - acedeu.
- Quer dizer, no vai precisar dele hoje? Eu posso telefonar a um amigo meu, ou isso.
- No - garantiu-me ele. Levou uma mo ao bolso para tirar as chaves. Nove pais em dez teriam atirado com elas; o meu estendeu-mas.
- Est tudo bem consigo? - questionei-o.
-  s cansao - respondeu ele.
Eu levantei-me e aceitei as chaves. - Pai? Ele ergueu o olhar na minha direco.
Desculpe no jantar consigo nestas duas ltimas noites. - No tem importncia - disse ele. - Eu compreendo.
O Sol estava a comear a sua descida no horizonte e, quando eu arranquei com o carro, o cu era uma espiral de cores frutadas que contrastava de forma dramtica 
com os crepsculos que eu conhecia da Alemanha. O trnsito estava infernal, tal como vinha sendo hbito aos domingos  noite, e levei quase trinta minutos imersos 
em fumos de escape a regressar  praia e a estacionar.
Abri a porta da casa sem bater. Dois rapazes sentados no sof a ver um jogo de basebol deram pela minha chegada.
- Ol - cumprimentaram-me, no demonstrando nem interesse nem surpresa.
- Viram a Savannah?
- Quem? - indagou um deles, obviamente sem me prestar grande ateno.
- Deixa l. Eu descubro onde ela est. - Atravessei a sala de estar at  varanda das traseiras, vi o mesmo rapaz da noite anterior outra vez de volta do grelhador 
e mais alguns, mas da Savannah nem sinal. Nem to-pouco a via na praia. Estava j a preparar-me para voltar para dentro de casa quando senti baterem-me no ombro.
- De quem  que andas  procura? - perguntou-me ela.
Dei meia-volta. - Duma rapariga - respondi-lhe. - Ela tem tendncia a perder coisas nos pontes, mas, no que se refere ao surf, aprende depressa.
A Savannah levou as mos s ancas e sorriu-me. Tinha vestidos uns cales e uma camisola sem mangas a apertar atrs no pescoo, aplicara um leve toque de maquilhagem 
nas faces, e reparei tambm que tinha posto um pouco de rmel e de batom. Apesar de eu adorar a beleza natural dela - afinal, sou um rapaz de praia - achei-a ainda 
mais impressionante do que me lembrava. Ao inclinar-me para ela, senti um toque a uma fragrncia de limo.
- No passo disso? Duma rapariga? - interrogou-me. O tom dela era simultaneamente srio e brincalho, e, por um momento, imaginei-me a tom-la nos braos sem mais 
delongas.
- Oh - disse eu, simulando surpresa. - s tu.
Os dois rapazes no sof olharam-nos de relance, em seguida tornaram a concentrar-se no ecr.
- J ests pronta? - perguntei-lhe.
- S me falta ir buscar a mala - disse ela. Foi busc-la  bancada da cozinha e dirigimo-nos para a porta da rua. - E, j agora, aonde  que vamos?
Quando a informei, arqueou uma sobrancelha.
- Vais levar-me a um restaurante com a palavra "choupana" no nome?
- No passo dum soldado mal pago. No me posso dar a grandes luxos.
Ela deu-me um encontro pelo caminho. - Ests a ver,  por isso que no gosto de sair com estranhos.
A Choupana do Camaro ficava na baixa de Wilmington, na zona histrica em volta do rio Cape Fear. Numa das extremidades da zona histrica, encontravam-se os tpicos 
destinos tursticos: lojas de souvenirs, alguns estabelecimentos especializados em antiguidades, alguns restaurantes de luxo, cafs e vrias agncias imobilirias. 
Porm, na extremidade oposta, Wilmington revelava o seu carcter de cidade porturia: grandes armazns, vrios dos quais entregues ao abandono, e mais alguns edifcios 
aproveitados apenas em parte. Duvidava de que os turistas que l acorriam em massa durante o Vero se aventurassem at ali. Foi esta a direco que eu tomei. A pouco 
e pouco,  medida que nos amos embrenhando na zona mais degradada, as multides foram-se dissipando at no se ver ningum nos passeios.
- Onde  que fica esse restaurante? - quis saber a Savannah.
- Um bocadinho mais adiante - respondi-lhe eu. - Ali  frente, ao fundo.
- Fica um bocadinho fora de mo, no fica?
-  uma espcie de instituio local - expliquei-lhe. - O proprietrio no quer saber se os turistas aqui vm ou no. Foi sempre assim.
Passado um instante, abrandei o carro e virei para um pequeno parque de estacionamento que ladeava um dos armazns. Havia meia dzia de veculos estacionados em 
frente da Choupana do Camaro, tal como sempre, e o restaurante no tinha mudado nada. Desde que o conhecia que tinha um aspecto degradado, com um alpendre largo 
e atravancado, a tinta a descascar, e uma linha do telhado descada que dava a ideia de que o edifcio iria ruir a todo o momento, no obstante o facto de ter vindo 
a resistir a furaces desde os anos 40. O exterior tinha a decor-lo redes, calotas e matrculas de automveis, uma velha ncora, remos e ainda algumas correntes 
ferrugentas. Junto a porta, via-se um velho barco a remos.
Quando chegmos  entrada, o cu comeava a sua lenta progresso para negro. Perguntei-me se no deveria dar a mo  Savannah, mas acabei por no fazer nada. Embora 
tivesse granjeado dalgum xito a nvel de hormonas com mulheres, tinha muito pouca experincia no que se referia a raparigas de quem gostasse. Apesar de s nos conhecermos 
h um dia, eu j sabia que me encontrava em territrio inexplorado.
Entrmos no alpendre abaulado, e a Savannah apontou para o barco a remos. - Talvez tenha sido por isso que ele abriu o restaurante. Por o barco ter ido ao fundo.
-  possvel. Ou ento talvez algum o tenha deixado aqui e ele no se deu ao trabalho de o tirar. Ests preparada?
- Mais no poderia estar - assegurou-me ela, e eu empurrei a porta.
No sei do que  que ela estaria  espera, mas fez uma expresso satisfeita quando entrou no restaurante. Havia um grande balco que percorria um dos lados, janelas 
com vista para o rio e, na rea principal de lugares sentados, bancos de piquenique de madeira. Umas quantas empregadas de mesa com cabeleiras enormes - tal como 
a decorao, elas no tinham sofrido grandes alteraes - andavam de volta das mesas, transportando travessas de comida. O ar estava impregnado do odor a fritos 
e tabaco, mas, por alguma razo, aquele cheiro parecia adequado ao lugar. As mesas encontravam-se quase todas ocupadas, mas eu dirigi-me para uma ao p da jukebox. 
Estava a tocar uma velha cano country, embora eu no fosse capaz de precisar quem era o intrprete. Sou mais adepto do rock clssico.
Abrimos caminho por entre as mesas. A maioria dos clientes tinha aspecto de trabalhar no duro para ganhar a vida: operrios da construo civil, jardineiros, camionistas, 
esse gnero. J no via tantos bons das corridas da NASCAR desde... bom, nunca tinha visto tantos. Alguns dos meus camaradas de peloto eram fs, mas a mim nunca 
me puxou para me pr a ver um monte de tipos a conduzir s voltas o dia inteiro, e no percebia por que  que no publicavam os artigos na seco automobilstica 
do jornal em lugar de na seco desportiva. Sentmo-nos frente a frente, e reparei na Savannah a observar a sala.
- Gosto de restaurantes como este - comentou ela. - Era este stio que costumavas frequentar quando c moravas?
- No, este era mais para as ocasies especiais. Eu costumava parar num stio chamado Leroy's.  um bar prximo da praia de Wilmington.
Ela estendeu a mo para pegar num menu de papel laminado preso entre um suporte para guardanapos de metal e frascos de ketchup e piripiri Texas Pete.
- Est muito melhor assim - disse ela. Abriu a ementa. Ento qual  a especialidade c do stio?
- Camaro - declarei.
- Jesus, no me digas - ripostou ela.
- A srio. Todo o tipo de camaro que possas imaginar. Lembras-te daquela cena do Forrest Gump em que o Bubba fala ao Forrest de
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todas as maneiras de preparar camaro? Grelhado, salteado, no churrasco, camaro cajun, camaro com limo, camaro crioulo, cocktail de camaro... Aqui  o mesmo.
Como  que tu gostas dele?
Eu gosto dele frio com molho de cocktail  parte. Ou ento frito.
A Savannah fechou a ementa. - Escolhe tu - decidiu ela, fazendo deslizar a ementa na minha direco. - Confio em ti.
Eu tornei a enfi-la no seu lugar, encostada ao suporte dos guardanapos.
- Ento?
Frio. Num balde.  a experincia perfeita.
Ela debruou-se sobre a mesa. - Quantas mulheres  que j aqui trouxeste? Para a experincia perfeita, quero eu dizer.
- Incluindo tu? Deixa-me pensar. - Tamborilei com os dedos no tampo da mesa. - Uma.
-  uma honra.
- Era a este stio que eu e os meus amigos vnhamos quando nos apetecia mais comer que beber. No havia nada que nos soubesse melhor depois dum dia passado a fazer 
surf.
- Tal como eu estou prestes a descobrir.
A empregada veio ter connosco e eu pedi o camaro. Quando perguntou o que  que queramos beber, ergui as mos.
- Ch doce, por favor - pediu a Savannah.
- O mesmo para mim - acrescentei.
Quando a empregada se foi embora, a conversa instalou-se facilmente entre ns, prosseguindo sem interrupes mesmo depois da chegada das bebidas. Tornmos a falar 
da vida militar; no sei por que razo, o tema parecia fascinar a Savannah. Quis tambm saber coisas a respeito da minha infncia ali. Acabei por lhe contar mais 
que pretendia sobre os meus tempos de liceu, e provavelmente de mais acerca dos trs anos antes de me alistar.
Ela ouviu-me com toda a ateno, fazendo-me uma pergunta por outra, e eu apercebi-me de que havia muito tempo que no saa com uma rapariga assim; alguns anos, calculava. 
No desde que me separara da Lucy, pelo menos. No via nenhum motivo especial para isso, contudo, ali sentado em frente da Savannah, vi-me obrigado a repensar a 
minha deciso. Gostava de estar sozinho com ela, e desejava v-la mais vezes. No apenas esta noite, mas no dia seguinte e no outro ainda. Tudo nela - desde a maneira 
descontrada como se ria at ao seu sentido de humor, passando pela bvia preocupao com outros - me parecia refrescante e desejvel. Mas, para alm
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disso, estar na companhia dela tambm me fazia perceber o quanto a minha vida fora solitria. No admitiria isso a mim prprio, no entanto, bastou-me passar dois 
dias com a Savannah para saber que isso era verdade.
- Vamos pr uma msica a tocar - sugeriu ela, interrompendo-me os pensamentos.
Levantei-me, vasculhei os bolsos  procura dalgumas moedas de vinte e cinco cntimos e meti-as ma jukebox. A Savannah apoiou ambas as mos no vidro e inclinou-se 
para a frente para ler os ttulos, em seguida escolheu umas quantas canes. Quando voltmos para a mesa, a primeira j estava a tocar, embora eu no fizesse ideia 
de quem a cantava.
- Sabes, acabei de me aperceber de que at agora fui s eu quem falou - disse-lhe.
- Tu s muito conversador - comentou ela.
Libertei os talheres do guardanapo de papel enrolado. - Ento e tu? Tu sabes tudo a meu respeito, mas eu no sei nada sobre ti.
-  claro que sabes - retorquiu ela. - Sabes que idade tenho, em que faculdade  que ando, qual  a minha cadeira principal, e que no bebo lcool. Sabes que venho 
de Lenoir, que moro num rancho, que adoro cavalos e que passo os meus veres a construir casas para a Habitat Humanity. Sabes imensas coisas.
Pois era, reparei eu subitamente, sabia de facto. Incluindo coisas que ela no mencionara. - No chega - insisti. - Agora  a tua vez.
A Savannah debruou-se sobre a mesa. - Pergunta-me o que quiseres.
- Fala-me dos teus pais - pedi-lhe.
- Est bem - acedeu ela, estendendo a mo para pegar no guardanapo. - Os meus pais so casados h vinte e cinco anos, e continuam a ser muito felizes e apaixonados. 
Conheceram-se quando andavam na universidade, na Estatal dos Apalaches, e a minha me trabalhou uns anos num banco at eu nascer. Desde a, ficou em casa para me 
criar, e  o gnero de mulher que est sempre pronta para ajudar toda a gente. Ajudava os professores nas aulas, oferecia-se para dar boleia aos midos, treinava 
a nossa equipa de futebol, era dirigente da associao de pais e professores, esse tipo de coisas. Agora que eu j sa de casa, ocupa os dias com outro tipo de trabalho 
voluntrio: na biblioteca, nas escolas, na igreja, o que for preciso. O meu pai  professor de histria e treina a equipa feminina de voleibol desde os meus tempos 
de mida. No ano passado conseguiram chegar s
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finais estaduais, mas perderam. Tambm  dicono na nossa igreja, e orienta um grupo de jovens e o coro. Queres que eu te mostre uma fotografia?
Claro - disse eu.
A Savannah procurou dentro da mala e tirou a carteira. Abriu-a e empurrou-a na minha direco, os nossos dedos roaram.
Esto um bocadinho comidas nos cantos de terem cado  gua
explicou-me -, mas d para ficares com uma ideia.
Virei a fotografia ao contrrio. A Savannah era mais parecida com o pai que com a me, ou pelo menos fora dele que herdara a compleio morena.
- Formam um belo casal.
- Eu adoro-os - confessou ela, pegando novamente na carteira.
- So o mximo.
- Por que  que moram num rancho se o teu pai  professor?
- Oh, no  um rancho de trabalho. J foi em tempos, quando era do meu av, mas ele teve de ir vendendo alguns terrenos aos poucos para pagar os impostos sobre a 
propriedade. Quando o meu pai o herdou, resumia-se a dez acres, com uma casa, estbulos e um curral. Parece mais um grande jardim que um rancho.  sempre assim que 
nos referimos a ele, mas acho que  capaz de transmitir a ideia errada, no ?
- Eu sei que j me disseste que costumavas fazer ginstica, mas no jogaste voleibol na equipa do teu pai?
- No - respondeu-me. - Quer dizer, ele  um ptimo treinador, mas sempre me encorajou a fazer aquilo que mais se adequava  minha maneira de ser. E no era o voleibol. 
Eu tentei e no era m de todo, mas no era daquilo que eu gostava.
- Tu gostavas era de cavalos.
- Desde mida. Quando eu era muito pequena, a minha me ofereceu-me uma estatueta dum cavalo, e foi a que tudo comeou. Deram-me o meu primeiro cavalo aos oito 
anos, pelo Natal, e continua a ser a melhor prenda de Natal que recebi at hoje. A Slocum. Era uma gua j velha e muito doce, e era ideal para mim. O nosso acordo 
era que eu tinha de tratar dela: aliment-la, escovar-lhe o plo e manter a baia dela limpa. Entre ela, a escola, a ginstica e tratar do resto dos animais, no 
tinha tempo para muito mais.
- O resto dos animais?
- Durante a minha infncia, a nossa casa era como se fosse uma quinta. Ces, gatos, at tivemos um lama durante uns tempos. Eu no conseguia resistir aos animais 
abandonados. A situao chegou
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a um ponto em que os meus pais j nem sequer me tentavam contrariar. Em geral, havia sempre uns quatro ou cinco. De quando em vez, passava um dono l por casa, na 
esperana de encontrar algum animal de estimao perdido e, se no conseguia encontr-lo, levava uma das nossas mais recentes aquisies. ramos uma espcie de canil.
- Os teus pais deviam ter muita pacincia.
- Se tinham - reconheceu a Savannah. - Mas eles tambm no lhes conseguiam resistir. Apesar de se recusar a admiti-lo, a minha me ainda era pior que eu.
Perscrutei-a. - Aposto que eras boa aluna.
- Sempre as notas mximas a tudo. Fui eu quem fez o discurso de final de curso do meu ano.
- Por que ser que isso no me surpreende?
- No sei - disse ela. - Porqu?
No lhe respondi. - Alguma vez tiveste um namorado a srio?
- Oh, agora  que comeamos a chegar ao fulcro da questo, hum?
- S perguntei por perguntar.
- O que  que te parece?
- Acho que... - disse eu arrastando as palavras - que no fao ideia.
Ela riu-se. - Ento... vamos deixar essa pergunta de lado por enquanto. Um pouco de mistrio faz bem  alma. Para alm do mais, quase posso apostar que tu sers 
capaz de descobrir isso sozinho.
A empregada chegou com o balde de camaro e alguns recipientes de plstico com molho de cocktail, pousou-os em cima da mesa e tornou a servir-nos ch com a eficincia 
de quem no fez outra coisa na vida. Deu meia-volta nos calcanhares sem nos perguntar se precisvamos de mais alguma coisa.
- Este stio  lendrio pela hospitalidade.
- Ela deve estar muito ocupada - desculpou-a a Savannah, servindo-se do camaro. - E, para alm do mais, acho que ela j percebeu que tu me ests a fazer um interrogatrio 
cerrado e quis deixar-me entregue ao meu inquisidor.
Ela partiu e descascou um camaro, em seguida mergulhou-o no molho e provou-o. Eu enfiei a mo no balde e coloquei alguns no prato.
- O que mais  que queres saber?
- No sei. Qualquer coisa. Qual  a melhor coisa em andar na faculdade?
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A Savannah ponderou na pergunta enquanto enchia o prato. - Bons professores - acabou por dizer. - Na faculdade, desde que estejamos dispostos a ser flexveis com 
os horrios, por vezes podemos escolher os professores que melhor nos convm.  disso que eu gosto. Foi esse o conselho que o meu pai me deu antes de eu entrar para 
l. Disse-me para, sempre que pudesse, escolher as cadeiras com base no professor e no na matria. Quer dizer, ele sabia que precisamos de fazer certas cadeiras 
para tirar um diploma, mas o que queria salientar era que os bons professores tm um valor inestimvel. Eles inspiram-nos, divertem-nos, e acabamos por aprender 
imenso quase sem darmos por isso.
- Porque eles so apaixonados pelas matrias que do - intervim eu.
A Savannah piscou-me o olho. - Exactamente. E o meu pai tinha razo. Inscrevi-me em cadeiras pelas quais nunca pensei vir a interessar-me e to distantes da minha 
cadeira principal quanto tu possas imaginar. Mas sabes uma coisa? Ainda me lembro dessas aulas como se as tivesse tido ontem.
- Estou impressionado. Julguei que ias dizer qualquer coisa do gnero de que o melhor de andar na faculdade era ir aos jogos de basquetebol. Em Chapel Hill  como 
uma religio.
- Eu tambm gosto de ir a esses jogos. Tal como gosto dos amigos que tenho feito e de morar fora de casa, e isso assim. Aprendi muito desde que sa de Lenoir. Quer 
dizer, l eu tinha uma vida maravilhosa, e os meus pais so ptimos, mas estava... protegida. Tenho tido algumas experincias que me tm aberto os olhos.
- Tais como?
- Imensas coisas. Tal como sentir a presso para beber lcool, ou curtir com o rapaz sempre que saio  noite. No meu primeiro ano, detestei a UNC. No me sentia 
integrada, e era verdade. Supliquei aos meus pais que me deixassem voltar para casa ou transferir para outra faculdade, mas eles opuseram-se. Suponho que eles soubessem 
que mais tarde eu acabaria por me arrepender, e  provvel que tivessem razo. Foi durante o segundo ano que conheci umas raparigas que reagiam da mesma forma que 
eu a esse gnero de situaes, e desde ento tem sido muito melhor. Ingressei num grupo de estudantes cristos, passava as manhs de domingo num abrigo em Raleigh 
a ajudar os pobres, e j no sentia qualquer espcie de presso para ir a esta ou aquela festa e namorar com este ou aquele rapaz. E ainda que eu v a uma festa, 
no me deixo afectar pela presso. Limito-me a aceitar o facto de que no sou obrigada a fazer tudo o que os outros fazem. Posso limitar-me a fazer apenas aquilo 
que me interessa.
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O que explicava o motivo de ela me ter ficado a fazer companhia na noite anterior, calculava eu. E esta noite tambm, j agora.
A Savannah comps um ar mais animado. - E mais ou menos como tu, suponho eu. Nos ltimos dois anos, cresci imenso. Por isso, para alm de sermos ambos ptimos surfistas, 
deve ser mais uma coisa que temos em comum.
Eu ri-me. - Pois . A nica diferena  que eu tive de me esforar muito mais que tu.
Ela tornou a inclinar-se na minha direco. - O meu pai sempre me disse que, quando temos de nos esforar por alguma coisa, devemos olhar para as pessoas em nosso 
redor e ganharmos conscincia de que toda a gente se tem de esforar por alguma coisa, e que para os outros  to difcil como para ns.
- O teu pai parece ser um homem inteligente.
- Tanto o meu pai como a minha me. Acho que ambos concluram o curso entre os cinco melhores da faculdade. Foi assim que se conheceram. Enquanto estudavam na biblioteca. 
Sempre levaram a educao muito a srio, e fizeram de mim uma espcie de projecto pessoal. Afinal de contas, quando eu fui para o infantrio, j sabia ler, mas eles 
nunca criaram em mim a ideia de isso ser uma obrigao. E desde que me lembro que falam comigo como se fala com os adultos.
Durante um instante, imaginei como a minha vida teria sido diferente se os tivesse tido a eles como pais, mas afastei esse pensamento. Sabia que o meu pai fizera 
o melhor que podia, e no me arrependia daquilo em que me tornara. Arrependimentos pelo caminho que seguira, talvez, mas no do destino que tivera. Porque, qualquer 
que tivesse sido o resultado, acabara por conseguir estar a saborear camaro numa espelunca da baixa com uma rapariga que eu j sabia que nunca haveria de esquecer.
Depois do jantar, voltmos para casa da Savannah, que encontrmos surpreendentemente silenciosa. Ainda se ouvia msica a tocar, mas estavam quase todos a descontrair 
em volta da fogueira, como que a prepararem-se para se levantarem cedo na manh seguinte. O Tim achava-se entre eles, embrenhado numa conversa muito sria. Apanhando-me 
de surpresa, a Savannah pegou-me na mo, detendo-me antes de chegarmos ao p do grupo.
- Vamos dar um passeio - sugeriu ela. - Quero deixar o jantar assentar um pouco antes de me sentar.
Por cima das nossas cabeas, viam-se alguns farrapos de nuvens espalhados por entre as estrelas, e a Lua, ainda cheia, pairava acima
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do horizonte. Uma leve brisa roou-me a bochecha, e eu ouvia o incessante movimento das ondas que se espraiavam at  margem. A mar tinha descido, e ns fomos para 
a zona mais dura e compacta da areia, junto  beira-mar. A Savannah apoiou a mo no meu ombro para no perder o equilbrio enquanto descalava uma sandlia, depois 
a outra. Quando ela acabou, eu fiz o mesmo, e percorremos alguns passos em silncio.
Isto aqui  to bonito. Quer dizer, eu adoro as montanhas, mas
esta regio tambm possui a sua beleza prpria. ... tranquila.
Eu lembrei-me de que aquelas mesmas palavras poderiam servir para a descrever a ela, e no soube o que dizer.
- Mal posso crer que s ontem  que nos encontrmos pela primeira vez - acrescentou a Savannah. - Tenho a sensao de que j te conheo h imenso tempo.
Eu sentia o calor e a suavidade da mo dela na minha. - Estava ainda agora a pensar o mesmo.
Ela esboou um sorriso sonhador, contemplando as estrelas. - Pergunto-me o que pensar o Tim disto - murmurou. Olhou-me de relance. - Ele considera-me um bocadinho 
ingnua.
- E s?
- s vezes - admitiu a Savannah, e depois riu-se. Prosseguiu: - Quer dizer, quando eu vejo duas pessoas a dar um
passeio como ns estamos a dar agora, penso: "Oh, que amoroso." No me vou pr a pensar que eles vo curtir para trs das dunas. Mas a realidade  que por vezes 
vo. S que eu nunca me apercebo disso antecipadamente, e depois, quando me vm contar, nunca deixo de ficar surpreendida. Como a noite passada, depois de te teres 
ido embora. Ouvi dizer que duas pessoas do nosso grupo tinham feito precisamente isso, e mal podia acreditar.
- Eu ficaria mais surpreendido se no tivesse acontecido.
- A propsito,  disso que eu no gosto na faculdade.  como se grande parte das pessoas que l andam pensassem que aqueles anos no contam de facto, e que lhes 
d permisso para experimentarem... tudo o que lhes apetecer. Encaram duma forma to natural o sexo, o lcool e at mesmo a droga. Eu sei que posso parecer antiquada, 
mas no consigo perceber. Talvez tenha sido por isso que no me quis ir sentar em volta da fogueira ao p dos outros. Para falar com franqueza, estou bastante desapontada 
com aquelas duas pessoas, e no me apetece sentar-me ali como se nada se tivesse passado. Eu sei que no os devia estar a julgar, e tenho a certeza de que so boas 
pessoas, uma vez que esto aqui porque querem ajudar, mas, ainda assim, qual  o
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propsito? No devamos guardar momentos desses para algum que amemos? Para que tenha realmente algum significado?
Eu sabia que a Savannah no andava  procura de respostas, por isso no lhe dei nenhuma.
- Quem  que te contou a respeito desse par? - perguntei-lhe eu ao invs.
- O Tim. Acho que ele tambm ficou desiludido, mas o que  que podia fazer? P-los na rua?
Tnhamos avanado bastante at  beira-mar e decidimos voltar para trs.  distncia, eu via uma circunferncia de silhuetas recortadas pelo fogo. A neblina ressumava 
a maresia, e,  nossa aproximao, os caranguejos-brancos-da-areia correram a refugiar-se nos seus esconderijos.
- Desculpa - disse a Savannah. - Foi despropositado da minha parte.
- O que  que foi despropositado?
- Ficar to... incomodada com o assunto. E pr-me a fazer julgamentos. No me cabe a mim.
- Toda a gente faz julgamentos - lembrei-lhe eu. - Faz parte da natureza humana.
- Eu sei. Mas... eu tambm no sou perfeita. No final, o nico juzo que importa  o juzo divino, e j aprendi o suficiente para saber que ningum se pode arrogar 
a conhecer a vontade de Deus.
Sorri-lhe.
- O que foi? - indagou ela.
- Tu a falares fazes-me lembrar o nosso capelo. Ele diz a mesma coisa.
Passemos pela praia e, quando nos estvamos a aproximar da casa, afastmo-nos da beira-mar para a areia mais macia. Os nossos ps estavam constantemente a escorregar, 
e eu sentia a mo da Savannah a apertar a minha com mais fora. Perguntei-me se ela a iria soltar quando chegssemos prximo da fogueira, e fiquei desapontado quando 
ela fez isso mesmo.
- Eh - chamou-nos o Tim com voz amigvel. - J voltaram.
O Randy tambm l estava, com a sua expresso de amuo habitual. Sinceramente, j me comeava a sentir um pouco saturado do ressentimento dele. O Brad achava-se por 
detrs da Susan, que tinha a cabea encostada ao peito dele. A Susan parecia indecisa entre mostrar-se satisfeita, para que a Savannah a inteirasse das novidades, 
ou zangada em sinal de solidariedade para com o Randy. Os outros, obviamente indiferentes, retomaram as respectivas conversas. O Tim levantou-se e veio ter connosco.
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Que tal correu o jantar?
Correu lindamente - disse a Savannah. - Tive uma amostra
da cultura local. Fomos  Choupana do Camaro.
Deve ser engraado - comentou ele.
Esforcei-me por detectar alguma corrente subterrnea de cimes, mas sem xito. O Tim descontraiu um ombro e continuou: - No se querem juntar a ns? Temos estado 
s a descansar, a prepararmo-nos para amanh.
Para dizer a verdade, estou um bocado ensonada. vou s acompanhar o John ao carro, e depois acho que me vou deitar. A que horas  que temos de estar a p?
- s seis. Tomamos o pequeno-almoo e chegamos ao estaleiro s sete e meia. No te esqueas do protector solar. Vamos passar todo o dia ao sol.
- No me esqueo. Devias lembrar a toda a gente.
- J lembrei - afirmou ele. - E amanh vou tornar a repetir. Mas esperem s para ver... h pessoas que no querem saber e vo apanhar um valente escaldo.
- At amanh - disse ela.
- Adeus. - O Tim virou a sua ateno para mim. - Fiquei contente por teres vindo at c hoje.
- Tambm eu - assenti.
- E ouve, se durante as prximas semanas te sentires aborrecido, nunca dizemos que no a uma ajuda.
Eu ri-me. - Eu j estava mesmo  espera disso.
- No posso deixar de ser quem sou - declarou ele, estendendo-me a mo. - Mas, seja l como for, espero tornar a ver-te.
Demos um aperto de mo. O Tim voltou para o seu lugar, e a Savannah acenou com a cabea na direco da casa. Encaminhmo-nos para a duna, parmos para calarmos 
as sandlias e depois percorremos a passadeira de madeira, atravs da zostera, e contornmos a casa. Decorrido um instante, chegmos ao p do carro. Na escurido, 
eu no lhe conseguia distinguir a expresso.
- Passei uns bons momentos esta noite - disse ela. - E durante o dia tambm.
Eu engoli em seco. - Quando  que nos tornamos a ver?
Era uma pergunta simples, esperada at, mas fiquei surpreendido ao ouvir o tom de desejo na minha voz. Ainda nem sequer a tinha beijado.
- Acho que - respondeu ela - isso depende de ti. Tu sabes onde me encontrar.
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- Ento e que tal amanh  noite? - sugeri eu sem pensar. Conheo outro stio onde toca uma banda, e onde podemos passar um bom bocado.
A Savannah prendeu uma madeixa de cabelo atrs da orelha. - E se for depois de amanh? No te importas?  s que o primeiro dia nas obras  sempre... entusiasmante 
e cansativo em simultneo. Vamos ter um grande jantar em grupo, e acho que  melhor eu no faltar.
- Ento, est bem - respondi eu, a pensar que no estava nada bem.
Ela deve ter pressentido alguma coisa no meu tom de voz. - Tal como o Tim disse, sempre que te apetecer c vir, s bem-vindo.
- No, deixa estar. Tera-feira  noite est ptimo.
Continumos onde estvamos, um daqueles momentos embaraosos a que provavelmente nunca me conseguirei habituar, mas a Savannah afastou-se antes de eu ter oportunidade 
de a tentar beijar. Em circunstncias normais, eu teria arriscado s para ver no que dava; podia no ser muito expansivo em relao aos meus sentimentos, mas era 
rpido e impulsivo a agir. com a Savannah, senti-me estranhamente paralisado. E ela tambm no dava qualquer sinal de estar com pressa.
Um carro passou por ns, quebrando o feitio.  nossa aproximao deu um passo na direco da casa, depois deteve-se e levou a mo ao meu brao. Num gesto inocente, 
deu-me um beijo na cara. Foi um beijo quase entre irmos, mas a suavidade dos seus lbios e o perfume que se desprendia dela envolveram-me, permanecendo mesmo depois 
de ela se ter afastado.
- Gostei imenso desta noite - murmurou. - Acho que to depressa no me vou esquecer deste dia.
Senti a mo dela a abandonar o meu brao, e em seguida, com um rudo suave, a Savannah desapareceu pelos degraus que conduziam  casa.
Ainda nessa noite, j em casa, dei por mim s voltas na cama, relembrando os acontecimentos do dia. Por fim, sentei-me, arrependido por no lhe ter confessado como 
aquele dia fora importante para mim. Do lado de fora da janela, vi uma estrela cadente rasgar o cu num brilhante rasto branco. Queria acreditar que a estrela encerrava 
um pressgio, embora de qu, no sabia dizer. Ao invs, no conseguia fazer mais nada seno lembrar-me do beijo delicado da Savannah na minha bochecha pela centsima 
vez e perguntar-me como era possvel estar a apaixonar-me por uma rapariga que conhecera apenas no dia anterior.
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CAPITULO CINCO
- bom dia, pai - disse eu, entrando ainda ensonado na cozinha. Semicerrei os olhos  luz intensa do sol matinal e vi o meu pai diante do fogo. O aroma a bacon impregnava 
o ar.
- Oh... ol, John.
Deixei-me cair numa cadeira, ainda a tentar acordar. - Pois, eu sei que me levantei cedo, mas queria apanh-lo antes de sair para o trabalho.
- Oh - disse o meu pai. - Est bem. Deixa-me s pr aqui uma coisa ao lume.
Ele parecia quase entusiasmado, no obstante este percalo na rotina. Era em alturas como esta que eu ficava a saber que o meu pai estava contente por me ter em 
casa.
- H caf? - perguntei-lhe.
- Est na cafeteira - respondeu-me.
Servi-me uma chvena de caf e fui sentar-me  mesa. O jornal estava tal e qual como chegara. O meu pai costumava l-lo sempre ao pequeno-almoo, e eu j sabia que 
no lhe devia mexer. Ele sempre fizera questo de ser o primeiro a l-lo, e lia-o sempre exactamente pela mesma ordem.
Estava  espera de que o meu pai me perguntasse como  que correra o jantar com a Savannah, mas ele preferiu no dizer nada e concentrar-se nos seus cozinhados. 
Ao olhar para o relgio, reparei que a Savannah devia estar quase a sair para a obra, e perguntei-me se ela estaria a pensar em mim tanto quanto eu pensava nela. 
Na pressa do que seria inquestionavelmente uma manh catica para ela, tive as minhas dvidas. Essa percepo causou-me uma angstia inesperada.
- O que  que fez ontem  noite? - acabei por perguntar ao meu pai, tentando afastar a Savannah do pensamento. Ele continuou de volta do fogo como se no me tivesse 
ouvido. - Pai? - chamei-o.
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- O que foi? - indagou ele.
- Como  que foi a noite passada?
- Como  que foi o qu?
- A sua noite. Aconteceu alguma coisa de especial?
- No - respondeu-me -, nada. - Dirigiu-me um sorriso antes de virar algumas fatias na frigideira. Ouvi o crepitar do bacon a intensificar-se.
- Eu diverti-me imenso - adiantei. - A Savannah  realmente o mximo. Ontem at chegmos a ir  missa juntos.
No sei por que razo, pensei que ele me iria fazer mais alguma pergunta, e sou forado a admitir que era isso que eu desejava. Imaginava que seramos capazes de 
ter uma conversa a srio, do gnero que os outros pais poderiam ter com os filhos, e que ele se poderia rir e at dizer umas quantas piadas. Em lugar disso, o meu 
pai virou-se para outro bico do fogo. Deitou azeite numa pequena frigideira e acrescentou os ovos batidos.
- No te importas de pr umas fatias de po na torradeira? pediu-me.
Eu soltei um suspiro. - No - acedi, sabendo de antemo que iramos comer em silncio. - De maneira nenhuma.
Passei o resto do dia a fazer surf, ou melhor, a tentar fazer surf. O mar acalmara durante a noite, e as ondas eram to pequenas que no entusiasmavam ningum. Para 
piorar as coisas, iam rebentar mais prximo da margem que no dia anterior, por isso, ainda que aparecesse alguma que valesse a pena cavalgar, a experincia no duraria 
muito. No passado, eu talvez tivesse ido para Oak Island ou at mesmo Atlantic Beach, onde poderia apanhar uma boleia para os Shackleford Banks na esperana de encontrar 
ondas melhores. Mas hoje, no estava simplesmente para a virado.
Ao invs, fiz surf no mesmo stio onde estivera nos dois dias anteriores. A casa da praia ficava ligeiramente mais adiante, e parecia quase desabitada. A porta das 
traseiras estava fechada, as toalhas tinham desaparecido, e no vi ningum a aparecer  janela ou a vir  varanda. Perguntei-me a que horas iriam voltar. Provavelmente 
pelas quatro ou pelas cinco, e eu j tomara a deciso de a essa hora estar fora dali h muito tempo. Logo para comear, no havia motivo para l estar, e a ltima 
coisa que eu desejava era que a Savannah pensasse que eu andava a vigi-la.
Sa da praia por volta das trs horas e passei pelo Leroy's. O bar estava mais escuro e lgubre que eu tinha memria, e, mal entrei a porta, senti-me deslocado. 
Sempre me dera a impresso de ser um bar para
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alcolicos profissionais, e tive a prova disso ao ver homens solitrios com copos de Tennessee's na mo, na esperana de encontrarem um refgio para os problemas 
da vida. O Leroy encontrava-se l, e reconheceu-me logo que entrei. Quando me sentei ao balco, automaticamente, colocou um copo debaixo da torneira da cerveja e 
comeou a ench-lo.
Bons olhos te vejam - comentou ele. - Andas a fugir aos sarilhos?
A tentar - resmunguei. Deitei uma olhadela em redor do bar
enquanto ele deslizava o copo para a minha frente. - Gosto das modificaes que fizeste aqui - disse eu, fazendo sinal com ombro.
- Ainda bem.  todo teu. Queres comer alguma coisa?
- No. Assim est bem, obrigado.
O Leroy limpou o balco diante de mim, em seguida atirou o esfrego para cima do ombro e afastou-se para ir atender outro pedido. Passado um instante, senti uma 
mo no meu ombro.
- Johnny! O que  que ests aqui a fazer?
Virei-me e vi um dos muitos amigos que com o tempo comeara a desprezar. Era assim que as coisas funcionavam ali. No havia nada que eu no abominasse naquele bar, 
incluindo os meus amigos, e tomei conscincia de que sempre assim fora. No fazia ideia do que  que estava ali a fazer, nem da razo por que fizera daquele local 
o meu poiso regular, para alm do facto de me encontrar ali e de no ter outro stio para onde ir.
- Ol, Toby - retribu o cumprimento.
Alto e escanzelado, o Toby sentou-se a meu lado e, quando se virou para mim, reparei que j tinha os olhos vidrados. Cheirava a quem j est h alguns dias sem tomar 
banho, e tinha a camisa cheia de ndoas.
- Ainda continuas armado em Rambo? - perguntou-me com voz pastosa. - Ests com ar de quem anda a treinar a srio.
- Pois  - disse eu, relutante em entrar em pormenores. - O que  que tens feito ultimamente?
- A parar por aqui, a maior parte do tempo. Sobretudo nas ltimas semanas. Estive a trabalhar na Quick Stop, mas o dono era um estafermo de primeira apanha.
- Continuas a morar com os teus pais?
- Claro - confirmou ele, quase orgulhoso do facto. Inclinou a garrafa e deu um grande gole, em seguida concentrou a ateno nos meus braos. - Ests com bom aspecto. 
Tens andado a treinar?
tornou a perguntar-me.
- Um bocadinho - respondi-lhe, ciente de que ele no se lembrava de que j me tinha feito aquela pergunta.
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- Ests grande. Eu no sabia o que mais dizer. O Toby deu novo gole.
- Eh, hoje  noite h uma festa em casa da Mandy - declarou ele. - Ests lembrado da Mandy, no ests?
Sim,  claro que estava. Uma namorada do meu passado que no durara mais que uma semana. O Toby continuava:
- Os pais dela esto para Nova Iorque, ou num stio assim desses, e vai ser de arromba. Estamos s a tomar aqui uns aperitivos, para nos pormos bem-dispostos. Queres 
vir connosco?
Ele inclinou o ombro na direco de quatro tipos sentados a uma mesa de canto com trs jarros de cerveja vazios em cima. Reconheci dois deles da minha vida passada, 
mas os outros dois eram estranhos para mim.
- No posso - disse-lhe. - Fiquei de jantar com o meu pai. Mas obrigado, de qualquer das formas.
- D-lhe uma tampa. Vai ser uma festana de arrasar. A Kim vai l estar.
Mais outra mulher do meu passado, outra lembrana que me fez retrair por dentro. Eu mal podia suportar a pessoa que em tempos fora.
- No posso - reiterei, abanando a cabea. Levantei-me, deixando a cerveja praticamente intacta. -J lhe prometi. E ele deixa-me ficar em casa dele. J sabes como 
.
Aquilo fazia sentido para o Toby, e ele assentiu com a cabea.
- Ento vamos fazer qualquer coisa este fim-de-semana. Temos um grupo que est a pensar em ir surfar para Ocracoke.
- Talvez - disse-lhe, sabendo que no havia a mais pequena hiptese.
- O teu pai ainda tem o mesmo nmero de telefone?
- Tem - anu eu. Fui-me embora, certo de que o Toby nunca haveria de me ligar e
de que eu nunca mais voltaria a pr os ps no Leroys.
A caminho de casa, comprei bifes para o jantar, bem como uma embalagem de salada, tempero e meia dzia de batatas. Sem carro, no foi fcil transportar o saco juntamente 
com a minha prancha de surf at casa, mas no me incomodei muito por ter de ir a p. Havia anos que fazia isso, e os meus sapatos eram de longe mais confortveis 
que as botas a que me habituara.
Quando cheguei a casa, fui buscar o grelhador  garagem, alguns briquetes e fluido de isqueiro. O grelhador estava cheio de p, como se no fosse usado h anos. 
Instalei-o no alpendre das traseiras e retirei
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o p de carvo antes de ligar a mangueira para retirar as teias de aranha e depois deixei-o a secar ao sol. Na cozinha, temperei os bifes com sal, pimenta e alho 
em p, envolvi as batatas em papel de alumnio e levei-as ao forno, em seguida deitei a salada numa taa. Logo que o grelhador secou, acendi os briquetes e instalei 
a mesa ao ar livre. O meu pai chegou no momento em que eu me encontrava a pr os bifes no grelhador.
- Ol, pai - cumprimentei-o por cima do ombro. - Hoje lembrei-me de fazer o jantar para ns.
- Oh - disse ele. Pareceu levar algum tempo a compreender que no teria de me cozinhar o jantar. - Est bem - acrescentou por fim.
- Como  que gosta dos bifes?
- Mdios - respondeu-me. Continuou de p junto da porta de correr de vidro.
- D ideia de que no se serviu do grelhador desde que eu me fui embora - comentei. - Mas devia. No h nada melhor que um bife grelhado. Vim o caminho todo at 
casa com a gua a crescer-me na boca.
- vou mudar de roupa.
- Daqui a dez minutos os bifes esto prontos.
Depois de o meu pai se ter ido embora, voltei para a cozinha, peguei nas batatas e na taa da salada - juntamente com o tempero, a manteiga e o molho para a carne 
- e levei-os para a mesa. Ouvi a porta do ptio a abrir-se, e meu pai surgiu trazendo dois copos de leite, com ar de turista num cruzeiro. Tinha vestido uns cales, 
meias pretas, tnis e uma camisa havaiana toda florida. As pernas dele estavam to brancas que at metiam d, como se no usasse cales h anos. Como se nunca os 
tivesse usado. Pensando bem, creio que era a primeira vez que o via de cales. Fiz o melhor que podia para fingir que ele tinha uma aparncia normal.
- Mesmo a tempo - declarei eu voltando para o grelhador. Enchi ambos os pratos de bifes e coloquei um  sua frente.
- Obrigado - disse o meu pai.
- O prazer  meu.
Ele serviu-se de salada e deitou o tempero, em seguida desembrulhou a batata. Ps-lhe manteiga, depois deitou molho para os bifes no prato, fazendo uma espcie de 
poa. O que seria normal e esperado, excepto que fez tudo isto em silncio.
- Como  que lhe correu o dia? - perguntei-lhe eu, como de costume.
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- O mesmo de sempre - respondeu-me. Como de costume. Tornou a sorrir, mas no acrescentou mais nada.
O meu pai, o inadaptado social. Interroguei-me novamente por que motivo ele teria tanta dificuldade em fazer conversa e tentei imaginar como teria sido a sua juventude. 
Como  que encontrara uma pessoa com quem casar? Sei que esta ltima pergunta pode parecer mesquinha, mas no me saiu por mal. Antes por curiosidade genuna. Comemos 
durante um bocado, com o barulho dos talheres como nica companhia.
- A Savannah disse-me que gostava de o conhecer - acabei eu por dizer, fazendo nova tentativa.
O meu pai cortou o bife. - A senhora tua amiga?
S o meu pai  que seria capaz de usar uma frase daquelas. - Sim - anu. - Acho que o pai ia gostar dela. Ele assentiu com a cabea.
- Ela frequenta a Universidade da Carolina do Norte - expliquei-lhe.
O meu pai sabia que era a vez dele, e reparei no seu alvio quando se lembrou doutra pergunta. - Como  que a conheceste?
Contei-lhe a histria do saco, carregando nas tintas, tentando torn-la to engraada quanto possvel, mas o riso passou-lhe ao lado.
- Foi uma atitude simptica da tua parte - observou.
Novo ponto final na conversa. Cortei mais uma garfada de bife.
- Pai? No se importa de que lhe faa uma pergunta?
- claro que no.
- Como  que o pai e a me se conheceram?
Havia anos que eu no lhe fazia aquela pergunta. Uma vez que ela no fizera parte da minha vida, uma vez que eu no tinha recordaes dela, raramente sentira necessidade 
de o fazer. Mesmo agora, no dava grande importncia a isso; s queria conseguir faz-lo falar. Demorou o seu tempo a barrar mais manteiga na batata, e eu percebi 
que ele estava relutante em responder-me.
- Conhecemo-nos num restaurante - disse finalmente. - Ela era empregada de mesa.
Fiquei a aguardar. No parecia estar mais nada para vir.
- Ela era bonita?
- Era - admitiu.
- Como  que ela era?
O meu pai esmagou a batata e temperou-a com sal, polvilhando-a cuidadosamente. - Ela era como tu - concluiu ele.
- Como eu como?
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Hum... - hesitou ele. - s vezes gostava de ser... teimosa.
Eu no sabia o que pensar nem to-pouco o que ele quereria dizer com aquilo. Antes de eu ter tempo de me alargar sobre o assunto, o meu pai levantou-se da mesa e 
pegou no copo.
- Queres mais leite? - indagou, e eu percebi que ele no iria adiantar mais nada acerca da minha me.
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CAPITULO SEIS
O tempo  relativo. Sei que no sou a primeira pessoa a aperceber-me disto e estou longe de ser a mais famosa, e a minha percepo no teve nada que ver com energia, 
massa, velocidade da luz, nem nada que Einstein pudesse ter postulado. Muito pelo contrrio, teve que ver com o arrastar das horas enquanto esperava pela Savannah.
Depois de eu e o meu pai termos acabado de jantar, pus-me a pensar nela; pensei novamente nela pouco tempo depois de ter acordado. Passei o dia a fazer surfe, embora 
as ondas estivessem melhores que no dia anterior, no me consegui concentrar como devia ser e, a meio da tarde, decidi dar o dia por terminado. Hesitei se haveria 
de comer ou no um hambrguer de queijo num pequeno bar ao p da praia - a propsito, os melhores hambrgueres de toda a cidade -, mas, apesar de me apetecer, limitei-me 
a voltar para casa na esperana de conseguir convencer a Savannah a ir comer l comigo mais tarde. Li umas quantas pginas do ltimo romance do Stephen King, tomei 
um duche e vesti umas calas de ganga e um plo, depois li durante mais umas horas antes de olhar para o relgio e verificar que apenas se tinham passado vinte minutos. 
Era isto que eu queria dizer com o tempo ser relativo.
Quando o meu pai chegou a casa, reparou na maneira como eu estava vestido e ofereceu-me as chaves do carro.
- Vais sair com a Savannah? - interrogou-me ele.
- vou - confirmei, levantando-me do sof. Peguei nas chaves.
- Sou capaz de chegar tarde.
O meu pai coou a nuca. - Est certo - disse ele.
- Tomamos o pequeno-almoo amanh?
- Est certo. - Por algum motivo que escapava  minha compreenso, ele parecia estar algo nervoso.
- Ento, pronto - disse eu. - Vemo-nos mais logo.
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O mais certo  apanhares-me a dormir.
Eu no estava a falar em sentido literal.
Oh - disse o meu pai. - Est certo.
Encaminhei-me para a porta. Quando me preparava para a abrir, ouvi-o soltar um suspiro.
Eu tambm gostava de conhecer a Savannah - disse ele numa
voz to baixa que mal se ouvia.
O cu ainda estava claro e o Sol inclinava-se levemente acima da gua quando cheguei a casa dela. Ao sair, apercebera-me de que estava nervoso. J no me lembrava 
da ltima vez em que uma rapariga me fizera sentir nervoso, mas no era capaz de afastar a ideia de que as coisas entre ns poderiam ter mudado. No sabia dizer 
como nem por que razo me sentia assim; tudo o que sabia era que estaria perdido se os meus receios se viessem a confirmar.
No me dei ao trabalho de bater  porta, e limitei-me a entrar e a percorrer a casa. No vi ningum na sala de estar, mas ouvi vozes ao fundo do corredor, e na varanda 
das traseiras encontrei o grupo habitual. Fui at l, perguntei pela Savannah e informaram-me de que ela andava na praia.
Encaminhei-me para a areia e fiquei petrificado ao descobri-la sentada juntamente com o Randy, o Brad e a Susan. A Savannah ainda no dera pela minha presena, e 
ouvi-a rir-se de qualquer coisa que o Randy dissera. Ela e o Randy pareciam tanto um casal como a Susan e o Brad. Eu sabia que no eram, que o mais provvel era 
estarem apenas a conversar sobre a casa que andavam a construir ou a partilhar as experincias vividas nos ltimos dias, mas mesmo assim no me agradou. Nem to-pouco 
me agradou o facto de a Savannah estar sentada to prxima do Randy como estivera de mim. Enquanto ali fiquei, perguntei-me se ela ao menos se lembraria do nosso 
encontro, porm, ao ver-me, a Savannah sorriu-me como se nada se passasse.
- At que enfim - disse-me ela. - J estava a ficar admirada de ainda no teres aparecido.
O Randy fez um sorriso afectado. Apesar do comentrio dela, ele tinha uma expresso quase vitoriosa. "Patro fora, dia santo na loja", parecia estar a dizer.
A Savannah levantou-se e veio lentamente at junto de mim. Trazia uma blusa branca sem mangas e uma saia leve e solta que ondulava ao caminhar. Reparei que tinha 
os ombros mais bronzeados, sinal de que passara vrias horas ao sol. Quando ela se aproximou, ps-se em bicos dos ps e plantou-me um beijo na cara.
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- Ol - cumprimentou-me, enlaando-me um brao em volta.
da cintura.
- Ol.
A Savannah inclinou-se ligeiramente para trs como que a avaliar a minha expresso. - Ests com ar de quem teve saudades minhas - disse ela em tom provocador.
Como de hbito, no consegui arranjar resposta, e ela retraiu-se perante a minha incapacidade de admitir esse facto. - Talvez eu tenha tido saudades tuas - acrescentou 
ela.
Toquei-lhe no ombro despido. - J ests pronta?
- No podia estar mais - assentiu.
Dirigimo-nos ao carro e eu peguei-lhe na mo, o seu toque a dar-me a sensao de que tudo estava em paz no mundo. bom, quase tudo...
Endireitei-me. - Vi-te a falar com o Randy - observei esforando-me por manter um tom neutro.
A Savannah apertou-me a mo. - Ai sim?
Fiz nova tentativa. - Presumo que se tenham ficado a conhecer melhor enquanto estiveram a trabalhar.
- Sem dvida. E eu tinha razo. Ele  um rapaz simptico. Quando acabar esta casa, vai para Nova Iorque fazer um estgio de seis semanas na Morgan Stanley.
- Hum - resmunguei.
Ela sufocou uma gargalhada. - No me digas que ests com cimes.
- No estou.
- Ainda bem - concluiu ela, tornando a apertar-me a mo. Porque no h motivo para isso.
Eu fiquei suspenso destas ltimas palavras. Ela no precisava de as ter proferido, mas nada me poderia ter deixado mais feliz. Quando chegmos ao carro, abri a porta.
- Estava a pensar em levar-te ao Oysters - disse eu. -  um clube nocturno que fica um pouco adiante da praia.  noite h uma banda a tocar l, e ns podamos danar.
- E o que  que vamos fazer at l?
- Ests com fome? - perguntei-lhe, pensando no hambrguer que deixara por comer.
- Nem por isso - admitiu ela. - Lanchei quando voltei para casa e ainda no tenho assim muita.
- E que tal se fssemos dar um passeio na praia?
- Hum... talvez mais logo.
90
Era bvio que a Savannah j tinha alguma coisa em mente. - Ento por que  que no me dizes logo o que queres fazer?
Ela ficou mais animada. - E que tal se fssemos fazer uma visita ao teu pai?
Eu no estava certo de ter ouvido bem. - A srio?
- Sim, a srio - confirmou ela. - S durante um bocadinho. Depois podemos ento ir jantar e danar.
Quando me viu hesitar, a Savannah ps-me uma mo no ombro.
- Por favor?
A ideia de ir visitar o meu pai no me agradou l muito, contudo, pela maneira como ela me pediu, foi-me impossvel dizer-lhe que no. Talvez estivesse a ficar mal 
habituado, calculo, mas preferia t-la toda para mim durante a noite inteira. Nem to-pouco compreendia qual o motivo de a Savannah insistir em ver o meu pai nessa 
noite, a menos que a perspectiva de ficarmos sozinhos no a entusiasmasse tanto como me entusiasmava a mim. Para falar com franqueza, aquela ideia deprimia-me.
Apesar de tudo, mostrou-se de bom humor enquanto me contava os progressos que tinham alcanado ao longo dos ltimos dois dias. Amanh, estava planeado dedicarem-se 
s janelas. O Randy, vim eu a saber, passara os dois dias a trabalhar com ela, o que explicava aquela amizade "recm-descoberta". Foi nestes termos que ela a descreveu. 
Eu duvidava de que o Randy descrevesse o seu interesse da mesma forma.
Estacionmos no acesso a minha casa passados alguns minutos, e eu reparei que a luz estava acesa no refgio do meu pai. Quando desliguei o motor, pus-me a brincar 
com as chaves antes de sair do carro.
- J te disse que o meu pai no  muito falador, no j?
- J - confirmou ela. - Mas isso no tem importncia. Eu s queria conhec-lo.
- Porqu? - interroguei-a. Eu sei que no parecia bem, mas no me consegui conter.
- Porque - explicou-me -  o teu nico familiar. E foi ele que te criou.
Depois de o meu pai ter recuperado do choque de me ver regressar com a Savannah a reboque e de termos passado s apresentaes, ele passou uma mo pelo seu cabelo 
ralo e fixou o olhar no cho.
- Peo desculpa por no termos telefonado a avisar que vnhamos, mas no se zangue com o John por causa disso - declarou ela.
- A culpa foi toda minha.
- Oh - disse o meu pai. - No tem importncia.
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- Viemos apanh-lo em m altura?
- No. - O meu pai ergueu momentaneamente o olhar, em seguida tornou a baix-lo. -  um prazer conhec-la - disse ele. Por um instante, ficmos os trs na sala de 
estar, sem dizermos uma palavra que fosse. A Savannah tinha um sorriso fcil, mas eu admirava-me muito que o meu pai tivesse dado sequer por isso.
- Querem tomar alguma coisa? - sugeriu ele, como se de repente se lembrasse de que lhe cabia o papel de anfitrio.
- No, obrigada - declinou a Savannah. - O John contou-me que o senhor  um grande coleccionador de moedas.
O meu pai virou-se para mim, como se no soubesse o que haveria de responder. - Fao o possvel - disse por fim.
- Foi isso que ns tivemos a falta de delicadeza de vir interromper? - indagou ela, recorrendo ao mesmo tom provocador que usava comigo. Para minha grande surpresa, 
ouvi o meu pai soltar uma gargalhada nervosa. No muito alta, mas ainda assim uma gargalhada. Inacreditvel.
- No, no vieram interromper nada. S estava a examinar uma moeda que me chegou hoje s mos.
 medida que ele falava, sentia-o a avaliar a minha reaco. A Savannah, ou no deu por isso, ou fingiu que no dava. - A srio? - indagou ela. - De que gnero?
O meu pai passou o peso do corpo dum p para o outro. Em seguida, para meu grande espanto, ergueu o olhar e perguntou-lhe:
- Gostaria de a ver?
Passmos quarenta minutos no refgio.
Durante a maior parte do tempo, deixei-me ficar sentado a ouvir o meu pai contar histrias que eu j conhecia de cor. Tal como a maioria dos coleccionadores a srio, 
ele s tinha algumas moedas em casa, e eu no fazia a mais pequena ideia de onde as outras estivessem guardadas. O meu pai era capaz de fazer circular a coleco 
de duas em duas semanas, e novas moedas apareciam como que por um passe de magia. Em geral, nunca havia mais duma dzia de cada vez no seu escritrio, e nunca nenhuma 
de valor, mas eu tinha a impresso de que ele poderia ter mostrado  Savannah uma vulgar moeda dum cntimo com Lincoln na face que ela ficaria encantada de qualquer 
das formas. Ela fez-lhe dezenas de perguntas, perguntas a que tanto eu como qualquer livro de coleccionismo de moedas lhe poderamos ter respondido, mas,  medida 
que os minutos iam passando, as perguntas dela adquiriram maior subtileza. Ao invs de lhe perguntar qual
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o motivo de uma determinada moeda ser particularmente valiosa, questionava-o sobre quando e onde ele a descobrira, e foi regalada com histrias de fins-de-semana 
enfadonhos da minha juventude passados em lugares como Atlanta, Charleston, Raleigh ou Charlotte.
O meu pai falava bastante acerca dessas viagens. bom, para os seus botes, pelo menos. Continuava a revelar tendncia para se fechar em si prprio durante largos 
perodos de tempo, mas  bem provvel que tenha falado mais naqueles quarenta minutos que passou com ela que comigo desde que eu chegara a casa. Da minha perspectiva 
privilegiada, consegui descortinar a paixo a que a Savannah se referira, mas era uma paixo que eu j vira em milhares de ocasies, e isso no alterava a minha 
opinio de que ele recorria s moedas para se alhear da vida em lugar de a aproveitar. Eu deixara de conversar com o meu pai sobre moedas, porque queria falar doutras 
coisas; o meu pai deixara de conversar comigo, porque sabia como eu me sentia e no sabia falar doutro assunto.
E no entanto...
O meu pai estava feliz, isso at eu percebia. Via a forma como os olhos lhe brilhavam quando apontava para uma moeda, indicando o cunho e o desgaste ou ao explicar-lhe 
como o facto de ter setas ou coroas era suficiente para alterar o valor duma moeda. Mostrou  Savannah moedas proof, moedas cunhadas em West Point, um dos gneros 
que mais gostava de coleccionar. Pegou numa lupa para lhe mostrar os defeitos e, quando a Savannah segurou na lupa, eu no pude deixar de reparar na expresso de 
entusiasmo do meu pai. Apesar da minha falta de interesse pelas moedas, no consegui conter um sorriso s de o ver to feliz.
Mas ele continuava a ser o meu pai, e no h milagres. Quando acabou de lhe mostrar as moedas e de lhe contar tudo o que havia a contar sobre elas e como as tinha 
conseguido arranjar, os seus comentrios foram rareando cada vez mais. Ele comeou a repetir-se e apercebeu-se disso, retraindo-se por consequncia e ficando ainda 
mais calado. A seu tempo, a Savannah deve ter pressentido o seu desconforto crescente, pois fez um gesto para as moedas em cima da secretria.
- Obrigada, Mr. Tyree. Sinto que aprendi alguma coisa.
O meu pai sorriu, obviamente exausto, e eu aproveitei a deixa para me levantar.
- Pois, foi ptimo. Mas se calhar o melhor era irmos andando sugeri.
- Oh... est certo.
- Foi um enorme prazer conhec-lo.
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Quando o meu pai assentiu novamente com a cabea, a Savannah inclinou-se para ele e deu-lhe um abrao.
- Temos de tornar a fazer isto um dia destes - murmurou ela, e embora o meu pai lhe tenha retribudo o abrao, fez-me lembrar dos abraos sem vitalidade que eu recebera 
em mido. Interroguei-me se ela se sentiria to constrangida como ele claramente se sentia.
No carro, a Savannah pareceu-me perdida nos seus pensamentos. Eu ter-lhe-ia perguntado com que impresso ela ficara do meu pai, mas no tinha a certeza de querer 
ouvir a resposta. Estava consciente de que eu e o meu pai no tnhamos uma relao ideal, mas a Savannah tinha razo quando dissera que ele era o meu nico familiar 
e que fora ele quem me criara. Eu podia ter motivos de queixa dele, mas a ltima coisa que desejava era ouvir algum a fazer o mesmo.
Ainda assim, no creio que ela tivesse algo de negativo a dizer, simplesmente porque no era da sua natureza, e, quando se virou para mim, foi com um sorriso no 
rosto.
- Obrigada por me trazeres para conhecer o teu pai - disse. Ele tem um corao to... afectuoso.
Era a primeira vez que ouvia algum descrev-lo naqueles termos, mas agradou-me.
- Ainda bem que gostaste dele.
- Gostei mesmo - insistiu ela, num tom sincero. - Ele ... amvel. - Deitou-me uma olhadela. - Mas acho que consigo perceber por que  que te meteste em tantos sarilhos 
quando eras mais novo. No me parece ser o gnero de pai para dar sentenas.
- De facto, no era - concordei.
Ela despediu-me um olhar travesso. - E estou certa de que no deixaste de te aproveitar disso.
Eu ri-me. - Pois foi, acho que sim.
A Savannah abanou a cabea. - J tinhas idade para teres juzo.
- No passava dum mido.
- Ah, a velha desculpa da juventude. Tu sabes que isso no quer dizer nada, ou no sabes? Eu nunca me aproveitei da boa vontade dos meus pais.
- Pois, a filha perfeita. Acho que j me tinhas falado disso. - Ests a fazer pouco de mim?
- No,  claro que no.
Ela continuou a fitar-me. - Ai ests, ests - concluiu por fim.
- Est bem, talvez s um bocadinho.
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A Savannah reflectiu na minha resposta. - bom, talvez eu estivesse a pedi-las. Mas, s para que saibas, eu no era perfeita.
No me digas?
 claro que no. Por exemplo, lembro-me perfeitamente de que
no quarto ano tive quatro num teste.
Eu fingi-me chocado. - No! No me digas uma coisa dessas!
-  verdade.
- Como  que foste capaz de ultrapassar isso?
- Como  que achas? - Encolheu os ombros. - Disse a mim prpria que nunca mais tornaria a acontecer.
No duvidei. -J ests com fome?
- Estava a ver que nunca mais perguntavas.
- O que  que te apetece comer?
Ela apanhou o cabelo num rabo-de-cavalo improvisado, em seguida soltou-o. - E que tal um hambrguer de queijo grande e sumarento?
Mal ela acabou de dizer isto, perguntei-me se a Savannah no seria demasiado boa para ser verdade.
CAPITULO SETE
- Vejo-me forada a admitir que tu me levas a comer a uns stios muito interessantes - disse a Savannah, mirando em seu redor por cima do ombro. Ao longe, para l 
das dunas, vamos uma longa fila de clientes do Joe's Burger Stand que serpenteava at meio do parque de estacionamento de gravilha.
- So os melhores da cidade - disse eu, dando uma dentada no meu enorme hambrguer.
A Savannah estava sentada a meu lado na areia, de frente para o mar. Os hambrgueres eram divinais, altos e saborosos, e embora as batatas fritas tivessem um pouco 
de leo a mais, estavam a saber-me mesmo bem. Enquanto comamos, a Savannah ia contemplando o oceano, e,  luz que enfraquecia, dei por mim a pensar que ela parecia 
ainda mais  vontade ali que eu.
Pensei mais uma vez na maneira como ela falara com o meu pai. Na maneira como ela falava com toda a gente, j agora, incluindo comigo. Possua o raro talento de 
se comportar exactamente como as outras pessoas precisavam quando estava na companhia delas, sem, no entanto, deixar de ser ela prpria. No me conseguia lembrar 
de ningum que se lhe assemelhasse, por remotamente que fosse, em aparncia e personalidade, e tornei a perguntar-me o que  que a teria levado a engraar comigo. 
No podamos ser mais diferentes que ramos. A Savannah era uma rapariga criada na montanha, doce e talentosa, educada por pais atentos, sempre pronta a ajudar quem 
dela precisava; eu era um soldado de infantaria cheio de tatuagens, endurecido pela vida, e muitas vezes um estranho na minha prpria casa. Recordando-me da forma 
como ela tratara o meu pai, eu percebia a sensibilidade com que os pais a tinham educado. E, com ela ali sentada a meu lado, desejei poder ser tambm assim.
Em que  que ests a pensar? ?
A voz dela, inquisidora e no entanto suave, despertou-me dos meus pensamentos.
Estava a perguntar-me o que  que te leva a estar aqui - confessei-lhe.
Estou aqui, porque gosto da praia. No fao isto com muita frequncia. No se pode dizer que na minha terra haja ondas nem barcos que pescam camaro.
Quando reparou na minha expresso, a Savannah deu-me uma palmadinha na mo. - Foi um disparate - admitiu. - Desculpa. Estou aqui, porque  aqui que quero estar.
Pus os restos do hambrguer de lado, admirado por dar tanta importncia quilo. Era uma sensao nova para mim, uma sensao  qual no sabia se algum dia me viria 
a habituar. Ela acariciou-me o brao e tornou a concentrar o olhar na gua.
- Isto aqui  uma maravilha. Para ser perfeito, s falta o Sol a pr-se no oceano.
- Para isso, teramos de atravessar o pas - comentei eu.
- A srio? Ests a querer dizer-me que o Sol se pe a ocidente? Reparei num brilho travesso nos olhos dela.
- bom, pelo menos foi isso que me disseram.
A Savannah s tinha comido metade do hambrguer, e guardou o resto dentro do saco, juntando-lhe tambm as sobras do meu. Depois de dobrar a abertura do saco para 
que no fosse levado pelo vento, estendeu as pernas e virou-se para mim, com um ar a um tempo sedutor e inocente.
- Queres saber em que  que eu estava a pensar? - indagou. Eu fiquei a aguardar, fascinado a olhar para ela.
- Estava a pensar que gostaria que tivesses estado comigo nestes dois dias que se passaram. Quer dizer, eu gostei de ficar a conhecer melhor os outros. Almomos 
juntos, e o jantar de ontem  noite foi muito divertido, mas parecia-me que havia algo que no estava bem, como se alguma coisa me fizesse falta. Foi s quando te 
vi a vires ter comigo pela areia que me apercebi de que eras tu.
Engoli em seco. Noutra vida, noutro tempo, eu t-la-ia beijado de imediato, e, embora quisesse faz-lo, no fui capaz. Ao invs, limitei-me a ficar a olhar para 
ela. A Savannah sustentou o meu olhar sem o mais pequeno sinal de constrangimento.
- Quando me perguntaste o que  que me levava a estar aqui, fiz uma piada, porque a resposta me parecia bvia. Estar na tua companhia parece-me... natural, no sei 
bem explicar porqu.  fcil, 
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como deve ser. Como acontece com os meus pais. Eles sentem-se bem na companhia um do outro, e lembro-me de sempre ter pensado que um dia tambm iria querer que o 
mesmo se passasse comigo. - Fez uma pausa. - Gostava de que um dia os conhecesses.
Eu sentia a garganta seca. - Eu tambm gostava de os conhecer.
A Savannah fez deslizar a mo com facilidade para dentro da minha, os seus dedos entrelaando-se nos meus.
Ficmos sentados silenciosamente em paz.  beira da gua, as andorinhas-do-mar iam debicando a areia,  procura de alimento; um bando de gaivotas fracturou-se ao 
rebentar duma onda. O cu escurecera e as nuvens anunciavam mau tempo. Pela praia, eu via casais a passearem sob uma abbada dum ndigo de intensidade crescente.
Enquanto estvamos ali sentados, o ar enchia-se com a espuma da rebentao. Senti-me maravilhado com a sensao de novidade que tudo aquilo me trazia. Novidade, 
sem porm deixar de ser confortvel, como se nos conhecssemos havia j uma vida. E, no entanto, nem sequer ramos um casal no verdadeiro sentido do termo. "Nem", 
lembrava-me uma voz dentro da minha cabea, " provvel que algum dia venham a ser." Dentro de pouco mais duma semana, eu iria regressar  Alemanha e tudo aquilo 
iria acabar. Eu j passara tempo suficiente com os meus camaradas para saber que era preciso mais que uns dias especiais para fazer durar uma relao que se estendia 
para l do Oceano Atlntico. Ouvira tipos na minha unidade jurarem a ps juntos que estavam apaixonados quando chegavam de gozar a licena
- e talvez at fosse verdade -, mas nunca durava.
Estar na companhia da Savannah levou-me a interrogar-me se seria possvel desafiar a regra. Queria mais dela, e, independentemente do que se viesse a passar entre 
ns, eu j sabia que nunca haveria de a esquecer. Por muito disparatado que pudesse parecer, ela estava a tornar-se parte de mim, e eu j estava apavorado s de 
pensar que no iramos passar o dia seguinte juntos. Nem o dia depois desse, ou o outro ainda. Talvez, disse a mim prprio, fssemos capazes de superar as dificuldades.
- Ali ao fundo! - ouvia-a gritar. Apontava para o oceano. Junto  rebentao.
Eu perscrutei o mar ferroso, mas no vi nada. A meu lado, a Savannah levantou-se de repente e comeou a correr em direco  gua.
- Anda! - chamou-me ela por cima do ombro. - Despacha-te! Eu levantei-me tambm e precipitei-me atrs dela, estupefacto.
Numa corrida, consegui percorrer a distncia que nos separava. A Savannah parou  beira da gua, e eu ouvi a sua respirao ofegante.
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O que  que aconteceu? - indaguei.
Ali mesmo!
Ao estreitar os olhos, percebi ao que ela se referia. Viam-se trs deles a cavalgarem as ondas, um a seguir ao outro, depois a desaparecer de vista nos baixios, 
para em seguida tornarem a surgir um pouco mais adiante.
- Golfinhos pequenos - disse eu. - Passam pela ilha quase todas as noites.
- Eu sei - assentiu a Savannah -, mas parece que esto a fazer
surf.
- Pois, acho que parece. Esto apenas a divertir-se. Agora que j no h ningum dentro de gua, sentem-se em segurana para brincar.
- Eu quero ir ter com eles. Sempre desejei poder nadar ao lado de golfinhos.
- Eles vo parar de brincar ou ento deslocar-se para uma zona onde tu no os possas alcanar. So engraados assim. J os vi enquanto andava a fazer surf. Quando 
sentem curiosidade, aproximam-se um pouco de ns e deitam-nos uma olhadela, mas se tentamos ir atrs deles, fogem e nunca mais os tornamos a ver.
Continumos a observar os golfinhos que se afastavam e que acabaram por desaparecer de vista sob um cu que comeava a ficar sombrio.
- Se calhar era melhor irmos andando - sugeri. Regressmos ao carro, parando pelo caminho para irmos buscar os
restos do nosso jantar.
- No sei ao certo se a banda j estar a tocar, mas no deve tardar.
- No tem importncia - disse ela. -? Tenho a certeza de que encontramos qualquer coisa com que nos entretermos. Para alm do mais, vou-te j avisando que no tenho 
grande jeito para a dana.
- Se no quiseres, no vamos. Podemos ir a outro stio qualquer que te agrade.
- Que stio?
- Gostas de barcos?
- Que gnero de barcos?
- Barcos grandes - expliquei-lhe. - Conheo um stio onde podemos ver o USS North Carolina.
Ela fez uma careta engraada, e eu percebi que a resposta era no. No pela primeira vez, desejei ter a minha prpria casa. Mas tambm no tinha iluses de que ela 
concordasse em ir comigo. Se eu fosse  Savannah, tambm no iria. Sou humano, como toda a gente.
- Espera - disse ela. - J sei aonde  que podemos ir. Quero mostrar-te uma coisa.
Intrigado, perguntei-lhe: - Onde?
Tendo em conta que o grupo da Savannah deitara mos  obra apenas no dia anterior, a casa parecia surpreendentemente adiantada, A maior parte do esqueleto j estava 
montado, e tambm j tinham levantado o telhado. A Savannah olhou atentamente pela janela do carro antes de se virar para mim.
- Queres dar uma volta? Ver o que temos andado a fazer?
- Adorava - acedi.
Sa do carro atrs dela, reparando no reflexo do luar a brincar-lhe do rosto. Quando pus os ps no entulho do estaleiro, apercebi-me da msica que vinha dum rdio 
pela janela duma das cozinhas da vizinhana. A uns passos da entrada, a Savannah apontou para a estrutura com manifesto orgulho. Eu aproximei-me o suficiente para 
lhe enlaar um brao em volta da cintura, e ela recostou a cabea no meu ombro, descontraindo-se contra mim.
- Foi aqui que eu passei os ltimos dias - disse-me num tom quase murmurado por entre o silncio nocturno. - O que  que achas?
- Est ptima - afirmei. - Aposto que a famlia est encantada.
- Pois est. E so todos to simpticos. Merecem mesmo uma casa como esta, porque a vida s lhes tem trazido dificuldades. O furaco Fran destruiu-lhes a casa onde 
moravam, mas, tal como tantos outros, no tinham seguro contra as intempries.  uma me que mora sozinha com os trs filhos... o marido saiu de casa h uns anos... 
e se os conhecesses, ias ador-los. Os midos tm boas notas e cantam no coro de jovens da igreja. E so todos to bem educados e amveis... Percebe-se logo que 
a me se tem esforado imenso para que eles se tornem pessoas vlidas, sabes?
- Ao que vejo, j os conheceste.
A Savannah acenou com a cabea na direco da casa. - Eles tm andado por aqui ao longo destes dois dias. - Ela endireitou-se. Gostarias de dar uma vista de olhos 
l por dentro?
com relutncia, deixei-a afastar-se de mim. - Vai tu  frente.
A casa no era muito grande (sensivelmente do mesmo tamanho que a do meu pai), mas a planta era mais desimpedida, dando a ideia de ser maior. A Savannah conduziu-me 
pela mo e mostrou-me todos os quartos, salientando as respectivas caractersticas, deixando a imaginao entregar-se aos pormenores. Meditou pensativamente no papel
ideal para as paredes da cozinha e na cor dos ladrilhos da entrada, no tecido das cortinas da sala, e na decorao da consola da lareira. A voz dela transmitia a 
mesma admirao e alegria que expressara ao avistar os golfinhos. Por um momento, tive uma viso de como ela deveria ter sido em criana.
A Savannah tornou a conduzir-me de volta. Ao longe, j se ouvia o ribombar do trovo. Quando chegmos  porta da frente, cheguei-a a mim.
Tambm vai ter um alpendre - declarou ela -, com espao
suficiente para cadeiras de balano, ou at mesmo um baloio. Eles vo poder sentar-se c fora nas noites de Vero, e juntarem-se aqui quando voltarem da missa. 
- Apontou. - A igreja aonde eles vo fica ali.  por isso que esta localizao  ideal para toda a famlia.
- Quem te ouvir falar, pensa que j os conheces muito bem.
- No, nem por isso - reconheceu ela. - Eu estive um bocado a conversar com eles, mas isto sou s eu a imaginar. Fiz o mesmo com todas as casas que ajudei a construir: 
comeo a andar por ali e tento imaginar como  que iro ser as vidas dos futuros moradores. Faz que a construo da casa se torne muito mais divertida.
A Lua achava-se agora escondida atrs das nuvens, toldando o cu. No horizonte, os relmpagos rasgavam o ar e no tardou a que comeasse a cair uma chuva leve, martelando 
o telhado. Os carvalhos que bordejavam a rua, carregados de folhas, agitaram-se  brisa enquanto o trovo ressoava por toda a casa.
- Se te quiseres ir embora, o melhor  irmos j, antes que a tempestade comece.
- No temos nenhum stio aonde ir, j te esqueceste? Para alm do mais, adoro uma boa tempestade.
Eu cheguei-a mais a mim, inalando o seu perfume. O cabelo emanava um aroma doce, a fazer lembrar morangos maduros.
 medida que observvamos, a chuva intensificou-se e passou a um forte aguaceiro, precipitando-se do cu na diagonal. A nica luz provinha dos candeeiros da rua, 
deixando metade do rosto da Savannah na penumbra.
Os troves explodiram por cima de ns, e a gua comeou a cair em btegas. Mais adiante, eu via a chuva atingir o cho coberto de serradura, formando poas na suj 
idade, e senti-me aliviado, por, apesar da tempestade, a temperatura se manter amena. Reparei numas grades vazias. Sa de junto da Savannah para as ir buscar, em 
seguida empilhei-as para construir um banco improvisado. Poderia no ser muito confortvel, mas sempre seria melhor que ficarmos de p.
Quando a Savannah se sentou a meu lado, apercebi-me subitamente de que ir ali fora a deciso acertada. Era a primeira vez que estvamos de facto sozinhos, mas, ali 
sentados lado a lado, tive a sensao de que sempre estivramos juntos.
CAPTULO OITO
As grades, duras e inclementes, fizeram-me duvidar da minha ideia, mas a Savannah no parecia incomodada. Ou ento fingia que no estava. Inclinou-se para trs, 
sentiu a beira da grade de trs a enterrar-se-lhe na carne, tornou a sentar-se direita.
- Desculpa - disse-lhe eu. - Pensei que fosse mais confortvel.
- No faz mal. Sinto as pernas exaustas e doem-me os ps. Assim est perfeito.
Pois era, pensei eu, estava. Recordei-me das noites de sentinela, quando me imaginava ao lado da rapariga dos meus sonhos com a sensao de que tudo ia bem no mundo. 
Sabia agora o que me faltara ao longo de todos esses anos. Quando senti a Savannah a encostar a cabea no meu ombro, dei por mim a desejar no me ter alistado no 
exrcito. Desejei no estar colocado numa base no estrangeiro, e desejei ter escolhido um rumo de vida diferente, um rumo que me permitisse continuar a fazer parte 
do mundo dela. Estudar em Chapel Hill, passar uns meses do Vero a construir casas, andar a cavalo na companhia dela.
- Ests muito calado - ouvia-a comentar.
- Desculpa - disse-lhe. - Estava s a pensar nesta noite.
- Coisas boas, espero eu. ?
- Sim, coisas boas - assegurei-lhe.
A Savannah ajeitou-se no banco, e eu senti a perna dela a roar a minha. - Eu tambm. Mas tenho estado a pensar no teu pai - declarou ela. - Ele foi sempre como 
hoje? Do tipo tmido e que evita olhar para as pessoas quando fala com elas?
- Sim - respondi-lhe. - Porqu?
- S por curiosidade - disse ela.
Um pouco mais adiante, a tempestade pareceu atingir o clmax quando outro lenol de gua se despenhou sobre a estrutura da casa como se fosse uma catarata. Tornou 
a relampejar, desta feita mais prximo, e um trovo ribombou estrondosamente. Se a casa tivesse janelas, calculo que teriam estremecido nos caixilhos.
A Savannah chegou-se mais a mim, e pus-lhe o brao em volta da cintura. Ela cruzou as pernas junto dos tornozelos e encostou-se a mim, e eu senti que no me importava 
de ficar assim com ela para sempre.
- Tu s diferente da maior parte dos rapazes que eu conheo observou ela, a voz baixa e ntima junto ao meu ouvido. - Mais adulto, menos... inconstante, acho eu.
Sorri, satisfeito por ouvi-la dizer aquilo. - E no te esqueas do cabelo  escovinha e das tatuagens.
- Cabelo  escovinha, sim. Tatuagens... bom, elas so mais uma questo de feitio que de defeito, mas no h ningum perfeito.
Eu dei-lhe uma cotovelada e fingi ter ficado ofendido. - bom, se eu soubesse que pensavas assim, no as teria feito.
- No acredito - disse ela, afastando-se de mim. - Mas, desculpa... No devia ter dito aquilo. Estava a falar mais de como me sentiria se fosse fazer uma. Em ti, 
tendem a projectar uma certa... imagem, e acho que se adequam.
- E que imagem  essa?
Ela foi apontando para as tatuagens, uma a uma, comeando pelos caracteres chineses. - Esta aqui diz-me que tu vives a vida de acordo com as tuas prprias regras 
e nem sempre te importas com o que as outras pessoas pensam. A da infantaria revela que sentes orgulho no que fazes. E a do arame farpado... bom, essa tem que ver 
com a pessoa que foste quando eras mais novo.
- Isso  que se chama um perfil psicolgico. E eu a pensar que era apenas por ter gostado dos desenhos.
- Estou a pensar em fazer psicologia como cadeira secundria.
- Acho que j fizeste.
Embora o vento tivesse aumentado de intensidade, a chuva comeava finalmente a abrandar.
- J alguma vez estiveste apaixonado? - questionou-me ela, mudando repentinamente de assunto.
A pergunta dela apanhou-me de surpresa. - No estava nada  espera dessa.
- J me disseram que as mulheres imprevisveis tm mais mistrio.
104
Ah, sem dvida. Mas, para responder  tua pergunta: no sei:
Como  que isso  possvel?
Hesitei, pensando no que haveria de dizer. - H uns anos namorei cOm uma rapariga, e, nessa altura, sabia que estava apaixonado. Pelo menos, era isso que dizia a 
mim prprio. Mas agora, quando penso nisso, j. ? - j no tenho a certeza. Eu sentia carinho por ela e sentia-me bem na sua companhia, mas, quando no estvamos 
juntos, era raro lembrar-me dela. Andvamos juntos, mas no formvamos um casal, se  que isso faz algum sentido. Quando acabmos, no se pode dizer que eu tenha 
ficado deprimido. Limitei-me a continuar como de costume. A Savannah pesou a minha resposta, mas no fez comentrios. Passado algum tempo, virei-me para ela. - Ento 
e tu? J alguma vez estiveste apaixonada?
A expresso dela tornou-se sombria. - No - respondeu-me.
- Mas pensaste que estavas. Como eu, no foi? - Ao ouvi-la soltar um suspiro brusco, prossegui: - No meu peloto, eu tambm tenho de recorrer a um bocadinho de psicologia. 
E a minha intuio diz-me que h um namorado a srio no teu passado.
Ela sorriu-me, mas havia alguma coisa por detrs. - J estava  espera que descobrisses - confessou com voz sumida. - Mas, para responder  tua pergunta: sim, houve. 
Durante o meu ano de caloira na faculdade. E sim, eu achava que estava apaixonada por ele.
- E agora j no tens a certeza?
A Savannah levou algum tempo at responder: - No - murmurou. - No tenho.
- No s obrigada a contar-me...
- No tem importncia - disse ela, levantando uma mo para me interromper. - Mas  difcil. J tentei esquecer o assunto, e  uma coisa que nunca contei aos meus 
pais. Nem a outra pessoa qualquer, j agora.  to clich, sabes? Uma rapariga duma cidade pequena vai para a faculdade e conhece um aluno bem-parecido do ltimo 
ano, que tambm  presidente da sua repblica. Ele  popular, rico e encantador, e a pequena caloira fica admirada por ele se ter interessado por algum como ela. 
O rapaz trata-a como se ela fosse especial, e ela sabe que as outras caloiras sentem inveja, e por isso comea tambm a sentir-se especial. Ela aceita o convite 
dele para ir a um daqueles bailes de Inverno que se fazem nos hotis de luxo que ficam fora da cidade, juntamente com outros casais, embora j tenha sido mais que 
avisada de que o rapaz no  to sensvel quanto aparenta, e que, na realidade,  o tipo de rapaz que faz um corte na madeira da cama por cada rapariga que consegue 
conquistar.
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A Savannah fechou os olhos, como se tentasse captar energia para continuar. - Ela decide ir, mesmo contra os conselhos das amigas, e apesar de no beber lcool e 
de ele aceder prontamente em trazer-lhe uma gasosa, comea a sentir-se tonta, e ele oferece-se para a levar para o quarto do hotel para ela poder descansar. E quando 
d por ela, esto na cama aos beijos, e a princpio ela gosta, mas comea a ver o quarto todo  roda, e s mais tarde  que lhe ocorre que algum... talvez ele... 
lhe tenha posto alguma coisa na bebida e que desde o princpio no tenha tido outra inteno que fazer gravar o nome dela na madeira.
As suas palavras comearam a precipitar-se, tropeando umas nas outras. - E ento ele pe-se a apalpar-lhe o peito, e arranca-lhe o vestido, e depois as cuecas, 
e pe-se em cima dela, e  to pesado que ela no o consegue afastar, e ela sente-se completamente impotente e quer que ele pare, porque ela nunca fez aquilo, mas 
nessa altura j est to zonza que mal  capaz de falar, quanto mais gritar por ajuda, e ele s no consegue aproveitar-se dela, porque outro casal que estava hospedado 
no mesmo quarto aparece, e ela arrasta-se para fora do quarto a chorar agarrada ao vestido. Consegue encontrar o caminho para a casa de banho do trio e deixa-se 
ficar l a chorar, e as outras raparigas com quem veio ao baile entram e vem-na de rmel esborratado e com o vestido rasgado e em vez de lhe darem apoio, riem-se 
dela, agindo como se ela j devesse saber ao que vinha e que tivera o que merecia. Finalmente, ela acaba por telefonar a um amigo, que se mete no carro e a vai buscar, 
e que tem a delicadeza suficiente de no lhe fazer pergunta nenhuma durante todo o caminho de volta.
Quando a Savannah terminou, eu estava retesado de raiva. No sou nenhum santo no que toca a mulheres, mas nunca na vida me passou pela cabea forar uma mulher contra 
a sua vontade.
- Envergonha-me que isso te tenha acontecido - foi tudo o que consegui dizer.
- No tens de te envergonhar. No foste tu.
- Eu sei. Mas no sei que mais dizer. A menos que... - A voz sumiu-se-me, e passado um instante a Savannah virou-se para mim. Eu via as lgrimas a correrem-lhe pelas 
faces, e o facto de ela ter estado a chorar to silenciosamente magoou-me.
- A menos que o qu?
- A menos que queiras que eu... no sei. Que eu lhe d uma valente sova?
A Savannah soltou uma leve gargalhada melanclica. - Nem te passa pela cabea a quantidade de vezes em que tive vontade de fazer precisamente isso.
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 Eu fao - garanti-lhe. - Basta dares-me o nome dele, que eu
prometo no te envolver em nada disto. Do resto trato eu.
Ela apertou-me a mo. - Eu sei que farias.
Estou a falar a srio - insisti.
Esboou-me um sorriso apagado, com um ar a um tempo cansado de viver e dolorosamente jovem. -  por isso que no te digo. Mas acredita em mim, fiquei comovida.  
muito querido da tua parte.
Apreciei a maneira como ela disse aquilo, e ficmos sentados lado a lado, de mos dadas com fora. Parara finalmente de chover, e, em seu lugar, eu estava novamente 
a ouvir o barulho do rdio da casa vizinha. No conhecia aquela msica, mas percebi que se tratava de qualquer coisa dos primrdios do Jazz. Um dos tipos da minha 
unidade era fantico por jazz.
- Mas, a propsito - prosseguiu a Savannah -, foi isso que eu quis dizer quando te contei que as coisas nem sempre me correram bem no meu primeiro ano na faculdade. 
E foi por essa razo que eu quis desistir do curso. Os meus pais, abenoados sejam, pensaram que eu estava com saudades de casa e obrigaram-me a ficar l. Mas... 
por muito mau que pudesse ter sido, aprendi uma coisa a respeito de mim prpria. Que seria capaz de passar por algo assim e sobreviver. Quer dizer, eu sei que poderia 
ter sido pior... bem pior... mas, para mim, naquela altura, j foi de mais. E retirei da uma lio.
Quando a Savannah chegou ao fim dei por mim a lembrar-me duma coisa que ela dissera. - Foi o Tim quem te foi buscar naquela noite ao hotel?
Ela ergueu o olhar, espantada.
- A quem mais haverias de telefonar? - acrescentei eu  laia de justificao.
Ela assentiu com a cabea. - Pois, acho que tens razo. E ele foi impecvel. At hoje, nunca me pediu para entrar em pormenores, e eu no lhe contei nada. Mas desde 
aquele dia que se tem mostrado um bocadinho protector em relao a mim, e no vou dizer que me importo.
No silncio, pensei na coragem que ela revelara, no apenas nessa noite, mas posteriormente. Se ela no me tivesse contado, eu nunca suspeitaria de que lhe acontecera 
algum incidente desagradvel. Admirei-me por, no obstante o que se passara, a Savannah ter sido capaz de manter a sua viso optimista do mundo.
- Prometo portar-me como um perfeito cavalheiro - disse-lhe. Ela virou-se para mim. - De que  que ests para a a falar?
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- Desta noite. Da noite de amanh. De sempre. Eu no sou como esse fulano.
A Savannah fez deslizar um dedo pelo meu queixo, e eu senti um formigueiro na pele ao seu toque. - Eu sei - disse ela, com ar divertido. - Por que  que achas que 
estou aqui contigo neste momento?
A voz dela revelava imensa ternura e, mais uma vez, reprimi o desejo de a beijar. No era disso que ela precisava, no agora, embora me fosse difcil pensar noutra 
coisa que no nisso.
- Sabes o que  que a Susan me disse depois da primeira noite em que estivemos juntos? Depois de te teres ido embora e de eu ter voltado para ao p do grupo?
Aguardei.
- Ela disse-me que tinhas um ar assustador. Como se fosses a ltima pessoa neste mundo com quem ela desejasse ficar a ss.
Arreganhei os dentes. - J me disseram coisas bem piores - assegurei-lhe.
- No, no ests a perceber aonde eu quero chegar. O que eu quero dizer  que me lembro de ter pensado que no compreendia o que ela estava a dizer, porque quando 
me entregaste o saco na praia, vi honestidade, e confiana, e at alguma ternura, mas nada que me assustasse. Eu sei que pode parecer um disparate, mas tive a sensao 
de que j te conhecia.
Virei-me sem lhe responder.  luz do candeeiro da rua, via a neblina a elevar-se do cho, um resqucio do calor que fizera nesse dia. Os grilos comearam a fazer-se 
ouvir, cantando uns com os outros ao desafio. Eu engoli em seco, tentando aplacar a sbita secura que me afectava a garganta. Olhei para a Savannah, depois para 
o tecto, em seguida para os meus ps e por fim novamente para a Savannah. Ela apertou-me a mo, e eu inalei levemente, maravilhado com o facto de, durante uma vulgar 
licena e num lugar vulgar, sem saber como, me ter apaixonado por uma rapariga extraordinria chamada Savannah Lynn Curtis.
Ela reparou na minha expresso, mas deu-lhe a interpretao errada. - Desculpa se te fiz sentir pouco  vontade - sussurrou-me.
- H ocasies em que isso me acontece. Agir sem pensar, quero eu dizer. Limito-me a deixar sair o que me vai na alma sem levar em conta o efeito que isso poder 
ter sobre as outras pessoas.
- Tu no me fizeste sentir pouco  vontade - afirmei, virando-lhe o rosto para o meu. - S que  a primeira vez que algum me diz algo do gnero.
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Por pouco no me contive, ciente de que, se no deixasse sair aquelas palavras, o momento acabaria por passar e eu iria escapar sem expor os meus sentimentos.
Nem fazes ideia do que os ltimos dias significaram para mim
comecei. - Conhecer-te foi a melhor coisa que j me aconteceu
na vida.
Sempre imaginei que estas palavras fossem difceis de dizer, mas no foram. Em toda a minha vida, nunca tive tanta certeza de nada, e por muito que esperasse um 
dia ouvir a Savannah dirigir-me estas mesmas palavras, o mais importante era saber que eu tinha amor para dar, sem compromissos nem expectativas.
L fora, o ar estava a arrefecer, e eu via as poas de gua a brilharem ao luar. As nuvens comeavam a dissipar-se e, entre elas, o cintilar ocasional duma estrela, 
como que a lembrar-me do que eu acabara de confessar.
- Alguma vez tinhas imaginado algo assim? - perguntou-me a Savannah em voz alta. - Tu e eu, quero eu dizer?
- No - admiti.
- Assusta-me um bocado.
Senti um aperto no estmago e, subitamente, percebi que ela no se sentia como eu.
- No tens de me dizer o mesmo - comecei. - No  por eu ter dito que...
- Eu sei - interrompeu-me. - Tu no ests a perceber. No foi o que tu disseste que me assusta. Eu estou assustada, porque tambm queria dizer isso: amo-te, John.
Ainda hoje, no sei ao certo como tudo aconteceu. Num momento estvamos a conversar, e no momento seguinte, ela inclinava-se para mim. Por um instante, perguntei-me 
se, ao beij-la, no iria quebrar o feitio que pendia sobre ns, mas era tarde de mais para parar. E quando os lbios dela se encontraram com os meus, eu soube 
que podia viver at aos cem anos e visitar todos os pases do mundo, que nada jamais se compararia quele momento nico em que pela primeira vez beijei a rapariga 
dos meus sonhos e soube que o meu amor duraria para sempre.
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CAPTULO NOVE
Acabmos por ficar a p at tarde. Depois de abandonarmos a casa, levei a Savannah de volta  praia, e passemos ao longo do vasto areal at ela comear a bocejar. 
Acompanhei-a  porta de casa, e tornmos a beijar-nos enquanto as borboletas nocturnas se arremessavam contra a luz do alpendre.
Embora possa dar a impresso de que eu passara o dia anterior a pensar na Savannah, nada se comparava com a obsesso que senti no dia seguinte, apesar de se tratar 
duma sensao diferente. Dava por mim a sorrir sem nenhum motivo que o justificasse, algo em que at o meu pai reparou quando chegou do trabalho. No fez comentrios 
- nem eu estava  espera de que fizesse -, mas no se mostrou surpreendido quando eu lhe dei uma palmadinha nas costas depois de ele me informar que pensava fazer 
lasanha para o jantar. Falei incessantemente da Savannah e, passadas umas horas, ele voltou para o seu refgio. Apesar de no se ter alargado muito a conversar, 
creio que ele se sentia feliz por mim e at mesmo mais que eu estaria disposto a admitir. Tive a confirmao disso quando cheguei a casa nessa noite e encontrei 
um prato de biscoitos de manteiga de amendoim acabados de sair do forno na bancada da cozinha, juntamente com um bilhete a informar-me de que havia leite de sobra 
no frigorfico.
Levei a Savannah a comer um gelado e em seguida fomos dar um passeio de carro pela zona turstica de Wilmington. Percorremos as lojas, onde descobri que ela se interessava 
por antiguidades. Mais tarde, levei-a a conhecer o navio de guerra, mas no nos demormos muito. Ela tinha razo; no tinha grande interesse. Depois, acompanhei-a 
a casa, onde nos sentmos em volta da fogueira juntamente com os seus companheiros.
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Nas duas noites seguintes, a Savannah veio ter a minha casa. De ambas as vezes, foi o meu pai a cozinhar. Na primeira noite, a Savannah no lhe fez qualquer pergunta 
sobre moedas, e foi um custo fazlo conversar. O meu pai contentou-se principalmente em ouvir e, embora a Savannah tivesse mantido uma atitude agradvel e se esforasse 
por inclui-lo, a fora do hbito levou a que fssemos falando um com o outro enquanto o meu pai se concentrava na refeio. Quando se foi embora, a Savannah ia de 
sobrolho franzido, e apesar de eu estar relutante em aceitar que a impresso inicial com que ela ficara dele se alterara, sabia que isso era verdade.
Para grande surpresa minha, a Savannah pediu-me para l voltar na noite seguinte, onde, uma vez mais, ela e o meu pai acabaram por ir parar ao refgio, a conversar 
sobre moedas. Enquanto os estava a ver, interroguei-me o que  que a Savannah estaria a achar duma situao a que eu havia muito tempo me habituara. Em simultneo, 
rezava para que ela se mostrasse mais compreensiva que eu em tempos fora. No momento em que nos fomos embora, percebi que no tinha nada com que me preocupar. Ao 
invs, quando seguamos de carro a caminho da praia, ela referiu-se ao meu pai em termos elogiosos, salientando sobretudo a boa educao que ele me dera. Apesar 
de eu no saber ao certo o que pensar daquilo, soltei um suspiro de alvio por ela parecer aceitar o meu pai tal como ele era.
Quando chegou o fim-de-semana, as minhas idas  casa da praia j se estavam a tornar um acontecimento habitual. A maioria dos moradores da casa j sabia o meu nome, 
embora continuassem a no revelar grande interesse pela minha pessoa, de to exaustos que estavam do dia passado a trabalhar. Na quinta-feira, s sete ou oito da 
noite, j quase todos se encontravam em volta da televiso em lugar de irem l para fora beber ou namorar. Todos eles estavam bronzeados, e no havia nenhum que 
no tivesse pensos rpidos nos dedos por causa das bolhas.
No sbado  noite, os habitantes da casa descobriram reservas suplementares de energia, e eu cheguei no preciso momento em que um grupo de rapazes descarregava grades 
de cerveja do porta-bagagem duma carrinha. Ajudei-os a transport-las, uma vez que me apercebi de que desde a primeira noite em que estivera com a Savannah no provava 
uma gota de lcool. Tal como no fim-de-semana anterior,
o grelhador estava aceso e comemos em redor da fogueira; depois fomos dar um passeio na praia. Eu trouxera uma manta e um cesto de piquenique com uma merenda nocturna 
e, enquanto nos achvamos deitados de barriga para o ar, assistimos a um espectculo de
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estrelas cadentes, tolhidos de espanto,  medida que os raios de luz branca rasgavam o cu. Estava uma daquelas noites perfeitas com uma brisa suficiente para no 
nos deixar nem com calor nem com frio, e ficmos horas a conversar e a beijarmo-nos antes de adormecermos nos braos um do outro.
Quando, no domingo de manh, o Sol comeou a sua ascenso a partir do mar, eu sentei-me ao lado da Savannah. A luz da madrugada iluminava-lhe o rosto, e o seu cabelo 
formava um leque sobre a manta. Tinha um brao cruzado sobre o peito e outro por cima da cabea, e tudo em que fui capaz de pensar foi que gostaria de passar o resto 
da minha vida a acordar com ela a meu lado.
Fomos  missa de domingo, e o Tim mostrou-se conversador como sempre, apesar de mal termos trocado uma palavra durante toda a semana. Tornou a perguntar-me se eu 
no queria ajudar a construir a casa. Disse-lhe que me iria embora na sexta-feira seguinte e que, por conseguinte, no estava a ver at que ponto lhes poderia ser 
til.
- Acho que vais acabar por venc-lo pela persistncia - observou a Savannah, dirigindo-lhe um sorriso.
O Tim levantou as mos. - Pelo menos depois no me podes vir dizer que no tentei.
 bem provvel que tenha sido a semana mais idlica da minha vida. Os meus sentimentos pela Savannah vinham a aprofundar-se, todavia,  medida que os dias iam passando, 
comecei a sentir uma angstia apertada por ver o fim to perto. Sempre que esta sensao se apoderava de mim, esforava-me por afast-la, mas, na noite de domingo, 
mal consegui dormir. Passei a noite s voltas na cama, a pensar na Savannah, e tentei imaginar como poderia ser feliz sabendo-a do outro lado do oceano, rodeada 
de homens, um dos quais poderia vir a sentir por ela exactamente o mesmo que eu sentia.
Quando na segunda-feira  noite cheguei  casa da praia, no conseguia encontrar a Savannah. Pedi a algum que fosse ver ao quarto dela, e espreitei para dentro 
de todas as casas de banho. Ela no estava nem na varanda das traseiras, nem na praia com os outros.
Fui at  areia e comecei a perguntar por ela, recebendo sobretudo encolheres de ombros de indiferena. Alguns deles nem sequer tinham dado pela sada dela, mas 
finalmente uma das raparigas - Sandy, ou Cindy, no sabia ao certo - apontou para o fundo da praia e informou-me de que a vira tomar aquela direco havia cerca 
duma hora.
Levei imenso tempo a encontr-la. Percorri a praia em ambos os sentidos, concentrando-me por fim no ponto prximo da casa.
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Seguindo um palpite, precipitei-me pelos degraus acima, ouvindo as ondas a rebentarem por baixo de mim. Quando vi a Savannah, pensei que ela fora Para o Ponto a 
procura de golfinhos ou para ver os surfistas. Fui encontr-la sentada com os joelhos encostados ao corpo, as costas apoiadas num poste, e foi s quando me aproximei 
que me apercebi de que estava a chorar.
fico sempre sem saber o que fazer quando vejo uma rapariga a chorar. Para falar com toda a franqueza, fico sempre sem saber o que fazer quando vejo qualquer pessoa 
a chorar. O meu pai nunca chorava ou, se chorava, nunca era na minha presena. E a ltima vez que eu chorara fora no terceiro ano, quando cara duma casa montada 
numa rvore e fizera uma entorse no pulso. Na minha unidade, j vira alguns tipos a chorar, e em geral dava-lhes umas palmadinhas na cabea e virava costas, deixando 
as perguntas e as ofertas de consolo a algum com mais experincia.
Antes de eu ter tempo de decidir o que havia de fazer, a Savannah viu-me. Apressou-se a esfregar os seus olhos vermelhos e inchados, e ouvia-a a respirar fundo algumas 
vezes para se acalmar. O saco, o mesmo que eu resgatara das guas do oceano, achava-se entre as suas pernas.
- Ests bem? - indaguei.
- No - respondeu-me ela, e eu senti um aperto no corao.
- Queres ficar sozinha?
Ela reflectiu na pergunta. - No sei - disse por fim. Sem saber que mais havia de fazer, deixei-me ficar onde estava. A Savannah soltou um suspiro. - Isto j passa. 
Enfiei as mos nos bolsos,  medida que ia assentindo com a cabea.
- Preferes ficar sozinha? - insisti.
- Queres mesmo que te diga? Hesitei. - Quero.
Ela soltou uma gargalhada melanclica. - Podes ficar - disse.
Para dizer a verdade, at era capaz de me fazer bem se te viesses sentar ao p de mim.
Sentei-me ao p dela e, depois dum breve momento de indeciso, pus-lhe um brao em volta da cintura. Ficmos algum tempo sentados sem dizer nada. A Savannah ia respirando 
lentamente, e o seu ritmo foi-se tornando mais regular. Ela limpou as lgrimas que lhe continuavam a correr pelas faces.
- Comprei-te uma coisa - disse-me ela passado um bocado.
Espero que gostes.
- Tenho a certeza de que sim - murmurei.
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Ela fungou. - Sabes no que  que vinha a pensar quando aqui cheguei? - No ficou  espera da minha resposta. - Vinha a pensar em ns. Na forma como nos conhecemos 
e como conversmos na primeira noite, como tu exibiste as tuas tatuagens e lanaste um mau-olhado ao Randy. E na tua cara de pateta quando me viste a fazer surf 
pela primeira vez, depois de eu ter cavalgado aquela onda at  margem...
Quando a voz dela esmoreceu, abracei-lhe a cintura com fora.
- Tenho a certeza de que, algures por a, deve haver um elogio. Ela tentou esboar um sorriso tnue, mas sem grande xito. - Lembro-me de tudo o que se passou nesses 
primeiros dias - prosseguiu.
- E o mesmo se aplica a toda a semana. Quando estivemos com o teu pai, quando fomos comer um gelado, at mesmo quando ficmos embasbacados a olhar para o idiota 
do teu barco.
- No te torno a levar l - prometi-lhe, mas ela levantou as mos para me interromper.
- No me deixaste acabar - protestou. - E no ests a ver aonde  que eu quero chegar. O que eu quero dizer  que adorei cada momento que passei contigo, e no estava 
 espera. No foi  procura disso que vim para aqui, tal como no vim para aqui para me apaixonar por ti. Nem, duma forma diferente, pelo teu pai.
Subjugado, eu no disse nada.
A Savannah prendeu uma madeixa de cabelo atrs da orelha.
- Acho que tens um pai fantstico. Acho que ele te deu uma educao excelente, e eu sei que tu no pensas assim, mas...
Quando ela pareceu ficar sem palavras, abanei a cabea, perplexo.
- E  por isso que estavas a chorar? Por causa da maneira como me sinto em relao ao meu pai?
- No - disse ela. - No ouviste o que te tenho estado a dizer? Ela fez uma pausa, numa tentativa de reorganizar o caos dos seus pensamentos. - Eu no me queria 
apaixonar por ningum - confessou-me. - No estava preparada para isso. J passei por essa experincia uma vez, e acabei por ficar de rastos. Eu sei que agora  
diferente, mas daqui a uns dias tu vais-te embora e tudo entre ns vai acabar... e eu vou ficar de rastos outra vez.
- No tem de ser o fim - contrapus eu.
- Mas vai ser - insistiu a Savannah. - Eu sei que nos podemos escrever e falar de vez em quando ao telefone, e que nos podamos ver quando tu viesses a casa de licena. 
Mas no vai ser a mesma coisa. Eu no vou poder ver as tuas expresses tolas. No vamos poder ficar deitados os dois na praia a contemplar as estrelas. No vamos 
poder
ficar sentados frente a frente a conversar e a partilhar os nossos segredos. Eu vou deixar de sentir os teus braos em volta do meu corpo, como estou a sentir agora.
Eu afastei-me, dominado por uma sensao crescente de frustrao e pnico. Tudo o que a Savannah estava a dizer era verdade.
Foi s hoje que tomei conscincia disso - afirmou ela -
quando andava a dar uma vista de olhos pela livraria. Fui l para comprar um livro e, depois de o ter encontrado, comecei a imaginar qual seria a tua reaco quando 
to oferecesse. A verdade  que iria estar contigo dentro dalgumas horas, e que nessa altura ficaria a saber, e isso acalmou-me. Porque ainda que tu no reagisses 
bem, ns seramos capazes de ultrapassar isso, porque poderamos resolver o assunto cara a cara. Foi disso que me fui apercebendo enquanto aqui estava sentada. Que 
quando estamos juntos, tudo  possvel. - Ela prosseguiu aps uma breve hesitao: - No tarda, isto j no vai ser possvel. Desde que te conheo que sei que s 
irias ficar aqui durante umas duas semanas, mas nunca pensei que me fosse to difcil dizer-te adeus.
- Eu no te quero dizer adeus - disse-lhe eu, virando-lhe a cara delicadamente para a minha.
Por baixo de ns, eu ouvia as ondas a embater contra os pilares. Um bando de gaivotas sobrevoou-nos, e eu inclinei-me para a beijar, e os meus lbios mal tocaram 
os da Savannah. A boca dela sabia a hortel e a canela, e eu lembrei-me uma vez mais dum regresso a casa.
Na esperana de lhe afastar o esprito de pensamentos to melanclicos, dei-lhe um leve aperto e apontei para o saco dela. - Ento afinal que livro  que me compraste?
A princpio, a Savannah pareceu ficar atnita, depois lembrou-se de que j tinha tocado no assunto. - Oh, claro, acho que j est na altura, no ?
Pela maneira como ela disse aquelas palavras, percebi logo que no me tinha comprado o ltimo Hiaasen. Fiquei a aguardar, mas, quando os meus olhos procuraram os 
dela, a Savannah desviou o olhar.
- Se eu to der - afirmou ela num tom srio -, tens de me prometer que o vais ler.
Eu no sabia o que pensar daquilo. - Claro - assegurei-lhe, arrastando a palavra. - Est prometido.
Ainda assim, a Savannah hesitou. Depois procurou dentro do saco e tirou de l o livro. Quando mo entregou, li o ttulo. A princpio, no soube o que pensar. Era 
um livro (mais propriamente um livro
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didctico, na realidade) sobre o autismo e a sndrome de Asperger. Eu j ouvira falar em ambas as doenas e presumia saber tanto como a maioria das pessoas, o que 
no era grande coisa.
- Foi uma das minhas professoras que o escreveu - explicou-me a Savannah. -  a melhor professora que eu j tive na faculdade. As aulas dela esto sempre cheias, 
e at os estudantes que no esto inscritos s vezes passam por l para conversar com ela.  uma das maiores especialistas em todos os distrbios relacionados com 
o desenvolvimento, e  uma das poucas que concentrou a sua investigao nos adultos.
- Fascinante - disse eu sem me preocupar com ocultar a minha falta de entusiasmo.
- Acho que talvez pudesses aprender alguma coisa - insistiu a Savannah.
- Sem dvida - disse eu. - Ao que vejo, deve ter imensa informao.
-  mais que isso - garantiu-me. Falava em voz baixa. - Quero que o leias por causa do teu pai. E a maneira como vocs dois se relacionam.
Pela primeira vez, senti o meu corpo retesar-se. - O que  que uma coisa tem que ver com a outra?
- Eu no sou especialista - afirmou ela -, mas este livro estava no programa em ambos os semestres que eu a tive como professora, e no deve ter passado uma noite 
em que no tenha estudado por ele. Tal como disse, ela entrevistou mais de trezentos adultos com esse tipo de distrbios.
Afastei o meu brao dela. - E?
Percebi que a Savannah sentia a tenso na minha voz, e ela perscrutou-me com um laivo de apreenso.
- Eu sei que sou apenas uma estudante, mas passei muitas horas a fazer trabalho de laboratrio com crianas que sofrem da sndrome de Asperger... Tive oportunidade 
de as observar de perto, bem como de conhecer alguns dos adultos que a minha professora entrevistou.
- A Savannah ajoelhou-se diante de mim, estendeu a mo para me tocar no brao. - O teu pai  muito parecido com algumas delas.
Eu achava que j sabia aonde ela pretendia chegar, mas, no sei ao certo porqu, queria que ela mo dissesse directamente. - O que  que queres dizer com isso? - 
questionei-a, fazendo um esforo por no me afastar.
A resposta da Savannah tardou em chegar. - Eu acho que o teu pai talvez sofra da sndrome de Asperger.
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O meu pai no  atrasado.
Eu no disse isso - emendou-me ela. - A sndrome de Asperger  uma perturbao do desenvolvimento.
Isso no me interessa - ripostei eu, a voz a subir de tom. -
O meu pai no tem nada disso. Ele educou-me, trabalha, paga as suas contas. At j foi casado.
Podemos sofrer de Asperger e ainda assim viver uma vida...
Ao ouvi-la falar, lembrei-me subitamente duma coisa que ela tinha dito. - Espera a - interrompi-a, esforando-me por me recordar de quais tinham sido as palavras 
exactas que ela usara e sentindo a boca seca. - Um dia destes, tu disseste que o meu pai me tinha dado uma ptima educao.
- Pois foi - anuiu ela -, e eu queria dizer que...
Eu sentia os maxilares a retesarem-se  medida que ia percebendo o que  que ela pretendera de facto dizer, e fiquei a olhar fixamente para ela como se a estivesse 
a ver pela primeira vez. - Mas isso  porque tu achas que ele  como o Rain Man. Que, tendo em conta a doena dele, me deu uma boa educao.
- No... tu no ests a compreender. A sndrome de Asperger abrange um largo espectro, de leve a grave...
Eu mal ouvia o que ela dizia. - E tu respeitas o meu pai por esse motivo. Mas isso no  o mesmo que gostares dele.
- No, espera...
Afastei-me da Savannah e levantei-me. Sentindo uma sbita necessidade de espao, fui para o parapeito em frente dela. Pensei nos pedidos constantes que me fizera 
para o ir visitar... mas no porque lhe quisesse fazer companhia. Antes por desejar fazer do meu pai objecto de estudo.
Senti um n no estmago, e encarei-a. - Foi por isso que quiseste ir a minha casa, no foi?
- O que...
- No porque gostasses dele, mas porque querias ter a certeza de que estavas certa.
- No...
- Deixa-te de mentiras! - gritei-lhe.
- Eu no estou a mentir.
- Foste sentar-te ao p do meu pai, a fingir que estavas interessada nas moedas dele, mas na realidade estavas a avali-lo como se ele fosse uma espcie de macaco 
enjaulado.
- No foi nada disso! - retorquiu a Savannah, pondo-se de p. - Eu respeito o teu pai...
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 ? - Porque tu achas que ele tem problemas e que os conseguiu ultrapassar - vociferei, concluindo a frase por ela. - Pois, isso j eu percebi.
- No, ests enganado. Eu gosto do teu pai...
- E foi por isso que o sujeitaste  tua experienciazinha, no foi?
- A minha expresso endurecera. - Ests a ver, eu devo ter-me esquecido de que quando tu gostas de algum, te d para fazeres coisas dessas.  isso que me tens estado 
a querer dizer?
A Savannah abanou a cabea. - No! - Pela primeira vez, ela pareceu questionar o que fizera, e vi o lbio comear a tremer-lhe. Quando tornou a falar, foi com voz 
vacilante. - Tu tens razo. Eu no devia ter feito isso. Mas eu s queria ser capaz de o compreender.
- Porqu? - indaguei eu, dando um passo na direco dela. Sentia os msculos tensos. - Eu compreendo-o muito bem. Cresci com ele, j te esqueceste? Vivo com ele.
- Eu s estava a tentar ajudar - justificou-se a Savannah, de olhos baixos. - S queria que tu te conseguisses relacionar com ele.
- Mas eu no pedi a tua ajuda. Nem to-pouco a quero. E, afinal, desde quando  que o meu pai  da tua conta?
A Savannah afastou-se e limpou uma lgrima. - L isso  verdade - admitiu. A voz dela era praticamente inaudvel. - S pensei que talvez preferisses saber.
- Saber o qu? - interroguei-a. - Que tu achas que ele sofre duma doena qualquer? Que eu no devo estar  espera de poder ter um relacionamento normal com ele? 
Que se eu quiser conversar com ele, tem de ser obrigatoriamente sobre moedas?
No fiz qualquer esforo para ocultar a raiva que me consumia, e, pelo canto do olho, reparei nalguns pescadores que se viravam na nossa direco. O meu olhar impediu-os 
de se aproximarem, o que provavelmente at foi melhor. Ao olharmos fixamente um para o outro, eu no estava  espera de que a Savannah me respondesse e, para falar 
com franqueza, at preferia que ela no o fizesse. Ainda estava a tentar ultrapassar o facto de a companhia que ela tinha feito ao meu pai no ter passado duma farsa.
- Talvez - respondeu-me num murmrio.
Eu pestanejei, com dificuldade em acreditar que ela dissera mesmo aquilo. - O qu?
- Tu ouviste-me perfeitamente. - Encolheu ligeiramente os ombros. - Talvez seja esse o nico assunto de que consigas conversar com o teu pai. Pode ser que ele no 
seja capaz de falar doutra coisa.
Senti os punhos fecharem-se-me. - Ests ento a querer dizer que tudo depende de mim?
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No estava a contar que a Savannah me respondesse, mas foi isso que aconteceu.
No sei - disse ela, os seus olhos encontrando os meus. Eu
continuava a ver-lhe as lgrimas, mas a voz denotava uma firmeza surpreendente. - Foi por isso que te comprei o livro. Para que o possas ler Tal como j disseste, 
tu conhece-lo melhor que eu. E eu nunca disse que ele  incapaz de fazer a sua vida, porque  bvio que faz. Mas pensa nisso. A incapacidade de alterar a rotina, 
o facto de no olhar para as pessoas quando fala com elas, de no ter qualquer espcie de vida social.
Eu afastei-me repentinamente, com vontade de bater nalguma coisa. Qualquer coisa.
- Por que  que ests a fazer isto? - perguntei-lhe em voz baixa.
- Porque se fosse comigo, eu preferia saber. E no estou a dizer isto com a inteno de magoar ou ofender o teu pai. Se te disse, foi porque queria que fosses capaz 
de o compreender.
A franqueza dela tornou dolorosamente claro que acreditava no que dizia. Ainda assim, no quis saber. Virei-me e comecei a percorrer o ponto. S me queria ir embora. 
Dali, da Savannah.
- Aonde  que vais? - ouvi-a chamar-me. -John! Espera! Ignorei-a. Ao invs, acelerei o passo e no tardei a chegar aos degraus do ponto. Desci-os em passo pesado, 
pus os ps na areia e encaminhei-me para a casa. No fazia a mais pequena ideia se a Savannah vinha atrs de mim, e,  medida que me ia aproximando do grupo, algumas 
caras viraram-se para mim. Estava com um ar zangado, e sabia disso. O Randy tinha uma cerveja na mo, e devia ter visto a Savannah a aproximar-se, porque me bloqueou 
o caminho. Alguns dos seus irmos da repblica seguiram-lhe o exemplo.
- O que  que se passa? - interrogou-me ele em voz alta. Eh, estou a falar contigo.
No foi uma atitude prudente. Eu sentia-lhe o bafo a cerveja e sabia que era o lcool que o estava a encorajar.
- Deixa-me em paz - disse-lhe eu.
- Ela est bem? - insistiu o Randy.
- Deixa-me em paz - reiterei -, se no queres que te parta um pulso.
- Eh, o que  que se passa? - ouvi o Tim a chamar algures nas minhas costas.
- O que  que tu lhe fizeste? - continuou o Randy. - Por que  que ela vem a chorar? Magoaste-a?
119
Eu sentia o sangue a ferver-me nas veias. - Ultima hiptese -. adverti-o.
- No h motivo nenhum para isto! - gritou o Tim, desta vez mais prximo. - Acalmem-se l, rapazes! Deixem-se l disso!
Senti algum a tentar agarrar-me por trs. O que aconteceu a seguir foi instintivo, numa questo de segundos. Enterrei-lhe o cotovelo com fora no plexo solar e 
ouvi-o soltar um sbito gemido; em seguida peguei na mo do Randy e torci-lha de imediato at estalar. Ele gritou e deixou-se cair de joelhos, e nesse preciso instante 
senti outro corpo precipitar-se sobre mim. Projectei um cotovelo s cegas, e senti-o encaixar-se nalguma coisa; ouvi uma cartilagem estalar  medida que me virava, 
pronto para receber quem quer que me atacasse.
- Olha o que foste fazer! - ouvi a Savannah gritar. Devia ter vindo a correr mal percebera o que se estava a passar.
Na areia, o Randy contorcia-se agarrado ao pulso; o tipo que me tinha tentado agarrar arquejava, apoiado nas mos e nos joelhos.
- Magoaste-o! - choramingou ela ao passar rapidamente por mim. - Ele s estava a tentar impedir a briga!
Eu virei-me. O Tim estava estendido no cho, agarrado  cara, o sangue a jorrar-lhe atravs dos dedos. A cena pareceu deixar toda a gente paralisada excepto a Savannah, 
que se deixou cair de joelhos ao lado dele.
O Tim gemia, e, apesar do corao que me martelava o peito, senti um aperto no estmago. Por que  que tivera de ser ele? Tive vontade de lhe perguntar se estava 
bem; tive vontade de lhe dizer que no tivera inteno de o magoar e que a culpa no fora minha. No fora eu quem comeara. Mas no faria qualquer diferena. No 
agora. No podia estar  espera de que eles fossem perdoar e esquecer, por muito que eu desejasse que nada daquilo tivesse acontecido.
Mal conseguia ouvir a aflio da Savannah quando me preparei para me ir embora. Mirei os outros com cautela, certificando-me de que me deixariam em paz, sem querer 
magoar mais ningum.
- Oh, Jesus... oh, no. Ests mesmo a sangrar... Temos de te levar ao mdico...
Continuei a recuar, depois virei-me e subi as escadas. Atravessei rapidamente a casa, e dirigi-me ao meu carro. Antes de dar por isso, j estava na rua, a maldizer-me 
a mim prprio e quela maldita noite.
120
CAPITULO DEZ
No sabia para onde havia de ir, por isso deixei-me conduzir sem destino durante algum tempo, os acontecimentos daquela noite a passarem-me repetidamente pela cabea. 
Continuava zangado comigo prprio pelo que fizera ao Tim -, mas no aos outros, sou forado a admitir - e zangado com a Savannah pelo que se passara no ponto.
J mal me lembrava de como tudo comeara. Num momento estava convencido de que a amava mais que imaginara possvel, e no momento seguinte estvamos a discutir. Sentia-me 
indignado por causa dos subterfgios a que ela recorrera, mas no era capaz de compreender por que  que isso me deixara to zangado. No se podia dizer que eu e 
o meu pai fssemos muito chegados; nem sequer se podia dizer que eu estivesse convencido de o conhecer de facto. Ento qual o motivo de eu ficar to zangado?
"Porque", a minha vozinha interior perguntou-me, " possvel que ela esteja certa?"
Porm, agora isso tambm no importava. Quer ele sofresse de facto dessa doena quer no, de que  que adiantava saber isso? Em que  que isso poderia contribuir 
para mudar alguma coisa? Ou, j agora, o que  que a Savannah tinha que ver com isso?
Enquanto conduzia, ia oscilando continuamente entre a fria e a aceitao. Dei por mim a reviver a sensao do meu cotovelo a partir o nariz do Tim, o que s veio 
piorar as coisas. Por que  que ele me tentara agarrar? Por que no algum dos outros? No fora eu a comear a briga.
E a Savannah... pois, talvez no dia seguinte eu arranjasse coragem para ir l pedir-lhe desculpa. Eu sei que ela acreditava sinceramente ?o que me dissera e que, 
l muito  sua maneira, s quisera ajudar. E talvez, se ela estivesse certa, eu preferisse saber. Eu podia explicar-lhe a situao...
1 71
Mas depois do que eu fizera ao Tim? Como  que a Savannah iria reagir a isso? Ele era o melhor amigo dela e, ainda que eu jurasse a ps juntos que se tratara dum 
acidente, faria isso alguma diferena para ela? A Savannah sabia que eu era um soldado, mas agora que tivera uma pequena demonstrao do que isso significava, continuaria 
a sentir o mesmo por mim?
Quando decidi voltar para casa, j passava da meia-noite. Entrei na casa s escuras, espreitei para o refgio do meu pai, em seguida fui ao quarto. Ele j no estava 
acordado,  claro; deitava-se todas as noites  mesma hora. Um homem rotineiro, tal como a Savannah observara.
Arrastei-me para a cama, ciente de que no iria ser capaz de adormecer e desejando poder comear a noite do princpio. Pelo menos, a partir do momento em que ela 
me dera o livro. Queria afastar tudo aquilo da minha cabea. No queria pensar no meu pai, nem na Savannah, nem no que eu fizera ao nariz do Tim. Mas passei toda 
a noite de olhos pregados no tecto, incapaz de me evadir dos meus pensamentos.
Levantei-me quando ouvi o meu pai na cozinha. Eu ainda no mudara a roupa que vestira no dia anterior, mas duvidei de que ele desse por isso.
- bom dia, pai - resmunguei.
- Ol, John - cumprimentou-me ele. - Queres tomar o pequeno-almoo ?
- Claro - respondi-lhe. - H caf feito?
- Na cafeteira.
Servi-me uma chvena de caf. Enquanto o meu pai cozinhava, eu reparei nos cabealhos do jornal, sabendo que comearia por ler a primeira pgina, depois a meteorologia. 
No iria ligar  seco desportiva nem  cultural. Um homem rotineiro.
- Passou bem a noite? - interroguei-o.
- O costume - respondeu-me. No fiquei surpreendido por ele no me retribuir a pergunta. Ao invs, revirou os ovos mexidos com a esptula. O bacon j estava a crepitar. 
A seu tempo, o meu pai virou-se para mim, e eu j sabia qual o pedido que me ia fazer.
- No te importas de pr umas fatias de po na torradeira?
O meu pai saa para o trabalho s 7h35m em ponto.
Depois de ele sair, dei uma vista de olhos ao jornal, sem grande interesse pelas notcias, sem saber o que havia de fazer a seguir. No me apetecia ir surfar, nem 
sequer sair de casa, e estava a pensar se no seria boa ideia voltar a meter-me na cama para descansar um bocado
quando ouvi um carro parar no acesso a minha casa. Imaginei que fosse algum a entregar um prospecto qualquer a anunciar a limpeza de fossas ou a lavagem  presso 
dos fungos do telhado; fiquei surpreendido ao ouvir baterem  porta.
Quando fui atender, fiquei petrificado, completamente apanhado de surpresa. O Tim passou o peso do corpo dum p para o outro. - Ol, John - cumprimentou-me ele. 
- Eu sei que  cedo, mas no te importas de me deixar entrar?
Trazia, uma faixa larga de adesivo a cobrir-lhe a cana do nariz, e a pele em volta de ambos os olhos estava negra e inchada.
- No... claro - hesitei eu, afastando-me para o lado, ainda a tentar assimilar a presena dele ali.
O Tim passou por mim e entrou na sala de estar. - Por pouco no dava com a tua casa - comentou. - Quando te vim c trazer na outra noite, j era tarde e no posso 
dizer que tenha prestado muita ateno ao caminho. Ainda andei algum tempo por a s voltas antes de descobrir onde ficava.
Tornou a sorrir, e reparei que trazia um pequeno saco de papel.
- Queres tomar um caf? - sugeri-lhe, despertando do choque.
- Acho que na cafeteira ainda deve haver que chegue para uma chvena.
- No, estou bem assim. Passei quase toda a noite a p, e prefiro no ingerir cafena. Quando chegar a casa, estou a contar ir deitar-me.
Eu assenti com a cabea. - Olha, ouve... a propsito do que aconteceu na noite passada - comecei. - Desculpa. No tive inteno de...
O Tim levantou as mos para me interromper. - No faz mal. Eu sei que no tiveste. E eu devia ter tomado mais cuidado. Devia ter tentado segurar um dos outros tipos.
Examinei-o. - Di-te?
- Nem por isso - disse ele. - Foi s uma daquelas noites passadas nas urgncias. O mdico ainda demorou algum tempo a atender-me, e preferiu mandar chamar outro 
para me pr o nariz no lugar. Mas garantiram-me que vai acabar por ficar como novo. Posso ficar com um pequeno alto, mas at estou com esperana de que isso me d 
uma aparncia mais dura.
Eu sorri, mas logo me senti culpado por isso. - Mais uma vez, aceita as minhas desculpas.
- Desculpas aceites - disse ele. - E eu agradeo-te. Mas no foi essa a razo da minha vinda aqui. - O Tim aproximou-se do sof. - No te importas que me sente? 
Ainda me sinto ligeiramente tonto.
Eu sentei-me na beira da poltrona reclinvel, debruado para a frente e com os cotovelos sobre os joelhos. O Tim instalou-se no sof chegando-se para trs para ficar 
confortvel. Pousou o saco de papel de lado.
- Gostaria de conversar contigo a respeito da Savannah - afirmou ele. - E sobre o que aconteceu ontem  noite.
O som do nome dela trouxe-me tudo de novo  memria, e eu desviei o olhar.
- Tu j sabes que ns somos muito amigos, no ? - O Tim no ficou  espera da resposta. - Ontem  noite, no hospital, ficmos imenso tempo a conversar, e s vim 
aqui para te pedir que no fiques zangado com ela por ter feito o que fez. Ela est consciente de que procedeu mal e que no lhe cabia a ela pr-se a fazer diagnsticos 
ao teu pai. Nisso tu tiveste razo.
- Ento por que  que ela no veio contigo?
- Neste momento, est na obra. Enquanto eu no recuperar, tem de ser ela a dirigir os trabalhos. E, para alm do mais, a Savannah no sabe que eu c vim.
Abanei a cabea. - No consigo perceber por que  que fiquei to zangado.
- Porque no querias ouvir falar nisso - disse o Tim em voz baixa. - Eu costumava sentir o mesmo sempre que algum me falava do meu irmo, o Alan. Ele  autista.
Ergui o olhar. - O Alan  teu irmo?
- , porqu? - indagou o Tim. - A Savannah j te falou dele?
- De passagem - admiti, lembrando-me de que no fora tanto sobre o Alan que ela me falara, mas sobretudo sobre o irmo que o tratara com tanta pacincia e que a 
inspirara a inscrever-se em educao especial como cadeira principal na faculdade.
No sof, o Tim retraiu-se ao tocar nas ndoas negras que tinha debaixo dos olhos. - E s para que saibas - prosseguiu ele -, eu concordo contigo. A Savannah no 
tinha nada que fazer o que fez, e j lhe fiz saber isso mesmo. Ainda te lembras de eu te ter dito que s vezes ela era ingnua? Foi a isto que me quis referir. Ela 
quer ajudar as pessoas, mas estas nem sempre interpretam bem as suas atitudes.
- No foi apenas a Savannah - reconheci. - Eu tambm tive culpa. Como acabei de te dizer, exagerei.
O olhar dele manteve-se firme. - Achas que ela pode ter razo? Eu juntei as mos. - No sei. Eu acho que no tem, mas...
- Mas nunca se sabe. E, a ser verdade, ser que isso faz alguma diferena, no ?
124
O Tim no esperou pela resposta. - J passei pelo mesmo - afirmoU - Bem me recordo do que eu e os meus pais sofremos com o Alan. Durante muito tempo, no soubemos 
o que  que ele tinha, nem se tinha de facto algum problema. E sabes a concluso a que cheguei ao fim deste tempo todo? Que no faz diferena. Eu continuo a gostar 
dele, e a tomar conta dele, e sempre assim ser. Mas... saber de que doena ele sofria ajudou-me bastante a relacionar-me melhor com ele. Quando eu soube... acho 
que deixei de esperar que ele se comportasse de determinada maneira. E, sem expectativas, foi-me mais fcil aceit-lo.
Digeri as palavras dele. - Ento e se ele no sofrer da sndrome de Asperger? - conjecturei.
- Tambm  possvel.
- E se eu achar que sofre?
Ele soltou um suspiro. - No  assim to simples quanto isso, mesmo em casos leves - afirmou. - No  a tirar sangue e a fazer-lhe uma anlise que ficamos a saber. 
Podemos chegar ao ponto em que colocamos a hiptese de isso ser verdade, mas da no passamos. Nunca havemos de ter a certeza. E pelo que a Savannah me contou a 
respeito dele, sinceramente, no acho que isso viesse fazer grande diferena. E por que  que haveria de fazer? Ele trabalha, ele criou-te... Que mais se pode esperar 
dum pai?
Eu ponderei no que ele dizia  medida que a minha mente era atravessada por imagens do meu pai.
- A Savannah comprou-te um livro - disse o Tim.
- No sei onde  que ele est - admiti.
- Sou eu quem o tem - informou-me ele. - Trouxe-o l de casa.
- Estendeu-me o saco de papel. No sei bem porqu, mas o livro pareceu-me mais pesado que na noite anterior.
- Obrigado.
Ele levantou-se, e eu percebi que a nossa conversa estava a chegar ao fim. O Tim dirigiu-se  porta, mas virou-se quando tinha a mo no puxador.
- Sabes que no s obrigado a l-lo - disse ele.
- Eu sei.
Ele abriu a porta, em seguida deteve-se. Percebi que desejava acrescentar mais alguma coisa, mas, para minha surpresa, no se virou. No te importas se te pedir 
um favor?
- Est  vontade.
- No partas o corao da Savannah, est bem? Eu sei que ela gosta de ti, e s quero que ela seja feliz.
Foi nesse momento que tive a confirmao das minhas suspeitas acerca dos sentimentos do Tim por ela. Enquanto ele se dirigia ao carro, fiquei a v-lo pela janela, 
certo de que no era o nico apaixonado por ela.
Pus o livro de lado e fui dar um passeio; quando regressei a casa, continuei a evit-lo. No sei dizer ao certo por que o fiz, para alm do facto de me incutir um 
certo receio.
Todavia, passadas algumas horas, obriguei-me a afast-lo e passei o resto da tarde a assimilar o seu contedo e a reviver recordaes do meu pai.
O Tim tinha razo. No existia uma forma de diagnstico precisa, nenhuma regra rgida, e como tal no havia forma alguma de eu poder vir a saber com certeza. Algumas 
pessoas que sofriam da sndrome de Asperger possuam um QI baixo, enquanto outras, e mais ainda as que sofriam de autismo grave - como a personagem interpretada 
por Dustin Hoffman em Rain Man. Encontro de Irmos -, eram consideradas gnios em determinadas reas. Algumas podiam funcionar to bem em contextos sociais que nunca 
ningum chegava a descobrir; outras tinham de viver sob internamento. Li esboos biogrficos de pessoas com sndrome de Asperger que eram verdadeiros prodgios na 
msica ou na matemtica, mas tambm descobri que eram to raras como os prodgios entre a populao em geral. No entanto, mais importante que tudo, descobri que, 
quando o meu pai era novo, eram raros os mdicos capazes de compreender sequer as caractersticas ou os sintomas da doena e que se algum problema houvesse, os pais 
dele nunca teriam descoberto. Ao invs, era vulgar o autismo e a sndrome de Asperger serem confundidos com atraso mental ou timidez, e, se as crianas eram internadas, 
aos pais s restava a esperana de que talvez um dia, quando crescessem, os filhos fossem capazes de ultrapassar o problema. A diferena entre o autismo e a sndrome 
de Asperger poderia ser resumida da seguinte forma: uma pessoa que sofra de autismo vive no seu prprio mundo, ao passo que outra afectada pela sndrome de Asperger 
vive no nosso mundo, mas da maneira que ela escolher.
Por este padro, seria possvel afirmar que a maioria das pessoas sofria de sndrome de Asperger.
Contudo, havia alguns sinais que indicavam que a Savannah poderia estar certa quanto ao meu pai. As suas rotinas rgidas, a dificuldade em sociabilizar, a sua falta 
de interesse por outro assunto que no fossem as moedas, o desejo de ficar sozinho - tudo peculiaridades que qualquer pessoa poderia ter, mas no caso do meu pai 
era diferente. Enquanto as outras pessoas podiam fazer estas opes de sua livre vontade, o meu pai - como outras pessoas afectadas por esta sndrome - pareciam 
ter sido foradas a viver com estas escolhas j predeterminadas. No mnimo, eu compreendi que isso poderia ajudar a explicar as atitudes do meu pai, e, a ser assim, 
no se dava o caso de ele no querer mudar, mas antes de ele no ser capaz de mudar. Mesmo tendo em conta toda a incerteza implcita, saber aquilo proporcionou-me 
um certo alvio. E, apercebi-me, poderia explicar duas perguntas relativas  minha me que sempre me tinham atormentado: o que vira ela nele? e por que  que o deixara?
Eu sabia que nunca chegaria a ter a certeza, e no fazia tenes de aprofundar a questo. Porm, com a ajuda duma imaginao frtil numa casa em silncio, era capaz 
de visualizar um jovem num pequeno restaurante, usando como pretexto a sua coleco de moedas raras, comear a travar conversa com uma pobre empregada de mesa, uma 
jovem que passava as noites deitada a sonhar com uma vida melhor. Talvez tenha sido ela a meter-se com ele, talvez no, mas o jovem sentiu-se atrado por ela e continuou 
a aparecer no restaurante. com o tempo, a jovem poderia ter-se apercebido da bondade e da pacincia que ele possua e que mais tarde usaria para me criar. E tambm 
possvel que ela tenha interpretado correctamente a sua natureza pacata, e percebido que era difcil faz-lo zangar e impossvel torn-lo violento. Mesmo sem amor, 
poderia ter sido suficiente, e assim ela aceitara casar-se com ele, a pensar que iriam vender as moedas e viver, seno felizes para sempre, pelo menos confortveis 
para sempre. Ela engravidou, e mais tarde, quando compreendeu que ao marido no lhe passava sequer pela cabea a ideia de vender as moedas, apercebeu-se de que estava 
agarrada a um homem que no mostrava grande interesse por nada do que a mulher fazia. Talvez a solido tenha levado a melhor sobre ela, ou talvez ela fosse apenas 
egosta, mas, fosse l por que razo fosse, quis ir-se embora, e, depois de o beb nascer, aproveitou a primeira oportunidade para o fazer.
Ou, pensei eu, talvez no.
Duvidava de que algum dia viesse a descobrir a verdade, mas tambm no tinha qualquer importncia. O que tinha importncia era que eu gostava do meu pai, e ainda 
que ele pudesse ter alguma pequena anomalia nos circuitos do crebro, compreendi subitamente que ele conseguira dalguma maneira construir um conjunto de regras para 
a vida, regras que o poderiam ajudar a integrar-se no mundo.
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Talvez no fossem muito usuais, mas no fora por isso que ele deixara de me ajudar a tornar-me no homem que era. E a mim isso bastava-me.
Ele era meu pai, e fizera o seu melhor. Compreendia isso agora E quando por fim fechei o livro e o pus de parte, dei por mim de olhar fixo para l da janela, a pensar 
no orgulho que tinha nele enquanto tentava desfazer o n que sentia na garganta.
Quando chegou do trabalho, o meu pai mudou de roupa e foi para a cozinha preparar o esparguete. Pus-me a estud-lo  medida que levava estas tarefas a cabo, consciente 
de que estava a fazer precisamente a mesma coisa que a Savannah fizera e que me levara a zangar com ela. E estranho como o conhecimento nos pode modificar a percepo.
Reparei na preciso dos seus movimentos - o cuidado com que ele abria a embalagem do esparguete antes de o reservar e a ateno com que ia revirando a esptula em 
cuidadosos ngulos rectos enquanto dourava a carne. Sabia que ele ia juntar sal e pimenta e, passado um instante, foi isso que fez. Sabia que o seu passo seguinte 
seria abrir a lata do tomate e, mais uma vez, verifiquei que estava certo. Como de costume, no me perguntou como me correra o dia, preferindo cozinhar em silncio. 
No dia anterior, eu atribura isso ao facto de sermos praticamente como dois estranhos; hoje compreendia que havia a possibilidade de nunca deixarmos de o ser. Todavia, 
pela primeira vez na minha vida, no me incomodei com isso.
Ao jantar, perguntei-lhe se o dia lhe correra bem, sabendo que ele no me iria responder. Ao invs, falei-lhe da Savannah e do tempo que passramos juntos. Depois, 
ajudei-o a lavar a loia, dando seguimento  nossa conversa unilateral. Quando acabmos, o meu pai tornou a ir buscar o esfrego. Limpou a bancada uma segunda vez, 
em seguida fez girar o saleiro e o pimenteiro at ficarem exactamente na mesma posio em que se encontravam quando ele chegara a casa. Tive a sensao de que o 
meu pai desejava contribuir para a conversa e no sabia como, mas acho que era s eu a tentar sentir-me melhor. No fazia diferena. Percebi que ele estava pronto 
para se recolher ao seu refgio.
- Olhe, pai - disse eu. - E que tal se me mostrasse algumas das moedas que tem comprado ultimamente? Estou desejoso de o ouvir falar nelas.
Ele fitou-me como se no tivesse a certeza de ter ouvido bem, em seguida relanceou o cho. Passou a mo pelo cabelo ralo, e eu reparei
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que a calva no alto da sua cabea vinha a aumentar. Quando tornou a erguer o olhar para mim, parecia quase assustado. "?
Est certo - acabou ele por dizer.
Fomos juntos para o refgio, e quando o senti a encostar-me a mo delicadamente s costas, tudo em que consegui pensar foi que havia muitos anos que no me sentia 
to prximo do meu pai.
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CAPITULO ONZE
Na noite seguinte, enquanto me achava no ponto a admirar o reflexo da Lua a brincar nas guas do oceano, perguntava-me se a Savannah iria aparecer. Na vspera, 
depois de passar horas a examinar moedas com o meu pai e a apreciar o entusiasmo que a sua voz deixava transparecer  medida que mas ia descrevendo, meti-me no automvel 
e fui at  praia. No assento a meu lado, seguia um bilhete que eu escrevera  Savannah, a pedir-lhe para se encontrar comigo ali. Eu guardara o bilhete num sobrescrito 
e deixara-o no carro do Tim. Tinha a certeza de que, por muita curiosidade que o contedo lhe despertasse, ele lhe entregaria o sobrescrito sem o abrir. Durante 
o breve perodo em que convivera com ele, chegara  concluso de que o Tim, tal como o meu pai, era uma pessoa muito melhor que eu algum dia poderia esperar vir 
a ser.
No conseguia pensar noutra coisa. Depois da altercao, eu sabia que j no era bem-vindo na casa da praia; tambm no me queria cruzar com o Randy, a Susan, nem 
com nenhum dos outros, o que tornava o contacto com a Savannah impossvel. Ela no tinha telemvel, nem eu sabia o nmero de telefone da casa da praia, o que me 
deixava o bilhete como nica alternativa.
Tinha errado. Havia-me excedido e tinha conscincia disso. No apenas com ela, como tambm com os rapazes que estavam na praia. Deveria ter-me limitado a afastar-me. 
O Randy e os amigalhaos, ainda que levantassem pesos e se considerassem atletas, no tinham a mais pequena hiptese contra algum treinado para imobilizar quem 
quer que fosse com rapidez e eficcia. Tivesse aquilo acontecido na Alemanha, e eu poderia ter sido colocado sob deteno. O governo no mostrava grande tolerncia 
para com aqueles que usavam as aptides adquiridas  custa do governo de formas que o governo no aprovava.
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Assim, deixei-lhe um bilhete e depois pus-me a olhar para o relgio at ao dia seguinte, perguntando-me se a Savannah iria aparecer.  medida que as horas passavam, 
dei por mim a olhar compulsivamente por cima do ombro, soltando um suspiro de alvio quando vislumbrei uma silhueta a recortar-se na escurido. Pela maneira como 
se movimentava, eu percebi que s poderia ser a Savannah. Apoiei-me contra o parapeito e fiquei  espera dela.
Quando me viu, a Savannah abrandou o passo, depois deteve-se. Nem abraos, nem beijos... aquela sbita formalidade angustiou-me.
- Recebi o teu bilhete - disse ela.
- Fico contente por teres vindo.
- Tive de sair sem ningum dar por mim para que eles no soubessem onde  que estavas - afirmou ela. - Chegaram-me aos ouvidos umas conversas sobre o que certas 
pessoas te fariam se tornasses a aparecer l em casa.
- Desculpa - disse eu sem mais prembulos. - Eu sei que tu s estavas a querer ajudar, e eu interpretei da maneira errada.
- E?
- E tambm peo desculpa pelo que fiz ao Tim. Ele  uma ptima pessoa, e eu devia ter tido mais cuidado.
O olhar dela mantinha-se imperturbvel. - E?
Mudei os ps de posio, sabendo que o que me preparava para dizer no seria completamente sincero, mas consciente de que era aquilo que a Savannah desejava ouvir. 
- E o Randy e o outro tipo, tambm.
Ela continuou impassvel de olhar fixo em mim. - E?
Eu estava atnito. Dei voltas  cabea antes de permitir que os meus olhos encontrassem os dela. - E... - a voz sumiu-se-me.
- E o qu?
- E... - fiz um esforo, mas nada me ocorreu. - No sei confessei. - Mas seja l o que for, tambm peo desculpa por isso.
A Savannah afivelou uma expresso curiosa. -  tudo?
Ponderei na questo. - No sei o que mais dizer - admiti.
No tardou um segundo para que eu lhe vislumbrasse o leve rasgo dum sorriso. A Savannah acercou-se de mim. -  tudo? - insistiu ela, a sua voz mais suave. Eu no 
disse nada. Ela aproximou-se mais e, surpreendendo-me, enlaou-me os braos em volta do pescoo.
- No tens nada de que pedir desculpa - sussurrou-me. - No h nada de que tenhas de te arrepender. Eu provavelmente teria reagido da mesma forma.
- Ento para que  que foi este interrogatrio todo?
- Para - explicou-me ela - que eu pudesse ter a certeza de que a minha primeira impresso sobre ti estava certa. Eu sabia que tinhas bom corao.
- O que  que ests para a a dizer?
- Tal qual o que ouviste - respondeu-me. - Mais tarde... isto , depois daquela noite... o Tim convenceu-me de que eu no tinha o direito de fazer o que fiz. Tu 
tinhas razo. Eu no tenho capacidade para fazer qualquer espcie de avaliao profissional, mas fui arrogante ao ponto de julgar que tinha. Quanto ao que se passou 
na praia, eu assisti a tudo. A culpa no foi tua. Nem sequer do que aconteceu ao Tim tu tiveste culpa, mas, seja como for, fiquei contente de te ouvir pedir desculpa. 
Pelo menos para ficar a saber que sers capaz de tornar a faz-lo de futuro.
A Savannah encostou-se a mim, e, quando fechei os olhos, soube que no desejava mais nada para alm de ficar abraado assim a ela para sempre.
Mais tarde, depois de termos passado uma boa parte da noite entre beijos e conversas na praia, fiz deslizar o meu dedo pelo queixo da Savannah e murmurei-lhe: - 
Obrigado.
- Por qu?
- Pelo livro. Acho que agora estou em condies de compreender o meu pai um bocadinho melhor. Ontem  noite passmos um bom bocado juntos.
- Ainda bem.
- E obrigado por seres a pessoa que s.
Quando a vi franzir o sobrolho, beijei-lhe a testa. - Se no fosses tu - acrescentei -, eu no seria capaz de dizer isto acerca do meu pai. Nem fazes ideia do que 
isso significa para mim.
Embora tivesse ficado combinado a Savannah ir trabalhar para a obra no dia seguinte, o Tim mostrou-se compreensivo quando ela lhe explicou que seria a ltima oportunidade 
de estarmos juntos antes de eu regressar  Alemanha. Quando a fui buscar, ele desceu os degraus da casa e foi-se acocorar junto ao carro, com o olhar ao nvel da 
janela. As suas equimoses estavam agora negras. Enfiou a mo pela janela.
- Foi um prazer conhecer-te, John.
"?? - A ti tambm - retribu eu com sinceridade. - Tem cuidado contigo, est bem?
- vou tentar - respondi-lhe enquanto trocvamos um aperto de mo, dominado pela estranha sensao de que um dia nos tornaramos a ver.
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passei essa manh com a Savannah no Fort Fisher Aquarium, enfeitiado pelas criaturas exticas em exibio. Vimos peixes-agulha com os seus narizes compridos e cavalos-marinhos 
em miniatura; no tanque maior havia corvines-de-pintas e tubares-dormedores. Fartmo-nos de rir quando nos metemos com os caranguejos-eremitas, e a Savannah comprou-me 
um chaveiro como lembrana na loja de souvenirs. No sei porqu, ela achou imensa graa ao pinguim que trazia.
Mais tarde, levei-a a um restaurante  beira-mar banhado pelo sol, e ficmos de mos dadas por cima da mesa a ver os barcos  vela a baloiarem levemente no embarcadouro. 
De to absorvidos que estvamos um no outro, mal demos pela chegada do empregado de mesa, que teve de vir trs vezes  nossa mesa antes de abrirmos sequer as ementas.
Deixei-me fascinar pela facilidade com que a Savannah revelava as suas emoes e pela ternura da sua expresso  medida que lhe ia falando do meu pai. Mais tarde, 
quando ela me beijou, saboreei o seu hlito doce. Peguei-lhe na mo.
- Sabes, um dia vou casar-me contigo.
- Isso  uma promessa?
- Se quiseres que seja.
- bom, ento tens de prometer que voltas para mim quando sares da tropa. No posso casar contigo se no estiveres comigo.
- Fica combinado.
Fomos depois passear pelos terrenos da Oswald Plantation, uma manso anterior  guerra de secesso primorosamente restaurada e que ostentava um dos jardins mais 
bonitos de todo o estado. Percorremos os carreiros de gravilha, contornando constelaes de flores silvestres que brotavam em mil e uma tonalidades diferentes ao 
calor indolente do Sul.
- A que horas  que parte o teu voo amanh? - perguntou-me a Savannah. O Sol dava incio  sua lenta descida no cu sem nuvens.
- Cedo - respondi-lhe. - Quando eu chegar ao aeroporto, o mais provvel  que ainda estejas a dormir.
Ela assentiu com a cabea. - E vais passar a noite com o teu pai, no ?
- Estava a pensar fazer isso. No passei muito tempo com ele, mas tenho a certeza de que ele no se importaria...
A Savannah abanou a cabea para me interromper. - No, no alteres os teus planos. Eu j estava  espera disso.  por isso que hoje decidi passar o dia contigo.
Percorremos um caminho bordejado de sebes de recortes elaborados. - Ento o que  que queres fazer? - indaguei. - A nosso respeito, quero eu dizer?
- No vai ser fcil - disse ela.
- Eu sei que no vai - anu. - Mas no quero que o que existe entre ns acabe. - Detive-me, ciente de que as palavras no bastariam. Ao invs, por detrs, enlacei 
os meus braos em volta da Savannah e puxei-a para mim. Beijei-lhe o pescoo e as orelhas, saboreando a sua pele de veludo. - vou telefonar-te sempre que puder e, 
quando no puder, escrevo-te, e no prximo ano irei ter outra licena. Onde quer que estejas,  para a que eu irei.
A Savannah recostou-se contra o meu corpo, tentando ver-me a cara ;de relance. - Prometes?
Apertei-a. -  claro. Quer dizer, no me agrada nada ter de te deixar, e no h nada que eu desejasse mais que estar colocado aqui perto, mas por agora  tudo quanto 
te posso prometer. Logo que chegue l, posso pedir uma transferncia, e  isso que irei fazer, mas nunca sabemos como essas coisas correm.
- Eu sei - murmurou a Savannah. No sei explicar ao certo porqu, mas a expresso solene dela estava a deixar-me nervoso.
- E tu escreves-me? - foi a minha vez de perguntar.
- Hum - hesitou ela na brincadeira, e o meu nervoso dissipou-se. -  claro que escrevo - declarou com um sorriso. - E tu ainda perguntas? vou passar os dias a escrever-te. 
E s para que saibas, eu escrevo umas cartas muito bonitas.
- No duvido.
- Estou a falar a srio - afirmou. - Na minha famlia,  isso que fazemos em quase todas as ocasies festivas. Escrevemos cartas s pessoas de quem gostamos muito. 
Dizemos-lhe o quanto elas representam para ns e o como estamos ansiosos por as ver novamente.
Tornei a beijar-lhe o pescoo. - Ento e o que  que eu represento para ti? Ests assim to ansiosa por me veres novamente?
A Savannah encostou-se mais a mim. - Para isso, vais ter de ler as minhas cartas.
Eu ri-me, mas senti o corao partir-se-me. - vou ter saudades tuas - confessei-lhe.
- E eu tuas.
- No me pareces muito afectada.
-  porque eu j chorei por causa disso, ests lembrado? Para alm do mais, no  o mesmo que nunca mais te ver. Foi disso que acabei por me aperceber. Vai ser difcil, 
mas o tempo passa a correr.. Tenho a certeza de que nos vamos tornar a encontrar. Sinto que isso  verdade. Tal como sinto o quanto tu gostas de mim e o quanto eu 
te adoro. Sei, do fundo do corao, que isto no  o fim, e que vamos
conseguir ultrapassar a distncia. H imensos casais que conseguem,  verdade que tambm h muitos que no conseguem, mas eles no tm o que ns temos.
Eu desejava acreditar nela. Desejava-o mais que tudo, mas no deixava de me interrogar se seria assim to simples quanto aparentava.
Quando o Sol se escondeu por detrs do horizonte, voltmos para o carro, e eu levei a Savannah de volta  casa da praia. Parei um pouco mais adiante na rua para 
que ningum nos visse de casa e, quando samos do carro, abracei-a. Beijmo-nos, e eu cheguei-a a mim, com a certeza de que o prximo ano seria o mais comprido da 
minha vida. Desejava ardentemente nunca me ter alistado, ser um homem livre. Mas no era.
- Se calhar,  melhor eu ir andando.
A Savannah assentiu com a cabea e comeou a chorar. Senti um aperto no peito.
- Eu escrevo-te - prometi-lhe.
- Est bem - disse ela. Limpou as lgrimas e comeou  procura de qualquer coisa na mala. Tirou uma caneta e um pedao de papel. Comeou a escrevinhar. - Tens aqui 
a minha morada e o meu nmero de telefone de casa, est bem? E tambm o meu e-mail.
Acenei com a cabea.
- No te esqueas de que no prximo ano eu vou mudar de dormitrio, mas logo que tenha a morada nova, envio-ta. Mas podes sempre contactar-me atravs dos meus pais. 
Eles fazem-me chegar tudo o que me mandares.
- Eu sei - disse-lhe. - Ainda tens os meus contactos, no tens? Ainda que eu v em misso para um stio qualquer, as cartas chegam-me s mos. E os e-mails tambm. 
As foras armadas tm imenso jeito para montar computadores, nem que seja no meio do nada.
A Savannah abraou-se a si prpria como uma criana desamparada. - Isso assusta-me - confessou ela. - Isso de seres soldado, quero eu dizer.
- No me vai acontecer nada - tranquilizei-a.
Abri a porta do carro e em seguida peguei na minha carteira. Guardei l dentro o papel com as indicaes, depois tornei a abrir os braos. A Savannah chegou-se a 
mim e eu abracei-a demoradamente, a imprimir a sensao do corpo dela contra o meu.
Desta feita, foi ela a afastar-se. Ps-se mais uma vez  procura dentro da mala e retirou um sobrescrito.
- Escrevi-te isto na noite passada. Para teres alguma coisa que ler no avio. No leias antes de embarcares, est bem?
Eu assenti com a cabea e beijei-a por uma ltima vez, sentando-me em seguida ao volante. Liguei o motor, e, quando me preparava para me ir embora, a Savannah chamou-me: 
- Manda cumprimentos meus ao teu pai. Diz-lhe que eu talvez o v visitar um destes dias, est bem?
Ela recuou um passo quando o carro se comeou a afastar. Eu ainda a estava a ver pelo espelho retrovisor. Pensei em parar. O meu pai iria compreender. Ele sabia 
o quanto a Savannah representava para mim e iria querer que passssemos a nossa ltima noite juntos.
Mas segui em frente, vendo a imagem dela tornar-se cada vez mais pequena, sentindo o meu sonho a escapar-se-me.
O jantar com o meu pai foi mais silencioso que o habitual. Eu no me sentia com foras para entabular conversa, e at o meu pai reparou nisso. Sentei-me  mesa enquanto 
ele preparava o jantar; porm, em vez de se concentrar nos cozinhados, ia-me deitando ocasionalmente uma olhadela com um olhar mudo de preocupao. Fiquei atnito 
quando ele se afastou do fogo e veio ter comigo.
Ao abeirar-se de mim, ps-me uma mo nas costas. No disse nada, mas tambm no era necessrio. Eu sabia que o meu pai percebia que eu estava triste, e ficou ali 
sem se mexer, como se tentasse assimilar o meu sofrimento, na esperana de mo roubar e torn-lo seu.
De manh, o meu pai levou-me ao aeroporto e acompanhou-me at  porta de embarque enquanto eu esperava a chamada para o meu voo. Quando esse momento chegou, levantei-me. 
O meu pai estendeu-me a mo; eu preferi dar-lhe um abrao. O corpo dele ficou rgido, mas eu no me importei. - Gosto muito de si, pai.
- Eu tambm gosto muito de ti, John.
- Descubra moedas das boas, est bem? - acrescentei, afastando-me. - Depois quero que me conte tudo.
O meu pai relanceou o cho. - Eu gosto da Savannah - disse ele. -  uma rapariga simptica.
Aquilo surgiu inesperadamente, mas, no sei porqu, era exactamente o que eu desejava ouvir.
No avio, sentei-me com a carta que a Savannah me escrevera poisada no colo. Embora me tivesse sentido tentado a abri-la de imediato, contive-me at o aparelho levantar 
da pista. Da janela, avistava a linha da costa, e em primeiro lugar procurei o ponto, depois a casa. Perguntei-me se ela ainda estaria a dormir, todavia, preferi 
pensar que se encontrava na praia a ver o avio partir.
Quando me senti preparado, abri o sobrescrito. L dentro, vinha uma fotografia da Savannah, e subitamente arrependi-me de no lhe ter deixado uma minha. Fiquei a 
olhar-lhe para o rosto durante muito tempo, depois coloquei-a de parte. Respirei fundo e comecei a ler.
Querido John,
H tanta coisa que te quero dizer, mas no tenho a certeza de por onde comear. Deveria comear por te dizer que te amo? Ou que os dias que passei contigo foram 
os mais felizes da minha vida? Ou que o pouco tempo que passmos juntos foi suficiente para me convencer de que o nosso lugar  ao lado um do outro? Podia dizer-te 
tudo isto, e tudo seria verdade, contudo, ao reler o que escrevi, no consigo pensar em mais nada para alm de que adorava poder estar contigo neste momento de mos 
dadas, a ver o teu sorriso esquivo.
De futuro, sei que irei relembrar constantemente o tempo que passmos na companhia um do outro. De ouvir o teu riso, e ver o teu rosto, e sentir o teu abrao. vou 
sentir a falta de tudo isso, mais que possas imaginar. s um cavalheiro como j no h, John, e aprecio essa qualidade em ti. Ao longo de todo o tempo que estivemos 
juntos, nunca meme pressionaste para dormir contigo, e nem fazes ideia do que isso significa para mim. Isso fez que a relao entre ns se tornasse ainda mais especial, 
e  assim que vou desejar lembrar sempre o tempo que passei contigo. Como uma luz branca e pura, que nos corta a respirao quando a contemplamos.
Todos os dias, pensarei em ti, e sei que, quando nos virmos amanh, despedir-me de ti vai ser a coisa que at hoje mais me custou na vida. Por um lado, sinto receio 
de que chegue o dia em que tu j no sintas o mesmo por mim, que de alguma forma te esqueas dos momentos que partilhmos, por isso  isto que pretendo fazer. Onde 
quer que estejas e independentemente do rumo que a tua vida levar, sempre que a primeira noite de lua cheia chegar - como no dia em que nos conhecemos -, quero que 
a procures no cu nocturno. Quero que penses em mim e na semana que passmos juntos, porque, onde quer que eu esteja e independentemente do rumo que a minha vida 
levar,  precisamente isso que eu vou fazer. J que no podemos estar juntos, pelo menos isso podemos partilhar, e talvez, entre ambos, consigamos fazer que a nossa 
relao dure para sempre.
Amo-te, John Tyree, e no me vou esquecer da promessa que um dia me fizeste. Se voltares, caso-me contigo. Se quebrares essa promessa, quebras-me tambm o corao.
com o meu amor,
Savannah
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Para l da janela e atravs das lgrimas que me inundavam os olhos via uma camada de nuvens estender-se por baixo de mim. No fazia ideia de onde estvamos. Tudo 
o que sabia era que queria dar meia-volta e regressar a casa, ao lugar a que pertencia.
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SEGUNDA PARTE
CAPITULO DOZE
Horas mais tarde, naquela primeira noite solitria na Alemanha, tornei a ler a carta, revivendo o tempo que passramos juntos. No foi difcil; aquelas recordaes 
j me tinham comeado a assombrar e havia ocasies em que me pareciam mais reais que a minha prpria vida enquanto soldado. Sentia a mo da Savannah na minha e via-a 
a sacudir a gua do mar do cabelo. Ria-me alto ao lembrar-me da facilidade com que ela fizera a sua primeira onda. O tempo que eu passara com a Savannah mudara-me, 
e os homens do meu peloto repararam na diferena. Durante as semanas que se seguiram, o meu amigo Tony no parou de me atazanar, convencido de ter finalmente a 
confirmao da sua teoria acerca da importncia da companhia feminina. A culpa foi minha de lhe ter contado a respeito da Savannah. Contudo, o Tony queria saber 
mais que eu estava disposto a partilhar. Quando me apanhava a ler, era frequente vir sentar-se diante de mim, com um grande sorriso atoleimado.
- Fala-me l outra vez do teu fantstico romance de frias pedia-me ele.
Eu obrigava-me a manter os olhos concentrados na leitura, fazendo o possvel por ignor-lo.
- Savannah, no ? Sa-va-nnah. Caramba, adoro esse nome. Tem um ar to requintado... mas at aposto que ela era uma fera, ou diz l que no era?
- Cala-te, Tony.
- No me venhas com essa. No tenho sido eu quem tem tomado conta de ti durante todo este tempo? Sempre a dizer-te que tens de sair mais? Deste-me finalmente ouvidos, 
e agora chegou a altura de me retribures. Quero ficar a par de todos os pormenores.
- No  nada da tua conta.
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- Mas bebeste tequila, no bebeste? J te disse que nunca falha. No lhe liguei nenhuma. O Tony levantou as mos ao ar. - V l... ao menos isso podes contar-me, 
ou no podes?
- No quero falar sobre isso.
- Porque ests apaixonado? Pois, isso foi o que tu disseste, mas comeo a desconfiar de que inventaste tudo.
- Foi isso mesmo. Inventei tudo. J acabmos?
Ele abanou a cabea e ps-se de p. - s um pinga-amor, a verdade  essa.
Eu no lhe dei resposta, mas, ao v-lo afastar-se, percebi que o Tony tinha razo. Eu estava completamente apaixonado pela Savannah. Teria feito tudo ao meu alcance 
para estar com ela, e requeri uma transferncia para os Estados Unidos. O meu implacvel oficial de comando mostrou dar-lhe a devida considerao. Quando me perguntou 
o motivo, falei-lhe do meu pai em lugar da Savannah. Ele ouviu-me durante algum tempo, depois recostou-se na cadeira e disse:
- No h grande probabilidade, a menos que o problema seja a sade do seu pai.
Ao sair do seu gabinete, j sabia que no iria a lado algum durante pelo menos os prximos dezasseis meses. No tentei sequer disfarar o meu descontentamento e, 
na lua cheia seguinte, sa da caserna e encaminhei-me para uma das reas relvadas que usvamos como campos de futebol. Deitei-me de costas e pus-me a contemplar 
a Lua, trazendo todas as recordaes que guardava da Savannah novamente  minha memria e lamentando o facto de me encontrar to longe.
Desde o incio que os telefonemas e as cartas entre ns se tornaram regulares. Tambm comunicvamos por e-mail, mas depressa compreendi que a Savannah preferia escrever 
cartas, e que desejava que eu fizesse o mesmo. "Eu sei que no  to rpido como o e-mail, mas  precisamente isso que me agrada", escreveu-me ela. "Gosto da surpresa 
de encontrar uma carta na caixa do correio e da expectativa ansiosa de me preparar para a abrir. Gosto de a poder levar comigo para a ler sem pressas, e de poder 
encostar-me a uma rvore e sentir a brisa no rosto enquanto vejo as tuas palavras no papel. Gosto de imaginar o aspecto que tinhas quando a escreveste: que roupa 
 que trazias vestida, o ambiente em teu redor, a maneira como seguravas na caneta. Eu sei que  um clich, e provavelmente despropositado, at, mas estou sempre 
a imaginar-te dentro duma tenda, sentado a uma mesa improvisada, com um candeeiro a petrleo aceso ao teu lado enquanto o vento sopra l fora.  de longe mais romntico 
que ler qualquer coisa no mesmo computador que usas para descarregar msicas ou para consultar um jornal.
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Sorri perante aquelas palavras. De facto, a Savannah estava enganada a respeito da tenda e do candeeiro a petrleo, mas eu via-me forado a reconhecer que pintava 
um quadro muito mais interessante qUe a realidade da minha secretria iluminada por um candeeiro de luz fluorescente na minha caserna de madeira.
 medida que os dias e as semanas foram passando, o meu amor pela Savannah dava sinais de querer fortalecer-se ainda mais. Havia alturas em que me afastava sorrateiramente 
dos meus camaradas para estar sozinho. Ia buscar a fotografia da Savannah e aproximava-a dos meus olhos, examinando atentamente cada detalhe. Era estranho, mas, 
por muito que a amasse e recordasse o tempo que passramos juntos,  medida que o Vero cedia o lugar ao Outono e o Inverno anunciava a sua chegada, sentia-me cada 
vez mais grato por ter aquela fotografia.  verdade, convenci-me a mim prprio de que me conseguia lembrar dela tal qual era, porm, para ser franco, sabia que os 
pormenores me comeavam a escapar. Ou talvez, apercebia-me, nem nunca tivesse chegado a reparar neles. Por exemplo, pela fotografia, pude verificar que a Savannah 
tinha um pequeno sinal debaixo do olho esquerdo, algo que me escapara. Ou que, a um exame mais atento, o sorriso dela era ligeiramente torto. Eram imperfeies que 
de certa forma a tornavam perfeita aos meus olhos, mas desagradava-me profundamente ter de recorrer  fotografia para as identificar.
Sem saber bem como, l segui com a minha vida. Por muito que pensasse na Savannah, por muitas saudades que sentisse dela, eu tinha uma misso a desempenhar. No princpio 
de Setembro - devido a um conjunto de circunstncias que mesmo o prprio exrcito tinha dificuldade em explicar - fui enviado com o meu peloto pela segunda vez 
para o Kosovo, para nos juntarmos  Segunda Diviso Blindada em mais uma misso de manuteno de paz enquanto a maior parte da infantaria estava de regresso  Alemanha. 
Tudo se manteve relativamente calmo, e no me vi obrigado a disparar a arma, mas isso no queria no entanto dizer que passasse o dia a colher flores e a suspirar 
pela Savannah. Limpei a arma, mantive-me atento no fosse aparecer algum maluco, e, quando somos forados a mantermo-nos alerta durante horas,  noite estamos cansados. 
Posso dizer honestamente que se podiam passar dois ou trs dias sem que eu me perguntasse o que  que a Savannah andaria a fazer ou to-pouco pensar nela. Seria 
o meu amor menos verdadeiro por isto? Coloquei a mim prprio esta questo dzias de vezes durante aquela estadia, mas acabava sempre por decidir em contrrio pela 
simples razo de que a imagem dela me apanhava de surpresa quando eu menos esperava,
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inundando-me com a mesma angstia que sentira no dia em que me viera embora. Qualquer coisa a podia desencadear: um amigo a falar com a mulher, a imagem dum casal 
de mos dadas, ou mesmo a maneira como alguns dos aldees sorriam  nossa passagem.
As cartas da Savannah chegavam sensivelmente a cada dez dias, e quando regressei  Alemanha, j se amontoavam numa pilha. Nenhuma delas era como a carta que eu lera 
no avio; a maioria transmitia um tom informal e descontrado, e a Savannah mantinha a verdade acerca dos seus sentimentos guardada mesmo at ao fim. Entretanto, 
eu ia descobrindo os detalhes da sua vida quotidiana: que tinham acabado a primeira casa um pouco fora do prazo, o que lhes dificultara a vida quando se tratara 
de construir a segunda casa. De forma a conseguirem construir esta, tinham-se visto obrigados a fazer horas extraordinrias, embora todos os envolvidos tivessem 
adquirido maior eficincia nas respectivas tarefas. Fiquei a saber que, aps a concluso da primeira casa, tinham organizado uma enorme festa para toda a vizinhana, 
e que passaram uma tarde a brindar ao acontecimento. Fui informado de que toda a equipa fora celebrar na Choupana do Camaro e que o Tim declarara que nunca estivera 
em nenhum restaurante com um ambiente to bom. Soube que a Savannah conseguira ficar com quase todos os professores que pedira para as cadeiras do primeiro semestre 
e que andava muito entusiasmada por ir fazer psicologia adolescente com o Dr. Barnes, que acabara de publicar um artigo muito importante numa revista acadmica esotrica 
qualquer. Eu no precisava de acreditar que a Savannah pensava em mim de cada vez que pregava um prego ou ajudava a encaixar uma janela, ou pensar que, a meio duma 
conversa com o Tim, ela desejasse sempre que fosse comigo que estivesse a falar. Agradava-me pensar que o que havia entre ns era mais profundo que tudo isto, e, 
com o tempo, acreditar nisto contribuiu para fortalecer cada vez mais o meu amor.
 claro, eu gostava de saber que ela ainda sentia amor por mim, e neste aspecto a Savannah nunca me desapontou. Suponho que foi por este motivo que guardei todas 
as cartas que ela me enviou. A finalizar cada carta, surgiam sempre algumas frases, talvez at um pargrafo, em que ela escrevia algo que me deixava pensativo, palavras 
que me traziam recordaes  memria, e eu dava por mim a reler excertos e, em simultneo, a tentar imaginar a voz dela. Como este, da segunda carta que recebi:
Quando penso em ns e naquilo que ambos partilhmos, sei que seria fcil para as outras pessoas menosprezarem o tempo que estivemos juntos como um mero
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resultado de dias e noites passados  beira-mar, um arroubo de paixo, que, a longo prazo, acabaria por no significar nada.  por isso que no falo a ningum sobre 
ns. Ningum iria compreender, e eu no me sinto na necessidade de
lhes dar explicaes, simplesmente porque sei, do fundo do meu corao, como foi verdadeiro. Quando penso em ti, no consigo conter um sorriso, sabendo que tu dalguma 
forma me vieste completar. Amo-te, no apenas por agora, mas para sempre, e sonho com o dia em que me irs tomar novamente nos teus braos.
Ou ento este, da carta que recebi depois de lhe mandar uma fotografia minha:
E, a terminar, quero agradecer-te a fotografia. J a guardei na minha carteira. Ests com uma aparncia saudvel e feliz, mas no posso deixar de te dizer que, quando 
a vi, chorei. No porque me deixasse triste -. embora isso tambm seja verdade, uma vez que no te poderei ver -, mas de felicidade. Fez-me lembrar de que s a melhor 
coisa que algum dia me aconteceu.
E ainda este, duma carta que a Savannah me escreveu enquanto eu estive no Kosovo:
Tenho de dizer que a tua ltima carta me deixou preocupada. Quero saber o que se passa, preciso de saber o que se passa, mas dou por mim a suster a respirao e 
a temer por ti quando me contas a vida que levas. Aqui estou eu, a preparar-me para ir passar o Dia de Aco de Graas a casa e preocupada com os testes, e tu algures 
num stio perigoso, rodeado de pessoas que te querem fazer mal. Quem me dera que essas pessoas te conhecessem como eu te conheo, porque nessa altura estarias em 
segurana. Tal como eu me sinto em segurana quando me encontro entre os teus braos.
Nesse ano o Natal foi desolador, mas a verdade  que sempre assim  quando estamos longe de casa. No era o primeiro Natal que eu passava sozinho durante os meus 
anos de exrcito. Todas as pocas festivas haviam sido passadas na Alemanha, e alguns elementos da nossa
caserna tinham improvisado uma espcie de rvore - um oleado
verde preso em volta duma estaca e decorado com luzinhas a piscar.
Mais de metade dos meus camaradas tinham ido a casa - eu fui um dos poucos desafortunados que se viram obrigados a ficar para o caso de os nossos amigos russos meterem 
na cabea que continuvamos a ser inimigos mortais - e a maior parte dos outros rumaram  cidade para comemorar a vspera de Natal, onde se deixaram bombardear pela 
melhor cerveja alem. Eu j abrira o embrulho que a Savannah
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me enviara - um pulver que me fazia lembrar um dos que o Tim seria capaz de usar e uma fornada de biscoitos caseiros - e sabia que ela j recebera o perfume que 
eu lhe oferecera. Todavia, estava sozinho, e, como prenda a mim prprio, dei-me ao luxo de fazer um telefonema  Savannah. Ela no estava nada  espera, e passei 
as semanas seguintes a recordar a alegria que lhe transpareceu da voz. Acabmos por ficar mais duma hora a conversar. Sentia saudades da voz dela. J me esquecera 
do seu tom jovial e do sotaque nasalado que se tornava mais pronunciado quanto mais depressa ela falava. Recostei-me na cadeira, imaginando-a a meu lado enquanto 
a ouvia a descrever a neve que caa l fora. Em simultneo, apercebi-me de que do lado de fora da minha janela tambm estava a nevar, o que, ainda que por meros 
instantes, me proporcionou a sensao de nos encontrarmos juntos.
Em Janeiro de 2001, comecei a contar os dias que faltavam para tornar a ver a Savannah. Ia ter licena de frias em Junho, e faltava menos dum ano para eu abandonar 
o exrcito. Acordava de manh e, literalmente, dizia a mim prprio que j s faltavam 360 dias, depois
359 e 358 para eu me ir embora, mas que dentro de 178, depois 177 e 176, iria ver a Savannah, e assim sucessivamente. Era real e tangvel, suficientemente prximo 
no tempo para me permitir sonhar em ir viver para a Carolina do Norte; por outro lado, tinha a desvantagem de atrasar a passagem do tempo. No  sempre assim quando 
estamos ansiosos por que algo acontea? Fez-me lembrar de quando era mido e dos dias compridos  espera da chegada das frias do Vero. No fossem as cartas da 
Savannah, e no tenho dvidas de que a espera me teria parecido muito mais larga.
O meu pai tambm me escrevia. No com a mesma frequncia da Savannah, mas ao seu ritmo regular mensal. Para minha surpresa, as suas cartas tornaram-se duas a trs 
vezes maiores que a pgina e pouco mais a que eu me habituara. As pginas adicionais eram exclusivamente sobre moedas. No meu tempo livre, eu ia  central informtica 
e fazia alguma pesquisa por minha conta. Punha-me  procura de determinadas moedas, coligia o historial da moeda e enviava-lhe as informaes por carta. Sou capaz 
de jurar que, da primeira vez que fiz isto, vi lgrimas na carta de resposta que o meu pai me enviou. No, no lgrimas a srio - sei que no passava de imaginao 
minha, uma vez que ele nem sequer se referia ao assunto -, mas eu desejava poder acreditar que o meu pai examinara aqueles dados com a mesma intensidade com que 
se debruava a estudar o Greysheet.
Em Fevereiro, fui enviado em manobras com outras tropas da NATO. Um daqueles exerccios "vamos fingir que estamos numa
guerra no ano de 1944", durante o qual deveramos supor que estvamos a enfrentar uma investida de tanques numa zona rural alem. Um pouco irrelevante, se querem 
a minha opinio. Esse tipo de guerra j desapareceu h muito tempo, tendo seguido pelo mesmo caminho dos galees espanhis a fazerem disparar os seus canhes de 
curto alcance, e da cavalaria norte-americana a sair precipitadamente em misso de resgate. Hoje em dia, nunca nos dizem quem  o inimigo, mas toda a gente sabe 
que so os russos, o que faz ainda menos sentido, uma vez que actualmente so supostamente nossos aliados. Mas ainda que no fossem, o que  facto  que eles j 
no dispem de tantos tanques em condies de funcionamento como antigamente, e ainda que estivessem a construir uns milhares nalguma fbrica secreta na Sibria 
com o intuito de invadir a Europa, qualquer vaga de tanques que avanasse seria muito provavelmente confrontada com ataques areos, bem como com as nossas prprias 
divises mecanizadas em lugar da infantaria. Mas afinal quem era eu para estar a pronunciar-me? As condies atmosfricas estiveram pssimas, graas a uma frente 
anormalmente fria que comeou a deslocar-se a partir do rctico mal as manobras tiveram incio. Foi um episdio pico, com neve, e granizo, e ventos que atingiam 
os oitenta quilmetros por hora, fazendo-me lembrar das tropas de Napoleo durante a retirada de Moscovo. Fazia tanto frio que o gelo se me acumulava nas sobrancelhas, 
me custava a respirar e os dedos me ficavam colados ao cano da arma se acidentalmente lhe tocava. Doa que se fartava para os conseguir descolar e perdi um bom bocado 
da pele das pontas dos dedos nessa operao. Porm, depois desse incidente, passei a cobrir a cara e a manter a mo no cabo e marchei atravs do gelo lamacento trazido 
pelos infindveis aguaceiros de neve, fazendo o possvel por no me transformar numa esttua de gelo enquanto fingamos que andvamos a combater o inimigo. Passmos 
dez dias assim. Metade dos meus homens apanharam ulceraes provocadas pelo frio, a outra metade sofreu de hipotermia, e, quando chegmos ao fim, o meu peloto achava-se 
reduzido a trs ou quatro homens, tendo todos eles acabado na enfermaria depois de regressarem  base. Incluindo eu prprio. Esta deve ter sido a experincia mais 
ridcula e idiota por que o exrcito me obrigou a passar. E isso  dizer muito, dado que j fiz muitas coisas idiotas para o velho Tio Sam e para a Big Red One2. 
No final, o nosso
2. Primeira Diviso de Infantaria dos EUA. (NT)
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comandante percorreu a enfermaria, dando os parabns ao meu peloto pelo trabalho bem feito. Apeteceu-me dizer-lhe que talvez o nosso tempo tivesse sido mais bem 
empregue a aprender tcticas modernas de guerra ou, no mnimo dos mnimos, em consonncia com o Weather Channel. Porm, ao invs, sendo o bom soldado de infantaria 
que sou, fiz-lhe a continncia e dirigi-lhe um agradecimento.
Depois disto, passei alguns meses sossegados na base. E claro, tnhamos ocasionalmente uma aula ou outra sobre armas e navegao, e de quando em vez reunamo-nos 
na cidade para tomar umas cervejas com os amigos, mas a maior parte do meu tempo era ocupada a levantar toneladas de pesos, a correr centenas de quilmetros e a 
dar cabo do canastro ao Tony sempre que subamos ao ringue de boxe.
Depois da catstrofe que as manobras se revelaram, a Primavera na Alemanha no foi to m quanto eu esperava. A neve derreteu, as flores desabrocharam e a temperatura 
comeou a ficar mais amena. bom, no propriamente amena, mas pelo menos acima do ponto de congelao, e isso foi suficiente para que eu e os meus camaradas vestssemos 
os cales e fssemos para o ar livre jogar Frisbee ou softball. Quando Junho finalmente chegou, dei por mim a sentir-me impaciente por regressar  Carolina do Norte. 
A Savannah j conclura a licenciatura e j estava a ter aulas de Vero para se preparar para o mestrado, por isso planeei viajar at Chapel Hill. Passaramos duas 
gloriosas semanas juntos - ela tencionava ir comigo quando eu fosse visitar o meu pai a Wilmington - e eu ia-me sentindo alternadamente nervoso, entusiasmado e assustado 
s de pensar nisso.
 verdade que nos mantivramos em contacto por carta e atravs do telefone.  verdade que eu fora sempre contemplar o cu nocturno no primeiro dia de lua cheia, 
e que nas cartas que me escrevia a Savannah me dissera que fizera o mesmo. Mas havia j quase um ano que no nos vamos, e eu no fazia a mais pequena ideia de como 
iria ela reagir quando nos encontrssemos novamente frente a frente. Iria correr para os meus braos quando me visse sair do avio, ou teria uma reaco mais contida, 
talvez um beijo ao de leve na face? Travaramos de imediato conversa sem dificuldade, ou daramos por ns a falar do tempo, sentindo-nos pouco  vontade na presena 
um do outro? Eu no sabia, e,  noite, ficava acordado a imaginar mil cenrios possveis.
O Tony sabia aquilo por que eu estava a passar, embora achasse prefervel no tocar no assunto. Ao invs, ao ver a data a aproximar-se, deu-me uma palmada nas costas.
- No tarda, vais v-la - comentou ele. - Ests preparado?
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EstOU.
O Tony fez um sorriso de troa. - No te esqueas de comprar tequila na viagem de regresso.
Eu fiz-lhe uma careta, ele riu-se.
- Vai correr tudo bem - assegurou-me. - Ela est apaixonada por ti, meu. Nem podia ser o contrrio, tendo em conta a paixo que tens por ela.
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CAPITULO TREZE
Em Junho de 2001, deram-me licena e regressei de imediato a casa, apanhando um avio de Frankfurt para Nova Iorque e da para Raleigh. Era uma sexta-feira  tarde, 
e a Savannah prometera ir buscar-me ao aeroporto antes de me levar a Lenoir para conhecer os pais. Fizera-me esta pequena surpresa na vspera do voo. bom, eu no 
tinha nada contra conhecer os pais dela, muito pelo contrrio. Seriam sem dvida alguma pessoas maravilhosas, mas, se as coisas tivessem corrido  medida dos meus 
desejos, preferia ter tido a Savannah toda para mim durante os primeiros dias.  um pouco difcil compensar o tempo perdido com os pais  nossa volta. Ainda que 
ns no fssemos ter relaes - e, conhecendo a Savannah, era quase garantido que no, embora eu no deixasse de fazer figas -, como  que os pais dela me iriam 
receber se eu andava com a filha fora de casa at altas horas, apesar de no fazermos mais nada que ficarmos a contemplar as estrelas? com certeza, a Savannah era 
adulta, mas os pais so sempre esquisitos no que toca aos filhos e eu no alimentava iluses de que eles se mostrassem compreensivos relativamente ao assunto. A 
Savannah seria sempre a sua menina pequenina, se  que me fao entender.
Contudo, quando a Savannah me explicou, vi que ela no deixava de ter uma certa razo. Eu tinha dois fins-de-semana livres e, se planeava visitar o meu pai no segundo, 
tinha de ver os dela no primeiro. Para alm do mais, ela falou com tanto entusiasmo a esse respeito que tudo o que eu consegui dizer foi que estava ansioso por os 
conhecer a ambos. Apesar de tudo, perguntei-me se teria atrevimento sequer para lhe segurar na mo, e conjecturei se no seria melhor tentar convenc-la a fazermos 
um pequeno desvio no caminho para Lenoir.
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Logo que o avio aterrou, eu sentia a expectativa a crescer e o corao aos pulos. Mas no sabia como havia de reagir. Deveria eu correr para a Savannah mal a avistasse 
ou limitar-me a dirigir-me a ela no passo calmo e confiante de quem controla a situao? Continuava sem me decidir, contudo, antes de ter tempo para reflectir, j 
me encontrava a percorrer a manga. Atirei a mochila por cima do ombro quando sa da rampa que dava acesso ao terminal. A princpio no a vi - o trio estava apinhado 
de gente. Quando perscrutei a rea de recolha de bagagem pela segunda vez, avistei-a do lado esquerdo e de imediato me apercebi de que a minha preocupao no tivera 
qualquer razo de ser, pois a Savannah reparou em mim e precipitou-se logo na minha direco. Mal tive tempo de poisar a mochila antes de ela me saltar para os braos, 
e o beijo que se seguiu foi como entrar no reino mgico, acompanhado da sua linguagem e da sua geografia especiais, mitos e maravilhas fabulosos para os sculos 
vindouros. E quando a Savannah se afastou de mim e me disse em voz sussurrada: "Tive tantas saudades tuas", senti-me como se me tivessem tornado a juntar depois 
de ter passado um ano dividido em dois.
No sei quanto tempo ali ficmos, porm, quando finalmente nos preparmos para nos dirigir  sada, enfiei a minha mo na dela, ciente no apenas de que a amava 
mais que a ltima vez em que a vira, mas mais que alguma vez seria capaz de amar algum.
Durante o trajecto de carro, a conversa entre ns fluiu facilmente e chegmos mesmo a fazer o tal pequeno desvio. Depois de pararmos numa rea de servio, comportmo-nos 
como dois adolescentes. Foi ptimo - deixemos os pormenores de lado - e, algumas horas mais tarde, chegmos a casa da Savannah. Os pais encontravam-se  nossa espera 
no alpendre duma elegante casa vitoriana de dois pisos. Para minha surpresa, a me abraou-me mal me acerquei dela, oferecendo-me em seguida uma cerveja. Eu declinei 
a oferta, sobretudo porque sabia que seria o nico a beber, mas apreciei o gesto. A me da Savannah, Jill, era muito parecida com a filha: amigvel, aberta e bastante 
mais perspicaz que me parecera  primeira vista. O pai era tal e qual o mesmo, e a verdade  que passei bons momentos durante aquela visita. O facto de a Savannah 
andar sempre de mo dada comigo e se mostrar perfeitamente  vontade com isso tambm ajudou. Mais para a noite, fomos os dois dar um longo passeio ao luar. Quando 
voltmos para casa, vnhamos com a sensao de que nunca nos havamos separado.
Nem  preciso dizer que dormi no quarto de hspedes. No estivera  espera doutra coisa, e o quarto era dos melhores stios em que
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eu alguma vez dormira, com mobilirio clssico e um colcho confortvel. O ar, porm, estava abafado, e eu abri a janela na esperana de que a brisa vinda da montanha 
trouxesse alguma frescura. Fora um dia muito comprido - eu ainda estava a funcionar pela hora alem -- e adormeci de imediato, para acordar uma hora mais tarde com 
um rangido da porta a abrir-se. A Savannah, trajando um pijama confortvel de flanela e meias, fechou a porta atrs dela e veio em bicos de ps at  minha cama.
Tinha um dedo encostado aos lbios para que eu no fizesse barulho.
- Se os meus pais soubessem que eu fiz isto, matavam-me - sussurrou-me ela. Esgueirou-se para dentro da cama e ajeitou os lenis, puxando-os at ao pescoo como 
se estivesse a acampar no rctico. Eu abracei-a, deleitado com a sensao do corpo dela contra o meu.
Passmos a maior parte da noite a beijarmo-nos e a rirmo-nos, depois a Savannah voltou sorrateiramente para o seu quarto. Eu tornei a adormecer, provavelmente antes 
de ela ter chegado ao quarto, e acordei com os raios do Sol a jorrar pela janela. O aroma do pequeno-almoo veio a pairar at ao meu quarto, e eu vesti rapidamente 
uma T-shirt e umas calas de ganga e desci  cozinha. Encontrei a Savannah sentada  mesa, a conversar com a me enquanto o pai lia o jornal, e, ao entrar, senti 
a fora da presena de ambos. Sentei-me no meu lugar, e a me da Savannah serviu-me uma chvena de caf antes de colocar diante de mim um prato de ovos com bacon. 
A Savannah, que estava sentada  minha frente j vestida e de banho tomado, mostrava-se bem-disposta e com um ar irresistivelmente fresco  luz da manh.
- Dormiste bem? - perguntou-me ela, o olhar brilhante de travessura.
Assenti com a cabea. - Para dizer a verdade, tive um sonho maravilhoso - confessei.
- Oh? - indagou a me. - com que  que sonhaste?
Senti a Savannah dar-me um pontap por baixo da mesa. Abanou a cabea de forma quase imperceptvel. Tenho de admitir que apreciei v-la embaraada, mas tudo tinha 
os seus limites. Fingi que me concentrava. - Entretanto, esqueci-me - disse eu.
- Detesto quando isso me acontece - comentou a me dela. O pequeno-almoo est a teu gosto?
- Cheira que consola - respondi-lhe. - Obrigado. - Mirei a Savannah de relance. - Qual  o programa para hoje?
Ela debruou-se sobre a mesa. - Estava a pensar em irmos andar a cavalo. Achas que ests em condies disso?
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Quando me viu hesitar, riu-se. - Vai correr tudo bem - acrescentou. - Prometo. - Para ti,  fcil dizeres isso. . A Savannah montou o Midas; a mim, aconselhou-me 
um cavalo Quarto de Milha chamado Pepper, que em geral era o que o pai dela montava. Passmos a maior parte do dia a percorrer trilhos ngremes, a galopar em campo 
aberto e a explorar esta faceta do mundo dela. A Savannah preparara-nos um piquenique para o almoo, e saboremo-lo num local com vista sobre Lenoir. Ela foi-me 
apontando as escolas que havia frequentado e as casas das pessoas que conhecia. Ocorreu-me que a Savannah, no apenas adorava morar ali, como nunca haveria de desejar 
ir viver para outro stio.
Passmos seis ou sete horas na sela, e eu esforcei-me o mais que pude para acompanhar a Savannah, embora isso fosse quase impossvel. Escapei a ir de nariz ao cho, 
mas houve alguns momentos arriscados em que o Pepper decidiu portar-se mal e eu tive de recorrer a todas as minhas foras para no cair. No entanto, foi s quando 
nos estvamos a arranjar para ir jantar que eu me apercebi daquilo em que me fora meter. Aos poucos, fui-me dando conta de que bamboleava as ancas enquanto andava. 
Sentia os msculos da parte interna da coxa como se o Tony tivesse passado as ltimas horas a dar-lhes socos.
No sbado  noite, a Savannah e eu fomos jantar a um pequeno e acolhedor restaurante italiano. Posteriormente, ela sugeriu-me que fssemos danar, mas nessa altura 
j eu mal me conseguia mexer. Quando me viu a coxear at ao carro, assumiu uma expresso preocupada e obrigou-me a parar.
Inclinando-se para mim, agarrou-me uma perna. - Se eu te apertar aqui, di-te?
Eu dei um pulo e gritei. No sei porqu, mas a Savannah estava a achar piada  situao.
- Por que  que me ests a fazer isso? Magoaste-me! Ela sorriu. - S estava a verificar.
- Verificar o qu? J te disse... estou todo dorido.
- S queria ver se uma rapariga pequenina como eu era capaz de fazer um soldado grande e forte gritar de dores.
Esfreguei a perna. - bom, mas agora vamos deixar-nos de experincias, est bem?
- Est - disse ela. - Desculpa.
- Essas tuas desculpas no me parecem muito sinceras.
- Mas olha que so - insistiu a Savannah. - Mas at chega a ser engraado, no achas? Afinal, eu andei a cavalo durante tanto tempo como tu, e estou ptima.
- Tu passas a vida em cima do cavalo.
- H um ms que no montava.
- Pois, no me digas.
- V l, admite. At teve piada, no teve?
- Nenhuma mesmo.
No domingo, fomos  missa com a famlia da Savannah. Eu sentia-me demasiado dorido para fazer o que quer que mais fosse o dia todo, por isso deixei-me cair no sof 
a ver um jogo de basebol com o pai dela. A me da Savannah trouxe-nos sanduches, e eu passei a tarde contorcendo-me de dores sempre que me tentava pr mais confortvel 
enquanto o jogo entrava em turnos extraordinrios. Era fcil falar com o pai dela, e a conversa fluiu da vida no exrcito para alguns dos midos que ele treinava 
e para as suas esperanas quanto ao futuro. Gostei dele. Do meu lugar, ouvia a Savannah e a me a conversarem na cozinha, e, de quando em vez, a Savannah vinha at 
 sala de estar com um cesto de roupa lavada para dobrar enquanto a me enchia outra mquina de roupa. Embora tivesse um curso universitrio e fosse o que se poderia 
considerar adulta, a Savannah continuava a trazer a roupa suja para lavar em casa dos pais.
Nessa noite, fomos de carro at Chapel Hill, e a Savannah mostrou-me o seu apartamento novo. Era espartano no que a mobilirio dizia respeito, mas era relativamente 
recente e tinha uma lareira a gs e uma pequena varanda que proporcionava uma vista do campus. Apesar do tempo quente, ela acendeu a lareira e fizemos uma merenda 
de queijo e bolachas-d'gua-e-sal, que, para alm de flocos de cereais, era tudo o que ela tinha para me oferecer. A mim, pareceu-me indescritivelmente romntico, 
e deleitei-me com a experincia. Ficmos a conversar at cerca da meia-noite, mas a Savannah pareceu-me mais calada que o habitual. A seu tempo, foi at ao quarto. 
Quando vi que no voltava, fui  procura dela. Encontrei-a sentada na cama, e deixei-me ficar parado na ombreira da porta.
Ela apertou as mos uma contra a outra e soltou um longo suspiro.
- Ento... - comeou.
- Ento... - respondi-lhe quando vi que no acrescentava mais nada.
Soltou mais um longo suspiro. - Est a fazer-se tarde. E eu tenho uma aula amanh de manh cedo.
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Eu assenti com a cabea. - Se calhar o melhor  ires dormir.
- Pois  - disse a Savannah. Fez um aceno de cabea como se s naquele momento se tivesse lembrado disso e virou-se para a janela. Atravs das persianas, entravam 
raios de luz proveniente do parque de estacionamento. A Savannah ficava engraada quando estava nervosa.
- Ento... - reiterou ela, como se estivesse a falar para a parede. Eu levantei as mos. - Ento eu vou dormir no sof, est bem?
- No te importas?
- De maneira nenhuma - assegurei-lhe. Para ser sincero, no era isso que queria, mas compreendi.
Ainda de olhar fixo na janela, a Savannah no fez qualquer meno de se levantar. -  que ainda no estou preparada - confessou-me ela com voz suave. - Quer dizer, 
pensei que estivesse, e h uma parte de mim que quer mesmo. Tenho andado a pensar nisso nestas semanas que passaram, e j me tinha decidido e tudo, e parecia-me 
tudo to natural, sabes? Eu gosto de ti e tu gostas de mim, e  isso que as pessoas fazem quando esto apaixonadas. Foi fcil convencer-me a mim prpria quando aqui 
no estavas, mas agora... - A voz esmoreceu-lhe.
- No tem importncia - disse eu.
A Savannah virou-se finalmente para mim. - Tiveste medo? Da tua primeira vez?
Ponderei qual seria a melhor resposta a dar-lhe. - Acho que as mulheres e os homens encaram isso de maneira diferente - disse-lhe.
- Pois . Acho que tens razo. - Ela fingiu que ajeitava os lenis. - Ests zangado comigo?
- Nem pensar.
- Mas ests desiludido.
- bom... - admiti, e a Savannah riu-se.
- Desculpa - disse ela.
- No h motivo para pedires desculpa.
Ela reflectiu uns instantes. - Ento por que  que sinto que devo pedir desculpas?
- bom, eu sou um soldado solitrio - salientei, e a Savannah tornou a rir-se. Eu continuava a pressentir-lhe o nervoso na voz.
- O sof no  l muito confortvel - apressou-se a dizer. - E  pequeno. No te vais conseguir estender. E eu no tenho mais lenis. Devia ter trazido alguns de 
casa, mas esqueci-me.
- Isso  um problema.
- Pois  - disse a Savannah. Eu fiquei a aguardar.
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- Acho que no fazia mal se dormisses comigo - atreveu-se ela. Eu continuei a aguardar enquanto ela no terminava o seu debate interior. Por fim, encolheu os ombros. 
- Queres tentar? Quer dizer, s dormir?
- Como tu quiseres.
Pela primeira vez, os ombros dela descontraram. - Ento, est bem. Fica combinado. D-me s um minuto para mudar de roupa.
A Savannah levantou-se da cama, atravessou o quarto e abriu uma gaveta. Escolheu um pijama semelhante ao que usara em casa dos pais, e eu voltei para a sala de estar, 
onde vesti uns dos meus cales de treino e uma T-shirt. Quando regressei ao quarto, ela j estava metida debaixo dos lenis. Fui para o outro lado e enfiei-me 
dentro da cama. A Savannah ajeitou os lenis antes de apagar a luz, em seguida deitou-se de costas, a fitar o tecto. Eu fiquei deitado de lado, a olhar para ela.
- Boa noite - murmurou-me ela.
- Boa noite.
Eu sabia que no iria conseguir dormir. Isto , pelo menos por enquanto. Estava demasiado... entusiasmado para tal. Mas no queria comear s voltas na cama, no 
fosse ela dar por isso.
- Eh - sussurrou-me a Savannah por fim.
- O que foi?
Ela virou-se com a cara voltada para mim. - S quero que saibas que  a primeira vez que durmo com um homem. A noite toda, quero eu dizer. J  um passo, no ?
- Sim - assenti. - J  um passo.
Ela passou-me a mo ao de leve pelo brao. - E agora, se algum te perguntar, j vais poder dizer que dormimos juntos.
-  verdade - admiti.
- Mas no vais contar a ningum, pois no? Quer dizer, no quero ficar com m reputao.
Abafei uma gargalhada. - Eu prometo que guardo o teu segredo.
Os dias seguintes decorreram com calma e descontraco. A Savannah tinha aulas de manh, que em geral terminavam um pouco antes da hora do almoo. Em teoria, creio 
que isso me dava a oportunidade de dormir at tarde - uma coisa que todos os recrutas do exrcito sonham fazer quando estiverem de licena -, mas anos a levantar-me 
antes do romper do dia eram um hbito impossvel de perder. Ao invs, eu acordava antes dela, punha uma cafeteira ao lume e em seguida dava um passeio at  esquina 
para ir buscar o jornal. Ocasionalmente, trazia
tambm alguns bagels ou croissants; noutras vezes, limitvamo-nos a comer os flocos de cereais que havia em casa e era fcil antever naquela rotina os primeiros 
anos da nossa futura vida a dois, uma bno fcil que quase parecia boa de mais para ser verdade.
Ou, pelo menos, foi do que eu me tentei convencer. Quando ficmos em casa dos pais dela, a Savannah comportou-se tal e qual como a rapariga que eu guardava na minha 
memria. O mesmo se podia dizer da primeira noite que dormramos juntos. Mas depois disso... comecei a reparar em diferenas. Acho que ainda no me tinha apercebido 
de que a vida dela era completa e gratificante, mesmo sem a minha presena. O calendrio que ela pendurara na porta do frigorfico quase todos os dias assinalava 
um compromisso diferente: concertos, conferncias, meia dzia de festas com diversos amigos. O Tim, reparei, tambm aparecia escrito a lpis para um almoo ocasional. 
A Savannah andava a assistir a quatro disciplinas e a dar outra como assistente, e, nas manhs de quinta-feira, trabalhava com um professor num estudo de caso, que 
estava certa de que viria a ser publicado. A vida dela era tal e qual me descrevera nas cartas que me enviara, e quando ela voltava para o apartamento, contava-me 
como lhe correra o dia enquanto preparava qualquer coisa para comer na cozinha. Adorava o trabalho que andava a fazer, e o orgulho era patente no seu tom de voz. 
Ficava a conversar animadamente enquanto eu a ouvia e lhe fazia apenas as perguntas necessrias para manter a conversa a fluir.
Nada de estranho nisto, admitia. Sabia perfeitamente que seria bem pior se a Savannah no tivesse nada para me contar a respeito do seu dia. Todavia, a cada nova 
histria, eu era dominado por uma sensao depressiva, uma sensao que me levava a pensar que, por muito que nos mantivssemos em contacto, por muito que gostssemos 
um do outro, sem sabermos como, a Savannah seguira numa direco enquanto eu tomara outra. Desde a ltima vez em que a vira, ela conclura a licenciatura, atirara 
o chapu ao ar na cerimnia de formatura, encontrara emprego como assistente na faculdade, mudara-se para um novo apartamento e mobilara-o sozinha. A vida dela entrara 
numa nova fase, e apesar de eu julgar que o mesmo se poderia dizer em relao a mim, a verdade pura e simples era que a minha vida no sofrera quase nenhuma alterao, 
a menos que tenhamos em conta o facto de que agora eu sabia desmontar e tornar a montar oito tipos diferentes de armas em lugar de seis, e que conseguia levantar 
mais quinze quilos deitado num banco. E,  claro, contribura para dar aos russos motivos de preocupao, caso eles andassem com ideias de invadir a Alemanha com 
dzias de divises mecanizadas.
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No me interpretem mal. Eu continuava completamente apaixonado pela Savannah, e havia ocasies em que ainda sentia a fora do amor dela por mim. Muitas vezes, para 
ser sincero. No geral, foi uma semana maravilhosa. Quando ela ia para as aulas, eu ia dar um passeio em volta do campus ou fazer jogging para a pista azul-celeste 
adjacente ao estdio, aproveitando uns momentos de cio que tanta falta me faziam. No segundo dia, descobri um ginsio que me dava a possibilidade de treinar enquanto 
ali estivesse, e, dado que estava a cumprir o servio militar, no me cobravam nada.  hora a que a Savannah chegava a casa das aulas, eu costumava ter j acabado 
de treinar e tomado duche, e ento passvamos o resto da tarde juntos. Na noite de tera-feira, reunimo-nos a um grupo de colegas dela para jantar na baixa de Chapel 
Hill. Foi mais divertido que a princpio julguei, especialmente tendo em conta que me encontrava na companhia dum monte de intelectuais de cursos de Vero e que 
grande parte da conversa se centrava na psicologia dos adolescentes. Na quarta-feira  tarde, a Savannah levou-me a conhecer as salas onde tinha aulas e apresentou-me 
aos seus professores. Ao fim dessa tarde, fomos encontrar-nos com algumas pessoas a que eu havia sido apresentado na noite anterior. Nessa noite, comprmos comida 
chinesa e instalmo-nos  mesa do apartamento. A Savannah trazia uma daquelas camisolas justas de alas que lhe acentuavam o bronzeado, e eu no conseguia pensar 
noutra coisa seno que ela era a mulher mais sensual que eu conhecera na vida.
Na quinta-feira, eu desejava passar algum tempo sozinho na companhia dela e decidi fazer-lhe uma surpresa com uma sada nocturna especial. Enquanto a Savannah estava 
nas aulas e a trabalhar no seu estudo de caso, fui ao centro comercial e investi uma pequena fortuna num fato completo e numa gravata, e outra pequena fortuna num 
par de sapatos. Queria v-la bem vestida, e reservei uma mesa num restaurante que o empregado da sapataria me garantiu ser o melhor da cidade. Cinco estrelas, menu 
extico, empregados de mesa vestidos a rigor, tudo a preceito. Como seria de esperar, no disse nada  Savannah de antemo - tratava-se afinal de contas duma surpresa 
-, mas, mal ela entrou a porta, descobri que combinara passar mais uma noite com os mesmos amigos que andramos a ver nos ltimos dias. Mostrou-se to entusiasmada 
com isso que nem me dei ao trabalho de lhe mencionar o meu plano.
Ainda assim, no fiquei apenas desiludido, fiquei zangado. Na minha maneira de ver as coisas, eu no me importava nada de passar uma noite com os amigos dela, nem 
mesmo mais uma tarde. Mas todos os dias? Depois de termos estado um ano sem nos vermos quando dispnhamos de to pouco tempo na companhia um do outro? Aborrecia-me 
que a Savannah no partilhasse dos meus desejos. Ao longo dos ltimos meses, eu viera a imaginar que iramos passar juntos todo o tempo que pudssemos, na tentativa 
de compensar o ano de separao. Mas comeava a chegar  concluso de que poderia estar enganado. O que significava... o qu? Que eu no era to importante para 
ela como ela para mim? No sei, mas no estado de esprito em que me encontrava, talvez fosse melhor ter ficado no apartamento e t-la deixado ir sozinha. Em vez 
disso, mantive-me  distncia, recusei-me a tomar parte na conversa e limitei-me a olhar fixamente para quem quer que olhasse para mim. com o passar dos anos, desenvolvi 
o jeito para intimidar os outros, e nessa noite estava em excelente forma. A Savannah percebeu que eu estava zangado, mas sempre que me perguntava se alguma coisa 
me estava a incomodar, eu exibia-lhe a minha melhor faceta passivo-agressiva e negava que se passasse fosse o que fosse.
-  s cansao - dizia-lhe  laia de desculpa.
Ela esforou-se por compor a situao, isso sou forado a reconhecer. De quando em vez pegava na minha mo, dirigia-me um leve sorriso quando achava que eu estaria 
a ver, e empanturrava-me com refrigerantes e batatas fritas. Contudo, passado um bocado, fartou-se da minha atitude e desistiu de me dar ateno. No que eu a culpe 
por isso. Eu marcara a minha posio e, dalguma forma, o facto de ela estar a comear a ficar zangada comigo enchia-me da satisfao de sentir que lhe estava a pagar 
na mesma moeda. Mal falmos no caminho de regresso a casa, e quando nos deitmos, dormimos em lados opostos do colcho. De manh, eu sentia-me pronto para ultrapassar 
a situao. Infelizmente, no era esse o caso dela. Enquanto fui buscar o jornal, a Savannah saiu de casa sem sequer tocar no pequeno-almoo, e eu acabei por tomar 
o meu caf sozinho.
Eu sabia que tinha ido longe de mais, e estava decidido a compens-la logo que ela chegasse a casa. Desejava confessar-lhe as minhas preocupaes, falar-lhe das 
reservas que fizera para o jantar, pedir-lhe desculpa pelo meu comportamento. Presumi que a Savannah acabaria por compreender. Ela era, disso estava certo, uma pessoa 
muito melhor que eu. Um jantar num restaurante romntico seria suficiente para pormos a nossa zanga para trs das costas. Vinha-nos mesmo a calhar, pensava eu, uma 
vez que no dia seguinte partiramos para Wilmington para passar o fim-de-semana com o meu pai.
Quer acreditem quer no, eu estava com vontade de o ver, e imaginava que ele, l  sua maneira, tambm deveria estar ansioso pela minha visita. Ao contrrio da Savannah, 
o meu pai ficava para segundo plano no que tocava a expectativas. Talvez no fosse justo, mas nessa poca a Savannah desempenhava outro tipo de papel na minha vida.
Abanei a cabea. A Savannah. Sempre a Savannah. Tudo naquela viagem, tudo na minha vida, apercebi-me eu, conduzia sempre a ela.
Cerca da uma da tarde, eu j terminara o treino, limpara a casa e arrumara quase todas as minhas coisas dentro da mala, e decidi telefonar para o restaurante a fazer 
nova reserva. Nessa altura j sabia o horrio da Savannah de cor e presumi que ela devia estar a chegar a qualquer momento. Sem mais nada que fazer, sentei-me no 
sof e liguei a televiso. Concursos, telenovelas, programas de divulgao de produtos e talk shows eram intercalados com anncios de advogados a oferecer os seus 
servios. A espera fazia arrastar o tempo. Eu estava constantemente a ir ao ptio para ver se o carro dela j se encontrava no parque de estacionamento e consultei 
o relgio umas trs ou quatro vezes. A Savannah, calculava eu, vinha com certeza a caminho, e ocupei-me a esvaziar a mquina de lavar loia. Passados uns minutos, 
escovei os dentes pela segunda vez, em seguida tornei a espreitar pela janela. Continuava a no haver sinal da Savannah. Liguei o rdio, ouvi algumas msicas e mudei 
de estao uma meia dzia de vezes antes de o desligar. Fui novamente ao ptio. Nada. Nessa altura, j eram quase duas da tarde. Perguntei-me onde estaria ela, senti 
os resqucios da fria a manifestarem-se uma vez mais, mas fiz um esforo por afast-los. Disse a mim prprio que a Savannah teria provavelmente uma justificao 
cabal, e tornei a repeti-lo a mim mesmo quando no me consegui convencer. Abri o meu saco e tirei o ltimo romance do Stephen King. Enchi um copo de gua gelada, 
instalei-me confortavelmente no sof, mas no tardei a aperceber-me de que j tinha lido a mesma frase vezes sem conta e ento decidi pr o livro de lado.
Passaram-se mais quinze minutos. Depois trinta. Quando ouvi o carro da Savannah a entrar no parque de estacionamento, sentia os maxilares tensos e os dentes a rilhar. 
Faltava um quarto para as trs quando ela abriu a porta. Vinha toda sorrisos, como se no fosse nada com ela.
- Ol, John - cumprimentou-me. Dirigiu-se  mesa e comeou a esvaziar a mochila. - Desculpa o atraso, mas uma aluna veio ter comigo no fim da aula para me dizer 
que estava a adorar as minhas
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aulas e que, por minha causa, se ia inscrever em educao especial como cadeira principal. Consegues acreditar numa coisa destas? pediu-me que eu lhe desse conselhos 
sobre o que deveria fazer, em que cadeiras se deveria inscrever, quais eram os melhores professores... e o ar com que ela ouvia as minhas respostas... - A Savannah 
abanou a cabea. - Foi... to gratificante. A ateno com que ouvia tudo o que eu lhe dizia... bom, faz-me sentir como se eu fosse verdadeiramente capaz de exercer 
influncia sobre algum. Ns ouvimos os professores a falar de experincias como esta, mas nunca imaginei que me fosse acontecer o mesmo.
Forcei um sorriso, e a Savannah interpretou a deixa como um sinal para continuar a falar:
- bom, adiante... Ela perguntou-me se eu tinha tempo para conversarmos a srio sobre o assunto, e apesar de lhe ter dito que s dispunha duns minutos, uma coisa 
levou  outra e acabmos por ir almoar juntas. Ela  qualquer coisa de extraordinrio: s tem dezassete anos, mas concluiu o secundrio com um ano de avano. Passou 
uma quantidade de exames AP3 e j est no segundo ano da faculdade, e anda a frequentar os cursos de Vero para se poder adiantar ainda mais. No podemos deixar 
de a admirar.
Ela pretendia sentir um eco do seu entusiasmo, mas eu no consegui proporcionar-lho.
- Deve ser ptima - disse ao invs.
Ao ouvir a minha resposta, a Savannah olhou realmente para mim pela primeira vez, e eu no fiz qualquer esforo para ocultar o que sentia.
- O que  que se passa? - indagou ela.
- Nada - menti-lhe.
A Savannah ps a mochila de lado com um suspiro de aborrecimento. - No queres conversar sobre o assunto? Por mm, tudo bem. Mas aviso-te desde j que estou a comear 
a ficar um bocadinho farta.
- O que  que queres dizer com estares farta?
Ela virou-se de frente para mim. - Isto! A maneira como ests a reagir - afirmou. - s mais transparente que aquilo que julgas, John. Ests zangado comigo, mas no 
me queres dizer porqu.
3. Advanced Placement Program - programa que permite aos alunos do ensino secundrio das escolas norte-americanas e canadianas realizar cursos de mbito universitrio, 
durante os quais podem obter crditos e ver a sua entrada na faculdade facilitada. (NT)
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Eu hesitei, na defensiva. Quando finalmente me decidi a falar
esforcei-me por manter uma voz calma. - Pronto - comecei.
Pensei que ias chegar a casa por volta da uma...
A Savannah atirou as mos ao ar. - E  por isso que ests assim? Eu j te expliquei o que  que se passou. Podes no acreditar, mas eu agora tenho responsabilidades. 
E, ou eu muito me engano, ou pedi desculpa pelo atraso mal cheguei a casa.
- Eu sei, mas...
- Mas o qu? As minhas desculpas no bastam?
- Eu no disse isso.
- Ento o que  que foi?
Quando viu que eu no conseguia encontrar palavras com que me expressar, a Savannah levou as mos s ancas. - Queres saber a minha opinio acerca disto tudo? Continuas 
zangado por causa de ontem  noite. Mas deixa-me ver... tambm no queres conversar sobre isso, no  verdade?
Eu fechei os olhos. - Ontem  noite, tu...
- Eu? - interrompeu-me ela, comeando a abanar a cabea. Oh no... no me venhas agora atirar a culpa para cima! Eu no fiz nada. No fui eu que comecei! A noite 
passada poderia ter corrido bem... teria corrido bem... mas deu-te para ficares sentado com cara de quem quer dar um tiro a algum.
Aquilo era um exagero. Ou talvez no. Fosse como fosse, mantive-me calado.
A Savannah prosseguiu: - Sabias que hoje tive de andar a pedir desculpa pela tua atitude de ontem? E como  que me senti por causa disso? Ali estava eu, que tinha 
passado o ano a gabar-te, a dizer aos meus amigos o tipo excepcional que tu eras, a elogiar a tua maturidade, a dizer como me sentia orgulhosa do trabalho que andavas 
a fazer. E eles acabaram por ver uma faceta tua que nem eu alguma vez sequer tinha visto. Tu foste... mal-educado.
- Alguma vez te passou pela cabea que eu talvez me tivesse comportado da maneira que me comportei porque no queria l estar?
Aquilo calou-a, mas apenas por um instante. Cruzou os braos.
- Talvez a forma como tu te comportaste a noite passada seja a razo do meu atraso de hoje.
A afirmao dela apanhou-me desprevenido. Eu no associara uma coisa  outra, mas o problema no era esse.
- Lamento o que se passou ontem  noite...
- Bem podes lamentar! - gritou ela, tornando a interromper-me. - Aquelas pessoas so os meus amigos!
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 Eu sei que so os teus amigos! - ripostei, levantando-me
repentinamente do sof. - No temos feito outra coisa a semana toda seno estar com eles!
- O que  que queres dizer com isso?
- Tal e qual o que acabaste de ouvir. Talvez me apetecesse estar sozinho contigo. Nunca te lembraste disso?
- Apetecia-te estar sozinho comigo? - interrogou-me a Savannah. - bom, deixa-me que te diga, que, pela maneira como te tens andado a portar, ningum diria. Estivemos 
sozinhos hoje de manh. Estamos sozinhos desde que eu cheguei h pouco a casa. Estvamos sozinhos quando eu tentei ser agradvel para ver se pnhamos tudo isto para 
trs das costas, mas tudo o que te apetecia era discutir.
- Eu no quero nada discutir! - indignei-me, fazendo o possvel por no gritar, mas ciente de que era intil. Afastei-me dela, tentando no perder o autodomnio, 
porm, quando tornei a falar, sentia o tom de ameaa na minha voz: - S quero que as coisas voltem ao que eram. Como no Vero passado.
- O que  que tem o Vero passado?
Estava a ser insuportvel. No queria admitir perante a Savannah que j no me sentia importante para ela. O que eu queria era equivalente a pedir o amor de algum, 
e isso nunca d resultado. Ao invs, procurei rodear o assunto.
- No Vero passado eu sentia que tnhamos mais tempo um para
o outro.
- Mas isso no  verdade - ripostou ela. - Eu passava o dia a construir casas. J no te lembras?
 claro que ela tinha razo. Pelo menos em parte. Fiz nova tentativa. - No estou a querer dizer que faz muito sentido, mas parece-me que no ano passado tnhamos 
mais tempo para conversar.
- E  isso que te anda a incomodar? Que eu ande ocupada? Que eu tenha vida prpria? O que  que queres que eu faa? Que falte s aulas a semana toda? Que d parte 
de doente quanto tenho os alunos  minha espera? Que deixe de fazer os trabalhos de casa?
- No...
- Ento o que  que queres?
- No sei.
- Mas no te importas de me humilhar em frente dos meus amigos?
- Eu no te humilhei - protestei eu.
- Ai no? Ento por que  que a Tricia me chamou  parte hoje? Por que  que ela sentiu necessidade de me dizer que tu e eu no tnhamos nada em comum e que eu conseguia 
arranjar muito melhor? Aquilo atingiu-me, mas no estou certo de que a Savannah tivesse percebido at que ponto me afectou.
- Ontem  noite eu s queria estar sozinho contigo.  s isso que estou a tentar dizer.
As minhas palavras no surtiram efeito nela.
- Ento por que  que no me disseste? - indagou. - Por que  que no disseste qualquer coisa do gnero: "No te importavas se fizssemos outra coisa? No me apetece 
nada estar com outras pessoas." No precisavas de dizer mais nada. Eu no te sei ler os pensamentos, John.
Abri a boca para lhe responder, mas acabei por no dizer nada. Em lugar disso, dei meia-volta e fui para o canto oposto da sala. Pus-me a olhar fixamente para a 
porta do ptio, no tanto zangado por aquilo que ela dissera, mas mais... triste. Fiquei com a impresso de que de alguma forma a perdera, e no sabia se era porque 
tinha dado importncia de mais ao que no tinha importncia nenhuma ou se porque compreendia bem de mais o que estava a acontecer entre ns.
No queria continuar a falar do assunto. Nunca tive grande jeito para conversas, e apercebi-me de que o que realmente desejava era que a Savannah atravessasse a 
sala e me pusesse os braos em volta do pescoo, que ela dissesse que compreendia o que me estava a aborrecer e que no tinha nada com que me preocupar.
Mas nada disso aconteceu. Acabei por ficar a falar para a janela, sentindo-me estranhamente solitrio. - Tens razo - reconheci.
- Eu devia ter-te dito. E peo desculpa por no o ter feito. E tambm peo desculpa pela maneira como me comportei a noite passada, e peo desculpa por me ter zangado 
por teres chegado tarde. A verdade  que queria estar contigo o mais que pudesse durante a minha licena.
- Dizes isso como se pensasses que eu no quero o mesmo. Virei-me para ela. - Para ser sincero - confessei -, no tenho
a certeza de que queiras.
Dito isto, encaminhei-me para a porta.
S voltei para casa ao anoitecer. No sabia para onde havia de ir nem por que me tinha vindo embora, para alm de que precisava de ficar sozinho. Fui para o campus 
debaixo dum sol abrasador, e dei por mim a procurar todas as sombras das rvores por que passava. No me voltei para ver se a Savannah vinha atrs de mim; sabia 
que ela no faria isso.
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A certa altura, parei no centro de estudantes para comprar uma garrafa de gua gelada, mas, apesar de se encontrar relativamente vazio e de o ar condicionado estar 
ligado, no me demorei l. Sentia necessidade de transpirar, como que para me purificar da raiva, da tristeza e da desiluso que se recusavam a abandonar-me.
Uma coisa era certa: a Savannah entrara em casa pronta para uma discusso. As respostas tinham-lhe vindo prontamente, e apercebi-me de que pareciam mais ensaiadas 
que espontneas, como se tambm tivesse passado a manh inteira a ferver por dentro. Ela sabia exactamente qual seria a minha reaco, e embora talvez se justificasse 
que ela estivesse zangada comigo pela forma como eu me comportara na noite anterior, o facto de ela parecer indiferente  sua prpria culpa bem como aos meus sentimentos 
consumiu-me por dentro durante quase toda a tarde.
As sombras alongavam-se  medida que o Sol ia descendo no horizonte, mas eu ainda no me sentia preparado para voltar para casa. Em lugar disso, comprei algumas 
fatias de piza e uma cerveja num daqueles pequenos estamins com o balco virado para a rua cuja sobrevivncia depende dos estudantes. Acabei de comer, andei mais 
um pouco, e finalmente decidi iniciar o caminho de regresso para o apartamento da Savannah. Nessa altura j eram quase nove horas, e a montanha russa de sentimentos 
por que passara deixara-me esgotado. Ao aproximar-me da rua, reparei que o carro da Savannah ainda se encontrava no mesmo stio. Via uma luz acesa no quarto dela. 
O resto do apartamento estava s escuras.
Perguntei-me se a porta estaria trancada, contudo, o puxador girou facilmente quando tentei abri-la. A porta do quarto achava-se entreaberta, a luz jorrava at ao 
corredor, e eu hesitei entre aproximar-me e ficar na sala de estar. No estava com disposio para enfrentar a fria da Savannah, mas respirei fundo e percorri o 
pequeno corredor. Espreitei para dentro do quarto. Vi-a sentada na cama, com uma camisola vrios tamanhos acima vestida, que lhe chegava a meio das coxas. Levantou 
os olhos duma revista, e eu dirigi-lhe um sorriso a medo.
- Ol - cumprimentei-a.
- Ol.
Atravessei o quarto e sentei-me na beira da cama.
- Desculpa - disse-lhe eu. - Por tudo. Tu tinhas razo. Ontem  noite fui um verdadeiro cretino, e no te devia ter envergonhado em frente dos teus amigos. E no 
me devia ter zangado contigo por chegares atrasada. No tornar a repetir-se.
Ela surpreendeu-me ao dar umas palmadinhas no colcho. -Anda c - murmurou-me.
Eu cheguei-me mais para cima, recostei-me  cabeceira da cama e enlacei-lhe um brao em volta da cintura. A Savannah encostou-se a mim, e comecei a sentir o seu 
peito a subir e a descer a um ritmo regular.
- No quero continuar a discutir - disse ela.
- Nem eu to-pouco.
Quando lhe acariciei o brao, soltou um suspiro. - Por onde  que andaste?
- Por a, sem destino - respondi-lhe. - Andei s pelo campus. Comi piza. Pensei muito.
- Em mim?
- Em ti. Em mim. Em ns.
A Savannah assentiu com a cabea. - Tambm eu - disse ela. E ainda ests zangado?
- No - tranquilizei-a. - Estava, mas agora sinto-me demasiado cansado para isso.
- Tambm eu - reiterou ela. Levantou a cabea para olhar para mim. - Gostava de te falar numa coisa em que estive a pensar enquanto estiveste fora de casa. No te 
importas?
-  claro que no - assegurei-lhe.
- Apercebi-me de que sou eu que te devo um pedido de desculpas. Por passar tanto tempo com os meus amigos, quero eu dizer. Acho que foi por isso que fiquei to zangada 
h um bocado. Percebia o que me estavas a tentar dizer, mas no queria ouvir, porque sabia que tinhas razo. Pelo menos, em parte. Mas o teu raciocnio estava errado.
Olhei para ela sem saber o que pensar. A Savannah prosseguiu:
- Tu ests convencido de que eu te obriguei a passar muito tempo com os meus amigos, porque j no s to importante para mim como dantes, no ? - No ficou  espera 
de resposta. - Mas a razo no  essa.  precisamente o contrrio. Eu fiz isso, porque tu s muito importante para mim. No tanto porque queria que ficasses a conhecer 
os meus amigos, ou para que eles te ficassem a conhecer a ti, mas por minha causa.
Fez uma pausa, hesitante.
- No percebo o que  que me ests a querer dizer.
Recordas-te de eu te ter dito que estar contigo me transmite
fora?
Quando eu assenti com a cabea, a Savannah fez deslizar os dedos pelo meu peito. - Estava a falar a srio. No Vero passado significaste
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tanto para mim. Mais que alguma vez possas imaginar e, quando te foste embora, eu fiquei de rastos. Pergunta ao Tim. Mal consegui trabalhar nas casas. Eu sei que 
as cartas que te enviei davam a ideia de que tudo estava a correr bem, mas no era verdade. No havia noite em que eu no chorasse, e passava os dias em casa a imaginar, 
a desejar,  espera de te ver chegar da praia. Sempre que via algum com o cabelo  escovinha, sentia o corao a bater mais depressa, embora soubesse que no eras 
tu. Mas o problema era esse. Eu queria estar contigo. A todas as horas. Eu sei que o que tu fazes  importante, e sei que ests colocado do outro lado do Atlntico, 
mas acho que no estava  espera de que fosse to difcil quando j no estivesses a meu lado. Parecia que andava a morrer aos poucos, e levei muito tempo at que 
regressasse ao meu estado normal. E o que est a suceder agora  que, por muito que eu queira estar contigo, por muito que eu goste de ti, h algo em mim que fica 
aterrorizado s de pensar que posso voltar a sentir-me de rastos. Estou a sentir-me puxada em duas direces, e a minha reaco tem sido tentar fazer tudo ao meu 
alcance para evitar ficar como fiquei no ano passado. Por isso procurei que nos mantivssemos ocupados, sabes? Para evitar que o meu corao se partisse novamente.
Senti um aperto na garganta, mas no disse nada. A seu tempo, a Savannah continuou:
- Hoje, apercebi-me de que, ao fazer isto, te estava a magoar a ti. No  justo para ti, mas, ao mesmo tempo, tambm estou a tentar ser justa para comigo prpria. 
Dentro duma semana, vais-te novamente embora, e eu  que vou ter de descobrir maneira de conseguir levar a minha vida em diante. H pessoas, como tu, que conseguem. 
Mas j eu...
Ela pousou o olhar nas mos, e instalou-se entre ns um silncio prolongado.
- No sei o que dizer - admiti por fim.
Mesmo contrafeita, a Savannah soltou uma gargalhada. - No estou  espera de que me respondas - disse ela -, porque no me parece que haja resposta para isto. Mas 
o que eu sei  que no te quero magoar. E tudo o que tenho a certeza. S espero conseguir arranjar uma forma de ser mais forte este Vero.
- Podemos sempre ir treinar juntos - gracejei sem grande entusiasmo, e senti-me aliviado ao ouvi-la rir-se.
- Pois, isso vai dar resultado. Dez flexes de braos na barra e fico como nova, no ? Quem me dera que fosse assim to fcil. Mas eu c me hei-de arranjar. Poder 
no ser fcil, mas pelo menos desta
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vez no vai ser por um ano inteiro. Foi disso que me estive a tentar convencer hoje. Que tu no Natal virs para casa. Mais uns meses e acabou-se o sofrimento.
Abracei-a ento, sentindo o calor do seu corpo contra o meu. Estava a sentir os dedos dela atravs do tecido fino da minha camisola, e a Savannah comeou a pux-la 
devagarinho, deixando a pele da minha barriga  mostra. A sensao era elctrica. Deixei-me envolver pelo seu toque e inclinei-me para a beijar.
Ao beij-la, fui invadido por uma espcie diferente de paixo, uma paixo viva e vibrante. Senti a lngua dela contra a minha, consciente da forma como o corpo dela 
reagia ao meu  medida que os seus dedos comeavam a deslizar para o fecho de correr das minhas calas de ganga. Quando fiz descer as mos, apercebi-me de que a 
Savannah estava despida da cintura para baixo. Ela desapertou-me o fecho, e embora eu no desejasse outra coisa, obriguei-me a retroceder, a parar antes que as coisas 
fossem demasiado longe, at a um ponto para o qual eu ainda no tinha a certeza de que ela estava preparada.
A Savannah pressentiu a minha hesitao, contudo, sem me dar tempo para mais nada, sentou-se de repente e despiu a camisola. A minha respirao acelerou ao olhar 
para ela, e, sem demora, a Savannah chegou-se a mim e levantou-me a camisola. Beijou-me no umbigo e nas costelas, em seguida no peito, e eu j sentia as mos dela 
a puxarem-me as calas. Levantei-me da cama e despi a camisola, depois deixei as calas carem ao cho. Beijei-lhe o pescoo e os ombros e senti o calor da respirao 
dela nos meus ouvidos. A sensao da pele dela contra a minha era como fogo, e comemos a fazer amor.
Foi tal e qual eu sonhara, e quando acabmos, envolvi a Savannah nos meus braos, tentando gravar todas as sensaes na minha memria. No escuro, sussurrei-lhe o 
quanto a amava.
Fizemos amor uma segunda vez, e quando a Savannah finalmente adormeceu, dei por mim a contempl-la. Tudo nela deixava transparecer uma tranquilidade preciosa, mas, 
no sei porqu, no consegui evitar uma arreliadora sensao de pnico. Por muito doce e extasiante que tivesse sido, no conseguia deixar de pressentir um laivo 
de desespero nos nossos gestos, como se ambos nos estivssemos a agarrar  esperana de que aquilo fosse capaz de fazer sobreviver a nossa relao ao que quer que 
o futuro nos trouxesse.
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CAPTULO CATORZE
O resto do tempo que passmos juntos enquanto estive de licena decorreu sensivelmente como eu estava  espera.  excepo do fim-de-semana em casa do meu pai - 
durante o qual ele cozinhou para ns e discorreu incansavelmente sobre moedas - ficmos sozinhos o mais que nos foi possvel. De volta a Chapel Hill, logo que a 
Savannah acabava as aulas, as nossas tardes e noites eram passadas na companhia um do outro. Passemos pelas lojas ao longo de Franklin Street, fomos ao Museu de 
Histria da Carolina do Norte, em Raleigh, e chegmos mesmo a passar algumas horas no Jardim Zoolgico da Carolina do Norte. Na noite da antevspera da minha partida, 
fomos jantar ao restaurante de luxo que o empregado da sapataria me tinha recomendado. A Savannah no me deixou espreit-la enquanto se estava a arranjar, mas quando 
finalmente se disps a sair da casa de banho, vinha um espanto absoluto, e eu fiquei a olhar para ela sem conseguir abrir a boca, a pensar na sorte que tinha por 
estarmos juntos.
No tornmos a fazer amor. Depois dessa noite, acordei de manh com a Savannah a examinar-me, as lgrimas a deslizarem-lhe pela face. Antes que eu tivesse oportunidade 
de lhe perguntar o que se passava, ela pousou-me um dedo nos lbios e abanou a cabea, a pedir-me para no dizer nada.
- A noite passada foi maravilhosa - disse ela -, mas no quero falar nisso. - Ao invs, enroscou-se dentro do meu corpo, e fiquei muito tempo abraado a ela, a ouvi-la 
respirar. Nesse momento percebi que algo entre ns mudara, mas no tive coragem de lhe perguntar o qu.
Na manh da minha partida, a Savannah foi levar-me ao aeroporto. Ficmos sentados junto  porta de embarque,  espera da chamada para o meu voo, o polegar dela a 
descrever pequenos crculos nas costas da minha mo. Quando chegou o momento de eu embarcar, a Savannah deixou-se cair nos meus braos e comeou a chorar. Quando 
viu a minha expresso, forou uma gargalhada, mas que no conseguiu disfarar a tristeza.
- Eu sei que prometi - disse ela -, mas no consigo evitar.
- Vai correr tudo bem - sosseguei-a. - So s seis meses. com tudo o que est a acontecer neste momento na tua vida, nem vais dar pelo tempo passar.
- Falar  fcil - respondeu ela, dando uma fungadela. - Mas tens razo. Desta vez vou ser mais forte. vou ficar bem.
Perscrutei-lhe o rosto  procura de sinais de negao, mas no vi nenhum.
- A srio - reiterou ela -, vou ficar bem.
Eu assenti com a cabea, e, durante um momento demorado, limitmo-nos a ficar a olhar um para o outro.
- No te vais esquecer de olhar para a lua cheia? - perguntou-me ela.
- Todos os meses sem falta - assegurei-lhe.
Trocmos um ltimo beijo. Abracei-a com fora e sussurrei-lhe que a amava, depois obriguei-me a solt-la. Atirei a mochila por cima do ombro e comecei a subir a 
rampa. Ao espreitar por cima do ombro, apercebi-me de que a Savannah j tinha desaparecido, engolida algures por entre a multido.
No avio, recostei-me no banco, a rezar para que a Savannah me tivesse dito a verdade. Embora eu soubesse que ela me amava e se preocupava comigo, apercebi-me subitamente 
de que o amor e a preocupao nem sempre eram suficientes. Eles eram os tijolos de cimento da nossa relao, mas instveis sem a argamassa do tempo passado juntos, 
tempo sem a ameaa de separao iminente a pairar sobre ns. Embora no estivesse disposto a admitir isso, havia muita coisa acerca da Savannah que eu desconhecia. 
No me apercebera at que ponto a minha partida a afectara no ano anterior, e no obstante as horas de nsia perdidas a pensar nisso, no sabia ao certo como a distncia 
a iria afectar agora. A nossa relao, sentia eu com um peso no peito, comeava a parecer-se com o movimento giratrio do pio duma criana. Quando estvamos juntos, 
tnhamos o poder de o manter a rodopiar, e da resultava beleza, magia, bem como uma sensao quase infantil de maravilha; quando nos separvamos, o movimento comeava 
inevitavelmente a abrandar. Tornvamo-nos hesitantes e instveis, e eu sabia que tinha de descobrir uma maneira que nos impedisse de oscilar e cair.
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J aprendera a minha lio do ano anterior. No apenas lhe escrevi mais cartas da Alemanha durante os meses de Julho e Agosto, como tambm lhe passei a telefonar 
com maior frequncia. Ouvia-a com ateno durante os telefonemas, tentando descortinar quaisquer sinais de depresso e ansiando por ouvir palavras de afecto e desejo. 
A princpio, sentia-me nervoso antes de lhe fazer estes telefonemas; no fim do Vero, esperava ansiosamente pelo momento de lhe ligar. As aulas estavam a correr-lhe 
bem. Passou algumas semanas em casa dos pais, depois comeou o primeiro semestre. Na primeira semana de Setembro, comemos a contagem decrescente dos dias at  
minha dispensa. Ainda faltavam cem. Era-nos mais fcil falar em termos de dias que de semanas ou meses; sem sabermos como, encurtava a distncia que nos separava 
para algo de mais ntimo, algo com que ambos nos sabamos capazes de lidar. O pior j ficara para trs, amos recordando um ao outro, e,  medida que eu ia arrancando 
as pginas do calendrio, descobria que as preocupaes que eu sentia relativamente  nossa relao iam diminuindo. Tinha a certeza de que no havia nada neste mundo 
que nos impedisse de ficarmos juntos.
E foi ento que veio o 11 de Setembro.
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CAPTULO QUINZE
Duma coisa estou certo: as imagens do 11 de Setembro nunca me havero de abandonar. Observei as colunas de fumo a elevarem-se das Torres Gmeas e do Pentgono e 
as expresses consternadas dos homens  minha volta enquanto viam aquelas pessoas a precipitarem-se para a morte. Testemunhei o desmoronamento dos edifcios e a 
gigantesca nuvem de p e destroos que se levantou em seu lugar. Senti-me enfurecer  medida que a Casa Branca era evacuada.
Numa questo de horas, soube que os Estados Unidos no tardariam a responder ao ataque, e que as foras armadas seriam as primeiras a intervir. A base foi colocada 
em alerta mximo, e duvido de que tivesse havido outro momento em que me tivesse sentido mais orgulhoso dos meus homens. Nos dias sucessivos, foi como se todas as 
diferenas pessoais e filiaes polticas de todos os quadrantes se tivessem dissipado. Durante um breve perodo de tempo, fomos simplesmente americanos.
Aos gabinetes de recrutamento de todo o pas comearam a acorrer homens que se desejavam alistar. Entre ns, que j estvamos integrados no exrcito, o desejo de 
servir fazia-se sentir mais forte que nunca. O Tony foi o primeiro dos homens do meu peloto a realistar-se por um perodo suplementar de dois anos, e, um a um, 
todos lhe foram seguindo o exemplo. At mesmo eu, que estava  espera da minha dispensa honrosa em Dezembro e andara a contar os dias que faltavam para poder voltar 
para a Savannah, fui apanhado pela febre e realistei-me.
Seria fcil dizer que me deixara influenciar por aquilo que estava a suceder  minha volta e que foi esse o motivo que justificou a minha deciso. Mas isso era apenas 
um pretexto. No h dvida de que fui apanhado pela mesma onda patritica, contudo, mais importante que
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isso, eram os laos de amizade e responsabilidade que nos uniam. Conhecia os meus homens, preocupava-me com os meus homens, e a ideia de os abandonar numa altura 
daquelas pareceu-me duma cobardia inexcedvel. Tnhamos passado por muito juntos para eu poder sequer contemplar a ideia de abandonar o exrcito naqueles derradeiros 
dias de 2001.
Telefonei  Savannah a contar-lhe a novidade. A princpio, ela apoiou a minha deciso. Tal como toda a gente, ficara horrorizada com o sucedido e compreendia o sentido 
do dever que pesava sobre mim, mesmo antes de eu lhe tentar explicar. Disse-me que estava orgulhosa de mim.
Mas a realidade no tardou a impor-se. Ao optar por servir o meu pas, eu fizera um sacrifcio. Apesar de a investigao relativa aos responsveis pelos atentados 
ter sido rapidamente concluda, para ns, o ano de 2001 chegou ao fim sem outros acontecimentos marcantes. A nossa diviso de infantaria no desempenhou qualquer 
papel no derrube do governo talib do Afeganisto, uma desiluso para todos os homens do meu peloto. Ao invs, passmos grande parte do Inverno e da Primavera nos 
treinos e preparativos para o que todos sabamos ser a futura invaso do Iraque.
Foi por esta altura, julgo eu, que as cartas da Savannah comearam a mudar. Quando anteriormente eram enviadas todas as semanas, comearam a chegar-me a cada dez 
dias, e depois,  medida que os dias se foram tornando mais compridos, vinham apenas de quinze em quinze dias. Procurei consolar-me persuadindo-me de que o tom das 
cartas no se alterara, mas com o tempo at isso aconteceu. Desapareceram os longos pargrafos em que a Savannah imaginava como seria a nossa vida juntos, pargrafos 
que no passado sempre me haviam criado enormes expectativas. Ambos sabamos que esse sonho se encontrava agora  distncia de dois anos. Escrever sobre um futuro 
to longnquo lembrava-lhe o quanto ainda nos faltava passar, algo que ambos sentamos dificuldade em enfrentar.
 medida que Maio ia e vinha, eu consolava-me com a expectativa de ao menos a conseguir ver na minha prxima licena. O destino, porm, conspirou contra ns escassos 
dias antes do meu regresso a casa. O meu oficial de comando marcou-me uma reunio, e, quando eu me apresentei no seu gabinete, mandou-me sentar. O meu pai, informou-me 
o oficial, sofrera um ataque cardaco grave, e ele j se me adiantara e garantira uma licena de emergncia adicional. Em lugar de viajar para Chapel Hill e passar 
duas semanas gloriosas com a Savannah, fui para Wilmington e passei os dias  cabeceira do meu pai, inalando o
cheiro a anti-sptico que me fazia sempre lembrar mais da prpria morte que da cura. Quando cheguei, o meu pai encontrava-se na unidade de cuidados intensivos; e 
l permaneceu durante a maior parte da minha licena. A sua pele apresentava-se duma palidez macilenta, e a respirao, rpida e superficial. No decorrer da primeira 
semana, oscilou entre estados de conscincia e inconscincia, porm, nos momentos em que esteve acordado, vislumbrei emoes no meu pai que raramente lhe conhecera 
e nunca em simultneo: medo desesperado, confuso momentnea e uma gratido comovente por eu me encontrar a seu lado. Por mais duma vez, lhe peguei na mo, outra 
novidade na minha vida. O meu pai no podia falar devido ao tubo que lhe tinham inserido na garganta, por isso coube-me a mim conversar por ns dois. Embora eu lhe 
tenha contado alguma coisa do que se vinha a passar na base, a maior parte da conversa debruou-se sobre moedas. Li-lhe o Greysheet; quando cheguei ao fim, fui a 
casa buscar-lhe velhos exemplares que ele tinha arquivado numa gaveta e li-lhos tambm. Pesquisei moedas na Internet
- em sites como David Hall Rare Coins e Legend Numismatic - e enumerei-lhe as que estavam actualmente disponveis no mercado, bem como os ltimos preos. Os preos 
deixaram-me atnito. Foi nesse momento que, com base nas moedas que eu sabia que o meu pai j possua, comecei a desconfiar de que a sua coleco, no obstante a 
queda nos preos das moedas desde a poca do apogeu do ouro, valia provavelmente dez vezes mais que a casa de que havia anos ele era proprietrio. O meu pai, incapaz 
sequer de dominar a arte duma simples conversao, tornara-se a pessoa mais rica que eu conhecia.
Mas o meu pai no estava interessado no valor das moedas. O seu olhar desviava-se de imediato sempre que eu tocava no assunto, e no tardei a recordar-me de algo 
que, por alguma razo desconhecida, me havia esquecido: para o meu pai, a procura de determinada moeda era de longe mais interessante que a moeda em si, e, para 
ele, cada moeda representava uma histria com um final feliz. com isso em mente, dei voltas  cabea fazendo o possvel por me lembrar das moedas que encontrramos 
juntos. Antes de me deitar, estudava atentamente os registos detalhados que o meu pai guardava, e, pouco a pouco, a minha memria foi-se reavivando. No dia seguinte, 
fazia-o lembrar-se de histrias das nossas viagens a Raleigh, Charlotte ou Savannah. Apesar de nem os mdicos saberem dizer ao certo se ele iria recuperar, o meu 
pai sorriu mais nessas semanas que alguma vez me lembro de o ter visto sorrir. Recebeu alta na vspera da minha partida, e o hospital providenciou para arranjar 
algum que olhasse por ele durante a convalescena.
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Todavia, ainda que a minha permanncia no hospital tivesse fortalecido os laos entre mim e o meu pai, no contribuiu em nada para melhorar a minha relao com a 
Savannah. No me interpretem mal .- ela veio ter comigo sempre que lhe foi possvel, e nunca deixou de me mostrar o seu apoio e compreenso. Mas o facto de eu passar 
tanto tempo no hospital no nos permitiu fechar as brechas que se comeavam a abrir no nosso relacionamento. Para ser franco, eu j nem sabia ao certo o que queria 
da Savannah: quando ela estava presente, eu sentia vontade de ficar sozinho com o meu pai, mas quando ela se ia embora, queria-a a meu lado. Sem eu saber como, a 
Savannah navegava atravs deste campo minado sem reagir  tenso com que eu vinha a sobrecarreg-la. Parecia adivinhar-me os pensamentos e antecipar-se aos meus 
desejos, ainda melhor que eu prprio.
Apesar de tudo, do que ns precisvamos era de passar tempo juntos. Tempo a ss. Se virmos a nossa relao como uma bateria, a minha estadia do outro lado do Atlntico 
estava continuamente a esgot-la, e ambos tnhamos necessidade de a recarregar. Numa ocasio, estava eu sentado ao p do meu pai a ouvir o sinal regular do monitor 
cardaco, quando constatei que eu e a Savannah passramos menos de quatro das ltimas cento e quatro semanas juntos. Menos de cinco por cento. Mesmo com as cartas 
e os telefonemas, havia ocasies em que eu dava por mim de olhos fixos no vazio, perguntando-me como aguentramos tanto tempo.
Ainda assim, ainda conseguimos dar uns passeios e fomos jantar fora duas vezes. No entanto, dado que a Savannah estava outra vez a dar e a receber aulas, era-lhe 
impossvel passar a noite comigo. Esforcei-me por no a culpabilizar por isso, mas no fui capaz e acabmos por ter uma discusso. Isso angustiava-me tanto a mim 
como a ela, mas nenhum de ns se conseguiu conter. E embora a Savannah no tivesse dito nada, e at chegasse mesmo a negar quando a confrontei com a questo, eu 
sabia que o motivo fundamental era o facto de que eu deveria ter vindo para casa de vez e no viera. Foi a primeira e nica vez que a Savannah me mentiu.
Tentmos ultrapassar a discusso o melhor que pudemos, e a despedida foi novamente marcada pelas lgrimas, embora menos que da ltima vez. Seria reconfortante pensar 
que era porque nos estvamos a habituar, mas, enquanto ia no avio, sabia que algo entre ns mudara de forma irrevogvel. Tnhamos derramado menos lgrimas, porque 
a intensidade dos nossos sentimentos diminura.
Foi uma consciencializao dolorosa, e na noite de lua cheia que se seguiu, dei por mim a deambular pelo campo de futebol deserto. E,
tal como lhe prometera, recordei-me do tempo que passara na companhia da Savannah durante a minha primeira licena. Tambm pensei na minha segunda licena, mas, 
por estranho que possa parecer, recusei-me a pensar na terceira, pois creio que nesse momento j sabia o que esta pressagiava.
 medida que o Vero se foi aproximando do fim, o meu pai continuou a recuperar, embora lentamente. Nas suas cartas, contava-me que adquirira o hbito de dar uma 
volta pelo bairro trs vezes por dia, todos os dias, cada passeio tendo a durao exacta de vinte minutos, mas que at isso lhe custava. Se  que houve algo de positivo 
nisto  que lhe deu algo com que entreter os seus dias agora que se reformara, isto , algo que no fossem as moedas. Para alm de me escrever com maior frequncia, 
comecei a telefonar-lhe s teras e sextas-feiras, exactamente  uma da tarde, hora local, s para me certificar de que ele estava bem. Mantinha-me atento a quaisquer 
sinais de fadiga na sua voz e estava constantemente a lembr-lo para se alimentar bem, dormir o suficiente e tomar os medicamentos. Era sempre a mim que me cabia 
a maior parte das despesas da conversa. O meu pai revelava ainda mais dificuldade em comunicar ao telefone que frente a frente e dava-me sempre a ideia de que tudo 
o que desejava era desligar o mais depressa possvel. com o tempo, fui comeando a meter-me com ele por causa disto, mas nunca ficava com a certeza de que ele percebia 
que eu estava a brincar. Eu achava piada a isto e ria-me; apesar de o meu pai nunca se rir tambm, a sua voz ficava sempre mais animada, ainda que por uns breves 
instantes, antes de ele tornar a mergulhar no silncio. No fazia mal. Eu sabia que ele estava sempre ansioso por receber os telefonemas. Atendia sempre ao primeiro 
toque, e no me era difcil imagin-lo a olhar fixamente para o relgio  espera do telefonema.
Agosto cedeu o lugar a Setembro, depois a Outubro. A Savannah acabou as aulas em Chapel Hill, regressou a casa e comeou  procura de emprego. Pelos jornais, eu 
lia notcias acerca das Naes Unidas e de como os europeus nos estavam a tentar impedir de entrar em guerra com o Iraque. As coisas andavam tensas nas capitais 
dos nossos aliados da NATO; nos noticirios, viam-se manifestaes de cidados e declaraes enrgicas dos seus lderes de que os Estados Unidos estavam prestes 
a cometer um grave erro. Entretanto, os nossos lderes esforavam-se por os convencer do contrrio. Eu e os restantes membros do meu peloto limitvamo-nos a fazer 
o que nos competia, treinando-nos para o inevitvel com resoluta determinao. Foi ento que, em Novembro, o meu peloto foi destacado uma vez mais
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para o Kosovo. No ficmos l muito tempo, mas foi mais que suficiente. Por essa altura, j eu andava saturado dos Balcs - j era a quarta vez que l estava - e 
tambm de andar em misso de paz. mais importante ainda, todos ns sabamos que a guerra no Mdio Oriente era inevitvel, quer a Europa quisesse quer no.
Durante esse perodo, as cartas da Savannah ainda me chegavam com regularidade, tal como os telefonemas que eu lhe fazia. Em geral, ligava-lhe antes do amanhecer 
- por volta da meia-noite na terra dela
- e apesar de no passado eu ter conseguido sempre falar com ela, em mais duma ocasio no a encontrei em casa. Embora me tentasse convencer de que ela devia ter 
ido sair com os pais ou com amigos, era-me difcil no dar asas  imaginao. Depois de desligar o telefone, pensava muitas vezes que a Savannah se fora encontrar 
com outro homem por quem estava apaixonada. Por vezes, tornava a ligar-lhe mais duas ou trs vezes durante uma hora, sentindo a minha frustrao a aumentar a cada 
toque que ficava por atender.
Quando ela finalmente atendia, eu poderia perguntar-lhe por onde  que andara, mas nunca cheguei a fazer isso. E a Savannah tambm nem sempre me oferecia justificaes. 
Tenho noo de que cometia um erro ao no dizer nada, simplesmente porque me era impossvel afastar a pergunta do pensamento, mesmo esforando-me por me concentrar 
na conversa que estvamos a ter. Eram mais as vezes em que me sentia tenso ao telefone que o contrrio, e as respostas da Savannah revelavam tenso semelhante. com 
demasiada frequncia as nossas conversas eram menos uma troca alegre de afecto que uma troca rudimentar de informao. Depois de desligarmos, sentia-me sempre mal 
comigo mesmo por causa dos cimes, e passava os dias sucessivos a culpabilizar-me, prometendo a mim prprio que no tornaria a deixar isso acontecer.
Noutras ocasies, contudo, a Savannah mostrava-se tal e qual como a pessoa de quem eu tinha memria, e eu percebia o quanto ela ainda gostava de mim. Apesar de tudo, 
eu estava to apaixonado por ela como sempre estivera, e dava por mim a ansiar por aqueles tempos mais simples do passado. Tinha obviamente conscincia do que estava 
a suceder. Quanto mais nos amos afastando um do outro, mais desesperado eu ficava por resgatar os momentos que em tempos partilhramos; todavia, tal como num crculo 
vicioso, o meu desespero apenas contribua para que nos afastssemos ainda mais.
Comemos a ter discusses. Tal como na discusso que tivramos no apartamento dela durante a minha segunda licena, eu tinha dificuldade em revelar-lhe os meus 
sentimentos, e, independentemente
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do que dissesse, no era capaz de fugir  sensao de que a Savannah me andava a atormentar e de que nem to-pouco fazia qualquer esforo por aliviar as minhas preocupaes. 
Aqueles telefonemas angustiavam-me ainda mais que os meus cimes, embora soubesse que estavam ligados.
No obstante as nossas diferenas, nunca duvidei de que fssemos conseguir ultrapass-las. Queria ter uma vida ao lado da Savannah mais que qualquer outra coisa. 
Em Dezembro, comecei a telefonar-lhe com maior regularidade e fiz o possvel por controlar os meus cimes. Esforcei-me por me mostrar descontrado ao telefone, na 
esperana de que a Savannah tivesse vontade de receber notcias minhas. Convenci-me de que a situao se estava a compor, e aparentemente at estava, mas, quatro 
dias antes do Natal, lembrei-lhe que faltava pouco mais dum ano para eu voltar para casa. Ao invs da reaco entusiasta de que estava  espera, a Savannah ficou 
calada. Tudo o que eu ouvia era o rudo da respirao dela.
- Ouviste o que eu te disse? - perguntei-lhe.
- Ouvi - assentiu ela com voz suave. -  s que j no  a primeira vez que ouo isso.
Era verdade, como ambos sabamos, mas passei quase uma semana com dificuldade em conciliar o sono.
A lua cheia calhou no Dia de Ano Novo, e embora eu tivesse ido l para fora contempl-la e tivesse recordado a primeira semana do nosso namoro, as imagens chegavam-me 
desfocadas, como se fossem ofuscadas pela tristeza avassaladora que me consumia por dentro. No caminho de volta, vi dzias de homens reunidos em crculos ou encostados 
aos edifcios a fumar, como se no tivessem qualquer preocupao neste mundo. Perguntei-me no que pensariam ao ver-me passar por ali. Pressentiriam que eu estava 
a perder tudo o que importava na minha vida? Ou que desejava mais uma vez poder mudar o passado? No sei, nem eles me perguntaram. O mundo vinha a mudar a grande 
velocidade. As ordens de que estvamos  espera chegaram-nos na manh seguinte, e, passados uns dias, o meu peloto encontrava-se na Turquia, comeando os preparativos 
para a invaso do Iraque a partir do Norte. Tivemos reunies onde fomos informados das nossas incumbncias, estudmos a topografia e revimos planos de batalha. Dispnhamos 
de pouco tempo livre, porm, nas raras ocasies em que nos aventurvamos fora do aquartelamento, era quase impossvel ignorarmos os olhares hostis que a populao 
nos dirigia. Ouvimos rumores de que a Turquia se preparava para negar o acesso s nossas tropas para efeitos da invaso e que estavam a decorrer conversaes para 
ultrapassar
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esse obstculo. Havia muito tempo que tnhamos aprendido a aceitar os rumores com alguma reserva, mas desta vez verificou-se que estes correspondiam  verdade, e 
eu e o meu peloto fomos enviados para o Kuwait para comear tudo da estaca zero.
Aterrmos a meio da tarde por entre um cu sem nuvens e demos por ns rodeados de areia por todos os lados. No tardou a que fssemos metidos dentro dum autocarro 
e chegmos ao que descrevo basicamente como a maior cidade de tendas que alguma vez vi. O exrcito fez o possvel por torn-la confortvel. A comida era boa e a 
cooperativa do aquartelamento tinha tudo do que pudssemos vir a precisar, mas era entediante. O servio de entrega de correspondncia funcionava mal - eu no recebi 
qualquer carta - e as filas para o telefone eram sempre quilomtricas. Entre os exerccios militares, eu e os meus homens ou ficvamos sentados a tentar adivinhar 
quando teria incio a invaso ou ento treinvamos a vestir os nossos fatos de proteco contra as armas qumicas com a maior rapidez possvel. O plano previa que 
o meu peloto se fosse juntar a outras unidades de diferentes divises numa intensa ofensiva sobre Bagdad. Em Fevereiro, depois do que j nos parecia uma eternidade 
no deserto, eu e o meu peloto no podamos estar mais preparados.
Nesse momento, muitos soldados j se encontravam no Kuwait desde Outubro, e a fbrica dos rumores continuava de vento em popa. Ningum sabia o que a vinha. Ouvi 
falar em armas qumicas e biolgicas; ouvi dizer que Saddam Hussein aprendera a lio durante a operao Tempestade no Deserto e estava agora a entrincheirar a Guarda 
Republicana em redor de Bagdad, na expectativa de conseguir obter uma derradeira resistncia sangrenta. A 17 de Maro, eu tive a certeza de que haveria guerra. Na 
minha ltima noite no Kuwait, escrevi cartas aos meus entes queridos, para o caso de no sobreviver: uma ao meu pai e outra  Savannah. Nessa noite, integrei um 
comboio que se estendeu ao longo de cem quilmetros para o interior do Iraque.
Os confrontos eram espordicos, pelo menos a princpio. Dado que a nossa fora area controlava os cus, tnhamos pouco a recear de ataques areos  medida que amos 
atravessando auto-estradas quase desertas. O exrcito iraquiano no se via em parte alguma, o que s contribua para aumentar a tenso que eu sentia perante a expectativa 
do que aguardaria o meu peloto no decorrer da campanha. Aqui e ali, tnhamos notcia de fogo de morteiros inimigos, e apressvamo-nos a enfiar-nos nos nossos fatos, 
para logo sermos informados de que se tratara de falso alarme. Os soldados estavam tensos. Eu passei trs dias sem dormir.
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Mais para o interior do Iraque, comearam as escaramuas, e foi nessa altura que eu aprendi a primeira regra associada  Operao Libertao do Iraque: era frequente 
os civis e os inimigos confundirem-se uns com os outros. Eram disparados tiros, ns atacvamos, e havia ocasies em que nem sequer tnhamos a certeza contra quem 
estvamos a atirar.  medida que penetrvamos no Tringulo Sunita, a guerra ia-se intensificando. Chegaram-nos notcias de batalhas em Fallujah, Ramadi e Trikit, 
todas elas combatidas por outras unidades de outras divises. O meu peloto juntou-se  Octogsima Segunda Aerotransportada num ataque a Samawah, e foi a que eu 
e o meu peloto tivemos a primeira amostra dum combate a srio.
A fora area preparara-nos o terreno. Desde o dia anterior que vinham a ser disparados msseis, bombas e morteiros e,  medida que atravessvamos a ponte que conduzia 
 cidade, a minha primeira reaco foi de espanto perante o silncio. O meu peloto foi destacado para um bairro afastado do centro, onde devamos andar de casa 
em casa para limpar a rea da presena inimiga. Enquanto avanvamos, as imagens iam passando rapidamente por ns: a carcaa carbonizada dum camio, o corpo sem 
vida do condutor ao seu lado, um edifcio parcialmente demolido, viaturas em escombros a fumegar aqui e ali. Tiros espordicos de espingarda mantinham-nos debaixo 
de tenso. Enquanto fazamos o patrulhamento, vamos civis vir ocasionalmente na nossa direco de armas em punho, e esforvamo-nos o mais possvel por salvar a 
vida aos feridos. Ao incio da tarde, estvamos ns a preparar-nos para regressar, quando fomos atacados por fogo pesado proveniente dum edifcio mais adiante. Encostados 
contra uma parede, encontrvamo-nos numa posio precria. Deixei dois homens a proteger-nos enquanto eu conduzia o resto do peloto atravs dum corredor de tiros 
at a um local mais seguro do outro lado da rua; pareceu-me quase um milagre ningum ter morrido. A partir da, desferimos uma infinidade de tiros contra a posio 
inimiga, aniquilando-a completamente. Quando eu considerei que era seguro, demos incio  aproximao ao edifcio, avanando com toda a cautela. com o auxlio duma 
granada, deitei abaixo a porta da rua. Conduzi os meus homens at  entrada e espreitei l para dentro. O fumo era denso, e o enxofre pairava no ar. O interior estava 
destrudo, mas pelo menos um soldado iraquiano havia sobrevivido e, mal nos aproximmos, comeou a disparar dum alapo por debaixo do cho. O Tony foi atingido 
numa mo, e os restantes responderam com centenas de disparos. O barulho era tanto que eu no conseguia ouvir os meus prprios gritos, mas mantive o dedo no gatilho, 
apontando para todos os stios
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do cho ao tecto, passando pelas paredes.  medida que o interior era desfeito, vamos voar lascas de estuque, tijolo e madeira. Quando finalmente deixmos de atirar, 
eu tinha a certeza de que era impossvel algum ter escapado com vida, mas, por via das dvidas, atirei outra granada para o alapo, e precipitmo-nos l para fora 
para fugirmos  exploso. Vinte minutos aps a experincia mais intensa da minha vida, a rua estava sossegada,  excepo do zumbido nos meus ouvidos e do barulho 
que os meus homens faziam a vomitar, praguejar ou a trocar impresses sobre a experincia. Liguei a mo do Tony e, quando me pareceu que estavam todos a postos, 
comemos a recuar em marcha-atrs pelo mesmo caminho por onde viramos. A seu tempo, chegmos  estao de caminhos-de-ferro, que as nossas tropas haviam tomado, 
e a nos deixmos ficar. Nessa noite, recebemos a primeira leva de correspondncia em quase seis semanas.
Entre o correio, vinham seis cartas do meu pai. Todavia, da Savannah havia apenas uma e,  luz mortia, eu comecei a l-la.
Querido John,
Estou a escrever-te esta carta sentada  mesa da cozinha, e sinto-me presa duma enorme dificuldade, porque no sei como  que hei-de comear o que tenho para te 
dizer. Uma parte de mim deseja que tu estivesses agora aqui comigo para que eu pudesse fazer isto pessoalmente, mas ambos sabemos que isso no  possvel. Por isso. 
aqui estou eu,  procura das palavras e com as lgrimas a escorrerem-me pela cara, na esperana de que tu me consigas perdoar o que me preparo para escrever.
Sei que ests a passar por um momento extremamente difcil. Eu tento evitar pensar na guerra, mas no consigo evadir-me das imagens, e ando constantemente com o 
corao nas mos. Vejo os noticirios e folheio os jornais, sabendo que tu te encontras no meio de tudo isso, procurando descobrir onde estars e por que dificuldades 
estars a passar. Todas as noites rezo para que regresses a casa so e salvo, e nunca deixarei de o fazer. Ambos partilhmos uma experincia maravilhosa, de que 
nunca hei-de querer esquecer-me. Nem to-pouco quero que penses que eu fui mais importante para ti que tu para mim. Tu s uma pessoa linda e rara, John. Eu apaixonei-me 
por ti, mas, mais que isso, encontrar-te deu-me a conhecer o significado do verdadeiro amor. Durante os ltimos dois anos e meio, tenho-me deixado ficar a contemplar 
todas as luas cheias enquanto recordo tudo por que passmos juntos. Lembro-me de como conversar contigo naquela primeira noite me proporcionou uma sensao de regresso 
a casa, e lembro-me da noite em que fizemos amor. Nunca deixarei de me regozijar por nos termos entregue assim um ao outro. Para mim, significa que as nossas almas 
vo ficar unidas para sempre.
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Mas h muito mais que isto. Quando fecho os olhos, vejo o teu rosto; quando caminho,  quase como se sentisse a tua mo na minha. Estas coisas continuam a ser reais 
para mim, porm, enquanto antigamente me reconfortavam, agora deixam um rasto de sofrimento atrs de si. Eu compreendi o motivo por que decidiste continuar no exrcito, 
e respeitei a tua deciso. E continuo a faz-lo, mas ambos sabemos que depois disso a nossa relao mudou. Ns mudmos e, l no fundo, acho que tu tambm te apercebeste 
disso. Talvez o tempo em que estivemos separados tenha sido demasiado longo, talvez seja apenas por vivermos em mundos diferentes. No sei. Sempre que tnhamos uma 
discusso, eu sentia-me pessimamente comigo prpria. No sei por que razo, mas, apesar de ainda nos amarmos, perdemos aquele lao mgico que nos mantinha unidos.
Eu sei que pode parecer um pretexto, mas, por favor, acredita em mim quando te digo que no tinha inteno de me apaixonar por outra pessoa. Se nem eu mesma sou 
capaz de entender como  que isso aconteceu, como poders tu faz-lo? No estou  espera de que compreendas, mas, depois de tudo por que passmos juntos, no te 
posso continuar a mentir. Mentir-te seria o mesmo que tirar o valor a tudo o que partilhmos, e eu no quero fazer isso, embora saiba que te irs sentir trado.
Eu compreendo se decidires nunca mais voltar a falar comigo, tal como compreendo se disseres que me odeias. H uma parte de mim que tambm me odeia. Escrever esta 
carta obriga-me a reconhecer isso, e, quando me vejo ao espelho, sei que estou a olhar para uma pessoa que no tem a certeza de merecer ser amada de todo. Estou 
a ser sincera.
Embora tu talvez possas no querer ouvir isto, desejo que saibas que irs sempre fazer parte de mim. Ao longo do tempo que passmos juntos, tu conquistaste um lugar 
especial no meu corao, um lugar que eu conservarei sempre comigo e que ningum jamais poder ocupar. s um heri e um cavalheiro, s bom e honesto, mas, mais que 
isso, foste o primeiro homem a quem verdadeiramente amei. E, independentemente daquilo que o futuro nos reserve, s-lo-s sempre, e eu sei que a minha vida  melhor 
graas a isso.
Lamento imenso, Savannah!
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TERCEIRA PARTE
CAPITULO DEZASSEIS
A Savannah estava apaixonada por outra pessoa.
Eu percebi isso ainda no tinha acabado de ler a carta, e subitamente o mundo inteiro pareceu abrandar de ritmo. O meu primeiro ?impulso foi dar um murro numa parede, 
mas, ao invs, amarrotei a carta e pu-la de lado. Sentia uma fria incontrolvel; mais que atraioado, sentia-me como se ela tivesse destrudo tudo o que tinha significado 
no mundo. Odiava-a, bem como odiava o homem sem nome Inem rosto que ma tinha roubado. Imaginava o que lhe faria se algum dia ele se me atravessasse no caminho, e 
a imagem no era agradvel. Ao mesmo tempo, ansiava por falar com a Savannah. Apetecia-me apanhar imediatamente um avio para casa, ou ao menos telefonar-lhe. Uma 
parte de mim recusava-se a acreditar, era incapaz de acreditar. No agora, no depois de tudo por que passramos. S nos faltavam mais nove meses - depois de mais 
de trs anos, seria assim to insuportvel?
Todavia, no fui para casa nem lhe telefonei. No lhe respondi  carta, nem tornei a receber notcias dela. O meu nico gesto foi ir buscar a carta que tinha amarrotado. 
Endireitei-a o melhor que consegui, guardei-a novamente dentro do sobrescrito, e decidi passar a traz-la sempre comigo como um ferimento que tivesse sofrido durante 
uma batalha. Durante as semanas sucessivas, tornei-me um soldado exemplar, refugiando-me no nico mundo que me parecia real. Ofereci-me como voluntrio para todas 
as misses consideradas de risco, mal dirigia a palavra aos outros elementos da minha unidade, e durante uns tempos, tive de recorrer a todo o meu autodomnio para 
no ser demasiado rpido a disparar o gatilho enquanto andava em patrulha. No confiava em nenhum dos habitantes das cidades, e embora no tivesse ocorrido nenhum 
"acidente" infeliz -
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como no exrcito gostam de chamar s mortes de civis - estaria a mentir se afirmasse que me mostrei paciente e compreensivo a lidar com iraquianos de qualquer espcie. 
Embora mal pregasse olho, os meus sentidos mantiveram-se bem alerta enquanto encabevamos a coluna militar que se dirigia a Bagdad. Por ironia do destino, somente 
quando arriscava a vida  que eu encontrava alvio para a imagem da Savannah e a realidade de a nossa relao haver terminado.
A minha vida acompanhou os reveses da sorte da guerra. Menos dum ms depois de eu ter recebido a carta, Bagdad caiu, e, no obstante um curto perodo de esperana 
inicial,  medida que as semanas e os meses foram passando, a situao tornou-se cada vez pior e mais complicada. No fim, pensava eu, esta guerra no era diferente 
de nenhuma outra. As guerras resumem-se sempre a uma luta pelo poder entre os interesses em jogo, mas o facto de sabermos isto no nos facilitava em nada a vida 
no terreno. No rescaldo da queda de Bagdad, todos os homens do meu peloto foram obrigados a assumir os papis de polcias e juizes. Enquanto soldados, no dispnhamos 
de formao para tal. Vendo de fora e em retrospectiva, era fcil avaliar as nossas actividades, contudo, no mundo real, em tempo real, as decises nem sempre eram 
fceis. Em mais duma ocasio fui abordado por cidados iraquianos a acusarem determinado indivduo de ter roubado isto ou aquilo, ou de ter cometido este ou aquele 
crime, e a pedirem-nos para resolvermos a questo. O nosso trabalho no era esse. Ns estvamos incumbidos de manter uma certa aparncia de ordem - o que basicamente 
significava matar insurrectos que nos tentassem matar a ns ou a outros civis - at as autoridades locais puderem assumir o comando e tratarem elas prprias dessa 
tarefa. Este processo em particular no era nem rpido nem fcil, mesmo em locais onde a calma era mais frequente que a violncia. Entretanto, outras cidades se 
iam desintegrando no caos, e ns ramos enviados para l no intuito de restaurar a ordem. Libertvamos a cidade de rebeldes, mas, dado que no havia tropas em nmero 
suficiente para tomar a cidade e a manter em segurana, os rebeldes no tardavam a ocup-la novamente. Havia dias em que todos os meus homens se perguntavam a razo 
de nos entregarmos a um exerccio to ftil, ainda que no o questionassem abertamente.
Aonde eu quero chegar  que no sei como descrever a tenso, o tdio e a confuso desses nove meses, a no ser para dizer que havia imensa areia. Pois, j sei que 
estvamos no deserto, e que,  verdade, eu passava muito tempo na praia e que por isso j devia estar habituado, mas ali a areia era diferente. Metia-se-nos dentro 
da roupa, dentro da arma, em caixotes fechados a cadeado, na comida, nos ouvidos
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e at no nariz e entre os dentes, e, quando cuspia, nunca deixava de sentir gros de areia na boca. Ao menos isso as pessoas conseguem compreender, e eu j percebi 
que elas preferem no ouvir a verdade, ou seja, que, na maioria das ocasies, o Iraque no era to mau quanto isso, mas que noutras era pior que um inferno. Desejariam 
as pessoas ouvir contar que eu vi um elemento da minha unidade disparar acidentalmente sobre um mido que teve o azar de se encontrar no local errado  hora errada? 
Ou que vi soldados serem despedaados quando atingiam um IED - engenho explosivo improvisado - nas estradas prximas de Bagdad? Ou que vi sangue a formar poas na 
rua como se fosse chuva, a jorrar de cadveres desmembrados? No, as pessoas preferem ouvir falar da areia, porque lhes permite manter a guerra a uma distncia segura.
Cumpri o meu dever o melhor que fui capaz, tornei a alistar-me e permaneci no Iraque at Fevereiro de 2004, quando fui finalmente enviado de regresso  Alemanha. 
Mal l cheguei, comprei uma Harley e fiz tudo ao meu alcance para fingir que a guerra no me deixara marcas; mas os pesadelos no tinham fim, e acordava quase todas 
as manhs encharcado em suor. Durante o dia, andava frequentemente agitado, e irritava-me  mais pequena coisa. Quando percorria as estradas da Alemanha, era-me 
impossvel no me pr a perscrutar atentamente grupos de pessoas que via a deambular em redor dos edifcios, e dei por mim a examinar janelas no centro da cidade, 
 procura de atiradores furtivos. O psiclogo - todos ramos obrigados a consultar um - disse-me que aquilo por que eu estava a passar era normal e que com o tempo 
acabaria por desaparecer, contudo, eu por vezes perguntava-me se viria a conhecer esse dia.
Depois da minha sada do Iraque, o tempo que passei na Alemanha pareceu-me quase vazio de sentido.  verdade que ocupava as manhs a treinar e que  tarde tinha 
aulas sobre armamento e navegao, mas as coisas tinham mudado. Devido ao ferimento que sofrera na mo, o Tony recebeu uma licena, bem como uma condecorao do 
corao prpura, e foi mandado de volta a Brooklyn logo aps a queda de Bagdad. Outros quatro dos meus homens receberam uma dispensa honrosa no final de 2003, altura 
em que o seu contrato chegava ao fim; na opinio deles - e na minha -, tinham cumprido o seu dever, e chegara o momento de prosseguirem com as suas vidas. Eu, por 
outro lado, realistara-me. No estava seguro de que fosse a deciso acertada, mas no sabia que mais fazer.
Contudo, olhando para o meu peloto, apercebi-me de que ficara subitamente deslocado. O meu esquadro estava cheio de recm-chegados,
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e embora fossem todos excelentes rapazes, no era a mesma coisa. No eram os amigos com quem eu vivera no campo de treino e nos Balcs, no fora com eles que eu 
fora para a guerra, e, l no fundo, eu sabia que nunca haveria de ter com eles uma relao to prxima como tivera com o meu antigo peloto. Para a maioria, eu no 
passava dum estranho, e eu prprio me esforcei por manter as coisas nesse p. Treinava sozinho e fazia o possvel por evitar o contacto pessoal, e sabia o que o 
meu peloto pensava a meu respeito quando passava por eles: eu era o velho sargento rabugento, aquele que alegava que o seu nico desejo era devolv-los inteiros 
s mezinhas. Era o que eu lhes dizia constantemente quando andvamos em exerccios militares, e estava a ser sincero. Faria o que preciso fosse para os manter em 
segurana. Mas, tal como acabei de dizer, no era a mesma coisa.
com a partida dos meus amigos, passei a dedicar-me o mais que podia ao meu pai. Depois da minha ronda de combates, tive direito a uma licena prolongada na Primavera 
de 2004, e outra no fim desse Vero. Passmos mais tempo na companhia um do outro durante essas quatro semanas que nos ltimos dez anos. Uma vez que o meu pai estava 
reformado, tnhamos liberdade para passarmos o dia como nos apetecesse. No me custou adaptar-me s suas rotinas. Tomvamos o pequeno-almoo, dvamos os nossos trs 
passeios e jantvamos juntos. Entretanto, amos conversando sobre moedas e, enquanto eu estive na cidade, chegmos mesmo a adquirir algumas. A Internet viera facilitar 
imenso a compra de moedas, e apesar de a busca j no ser to entusiasmante como noutros tempos, no sei se para o meu pai isso fazia alguma diferena. Dei por mim 
a falar com negociantes com quem j no contactava havia mais de quinze anos, mas eles mostravam a mesma atitude amistosa e prestvel de sempre e recordavam-se de 
mim com agrado. O mundo das moedas, constatei eu, era pequeno, e quando a nossa encomenda chegou - eram sempre enviadas por distribuio nocturna ?- o meu pai e 
eu amo-nos revezando a examinar as moedas, apontando os defeitos que apresentavam, e em geral mostrvamo-nos de acordo com a classificao que lhe fora atribuda 
pelo Professional Coin Grading Service, uma empresa que ajuza da qualidade das moedas submetidas  sua avaliao. Embora os meus pensamentos acabassem sempre por 
deambular para outras paragens, o meu pai era capaz de ficar horas perdido a admirar uma nica moeda, como se esta encerrasse o segredo da vida.
No conversvamos a respeito de praticamente mais nada, mas tambm no tnhamos grande necessidade disso. Ele no se mostrava interessado em falar sobre o Iraque, 
e eu tambm no me sentia muito
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para a virado. Nenhum de ns tinha o que se pudesse chamar vida social - o Iraque no contribura para tal - e o meu pai... bom, era o meu pai e eu achava que nem 
valia a pena perguntar-lhe.
Fosse como fosse, eu andava preocupado com ele. Durante os seus passeios, via que ele tinha dificuldade em respirar. Quando lhe sugeri que vinte minutos talvez fosse 
demasiado, mesmo ao ritmo lento a que os percorria, o meu pai respondeu-me que fora isso que o mdico lhe aconselhara, e eu sabia que no havia nada capaz de o convencer 
do contrrio. No fim, ficava muito mais cansado que o que seria de prever, e normalmente o rubor levava uma hora a desaparecer-lhe do rosto. Fui falar com o mdico, 
e as notcias no foram to boas como eu esperava. O corao do meu pai, fui informado, sofrera grandes danos e - na opinio do mdico - era quase um milagre que 
o meu pai se mexesse to bem como mexia. A falta de exerccio ser-lhe-ia ainda mais prejudicial.
Talvez tenha sido a conversa que tive com o mdico, ou talvez o facto de eu desejar melhorar o meu relacionamento com o meu pai, mas a verdade  que nos demos melhor 
durante aquelas duas visitas que alguma vez nos tnhamos dado. Em lugar de o estar constantemente a pressionar para que falasse comigo, passei simplesmente a fazer-lhe 
companhia no refgio, enquanto lia um livro ou fazia palavras cruzadas e ele examinava as suas moedas. Havia algo de pacfico e honesto na minha ausncia de expectativas, 
e creio que o meu pai estava gradualmente a aprender a lidar com a mudana recm-descoberta entre ns. Havia ocasies em que o apanhava a perscrutar-me duma maneira 
que me parecia quase estranha. Passvamos horas juntos, a maior parte do tempo em silncio, e foi desta forma tranquila e despretensiosa que nos tornmos amigos. 
Dava frequentemente por mim a desejar que o meu pai no tivesse deitado fora a fotografia em que aparecamos os dois, e quando chegou o momento do meu regresso  
Alemanha, sabia que sentiria saudades dele como at ento nunca sentira.
O Outono de 2004 decorreu com lentido, e o mesmo se pode dizer do Inverno e da Primavera de 2005. A vida foi-se arrastando com tranquilidade. Ocasionalmente, rumores 
do meu eventual regresso ao Iraque vinham interromper a monotonia dos meus dias, todavia, uma vez que j l tinha estado, essa ideia no me afectava muito. Se continuasse 
na Alemanha, tudo bem. Se voltasse para o Iraque, tudo bem na mesma. Mantive-me a par dos acontecimentos no Mdio Oriente, como toda a gente, mas, mal punha o jornal 
de lado ou desligava a televiso, a minha mente deambulava para outros temas.
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Nessa altura, tinha vinte e oito anos de idade, e no conseguia evitar pensar que embora tivesse mais experincia da vida que a maior parte das pessoas da minha 
idade, a minha vida continuava adiada. Alistara-me no exrcito para amadurecer, e apesar de se poder dizer que isso de facto acontecera, por vezes duvidava de que 
fosse verdade. No tinha nem uma casa nem um carro, e, para alm do meu pai, achava-me completamente sozinho no mundo. Enquanto os meus contemporneos tinham as 
carteiras cheias de fotografias dos filhos e das mulheres, a minha carteira continha um nico instantneo desbotado da mulher que eu amara e perdera. Ouvia os outros 
soldados a falarem das suas esperanas relativamente ao futuro, enquanto eu no fazia planos de espcie alguma. Por vezes perguntava-me o que pensariam os meus homens 
da vida que eu levava, pois havia ocasies em que os apanhava a fitarem-me com curiosidade. Nunca lhes contei nada a respeito do meu passado nem lhes fiz confidncias 
pessoais. Eles no sabiam nada acerca da Savannah, do meu pai, nem da minha amizade ao Tony. Essas recordaes eram exclusivamente minhas, pois eu j aprendera que 
h coisas que devem ser mantidas em segredo.
Em Maro de 2005, o meu pai sofreu um segundo ataque cardaco, que conduziu a uma pneumonia e a um novo internamento na UCI. Quando recebeu alta, os medicamentos 
que lhe foram receitados proibiam-no de guiar, mas a assistente social do hospital ajudou-me a encontrar uma pessoa que lhe fosse s compras. Em Abril, ele voltou 
ao hospital, onde ficou a saber que iria ter igualmente de abdicar dos seus passeios dirios. Em Maio, j andava a tomar uma dzia de comprimidos diferentes por 
dia, e eu sabia que ele passava a maior parte do tempo na cama. As cartas que me escrevia eram quase ilegveis, no apenas porque ele se encontrava fraco, mas porque 
as mos lhe comeavam a tremer. Depois de algumas insistncias e splicas ao telefone, consegui persuadir uma vizinha do meu pai - uma enfermeira que trabalhava 
no hospital da zona - a ir visit-lo com regularidade, e soltei um suspiro de alvio enquanto prosseguia com a contagem decrescente dos dias que faltavam para a 
minha licena de Junho.
Contudo, o estado de sade do meu pai continuou a agravar-se ao longo das semanas sucessivas, e, ao telefone, pressentia-lhe um cansao que parecia piorar de cada 
vez que falava com ele. Pela segunda vez na minha vida, pedi que me dessem transferncia para a minha terra. O meu oficial de comando mostrou-se mais indulgente 
que da primeira vez. Fizemos uma pesquisa - chegmos mesmo a chegar ao ponto de preencher os impressos para que eu fosse colocado em Fort
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Bragg para treino em operaes aerotransportadas -, porm, quando tornei a falar com o mdico, este disse-me que a minha proximidade no seria de grande ajuda para 
o meu pai e que eu devia considerar a ideia de o internar num lar de idosos. O meu pai precisava de mais cuidados que os que lhe poderiam ser proporcionados em casa, 
assegurou-me o mdico. Havia j algum tempo que ele andava a tentar habitu-lo a essa ideia - o meu pai j s comia sopa -, mas ele recusava-se a tomar uma deciso 
at eu voltar de licena. Por algum motivo desconhecido, explicou-me o mdico, o meu pai estava determinado a que eu o fosse visitar a casa por uma ltima vez.
Aquelas notcias deixaram-me arrasado e, no txi a caminho do aeroporto, tentei convencer-me a mim prprio de que o mdico estava a exagerar. Mas a verdade  que 
no estava. O meu pai j no se conseguiu levantar sozinho do sof, quando eu abri a porta, e apercebi-me subitamente de que, durante o ano em que estivramos longe 
um do outro, ele parecia ter envelhecido trinta anos. Tinha a pele macilenta, e fiquei chocado ao ver a quantidade de peso que perdera. com um n apertado na garganta, 
pousei a mala mesmo  entrada da porta.
- Ol, pai.
A princpio, perguntei-me se ele me reconhecera sequer, mas l acabei por ouvir um murmrio roufenho: - Ol, John. Abeirei-me do sof e sentei-me a seu lado. - Sente-se 
bem?
- Sinto - foi tudo o que ele disse, e durante bastante tempo, ficmos sentados em silncio.
Por fim, acabei por me levantar para inspeccionar a cozinha e, quando l cheguei, mal pude acreditar no que via. Havia latas de sopa empilhadas por todo o lado. 
O fogo tinha manchas de gordura, o caixote do lixo estava a abarrotar e viam-se pratos bolorentos amontoados no lava-loia. Era bvio que havia vrios dias que 
a casa no era limpa. Pilhas de correspondncia por abrir inundavam a mesa pequena da cozinha. O meu primeiro impulso foi sair disparado porta fora e ir pedir explicaes 
 vizinha que concordara olhar por ele. Mas isso teria de esperar.
Ao invs, encontrei uma lata de canja de galinha e aqueci-a no fogo imundo. Depois de encher uma tigela, levei-a ao meu pai numa travessa. Ele esboou um leve sorriso, 
e eu vi-lhe a gratido no rosto. Comeu a sopa, raspando com a colher at no restar mais nada, e eu enchi-lhe outra tigela, sentindo a minha fria a crescer e a 
perguntar-me quando fora a ltima vez que ele comera. Quando ele acabou de devorar a canja, ajudei-o a tornar a deitar-se no sof, onde ele dormitou um pouco.
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A vizinha no estava em casa, por isso passei a maior parte da tarde e da noite a limpar a casa, comeando pela cozinha e pela casa de banho. Quando lhe fui mudar 
os lenis da cama e descobri que estavam molhados, fechei os olhos e contive o impulso para torcer o pescoo  vizinha.
Depois de a casa ficar razoavelmente limpa, fui sentar-me na sala de estar, a ver o meu pai dormir. Parecia to franzino debaixo do cobertor, e quando estendi a 
mo para lhe fazer uma festa na cabea, vieram alguns cabelos atrs. Comecei ento a chorar, sabendo com certeza que o meu pai estava a morrer. Era a primeira vez 
que chorava em anos, e a nica vez na minha vida em que chorei pelo meu pai, mas demorou muito tempo at que as lgrimas deixassem de correr.
Sabia que o meu pai era um bom homem, um homem generoso, e apesar de a vida o ter maltratado, fizera o melhor que pudera para me criar. No me tinha levantado a 
mo nem uma nica vez, e comecei a atormentar-me com as recordaes de todos aqueles anos que desperdiara a culp-lo. Lembrei-me das minhas duas ltimas visitas 
a casa e angustiei-me com a ideia de que nunca mais poderamos partilhar esses momentos simples.
Mais tarde, levei o meu pai para a cama. Sentia a sua leveza nos meus braos, uma leveza excessiva. Aconcheguei-lhe bem os cobertores e fiz uma cama para mim no 
cho a seu lado, ficando a ouvir a sua respirao roufenha e ofegante. A meio da noite, acordou com uma tosse que no o largava; estava j a preparar-me para o levar 
ao hospital quando a tosse l acalmou.
O meu pai ficou aterrorizado quando percebeu para onde eu pretendia lev-lo. - Fica... aqui - suplicou-me com voz dbil. - No quero ir.
Senti-me indeciso, mas acabei por lhe fazer a vontade. Para um homem rotineiro, apercebi-me eu, o hospital no era apenas um local estranho, como tambm perigoso, 
um lugar ao qual habituar-se lhe exigia mais energia que aquela que estava em condies de reunir. Foi ento que reparei que ele se tinha molhado a si prprio e 
aos lenis
outra vez.
Quando no dia seguinte a vizinha chegou, as primeiras palavras que me dirigiu foram um pedido de desculpas. Explicou-me que estivera vrios dias sem limpar a cozinha, 
porque uma das filhas adoecera, mas que todos os dias lhe mudava os lenis e se certificava de que ele tinha latas de comida que lhe chegassem. com ela ali diante 
de mim no alpendre, eu no podia deixar de lhe ver a exausto estampada
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no rosto, e o discurso de repreenso que andara a ensaiar desvaneceu-se. Acabei por lhe dizer que no tinha palavras para lhe agradecer o que ela fizera pelo meu 
pai.
- Foi um prazer poder ajudar - disse ela. - Ele foi sempre to simptico para ns. Nunca se queixou do barulho que os meus filhos faziam quando eram adolescentes 
e comprava-lhes sempre o que quer que andassem a vender quando precisavam de dinheiro para as excurses da escola e outras coisas desse gnero. Mantm o jardim impecvel 
e sempre que eu lhe pedia para ir dando um olho na minha casa, nunca me deixou mal. Tem sido um vizinho perfeito.
Eu sorri-lhe. Sentindo-se encorajada, ela prosseguiu:
- Mas no posso deixar de lhe dizer que o seu pai nem sempre me deixa entrar. Disse-me que no gosta da maneira como lhe arrumo e limpo as coisas. At ralhou comigo 
por ter mudado de lugar uma pilha de papis que estava em cima da secretria. H alturas em que no fao caso, mas quando ele se sente bem, recusa-se simplesmente 
a deixar-me entrar e, quando eu insisto, ameaa chamar a polcia. Eu no sei...
A voz sumiu-se-lhe, e eu conclu por ela.
- No sabe o que h-de fazer.
A culpa transparecia-lhe claramente no rosto.
- No tem importncia - disse-lhe eu. - Sem si, no sei o que teria sido dele.
A vizinha assentiu com a cabea, aliviada, antes de desviar o olhar.
- Ainda bem que voltou para casa - comeou ela, hesitante -, porque eu gostava de falar consigo por causa da situao do seu pai. Sacudiu um fio invisvel da roupa. 
- Eu conheo um lar ptimo para onde ele poderia ir e ser bem tratado. O pessoal  excelente.  raro ter vagas, mas eu conheo o director, que por sua vez conhece 
o mdico do seu pai. Eu sei que para si  difcil ouvir isto, mas estou convencida de que seria o melhor para ele, e gostava...
Quando ela se interrompeu, deixando o restante da sua afirmao em suspenso, senti que a preocupao que mostrava pelo meu pai era genuna, e abri a boca a preparar-me 
para lhe responder. Contudo, acabei por no dizer nada. A deciso no era to simples como parecia. O meu pai no conhecera outra casa para alm daquela em que vivia, 
o nico stio em que se sentia confortvel. Era o nico local em que as suas rotinas faziam sentido. Se ser internado no hospital o deixava em pnico, ser obrigado 
a ir morar para outro stio, seria a sua morte. A questo colocava-se no apenas em termos de onde  que ele deveria morrer, mas tambm de como  que deveria morrer. 
Sozinho em
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casa, onde dormia em lenis molhados e possivelmente morreria  fome? Ou entre pessoas que o iriam alimentar e lavar, num stio que o aterrorizava?
com um tremor na voz quase impossvel de controlar, perguntei-lhe: - E onde  que fica?
Passei os dias seguintes a tomar conta do meu pai. Alimentava-o o melhor que conseguia, lia-lhe o Greysheet quando ele estava acordado e dormia no cho ao lado da 
sua cama. Ele molhava-se todas as noites, obrigando-me, para seu grande embarao, a comprar-lhe fraldas para adulto. Ele passava quase toda a tarde a dormir.
Enquanto o meu pai ficava a descansar no sof, eu ia visitar lares de idosos. No apenas aquele que a vizinha me recomendara, mas outros localizados num raio de 
duas horas de distncia. No fim, acabei por concluir que a vizinha tinha razo. O lar que me indicara era limpo, e o pessoal pareceu-me ser bastante profissional, 
mas, mais importante que tudo o resto, o director parecia demonstrar um interesse pessoal pelo caso do meu pai. Quer fosse por causa da vizinha, quer por causa do 
mdico do meu pai, nunca cheguei a saber.
O preo no era um problema. O lar era claramente dispendioso, mas, dado que o meu pai beneficiava duma penso do governo, da Segurana Social, de Medicare, bem 
como dum seguro privado (podia perfeitamente imagin-lo, uns anos atrs, a assinar na linha pontilhada que o angariador de seguros lhe indicava, sem perceber de 
facto o que  que estava a pagar), garantiram-me que os custos seriam apenas emocionais. O director - na casa dos quarenta, cabelo castanho, cujos modos amveis 
no sei porqu me faziam lembrar do Tony - mostrou-se compreensivo e no me pressionou para tomar uma deciso imediata. Em lugar disso, entregou-me uma pilha de 
prospectos e impressos sortidos e desejou-me as melhoras do meu pai.
Nessa noite, toquei no assunto da ida para o lar com o meu pai. Eu ir-me-ia embora da a uns dias e, por muito que isso me custasse, no me restava outra hiptese.
Enquanto me ouvia, o meu pai no disse nada. Expliquei-lhe os meus motivos e as minhas preocupaes, a minha esperana de que ele compreendesse. No me fez qualquer 
pergunta, mas os seus olhos mantiveram-se arregalados de espanto, como se tivesse acabado de ouvir a sua prpria sentena de morte.
Quando acabei, precisei desesperadamente dum momento sozinho. Dei-lhe uma palmadinha na perna e fui buscar um copo de gua 
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cozinha. Quando voltei para a sala, encontrei o meu pai curvado no sof, abatido e a tremer, o rosto escondido entre as mos. Foi a primeira vez que o vi chorar.
De manh, comecei a fazer-lhe as malas. Vasculhei-lhe as gavetas e as pastas de documentos, as prateleiras e os armrios. Na gaveta das meias, encontrei meias; na 
gaveta das camisolas, s camisolas. No armrio de arquivo, estava tudo etiquetado e ordenado. No era caso para ficar surpreendido, mas foi isso que acabou por acontecer. 
O meu pai, ao contrrio da maior parte da humanidade, no possua um nico segredo. No tinha vcios ocultos, nem dirios, nem passatempos embaraosos, nenhuma caixa 
de coisas s suas que mantivesse longe dos olhos e mos alheios. No encontrei nada que me elucidasse mais acerca da sua vida interior, nada que me pudesse ajudar-me 
a compreend-lo depois de ele partir. O meu pai, constatei ento, era tal e qual o que aparentava ser, e subitamente apercebi-me do quanto o admirava por isso.
Quando acabei de fazer as malas ao meu pai, fui encontr-lo acordado no sof. Alguns dias a fazer refeies regulares tinham-lhe permitido recuperar um pouco as 
foras. Via-se-lhe um leve brilho nos olhos e eu reparei numa p encostada  mesa de apoio. Tinha pendurado um pedao de papel, com o que parecia um mapa desenhado 
 pressa pela sua mo trmula e a dizer "JARDIM DAS TRASEIRAS".
- Para que  isto?
-  para ti - disse-me ele, apontando de seguida para a p. Eu peguei na p, segui as indicaes do mapa at ao carvalho do
jardim das traseiras, percorri uns passos e comecei a cavar. Passados uns minutos, a p bateu em metal e eu retirei uma caixa. E mais outra, por baixo da primeira. 
E outra ao lado desta. Dezasseis pesadas caixas ao todo. Fui sentar-me no alpendre a limpar o suor que me escorria pela cara antes de abrir a primeira caixa.
Eu j sabia o que  que iria encontrar, e semicerrei os olhos perante o reflexo das moedas de ouro que reluziam  luz intensa dum Vero meridional. No fundo dessa 
caixa, encontrei a moeda de cinco cntimos com o bfalo no verso da srie D de 1926, aquela de que andramos  procura e encontrramos juntos, ciente de que era 
a nica moeda que tinha algum significado para mim.
No dia seguinte, o ltimo da minha licena, tomei providncias quanto  casa: desligar todos os electrodomsticos, enviar correspondncia
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contratar algum para vir cortar a relva. Guardei as moedas que desenterrara num cofre do banco. Resolver estes afazeres tomou-me quase todo o dia. Ao jantar, partilhmos 
uma ltima tigela de sopa de galinha e vegetais bem cozidos antes de eu levar o meu pai para o lar de idosos. Desfiz-lhe as malas, decorei-lhe o quarto com objectos 
que considerei que lhe iam agradar, e coloquei uma pilha de exemplares do Greysheet correspondente a doze anos de publicaes no cho por baixo da secretria. Contudo, 
no foi suficiente e, depois de explicar a situao ao director, voltei a casa para ir buscar mais umas quantas bugigangas, desejando conhecer o meu pai o suficiente 
para poder saber o que  que era de facto importante para ele.
Por muito que eu o tentasse tranquilizar, ele mantinha-se paralisado de medo, com um olhar que me despedaava o corao. Por mais duma vez, fui assaltado pela ideia 
de que o estava a matar. Sentei-me na beira da sua cama, consciente das escassas horas que me restavam antes de ter de ir para o aeroporto.
- Vai correr tudo bem - disse-lhe eu. - Aqui vo tomar conta de si.
As mos continuavam a tremer-lhe. - Est bem - disse ele numa voz que mal se ouvia.
Comecei a sentir as lgrimas a virem-me aos olhos. - Tenho uma coisa para lhe dizer, est bem? - Respirei fundo, concentrando-me nos meus pensamentos. - S quero 
que saiba que o considero o melhor pai do mundo. S algum como o pai seria capaz de aguentar algum como eu.
O meu pai no me respondeu. Por entre o silncio, senti tudo aquilo que sempre lhe quisera dizer a querer vir  superfcie, palavras que tinham levado uma vida a 
serem forjadas.
- Estou a falar a srio, pai. Peo-lhe desculpa por tudo por que o fiz passar, e peo desculpa por nunca ter estado suficientemente presente para o ajudar. O pai 
 a melhor pessoa que conheo. Foi a nica pessoa que nunca se zangou comigo, que nunca me julgou, e, de alguma maneira, ensinou-me mais acerca da vida que aquilo 
que algum filho possa exigir. Lamento no poder ficar aqui consigo agora, e ter de lhe fazer isto causa-me uma angstia enorme. Mas tenho medo, pai. No estou a 
ver outra alternativa.
A minha voz soava-me spera e entrecortada aos meus prprios ouvidos, e s queria que ele me abraasse.
- Est bem - disse por fim o meu pai.
Eu sorri perante aquela sua resposta. No consegui evitar.
- Gosto muito de si, pai.
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A isto, ele sabia exactamente o que responder, pois sempre fora parte da sua rotina. - Eu tambm gosto muito de ti, John.
Abracei-o e em seguida levantei-me para lhe ir buscar a ltima edio do Greysheet. Quando cheguei  porta, parei uma vez mais e olhei para o meu pai.
Pela primeira vez desde que para ali entrara, o medo parecia estar a abandon-lo. Aproximou o jornal do rosto, e eu vi a pgina a tremer ligeiramente. Os seus lbios 
moviam-se  medida que ele se ia concentrando nas palavras, e obriguei-me a olh-lo com ateno, na esperana de que o seu rosto nunca se apagasse da minha memria.
Foi a ltima vez que o vi com vida.
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CAPITULO DEZASSETE
O meu pai faleceu sete semanas mais tarde, e foi-me concedida uma licena de emergncia para ir ao funeral.
Do voo de regresso aos Estados Unidos s me resta uma vaga recordao. Tudo que fui capaz de fazer foi ficar a olhar pela janela para o cinzento informe do oceano, 
milhares de ps por baixo de mim, desejando ter podido estar com ele nos momentos finais. No me barbeava, no tomava banho nem mudava de roupa desde que ouvira 
a notcia, como se prosseguir com os meus afazeres quotidianos significasse a aceitao total da ideia de que ele morrera.
No terminal e no trajecto para casa, dei por mim zangado com as cenas da vida quotidiana que se iam desenrolando  minha volta. Via pessoas a conduzir e a entrar 
e sair de lojas, a agir com normalidade, mas para mim no havia nada que me parecesse normal.
Foi s quando tornei a entrar em casa que me lembrei de que deixara os electrodomsticos desligados havia quase dois meses. Sem luzes, a casa parecia estranhamente 
isolada na rua, como se no lhe pertencesse. Como o meu pai, pensei. Ou eu prprio, apercebi-me. Sem saber porqu, essa ideia permitiu-me chegar  porta.
Entalado na ombreira, estava o carto de visita dum advogado chamado William Benjamin; nas costas, este alegava representar o meu pai. com o telefone desligado, 
liguei-lhe da casa da vizinha e fiquei surpreso ao v-lo aparecer l em casa na manh seguinte, ainda cedo, de pasta na mo.
Conduzi-o atravs da casa envolta na penumbra, e o advogado instalou-se no sof. O fato que trazia devia ter-lhe custado mais que aquilo que eu ganho em dois meses. 
Depois de se apresentar e de me dar as condolncias, inclinou-se para diante.
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- Eu fao questo de estar aqui, porque sentia uma grande admirao pelo seu pai - declarou. - Foi um dos meus primeiros clientes, por isso, a propsito, no lhe 
vou cobrar nada por este servio. Ele consultou-me logo aps o senhor ter nascido para fazer um testamento, e todos os anos, no mesmo dia, eu recebia uma carta registada 
dele com uma lista na qual enumerava todas as moedas que adquirira. Eu expliquei-lhe o que se passava com os impostos estatais, por isso ele tem vindo a oferecer-lhas 
desde que o senhor era mido.
Eu estava atnito de mais para conseguir falar.
- Seja como for, h seis semanas, o seu pai escreveu-me uma carta a informar-me de que as moedas j estavam na sua posse, e a certificar-se de que tudo o mais estava 
em ordem, por isso eu fiz-lhe uma ltima actualizao do testamento. Quando o seu pai me disse onde  que estava a morar, calculei que no estivesse muito bem de 
sade, por isso telefonei-lhe. No se alongou muito, mas deu-me permisso para falar com o director do lar. O director comprometeu-se a informar-me em caso de falecimento 
do seu pai, para que eu o pudesse contactar. Por isso, aqui estou.
Ele comeou a vasculhar a pasta. - Eu sei que est a tratar dos preparativos para o funeral e que a altura no  a ideal. Mas o seu pai avisou-me de que o senhor 
poderia no se demorar muito tempo por c, e pediu-me para tratar dos assuntos dele. J agora, as palavras so dele, no minhas. Pronto, aqui est ele. - Entregou-me 
um sobrescrito cheio de papis. - O testamento do seu pai, uma lista com todas as moedas da sua coleco, incluindo o estado de conservao e a data de aquisio 
e todos os preparativos para o funeral... que, a propsito, j est pago. Eu prometi-lhe ainda que lhe zelava pelo patrimnio at  abertura do testamento, mas isso 
no constituir um problema, uma vez que o patrimnio  pequeno e o senhor  o nico herdeiro. E se quiser, eu posso arranjar algum para levar aquilo com que no 
quiser ficar e tambm tratar dos trmites para pr a casa  venda. O seu pai disse-me que o senhor talvez no tivesse tempo para isso. - Fechou a pasta. - Tal como 
lhe disse, eu sentia uma profunda admirao pelo seu pai. Em geral, temos de convencer as pessoas da importncia destas coisas, mas com o seu pai no foi necessrio. 
Ele era um homem metdico.
- Pois era - assenti eu com a cabea. - L isso era.
Tal como o advogado dissera, tudo j tinha sido tratado. O meu pai deixara decidido o tipo de funeral que desejava, pusera as
roupas de parte, e at escolhera o seu prprio caixo. Conhecendo-o como eu conhecia, calculo que j devesse estar  espera, mas isso s veio reforar a minha convico 
de que nunca o compreendera verdadeiramente.
Ao funeral, num dia quente e chuvoso de Agosto, compareceram poucas pessoas. Dois antigos colegas, o director do lar de idosos, o advogado e a vizinha que ajudara 
a tomar conta dele foram as nicas presenas, para alm de mim prprio. Despedaou-me o corao - despedaou-me completamente o corao - saber que em todo o mundo, 
apenas aquelas pessoas reconheciam o valor do meu pai. Depois de o pastor ter concludo as oraes, veio perguntar-me ao ouvido se eu desejava acrescentar alguma 
coisa. Nesse momento, j a minha garganta estava completamente seca, e precisei de recorrer a todas as minhas foras meramente para abanar a cabea a dizer que no.
De regresso a casa, fui sentar-me a medo na beira da cama do meu pai. Nessa altura, j a chuva tinha parado, e uns raios de sol tmidos penetravam pela janela. A 
casa cheirava a mofo, quase a bolor, mas eu ainda conseguia sentir o odor do meu pai na almofada. A meu lado estava o sobrescrito que o advogado me viera entregar. 
Espalhei o contedo em cima da cama. O testamento encontrava-se por cima, juntamente com outros documentos. Por baixo, contudo, estava a fotografia emoldurada que 
o meu pai retirara da secretria havia tanto tempo, a nica que existia de ambos.
Aproximei-a da cara e fiquei a olhar para ela at os olhos se me inundarem de lgrimas.
Ao fim dessa tarde, a Lucy, a minha ex-namorada de tantos anos atrs, veio visitar-me. Quando me deparei com ela  porta, fiquei sem palavras. J no se viam sinais 
da rapariga bronzeada da minha juventude rebelde; em seu lugar, achava-se uma mulher vestida de preto, um fato de cala e casaco caro e uma blusa de seda.
- Os meus psames, John - disse-me ela num murmrio, avanando na minha direco. Demos um abrao bem apertado, e a sensao do corpo dela contra o meu foi como 
um copo de gua fria num dia quente de Vero. Senti-lhe um laivo de perfume, um perfume que no consegui identificar, mas que me trouxe Paris  lembrana, ainda 
que nunca l tivesse estado.
- Acabei de ler o obiturio - disse-me ela depois de desfazermos o nosso abrao. - Lamento no ter sabido do funeral a tempo.
200
- No faz mal - tranquilizei-a. Apontei para, o sof. Queres
entrar?
A Lucy sentou-se a meu lado, e quando reparei que ela no trazia aliana, via afastar instintivamente a mo.
- No resultou - explicou-me. - Divorciei-me no ano passado.
- Lamento.
- Tambm eu - disse ela, pegando-me na mo. E a ti, a vida
tem-te corrido bem?
- Sim - menti-lhe. - Tudo bem.
Estivemos um bocado a conversar sobre os velhos tempos; a Lucy mostrou-se cptica quanto ao facto de ter sido o ltimo telefonema entre ns a motivar a minha entrada 
no exrcito. Disse-lhe que, naquele momento, era exactamente do que eu estava a precisar. Ela falou-me da carreira - colaborava na concepo e na instalao de pontos 
de venda em grandes lojas - e quis saber cOmo era o Iraque. Falei-lhe da areia. A Lucy riu-se e no me perguntou mais nada. com o passar das horas e  medida que 
nos apercebamos do quanto ambos tnhamos mudado, a nossa conversa foi esmorecendo. Talvez fosse por em tempos termos tido uma relao chegada, ou talvez por ela 
ser mulher, mas eu estava a v-la a perscrutar-me e j sabia qual seria a sua prxima pergunta.
- Tu ests apaixonado, no ests? - indagou ela num murmrio.
Eu entrelacei as mos no colo e desviei o olhar- para a janela. L fora, o cu estava escuro e com nuvens que traziam consigO a promessa de mais chuva. - Estou - 
admiti.
- Como  que ela se chama?
- Savannah - disse eu.
- E ela est aqui contigo? Eu hesitei. - No.
- Queres conversar sobre esse assunto?
"No", tive vontade de lhe responder. "No quero falar sobre esse assunto." Aprendera no exrcito que histrias como a nossa tm tanto de enfadonhas como de previsveis, 
e embora toda a gente perguntasse, ningum desejava de facto ouvir a resposta.
Todavia, contei-lhe a histria do princpio ao fim, com mais detalhes que seria aconselhvel, e mais que uma vez, a LUCy pegou-me na mo. Ainda no tomara conscincia 
do quanto me custava mant-la s para mim, e quando a voz acabou por se me sumir, acho que ela percebeu que eu sentia necessidade de ficar SOZnho. Deu-me um beijo 
na cara ao despedir-se, e, depois de a Lucy se ter ido embora
passei horas a andar dentro de casa dum lado para o outro. Deambulei de diviso em diviso, a pensar no meu pai e a pensar na Savannah, sentindo-me um estranho e 
chegando gradualmente  concluso de que havia um stio aonde ainda me faltava ir.
202
CAPTULO DEZOITO
Nessa noite, dormi na cama do meu pai, a nica vez na vida em que isso aconteceu. A tempestade amainara, e a temperatura subira a nveis insuportveis. Nem mesmo 
com as janelas abertas eu conseguia aliviar o calor, e passei horas s voltas na cama. Quando na manh seguinte me arrastei para fora da cama, fui encontrar as chaves 
do carro do meu pai penduradas na cozinha. Atirei a minha mochila para o porta-bagagem do carro e fui buscar a casa algumas coisas com que desejava ficar. Para alm 
da fotografia, pouco mais era. Depois, telefonei ao advogado e aceitei a sua sugesto de arranjar algum para esvaziar a casa e vend-la. Deixei ficar a chave da 
porta na caixa do correio.
Na garagem, o motor levou algum tempo at pegar. Percorri o acesso em marcha-atrs, fechei a porta da garagem e tranquei-a. Do jardim, deixei-me ficar a contemplar 
a casa, a pensar no meu pai, ciente de que nunca mais tornaria a v-la.
Dirigi-me ao lar de idosos para ir buscar as coisas do meu pai e depois abandonei Wilmington, seguindo para leste atravs da auto-estrada nacional, conduzindo em 
piloto automtico. Havia anos que eu no andava naquela estrada e mal tinha noo do trfego, mas a sensao de familiaridade chegava-me em ondas. Passei pelas cidades 
da minha juventude e atravessei Raleigh em direco a Chapel Hill, onde as recordaes me assaltaram com dolorosa intensidade, e dei por mim a carregar no acelerador, 
na tentativa de as deixar para trs.
Passei por Burlington, Greensboro e Wiston-Salem. Para alm dum nico posto de gasolina onde parara logo no incio na viagem e aproveitara para comprar uma garrafa 
de gua, segui sempre sem paragens, bebendo gua, mas incapaz de pensar sequer em comer. A fotografia em que eu aparecia ao lado do meu pai seguia no assento a meu
203
lado, e de quando em vez eu procurava recordar o rapaz retratado. Por fim, virei para norte, seguindo por uma pequena auto-estrada que serpenteia atravs das montanhas 
de cumes azuis que se estendem a norte e a sul, uma leve salincia na crosta terrestre.
A tarde j ia adiantada quando finalmente parei o carro e me registei num motel em mau estado mesmo  beira da auto-estrada. Sentia o corpo rgido, e depois dalguns 
minutos a fazer estiramentos, tomei um duche e barbeei-me. Vesti um par de calas de ganga lavado e uma T-shirt e hesitei se haveria de ir comer qualquer coisa, 
mas continuava sem fome. com o Sol a pairar baixo no horizonte, o ar no tinha nada do calor hmido e abafado da costa, e chegou-me s narinas o aroma das conferas 
proveniente das montanhas. Fora ali que a Savannah nascera e, sem saber explicar porqu, eu soube que ela ainda l estava.
Embora eu pudesse ter ido a casa dos pais dela e perguntado, abandonei a ideia, com receio de que eles no reagissem bem  minha presena. Ao invs, percorri de 
carro as ruas de Lenoir, atravessando a zona comercial, fornecida duma grande variedade de restaurantes de comida rpida, e s comecei a abrandar quando alcancei 
a zona menos genrica da cidade. Aqui ficava localizada a parte de Lenoir que parecia inaltervel, onde os recm-chegados e os turistas eram bem recebidos, mas nunca 
seriam considerados locais. Estacionei  porta dum salo de jogos degradado, um local que me fez lembrar alguns dos redutos da minha juventude. Viam-se anncios 
de non a publicitar cerveja nas janelas, e o parque de estacionamento em frente estava apinhado. Era num local como aquele que eu poderia descobrir a informao 
de que precisava.
Entrei no salo. Hank Williams gritava a plenos pulmes na jukebox, e serpentinas de fumo de cigarro pairavam no ar. Estavam quatro mesas de bilhar ao lado umas 
das outras; cada jogador usava o respectivo bon de basebol, e dois deles apresentavam na cara as salincias bvias de quem masca tabaco. Viam-se trofeus de pesca 
fluvial pendurados nas paredes, rodeados por recordaes das corridas da NASCAR. Havia fotografias tiradas em Talladega e Martinsville, North Wilkesboro e Rockingham, 
e apesar de a minha opinio acerca daquele desporto no se ter alterado, ver aquilo deixou-me uma sensao de estranho -vontade. A um canto do balco, por debaixo 
doutra cara sorridente do falecido Dale Earnhardt, encontrava-se um boio de vidro cheio de dinheiro, a pedir donativos para uma vtima de cancro da localidade. 
Atingido por um inesperado impulso de solidariedade, meti l dentro alguns dlares.
Fui sentar-me no bar e meti conversa com o empregado. Devia ser mais ou menos da minha idade, e o seu sotaque das montanhas recordou-me a Savannah. Depois de vinte 
minutos de conversao desenvolta, tirei a fotografia da Savannah da carteira e expliquei-lhe que era amigo da famlia. Mencionei os nomes dos pais dela e fiz-lhe 
perguntas que davam a entender que no era a primeira vez que ali estava.
O empregado mostrou-se cauteloso, e com razo. As cidades pequenas protegem os seus, mas veio a verificar-se que ele passara alguns anos no corpo de fuzileiros navais, 
o que ajudou. A seu tempo, assentiu com a cabea.
- Sim, eu conheo-a - admitiu. - Mora na Old Mill Road, prximo da casa dos pais.
Pouco passava das oito da noite, e o cu comeava a escurecer com o cair da noite. Dez minutos mais tarde, eu deixava uma boa gorjeta em cima do balco e encaminhava-me 
para a porta.
Curiosamente, enquanto me ia embrenhando na regio equestre, sentia a mente vazia. Pelo menos  assim que me lembro de pensar da ltima vez que aqui estive. Seguia 
por uma estrada cada vez mais ngreme, e comecei a reconhecer os pontos de referncia da zona; sabia que no tardaria a passar pela casa dos pais da Savannah. Quando 
isso aconteceu, debrucei-me sobre o volante,  espera de ver a prxima abertura na vedao antes de virar para o longo acesso da gravilha. Quando descrevi a curva, 
vi um letreiro pintado  mo a dizer "Esperana e Cavalos".
O crepitar dos pneus do meu carro  medida que iam percorrendo a gravilha era estranhamente reconfortante, e eu parei  sombra dum salgueiro, ao lado duma pequena 
carrinha de caixa aberta bastante velha. Olhei para a casa. De telhado em declive acentuado e planta quadrada, com a tinta branca a descascar e uma chamin a apontar 
para o cu, parecia elevar-se da terra como uma viso fantasmagrica que levara um sculo a criar. Uma nica lmpada brilhava por cima da porta da entrada maltratada, 
e via-se uma pequena planta envasada pendurada ao p duma bandeira americana, ambas ondulando suavemente ao sabor da brisa. Dum dos lados da casa, encontravam-se 
um celeiro castigado pelos elementos, bem como um pequeno curral; por detrs, um pasto verde-esmeralda delimitado por uma vedao branca bem arranjada estendia-se 
at a um aglomerado macio de carvalhos. Havia ainda uma estrutura semelhante a um galpo junto ao celeiro, e por entre as sombras eu conseguia vislumbrar os contornos 
de velhos equipamentos desportivos. Dei por mim novamente a perguntar-me o que estaria ali a fazer.
Ainda estava a tempo de me ir embora, mas no era capaz de me convencer a dar meia-volta. O cu fulgurava de tons de vermelho e amarelo antes de o Sol mergulhar 
no horizonte, abandonando as montanhas a uma penumbra melanclica. Sa do carro e comecei a aproximar-me da casa. O orvalho da relva humedecia-me a biqueira dos 
sapatos, e senti-me mais uma vez invadido pelo aroma das conferas. Ouvia os grilos e o chamamento ritmado dum rouxinol. Os sons pareciam dar-me coragem  medida 
que subia os degraus do alpendre. Tentei imaginar o que lhe diria se fosse ela a abrir a porta. Ou o que lhe diria a ele. Enquanto tentava decidir o que fazer, vi 
abeirar-se de mim um labrador retriever a abanar a cauda.
Estendi-lhe uma mo e a sua lngua amistosa deu-lhe uma lambidela antes de ele dar meia-volta e tornar a descer os degraus. Continuou a abanar a cauda para um lado 
e para o outro enquanto contornava a casa, e, ouvindo o mesmo chamamento que me trouxera a Lenoir, sa do alpendre e fui atrs dele. O co baixou-se, roando com 
a barriga no cho enquanto se enfiava por baixo da trave inferior da vedao e foi a trotar at ao celeiro.
Mal o animal desapareceu, vi a Savannah a sair do celeiro com um molho de feno debaixo de cada brao. Os cavalos que estavam no pasto comearam a galopar ao encontro 
dela  medida que viam a dona encher diversas gamelas de feno. Eu continuei a avanar. A Savannah estava a sacudir a roupa e a preparar-se para voltar para o celeiro 
quando inadvertidamente olhou na minha direco. Deu um passo, tornou a olhar e em seguida ficou petrificada.
Durante um instante prolongado, nenhum de ns se mexeu. com o olhar preso no meu, apercebi-me de que fizera mal em vir, aparecer daquela maneira sem avisar. Sabia 
que devia dizer alguma coisa, mas no me ocorreu nada. No conseguia fazer mais nada para alm de olhar para ela.
Foi ento que senti as memrias inundarem-me subitamente, todas elas, e reparei como a Savannah pouco mudara desde a ltima vez que nos vramos. Tal como eu, trazia 
vestidas umas calas de ganga e uma T-shirt manchada, e as suas botas  cowboy estavam velhas e gastas. No sei explicar porqu, mas aquela aparncia campestre desalinhada 
conferia-lhe um encanto terreno. Tinha o cabelo mais comprido que eu me recordava, mas continuava a ter a ligeira fenda nos dentes da frente que eu guardava na memria 
e que sempre adorara.
- Savannah - disse-lhe finalmente.
Foi s quando falei que me apercebi de que ela ficara to enfeitiada quanto eu. De repente, no seu rosto apareceu um amplo sorriso de prazer inocente.
- John? - gritou.
- H quanto tempo no nos vamos.
A Savannah abanou a cabea, como se a tentar clarear as ideias, depois tornou a pestanejar na minha direco. Quando por fim se convenceu de que eu no era uma miragem, 
veio a correr at  cancela e saltou-lhe por cima. No tardou a que eu sentisse os seus braos em meu redor, o seu corpo quente e acolhedor. Tinha vontade de ficar 
a abra-la para sempre, mas quando ela se afastou, a iluso desfez-se, pois tornmos novamente a ser estranhos um para o outro. A expresso dela encerrava a pergunta 
a que eu no fora capaz de dar resposta durante a minha viagem at ali.
- O que  que ests aqui a fazer?
Desviei o olhar. - No sei - confessei-lhe. - Senti apenas necessidade de vir.
Embora a Savannah no me fizesse qualquer pergunta, a sua expresso deixava transparecer um misto de curiosidade e hesitao, como se no tivesse a certeza de desejar 
mais explicaes. Eu recuei um passo, dando-lhe espao.
- O meu pai morreu - murmurei, e as palavras pareciam-me oriundas do vazio. - Acabei de vir do funeral dele.
A Savannah ficou em silncio, a sua expresso a suavizar-se para a compaixo espontnea por que eu sempre me sentira atrado.
- Oh, John... lamento imenso - disse ela em voz sussurrada. Tornou a aproximar-se de mim, e desta feita senti uma urgncia
no abrao que ela me deu. Quando se afastou, o seu rosto ficou meio envolto na escurido.
- Como  que aconteceu? - indagou, a sua mo ainda a segurar a minha.
A sua voz transmitia pesar genuno, e eu detve-me em silncio, incapaz de resumir os ltimos anos numa nica afirmao. -  uma longa histria - acabei por lhe 
dizer.  luz da iluminao do celeiro, pareceu-me vislumbrar na Savannah vestgios de recordaes que ela preferia manter enterradas, uma vida havia muito tempo 
vivida. Quando me largou a mo, vi-lhe a aliana de casamento a brilhar no anelar esquerdo. Aquela viso foi para mim como um banho de fria realidade.
Ela reconheceu a minha expresso. - Sim,  verdade - confirmou. - Sou casada.
- Desculpa - disse eu, abanando a cabea. - Fiz mal em vir. A Savannah surpreendeu-me com um leve acenar da mo. - No
tem importncia - tranquilizou-me inclinando a cabea. - Como  que me conseguiste encontrar?
207
-  uma cidade pequena. - Encolhi os ombros. - Perguntei por a.
- E as pessoas disseram-te... assim sem mais nem menos?
- Fui persuasivo.
Era uma situao estranha, e nenhum de ns parecia saber o que dizer. Uma parte de mim desejava sinceramente que continussemos ali a pr a conversa em dia como 
dois velhos amigos. Outra parte estava  espera de ver o marido a sair da casa a qualquer momento, dar-me um aperto de mo ou desafiar-me para um duelo. Ouvi relinchar 
por entre o silncio, e, por cima do ombro, avistei quatro cavalos com os focinhos enfiados nas gamelas, meio na penumbra, meio iluminados pelo crculo de luz do 
celeiro. Trs outros cavalos, incluindo o Midas, mantinham-se de olhar fixo na Savannah, como se se perguntassem se a dona se teria esquecido deles. Por fim, a Savannah 
apontou por cima do ombro.
- Sabes, tenho de ir tratar deles - disse ela. - Est na hora de lhes dar de comer, e esto a comear a ficar impacientes.
Quando me viu assentir com a cabea, a Savannah deu um passo atrs, em seguida virou-se. Quando estava mesmo a chegar  cancela, acenou-me. - Gostavas de me ajudar?
Eu hesitei, olhando de relance para a casa. Ela acompanhou o meu olhar.
- No te preocupes - sossegou-me. - Ele no est c, e uma ajuda vinha-me mesmo a calhar. - A voz dela denotava uma segurana surpreendente.
Embora eu no soubesse ao certo como interpretar aquela resposta, fiz um gesto de anuimento com a cabea. - com todo o gosto.
A Savannah esperou por mim e fechou a cancela atrs de ambos. Apontou para um monte de adubo. - Tem cuidado com os pingos. As manchas dos sapatos no saem.
Eu soltei um resmungo. - vou fazer o possvel.
No celeiro, ela separou um molho de feno e em seguida mais dois e entregou-mos.
- Basta deit-los nas gamelas ao p dos outros. Eu vou buscar a aveia. Fiz como ela me indicou, e os cavalos reuniram-se  minha volta.
A Savannah tornou a sair do celeiro trazendo consigo alguns baldes.
-  melhor no os deixares aproximarem-se tanto de ti. So capazes de, acidentalmente, te deitarem ao cho.
Afastei-me ligeiramente, e a Savannah pendurou alguns baldes na vedao. O primeiro grupo de cavalos foi a trotar at eles. A Savannah ps-se a observ-los com manifesto 
orgulho.
208
- Quantas vezes tens de lhes dar de comer?
- Duas vezes por dia, todos os dias. Mas no se trata apenas de lhes dar de comer. Nem te passa pela cabea de como s vezes so desajeitados. Estamos constantemente 
a ter de mandar chamar o veterinrio.
Eu sorri. - Devem dar imenso trabalho.
- Se do. Costuma dizer-se que ter um cavalo  como viver com uma ncora. A menos que tenhamos algum para nos ajudar,  difcil conseguirmos sair daqui, nem que 
seja por um fm-de-semana.
- Os teus pais no colaboram?
- s vezes. Quando  verdadeiramente indispensvel. Eles moram mesmo do outro lado do cume. Adiante da vedao. Mas o meu pai j est a ficar velho, e h uma grande 
diferena entre tratar dum cavalo e tratar de sete.
- No tenho dvida alguma.
No amplexo morno da noite, pus-me a ouvir o cntico ritmado das cigarras, a respirar a paz daquele refgio, tentando acalmar os meus pensamentos velozes.
- Era exactamente num stio como este que eu te imaginava a viver - acabei por confessar.
- Tambm eu - disse a Savannah. - Mas d muito mais trabalho que aquilo que eu estava a contar. H sempre alguma coisa a precisar de conserto. Nem imaginas a quantidade 
de infiltraes que apareceram no celeiro, e, no Inverno passado, veio abaixo uma grande parte da vedao. Foi nisso que andmos a trabalhar durante a Primavera.
Apesar de eu a ouvir dizer "ns" e partir do princpio de que se estava a referir ao marido, ainda no me sentia preparado para falar sobre ele. Nem, ao que parecia, 
se sentia a Savannah.
- Mas, mesmo dando muito trabalho, isto aqui  lindo. Em noites como a de hoje, gosto de me ir sentar no alpendre e deixar-me ficar a ouvir o mundo.  raro ouvirmos 
um carro a passar por aqui, e  to... tranquilo. Ajuda-nos a clarear o esprito, sobretudo aps um longo dia de trabalho.
 medida que ela falava, eu sentia a conteno das suas palavras, pressentindo o seu desejo de manter a nossa conversa em terreno seguro.
- No duvido.
- Tenho de ir limpar uns cascos - anunciou a Savannah. - No te importas de me ajudar?
- No fao a mais pequena ideia de como isso se faz - admiti.
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-  fcil - retorquiu ela. - Eu mostro-te. - Desapareceu dentro do celeiro e voltou trazendo o que parecia ser um pequeno par de garras recurvadas. Estendeu-me uma. 
Enquanto os cavalos estavam a comer, a Savannah aproximou-se dum deles.
- Tudo o que tens a fazer  agarrar-lhe o casco, puxares e ires-lhe dando pancadinhas ao de leve aqui na parte de trs da pata - explicou-me enquanto me fazia uma 
demonstrao. O cavalo, entretido com o feno, levantou obedientemente o casco. A Savannah segurou o casco entre as pernas. - Depois,  s ires retirando a sujidade 
em volta da ferradura.  to simples quanto isto.
Eu acerquei-me do cavalo ao lado da Savannah e esforcei-me por lhe imitar os gestos, mas no aconteceu nada. O cavalo tinha tanto de avantajado como de teimoso. 
Tornei a puxar-lhe pela pata e a dar-lhe pancadinhas no stio indicado, uma vez e outra ainda. O cavalo continuou a comer, alheio aos meus esforos.
- Ele no quer levantar a pata - queixei-me.
A Savannah acabou de limpar o casco com que estava ocupada e em seguida debruou-se para o meu cavalo. Uma puxadela e uma pancadinha mais tarde, e o casco j estava 
no stio certo entre as pernas dela.
-  claro que quer. O problema  que percebe que tu no sabes o que  que ests a fazer e que no te sentes  vontade com ele. Tens de lhes mostrar autoconfiana. 
- A Savannah deixou o casco cair, e eu coloquei-me no lugar dela, pronto para nova tentativa. O cavalo tornou a ignorar-me.
- V como eu fao - acabou ela por me dizer.
-  o que eu tenho estado a fazer - protestei.
A Savannah repetiu o exerccio; o cavalo levantou a pata. Passado um instante, eu fiz exactamente a mesma coisa, e o cavalo ignorou-me. Embora no tivesse pretenses 
a saber ler a mente dos cavalos, estava com a estranha sensao de que aquele se estava a divertir  minha custa. Frustrado, puxei e dei pancadinhas sem cessar at 
que finalmente, como por um passe de mgica, a pata do cavalo se levantou. Apesar da natureza insignificante da minha proeza, fui atingido por um assomo de orgulho. 
Pela primeira vez desde que chegara a casa da Savannah, tive vontade de me rir.
- bom trabalho. Agora s tens de raspar a lama c para fora e passar ao prximo casco.
A Savannah j tinha despachado os outros seis cavalos, e eu ainda mal acabara o primeiro. Quando demos a tarefa por terminada, ela abriu a cancela e os cavalos foram 
a trotar para a pastagem envolta na escurido. Eu no sabia ao certo o que esperar, mas a Savannah aproximou-se do galpo. Trazia duas ps na mo.
210
- Agora  preciso limpar tudo - declarou ela, estendendo-me
uma p.
- Limpar?
- O esterco - elucidou-me ela. - De outro modo, isto comea a cheirar que no se pode.
Peguei na p. - Fazes isto todos os dias?
- A vida  um mar de rosas, no  verdade? - gracejou ela. Tornou a afastar-se e regressou com um carrinho de mo.
 medida que amos apanhando o estrume  pazada, uma lua prateada comeou a elevar-se acima das copas das rvores. Trabalhvamos em silncio, e o ritmo regular da 
p da Savannah a bater e a raspar no cho inundava o ar. A seu tempo, l terminmos a tarefa, e eu apoiei-me na minha p, a inspeccion-la.  sombra projectada pelo 
celeiro, parecia-me to encantadora e esquiva como uma apario. Ela no disse nada, mas eu sentia o seu ar avaliador.
- Est tudo bem? - acabei por lhe perguntar.
- O que  que vieste c fazer, John?
- J me fizeste essa pergunta.
- Eu sei que sim - admitiu ela. - Mas tu no me deste uma resposta como deve ser.
Observei-a atentamente. Era verdade, no tinha dado. No me sentia seguro de me conseguir explicar e oscilei o peso do corpo dum p para o outro. - No tinha outro 
stio para onde ir.
A Savannah surpreendeu-me com um aceno de cabea. - Hum, hum - reconheceu ela.
Foi a aceitao sem reservas no tom de voz dela que me encorajou a prosseguir:
- Estou a falar a srio - afirmei. - De certa forma, s a melhor amiga que eu j tive.
Vi a expresso dela a suavizar-se. - Est bem - disse-me. A resposta dela fez-me recordar o meu pai, e depois de a ter proferido, talvez se tenha apercebido disso 
tambm. Obriguei o meu olhar a deambular pela propriedade.
- Este  o rancho que tu sonhaste criar, no ? - interroguei-a.
- O Esperana e Cavalos  para as crianas autistas, no ?
A Savannah passou uma mo pelo cabelo, prendendo uma madeixa por detrs da orelha. Mostrou-se agradada por eu ainda me lembrar.
- Sim - confirmou. - .
-  tudo tal e qual como tu sonhaste?
Ela riu-se e atirou as mos ao ar. - Tem dias - respondeu. Mas d muito mais trabalho que aquilo que julguei, e nem penses
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que o que rende chega para pagar as contas. Ambos temos os nossos empregos, e no h dia que no me aperceba de que a faculdade no me ensinou tudo aquilo de que 
eu estava convencida que tinha ensinado.
- Ai no?
A Savannah abanou a cabea. -  difcil comunicar com alguns dos midos que me tm aparecido tanto aqui como no centro. Hesitou,  procura das palavras adequadas. 
Por fim, tornou a abanar a cabea. - Acho que estava  espera de que todos eles fossem como o Alan, sabes? - A Savannah ergueu o olhar. - Ainda te lembras de quando 
eu te falei dele?
Quando assenti com a cabea, a Savannah prosseguiu: - Acontece que a situao do Alan era especial. No sei... talvez tenha sido pelo facto de ter sido criado num 
rancho, mas a verdade  que ele se adaptou com muito mais facilidade que a maior parte das crianas.
Quando verifiquei que ela no continuava, deitei-lhe um olhar zombeteiro. - No  assim que eu me lembro de me teres contado. Ou eu bem me recordo, ou a princpio 
o Alan estava em pnico.
- bom, eu sei, mas ainda assim... ele acabou por se habituar. E a questo  essa. Nem te passa pela ideia a quantidade de crianas que aqui vm e que nunca se conseguem 
adaptar, por mais que nos dediquemos a elas. Isto no  apenas uma coisa de fim-de-semana; temos aqui midos que vm regularmente h mais dum ano. Ns trabalhamos 
no centro de avaliao comportamental, por isso acabamos por passar muito tempo com a maioria deles e, quando inaugurmos o rancho, insistimos em abri-lo mesmo s 
crianas com situaes mais graves. Sentimos que era importante assumirmos esse compromisso, mas olha que h alguns midos... Quem me dera conseguir descobrir uma 
maneira de chegar at eles. H ocasies em que temos a sensao de que, por mais que nos esforcemos, nunca conseguimos avanar.
Eu via a Savannah a catalogar as suas recordaes. - No quero com isto dizer que ache que estejamos a perder o nosso tempo - continuou ela. - Algumas crianas tiram 
enorme proveito do nosso trabalho. Chegam aqui e ficam c algumas semanas, e  como... uma flor que vai desabrochando lentamente at se revelar em toda a sua beleza. 
Tal como aconteceu com o Alan. E como se pressentssemos a mente deles a abrir-se a novas ideias e possibilidades, e quando os vemos montados num cavalo com grandes 
sorrisos estampados na cara,  como se nada mais no mundo fosse importante.  uma sensao inebriante, e desejamos que ela se repita continuamente com todas as
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crianas que aqui nos chegam. Eu costumava pensar que era uma questo de persistncia, que seramos capazes de ajud-las a todas, mas a verdade  que no podemos. 
Alguns dos midos nem sequer chegam a aproximar-se do cavalo, quanto mais mont-lo.
- Tu sabes que a culpa no  vossa. Eu tambm no fiquei l muito entusiasmado com a ideia de andar a cavalo, ou j no te lembras?
A Savannah soltou uma leve gargalhada, assumindo um ar notoriamente juvenil. - Se me lembro. Da primeira vez que montaste num cavalo, tiveste mais medo que muitos 
destes midos.
- No tive nada - protestei. - E, para alm do mais, o Pepper era levado da breca.
- Ah! - gritou ela. - Por que  que achas que eu to dei para o montares? E o cavalo mais dcil que imaginar se possa. Estou convencida de que nunca o vi nem sequer 
tremer quando estava a ser montado.
- Ele era levado da breca - insisti eu.
- Falas como um verdadeiro novato - provocou-me a Savannah.
- Mas, ainda que no tenhas razo, comove-me ver que te lembras.
O tom brincalho dela trouxe-me  superfcie uma vaga de recordaes.
-  claro que me lembro - disse eu. - Foram dos melhores momentos que j vivi. Nunca os hei-de esquecer. - Por cima do ombro dela, eu via o co a deambular pela 
pastagem. - Talvez seja por isso que ainda no me casei.
Ao ouvir as minhas palavras, o olhar vacilou. - Eu tambm ainda me lembro deles.
- A srio?
-  claro - disse. - Podes no acreditar, mas a verdade  essa. O peso das suas palavras pairou ponderosamente no ar.
- s feliz, Savannah? - interroguei-a por fim.
Ela ofereceu-me um sorriso forado. - A maior parte do tempo. E tu?
- No sei - respondi-lhe, o que lhe arrancou nova gargalhada.,
- Esse  o teu tipo de resposta-padro, sabias? Quando a resposta exige que olhes para dentro de ti prprio.  como se fosse uma espcie de reflexo condicionado. 
Sempre foi assim. Por que  que no me perguntas o que desejas de facto perguntar?
- E o que  que eu te desejo de facto perguntar?
- Se eu amo o meu marido ou no. No foi isso que quiseste dizer?
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 Por um instante, fiquei sem palavras, mas constatei que o pressentimento dela estava correcto. Era essa a razo da minha presena ali.
- Sim - disse a Savannah por fim, lendo-me a mente mais uma vez. - Amo-o.
A sinceridade indesmentvel do seu tom de voz feriu-me, contudo, antes que eu me conseguisse refazer, ela tornou a encarar-me. Vi a ansiedade a perpassar-lhe pelo 
rosto, como se lhe tivesse ocorrido alguma recordao dolorosa, mas no tardou a desvanecer-se.
- J jantaste? - perguntou-me.
Eu ainda estava a tentar dar um sentido ao que acabara de ver.
- No - respondi-lhe. - Para ser sincero, nem sequer tomei o pequeno-almoo nem almocei.
A Savannah abanou a cabea. - Tenho uns restos de guisado de carne de vaca em casa. Tens tempo para jantar?
Sem deixar de me perguntar por onde andaria o marido dela, assenti com a cabea. - Gostaria muito - respondi-lhe.
Tommos o caminho da casa e parmos ao chegarmos a um alpendre onde se viam botas  cowboy velhas e lamacentas enfileiradas. A Savannah segurou-se ao meu brao, 
duma forma que me pareceu a mim extremamente desenvolta e natural, para no perder o equilbrio enquanto descalava as botas. Ter sido talvez o seu toque a encorajar-me 
a olhar verdadeiramente para ela, e embora eu continuasse a descortinar nela o mistrio e a maturidade que sempre a tinham feito to atraente aos meus olhos, no 
pude deixar de reparar igualmente num laivo de tristeza e reserva. Ao meu corao sofrido, a combinao tornava-a ainda mais bela.
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CAPITULO DEZANOVE
A pequena cozinha da Savannah era o que se poderia esperar numa casa antiga que j teria provavelmente sofrido uma meia dzia de remodelaes ao longo do ltimo 
sculo: pavimentos velhos de linleo ligeiramente a descascar junto s paredes, armrios brancos simples - com a espessura das incontveis camadas de tinta bem visvel
- um lava-loia de ao inoxidvel encastrado por baixo duma janela de caixilhos de madeira que j deveria estar a precisar de substituio h anos. A bancada estava 
a abrir fendas, e, encostado a uma das paredes, via-se um fogo a lenha to velho como a prpria casa. Em alguns stios, era possvel vislumbrar a tentativa de invaso 
do mundo moderno: um grande frigorfico e uma mquina de lavar loia junto  pia; um microondas empoleirado de travs a um canto, ao p duma garrafa de vinho tinto 
consumida at a meio. Em certos aspectos, fazia-me lembrar a casa do meu pai.
A Savannah abriu um armrio e retirou um copo. - Queres tomar um copo de vinho?
Eu abanei a cabea. - Nunca fui grande apreciador de vinho.
Fiquei admirado quando constatei que ela no tornava a guardar o copo. Ao invs, pegou na garrafa cheia at meio e encheu-o. Pousou o copo em cima da mesa e sentou-se 
diante dele.
Instalmo-nos  mesa, e a Savannah deu um gole.
- Ests mudada - observei.
Ela encolheu os ombros. - Muita coisa mudou desde a ltima vez que nos vimos.
No acrescentou mais nada e tornou a pousar o copo em cima da mesa. Quando tornou a falar, foi com voz acabrunhada. - Nunca pensei vir a tornar-me no tipo de pessoa 
que anseia por um copo de vinho  noite, mas a verdade  que foi isso que acabou por acontecer.
Ps-se a fazer girar o copo em cima da mesa, e eu dei por mim a interrogar-me o que lhe teria acontecido.
- Sabes o que  mais engraado no meio de tudo isto? - disse ela. -  que eu at aprecio o sabor. Quando tomei o meu primeiro copo, no sabia distinguir o que era 
bom do que era mau. Mas agora, quando toca a compr-lo, tornei-me bastante selectiva.
No reconheci completamente a mulher que se encontrava diante de mim, e no soube ao certo que resposta dar-lhe.
- No quero que me interpretes mal - prosseguiu ela. - Eu nunca me esqueci de tudo o que aprendi com os meus pais, e  raro tomar mais dum copo por noite. Porm, 
dado que o prprio Jesus transformou a gua em vinho, calculo que no seja um pecado assim to grande quanto isso.
Eu sorri perante o raciocnio dela, reconhecendo a injustia que era manter-me preso  imagem encapsulada no tempo que guardava da Savannah. - No perguntei nada.
- Eu sei - ripostou ela. - Mas ficaste admirado.
Por um momento, o nico barulho na cozinha era o zumbido do frigorfico. - Lamento o que aconteceu ao teu pai - disse ela, fazendo deslizar o dedo ao longo duma 
fissura no tampo da mesa. Sinceramente. Nem te passa pela cabea a quantidade de vezes que pensei nele durante estes anos.
- Obrigado - respondi-lhe.
A Savannah ps-se a fazer girar novamente o copo, aparentemente absorta no redemoinho de lquido. - Apetece-te falar nisso? - indagou.
Eu no sabia ao certo se me apetecia, mas depois de me recostar na cadeira, as minhas palavras comearam a fluir com uma facilidade surpreendente. Contei-lhe do 
primeiro ataque cardaco do meu pai, bem como do segundo, e das visitas que eu lhe fizera ao longo dos ltimos dois anos. Falei-lhe do fortalecimento gradual da 
nossa amizade, do bem-estar que eu sentia na presena dele, os passeios que ele comeara por dar e de que depois tivera de acabar por abdicar. Contei-lhe acerca 
dos derradeiros dias que passmos na companhia um do outro e da angstia de me ver obrigado a intern-lo num lar de idosos. Quando lhe descrevi o funeral e a fotografia 
que encontrei dentro do sobrescrito, a Savannah pegou-me na mo.
- Fico contente por ele ta ter guardado - afirmou ela -, mas no me surpreende nada.
- Mas olha que a mim me surpreendeu - retorqui eu, e a Savannah riu-se. Foi uma gargalhada reconfortante.
Ela apertou-me a mo. - Quem me dera ter sabido a tempo! Gostaria de ter estado presente no funeral do teu pai. . i, - No foi grande coisa.
- Nem tinha de ser. Ele era o teu pai, e isso  a nica coisa que importa. - Ela hesitou antes de me soltar a mo e bebeu mais um trago de vinho.
- Ests pronto para o jantar? - questionou-me.
- No sei - respondi-lhe, enrubescendo ao recordar-me do comentrio que ela anteriormente fizera.
A Savannah inclinou-se para a frente com um amplo sorriso. - E que tal se eu te aquecesse um prato de guisado para vermos o que acontece?
- E estar bom? - hesitei eu. - Quer dizer... quando estvamos juntos, nunca te ouvi dizer que percebias de culinria.
-  uma receita de famlia - ripostou ela, com ar pretensamente ofendido. - Mas tenho de ser franca... foi a minha me que o fez. Veio c ontem trazer-mo.
- A verdade vem sempre ao de cima - comentei.
-  isso que a verdade tem de engraado - observou a Savannah. - Em geral vem. - Ela levantou-se e abriu a porta do frigorfico, debruando-se enquanto examinava 
as prateleiras. Estava eu a perguntar-me pela aliana que usava no dedo e por onde andaria o marido dela, quando a vi tirar um Tupperware. com a ajuda duma colher, 
deitou um pouco do guisado numa taa e meteu-a no microondas.
- Queres alguma coisa a acompanhar? E que tal se for po com manteiga?
- Isso viria mesmo a calhar - agradeci.
Passados uns minutos, tinha a refeio  minha frente, e foi o aroma que me fez tomar conscincia da fome com que de facto estava. A Savannah surpreendeu-me ao tornar 
a sentar-se a meu lado, segurando o copo de vinho na mo.
- E tu, no comes nada?
- No estou com fome - respondeu-me ela. - Para falar com franqueza, no tenho andado a comer muito ultimamente. - Bebeu um gole quando eu engoli a primeira garfada, 
e eu deixei passar o comentrio dela.
- Tinhas razo - disse eu. - Est uma delcia.
Ela sorriu. - A minha me  uma boa cozinheira. Poderamos ser levados a pensar que eu deveria ter aprendido a cozinhar melhor, mas a verdade  que no aprendi. 
Andava sempre to atarefada. Quando
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vivia l em casa, passava os dias a estudar e depois, quando vim morar para aqui, comecei com as remodelaes. - Apontou para a sala de estar. - A casa j  antiga. 
Eu sei que no parece, mas nos ltimos anos temos feito muitas alteraes.
- Est ptima.
- Ests apenas a ser educado, mas eu agradeo de qualquer maneira. - A Savannah sorriu mais uma vez. - Devias t-la visto quando nos mudmos para c. Era mais ou 
menos tipo celeiro, ests a imaginar? Precisou dum telhado novo, mas  engraado: nunca ningum pensa em telhados quando imagina as remodelaes que h-de fazer. 
 daquelas coisas que toda a gente espera que uma casa tenha, mas que nunca pensa um dia ter de vir a substituir. Quase todas as modificaes que fizemos se enquadram 
nessa categoria. Bombas trmicas, janelas com isolamento, arranjar os estragos provocados pelas trmitas... havia imensos j de longa data. - O rosto dela assumiu 
uma expresso sonhadora. - Fomos ns que fizemos a maior parte das obras. Tal como aqui na cozinha. Sei que ela est a precisar de armrios e de pavimento novos, 
mas quando para aqui nos mudmos, sempre que chovia, havia poas na sala de estar e nos quartos. O que havamos ns de fazer? Tnhamos de estabelecer prioridades, 
e uma das primeiras coisas que fizemos foi arrancar todas as ripas velhas do telhado. Deviam estar perto de quarenta graus e eu l em cima com uma p, a arrancar 
as ripas, cheia de bolhas nas mos. Mas... sentia que era o que tinha a fazer, sabes? Dois jovens a comear uma nova vida, a trabalharem juntos na reparao da prpria 
casa? Era uma sensao que... criava um lao de unio entre ns. O mesmo se passou quando renovmos o cho da sala de estar. Devemos ter levado umas semanas a afag-lo 
at ele ficar novamente liso. Depois envernizmo-lo e, quando finalmente pudemos andar por cima dele, era como se tivssemos lanado as bases da nossa vida futura.
- Ao dizeres isso assim, parece quase romntico.
- E, de certa forma, at foi - concordou ela. Prendeu uma madeixa de cabelo por detrs da orelha. - Mas ultimamente no tem sido l muito romntico. Agora, est 
apenas a ficar velho.
Eu soltei uma gargalhada inesperada, depois tossi e dei por mim a estender a mo para um copo que l no estava.
A Savannah empurrou a cadeira para trs para se levantar. - Espera um instante que j te trago gua - disse ela. Encheu um copo  torneira e pousou-o  minha frente. 
Enquanto bebia, sentia os seus olhos a perscrutar-me.
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- O que foi? - indaguei. !S -?i"*..?'')-
- No me consigo habituar a ver-te to diferente.
- Eu? - Mal podia acreditar.
- Sim, tu - insistiu a Savannah. - No sei explicar porqu, mas pareces... mais velho.
- Eu estou mais velho.
- Eu sei, mas no  isso. So os teus olhos. Esto... mais srios que costumavam ser. Como se tivessem visto coisas que no deveriam ter visto. Fatigados, no sei.
A isto, eu no dei resposta, todavia, quando a Savannah reparou na minha expresso, abanou a cabea, com um ar constrangido. - No devia ter dito isto. Mal posso 
imaginar aquilo por que tenhas passado nos ltimos anos.
Comi outra garfada de guisado, a pensar no comentrio que ela acabara de fazer. - Sa do Iraque no princpio de 2004 - expliquei-lhe. - E desde ento tenho estado 
na Alemanha. Apenas uma pequena fraco do exrcito se encontra l permanentemente, e estamos constantemente a revezar-nos. O mais provvel  que eu acabe por voltar 
para l, mas ainda no sei quando. Esperemos que nessa altura as coisas j tenham acalmado.
- No deverias j ter abandonado a tropa?
- Tornei a alistar-me - afirmei. - No encontrei motivo para no o fazer.
Ambos sabamos a razo disso, e a Savannah assentiu com a cabea.
- E desta vez  por quanto tempo?
- At 2007.
- E depois?
- Ainda no sei ao certo. Talvez me torne a alistar por mais alguns anos. Ou ento talvez v para a faculdade. Quem sabe... posso at chegar a tirar uma licenciatura 
em educao especial. J ouvi dizer muito bem a respeito dessa rea.
O sorriso da Savannah deixava transparecer uma estranha tristeza, e, durante um instante, ficmos ambos em silncio. - H quanto tempo  que ests casada? - interroguei-a.
Ela ajeitou-se na cadeira. - Vai fazer dois anos em Novembro.
- Casaste-te aqui?
- Como se tivesse tido alternativa. - Revirou os olhos. - A minha me empenhou-se a srio para me organizar um casamento de sonho. Eu sei que sou filha nica, mas, 
em retrospectiva, contentar-me-ia perfeitamente com uma coisa mais simples. Cem convidados teria chegado perfeitamente.
- E tu achas isso simples?
- Comparado com o que tivemos? Acho. No havia lugares que chegassem na igreja para toda a gente, e o meu pai nunca se cansa de me lembrar de que vai passar os prximos 
anos a pag-lo. Est s a brincar,  claro. Metade dos convidados eram amigos dos meus pais, mas acho que quem se casa na terra em que nasceu nunca consegue escapar 
a isso. No h ningum, desde o carteiro at ao barbeiro, que no receba um convite.
- Mas ests contente por estares de volta a casa?
- Aqui sinto-me confortvel. Os meus pais esto sempre por perto e eu bem preciso disso, especialmente agora.
A Savannah no se alongou, contentando-se em deixar o comentrio assentar. Interroguei-me a respeito disso (e de mil e uma outras coisas) enquanto me levantava da 
mesa e levava o meu prato para o lava-loia. Depois de o passar por gua, ouvi-a chamar-me mesmo por detrs de mim.
- Deixa ficar o prato. Ainda no tirei a loia da mquina. Depois trato disso. Queres mais alguma coisa? A minha me deixou-me ficar umas pras na bancada.
- E que tal um copo de leite? - disse eu. Quando a vi preparar-se para se levantar, acrescentei: - No te incomodes que eu vou busc-lo. Diz-me s onde esto os 
copos.
- No armrio por cima do lava-loia.
Tirei um copo da prateleira e dirigi-me ao frigorfico. O leite achava-se na prateleira de cima; nas prateleiras inferiores encontravam-se alguns Tupperwares cheios 
de comida.
Servi-me dum copo e voltei para a mesa.
- O que  que se passa, Savannah?
Ao ouvir as minhas palavras, ela tornou a concentrar-se em mim.
- O que  que queres dizer com isso?
- O teu marido?
- O que  que tem o meu marido?
- Quando  que o poderei conhecer?
Em lugar de responder, a Savannah levantou-se da mesa levando consigo o copo de vinho. Deitou os restos no lava-loia, em seguida foi buscar uma chvena e uma lata 
de ch.
- Tu j o conheces - respondeu-me ela, virando-se para mim. Endireitou os ombros. -  o Tim.
Enquanto a Savannah se ia sentando novamente  minha frente, eu ouvia a colher a mexer na chvena.
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- Tens a certeza de que ests interessado em ouvir toda a histria? - murmurou ela, mantendo o olhar fixo no contedo da chvena.
- Claro - respondi-lhe eu. Recostei-me na cadeira. - Ou talvez no. Ainda no me consegui decidir.
A Savannah soltou uma gargalhada abafada. - Acho que faz sentido.
Eu juntei as mos. - Quando  que comeou?
- No sei ao certo - afirmou ela. - Eu sei que pode parecer um disparate, mas no aconteceu como  provvel que estejas a imaginar. No se deu o caso de ambos termos 
planeado alguma coisa. Ela pousou a colher em cima da mesa. - Mas, para no te deixar sem resposta, acho que deve ter comeado em incios de 2002.
Uns meses depois de eu me ter realistado, constatei. Seis meses antes de o meu pai sofrer o primeiro ataque cardaco e pela mesma altura em que eu reparei que as 
cartas da Savannah tinham comeado a mudar.
- Tu sabes que ns sempre fomos amigos. Embora ele j estivesse a fazer a ps-graduao, acabmos por ter algumas aulas no mesmo edifcio durante o meu ltimo ano 
da licenciatura, e depois, amos tomar um caf ou estudvamos juntos. No era o mesmo que sermos namorados, nem sequer andvamos de mos dadas. O Tim sabia que eu 
estava apaixonada por ti... mas estava presente, sabes? Dava-me ateno quando eu comeava a falar das saudades que sentia e do quanto me custava estar longe de 
ti. E se custava. Eu pensei que nessa altura tu fosses voltar para casa.
Quando a Savannah ergueu os olhos, a sua expresso era de... o qu? Arrependimento? Eu no sabia dizer.
- bom, fosse como fosse, passvamos muito tempo na companhia um do outro, e o Tim tinha muita pacincia para me consolar sempre que me via em baixo. Estava constantemente 
a recordar-me de que, quando eu menos esperasse, tu virias a casa de licena, e tu nem fazes ideia a vontade que eu tinha de te tornar a ver. E foi ento que o teu 
pai adoeceu. Eu sei que tu tinhas de ficar junto dele... Eu seria incapaz de te perdoar se o tivesses deixado sozinho... mas no era disso que ns precisvamos. 
Eu sei que pode parecer tremendamente egosta da minha parte, e sinto-me mal comigo prpria s de pensar nisso. Mas a ideia que eu tinha  que o destino andava a 
conspirar contra ns.
A Savannah pegou novamente na colher e comeou a mexer o ch, tentando clarear o esprito.
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- bom, mas nesse Outono, logo a seguir a eu ter terminado as aulas e ter regressado a casa para ir trabalhar no centro de avaliao comportamental aqui da cidade, 
os pais do Tim sofreram um acidente terrvel. Vinham de Ashville, pela auto-estrada, quando perderam o controlo do carro e foram embater contra o trfego que vinha 
em sentido contrrio. Foram atingidos por um reboque. O motorista do camio escapou ileso, mas os pais do Tim tiveram morte imediata. O Tim teve de abandonar a faculdade... 
ele andava a preparar o doutoramento... para vir para aqui tomar conta do Alan. - Ela fez uma pausa. - Foi horrvel para o Tim. Ele no tinha apenas de tentar superar 
a sua prpria perda... ele adorava os pais... como ainda para mais, o Alan ficou inconsolvel. Passava os dias a gritar, e comeou a arrepelar-se. A nica pessoa 
que o conseguia impedir de se magoar a si prprio era o Tim, mas isso deixava-o completamente esgotado. Acho que foi por essa altura que eu comecei a vir para aqui. 
Sabes, para o ajudar.
Quando me viu franzir o sobrolho, a Savannah acrescentou: - Esta era a casa dos pais do Tim. Foi aqui que o Tim e o Alan cresceram.
Mal ela me disse isto, as recordaes vieram-me  memria. Era bvio que era a casa do Tim: em tempos a Savannah contara-me que o Tim morava no rancho ao lado do 
dela.
- Acabmos por nos consolar um ao outro. Eu fazia o possvel por ajud-lo, e ele, por me ajudar a mim, e ambos tentvamos ajudar o Alan. E, a pouco a pouco, acho 
que nos fomos apaixonando um pelo outro.
Pela primeira vez, os olhos dela enfrentaram os meus.
- Eu sei que deves estar zangado com o Tim ou comigo. Provavelmente com ambos, at. E calculo que seja o que merecemos. Mas tu no sabes como as coisas andavam por 
aqui nessa altura. Estava tudo a acontecer to depressa... as nossas emoes andavam constantemente  flor da pele. Eu sentia-me culpada por causa do que se estava 
a passar, o Tim tambm. Mas, passado um tempo, eu comecei a ter a sensao de que j ramos um verdadeiro casal. O Tim comeou a trabalhar no mesmo centro de avaliao 
comportamental que eu e depois decidiu comear a organizar fins-de-semana no rancho para crianas autistas. Fora sempre esse o desejo dos pais dele, e por isso eu 
tambm me inscrevi para trabalhar no rancho. Depois disso, estvamos quase sempre juntos. A organizao do rancho permitia-nos ter algo em que concentrar a nossa 
ateno, e tambm ajudou o Alan. Ele adora cavalos, e havia tanto a fazer que gradualmente ele se foi habituando a viver sem a presena dos pais. Foi como se tivssemos 
procurado apoio uns nos outros... E, passado um ano, ele pediu-me em casamento.
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Quando a Savannah se calou, eu desviei o olhar, numa tentativa de digerir as suas palavras. Ficmos uns momentos sentados, em silncio, cada um debatendo-se com 
os seus prprios pensamentos.
- bom, a histria  esta - concluiu ela. - No sei se querers ouvir mais alguma coisa.
Eu tambm no sabia.
- O Alan continua a viver aqui? - indaguei.
- Tem um quarto no andar de cima. De facto, aquele sempre foi o quarto dele. Mas no  to mau quanto possa parecer. Quando acaba de alimentar e escovar os cavalos, 
o Alan gosta de passar muito tempo sozinho. Adora jogos de vdeo.  capaz de ficar horas a jogar. Ultimamente at tenho tido dificuldade em convenc-lo a parar. 
Se o deixassem, era capaz de passar a noite inteira a jogar.
- Ele est em casa?
A Savannah abanou a cabea. - No - disse ela. - Neste momento est com o Tim.
- Onde?
Antes de ela ter oportunidade de responder, o co comeou a raspar insistentemente na porta, e a Savannah levantou-se para lha ir abrir. O animal entrou na cozinha, 
com a lngua de fora e a cauda ainda a abanar. Veio ter comigo e esfregou-me o focinho na mo.
- Ele gosta de mim - constatei.
A Savannah continuava  porta. - Ela gosta de toda a gente. Chama-se Molly. Uma nulidade enquanto co de guarda, mas mais doce que um rebuado. S tens de ter cuidado 
que no se babe. Se a deixares, lambuza-te todo.
Eu deitei uma olhadela s calas. - Estou a ver que sim.
A Savannah fez um gesto por cima do ombro. - Olha, lembrei-me agora mesmo de que ainda me falta arrumar umas coisas. Est prevista chuva para esta noite. No deve 
demorar muito.
Reparei que ela no respondera  minha pergunta acerca do Tim. Nem, constatei, parecia ter inteno de o fazer.
- Queres ajuda?
- Nem por isso. Mas, se te apetecer, podes vir  vontade. Est uma noite linda.
Eu fui atrs dela, com a Molly a trotar  frente de ambos, completamente alheia ao facto de que acabara de pedir para a deixarem entrar em casa. Quando uma coruja 
irrompeu das rvores, a Molly desatou numa corrida e desapareceu na escurido. A Savannah tornou a calar as botas.
- H sempre alguma coisa para fazer, no ? - comentei com ela.
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?? -Nem te passa pela cabea. -.v..???*,??<,,?? ?,?,""*.
Encaminhmo-nos para o celeiro. Pensei em tudo o que ela me acabara de contar e mais uma vez me perguntei o que estava eu ali a fazer. No sabia dizer se estava 
contente por a Savannah se ter casado com o Tim (uma vez que pareciam ideais um para o outro) ou transtornado exactamente pela mesma razo. Nem to-pouco me senti 
satisfeito por finalmente ter descoberto a verdade; no sabia explicar ao certo porqu, mas era mais fcil no saber de nada. Subitamente, senti-me simplesmente 
cansado.
E no entanto... sabia que havia alguma coisa que a Savannah no me contava. Pressentia isso na sua voz, na aluso de tristeza que se recusava a desaparecer.  medida 
que a escurido nos ia envolvendo, eu tinha ntida percepo da proximidade com que falvamos e perguntava-me se ela sentiria o mesmo. Se era esse o caso, no dava 
qualquer sinal disso.
Os cavalos eram meras sombras na distncia, silhuetas sem forma reconhecvel. A Savannah apanhou algumas rdeas e foi arrum-las no celeiro, pendurando-as nuns cabides. 
Entretanto, eu fui buscar as ps de que nos tnhamos servido e coloquei-as ao p das outras ferramentas.  sada, ela certificou-se de que deixava a cancela fechada.
Quando olhei para o relgio, vi que eram quase dez horas. J era tarde, e estvamos ambos conscientes disso.
- Acho que  melhor eu ir andando - disse eu. -  uma cidade pequena. No quero dar azo a rumores.
- Se calhar tens razo. - A Molly veio ter connosco, surgida do nada, e sentou-se entre ambos. Quando comeou a saltar s pernas da Savannah, esta afastou-se para 
o lado. - Onde  que ests hospedado?
- perguntou-me ela.
- Numa espcie de motel. Mesmo  sada da auto-estrada. Vi-a franzir o nariz, ainda que apenas por um breve instante. - Eu
sei onde fica.
-  uma verdadeira espelunca - admiti.
A Savannah sorriu. - No posso dizer que seja uma surpresa. Sempre tiveste imenso jeito para descobrir os stios mais exticos.
- Como a Choupana do Camaro?
- Nem mais.
Enfiei as mos nos bolsos, perguntando-me se seria aquela a ltima vez que nos veramos. A ser verdade, pareceu-me duma falta de clmax absurda: eu no podia deixar 
que tudo terminasse com conversas de circunstncia.
- Costumas pensar nos tempos que passmos juntos?
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-  claro que sim. Nunca os hei-de esquecer. *;i, ,,:..,-
Assenti com a cabea. Na estrada em frente, os faris dum carro
que vinha a aproximar-se a grande velocidade varreram a propriedade.
- Acho que  tudo - disse eu, sem saber o que fazer. - Foi um prazer ver-te novamente.
- O prazer foi meu, John. Ainda bem que vieste.
Tornei a assentir com a cabea. Quando a vi desviar o olhar, percebi que era a minha deixa para me ir embora.
- Adeus - disse-lhe.
- Adeus.
Afastei-me do alpendre e preparei-me para me dirigir ao carro, atnito perante a constatao de que o meu verdadeiro e nico amor estava ali. No sei ao certo se 
esperara outro tipo de recepo, mas o tom conclusivo da nossa despedida trouxe  superfcie todos os sentimentos que eu andava a reprimir desde que recebera a ltima 
carta da Savannah.
Estava a abrir a porta do carro quando a ouvi chamar por mim.
- Eh,John?
- Sim?
A Savannah desceu os degraus do alpendre e comeou a avanar na minha direco. - Vais estar por c amanh?
 medida que a via aproximar-se, o rosto meio oculto na escurido, soube com certeza que ainda a amava. Independentemente da carta dela, independentemente do marido 
dela. Independentemente do facto de que nunca haveramos de ficar juntos.
- Porqu? - indaguei.
- Estava aqui a pensar se no te importarias de passar por c. Por volta das dez. Tenho a certeza de que o Tim gostaria de te ver...
Ainda ela no tinha terminado e j eu estava a abanar a cabea.
- No sei se ser boa ideia...
- No s capaz de fazer isso por mim?
Eu sabia que a Savannah queria que eu visse que o Tim continuava a ser o mesmo homem que eu conhecera e, num certo sentido, sabia que me estava a fazer aquele pedido, 
porque queria que a perdoasse. Mas...
Estendeu o brao para me pegar na mo. - Por favor.  muito importante para mim.
- Est bem - acedi. - s dez da manh.
- Obrigada.
Passado um instante, a Savannah deu meia-volta para se ir embora. Eu deixei-me ficar onde estava, a v-la subir os degraus do alpendre
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antes de entrar no carro. Rodei a chave e fiz marcha-atrs. Acenei-lhe, em seguida meti para a estrada, a imagem da Savannah a diminuir gradualmente no espelho retrovisor. 
Ao v-la, veio-me uma secura sbita  boca. No por ela ser casada com o Tim, nem por saber que os iria encontrar a ambos no dia seguinte. O motivo prendeu-se com 
o facto de, ao olhar para ela enquanto me afastava, no alpendre, a ver cobrir com as mos o rosto em lgrimas.
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CAPITULO VINTE
Na manh seguinte, a Savannah estava  minha espera no alpendre e acenou-me ao ver-me encostar  berma do acesso. Enquanto eu estacionava o carro, ela veio ter comigo. 
Estava quase certo de ir ver o Tim aparecer por detrs dela  porta, mas no foi isso que sucedeu.
- Ol - cumprimentou-me a Savannah, tocando-me no brao.
- Obrigada por teres vindo.
- Pois - disse eu, dando-lhe um encolher de ombros relutante. Pareceu-me vislumbrar um lampejo de entendimento nos olhos
dela antes de me perguntar: - Dormiste bem?
- Nem por isso.
Ao ouvir isto, a Savannah forou um sorriso. - Ests pronto?
- Mais no podia estar.
- Ento vamos - decidiu. - Deixa-me s ir buscar as chaves. A menos que queiras ser tu a conduzir.
A princpio no percebi o que  que ela queria dizer. - Vamos a algum lado? - Acenei com a cabea na direco da casa. - Pensei que fssemos ver o Tim.
- E vamos - confirmou ela. - Mas ele no est em casa.
- Ento onde  que est?
Foi o mesmo que se ela no me tivesse ouvido. - Preferes ser tu a conduzir?
- Sim, acho que  melhor - anu, sem me preocupar em ocultar o meu espanto, mas ciente de que, quando chegasse o momento, a Savannah acabaria por esclarecer a situao. 
Abri a porta para ela entrar, contornei o carro at ao lugar do condutor e deslizei para trs do volante. A Savannah estava a passar a mo pelo painel de instrumentos, 
como que para provar a si prpria que era real.
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- Eu lembro-me deste carro. - A expresso dela era nostlgica.
-  o carro do teu pai, no ? Uau, mal posso crer que ainda funcione.
- Ele no se servia muito dele - justifiquei-me. - Era s para ir para o trabalho e s compras.
- Ainda assim.
A Savannah prendeu o cinto de segurana, e, mesmo contra a minha vontade, interroguei-me se teria passado a noite sozinha.
- Para que lado vamos? - indaguei.
- Quando chegares  estrada, viras  direita - indicou-me ela.
- Toma a direco da cidade.
Seguimos ambos em silncio. A Savannah mantinha os olhos fixos na janela a seu lado, os braos cruzados. Eu poderia ter ficado magoado, contudo, havia algo na expresso 
dela que me dizia que as suas preocupaes nada tinham que ver comigo, e deixei-a entregue aos seus pensamentos.
Nas cercanias da cidade, via-a abanar a cabea, como se ganhasse conscincia sbita do silncio que reinava dentro do carro. - Desculpa - disse-me. - Creio que a 
minha companhia deixa muito a desejar.
- No tem importncia - respondi-lhe, esforando-me por disfarar a minha curiosidade crescente.
A Savannah apontou para o pra-brisas. - Na prxima esquina, vira  direita.
- Aonde  que vamos?
Ela no me respondeu de imediato. Ao invs, desviou o olhar e concentrou-o na janela do passageiro.
- Ao hospital - disse por fim.
Eu segui-a atravs de corredores que pareciam no ter fim, detendo-nos finalmente junto ao balco de registo das visitas. Por detrs da secretria, encontrava-se 
uma voluntria de idade avanada com uma prancheta na mo. A Savannah pegou numa caneta e comeou automaticamente a assinar.
- Ests a conseguir aguentar-te, Savannah?
- vou fazendo os possveis - murmurou ela em resposta.
- Tudo vai acabar por se resolver pelo melhor. Tens toda a cidade a rezar por ele.
- Obrigada - disse a Savannah. Devolveu a prancheta, em seguida olhou para mim. - Ele est no terceiro piso - esclareceu-me. - Os elevadores so mesmo ao fundo do 
corredor.
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Eu fui atrs dela, sentindo o estmago s voltas. Chegmos ao elevador no momento em que vinha uma pessoa a sair e entrmos. Quando as portas se fecharam, tive a 
sensao de estar dentro duma tumba.
As portas do elevador abriram-se no terceiro piso, e a Savannah comeou a percorrer o corredor comigo no seu encalo. Deteve-se  entrada dum quarto com a porta 
entreaberta e em seguida virou-se para mim.
- Acho que  melhor eu ir primeiro - decidiu ela. - No te importas de esperar aqui?
-  claro que no.
Ela exibiu um leve sinal de agradecimento, depois deu meia-volta. Inspirou fundo antes de entrar no quarto. - Ol, querido - ouvi-a chamar, com voz animada. - Tens 
passado bem?
Foi tudo o que ouvi durante os minutos sucessivos. Deixei-me ficar no corredor, a assimilar o mesmo ambiente estril e impessoal de que me dera conta durante as 
visitas ao meu pai. O ar tresandava a um desinfectante insuportvel, e eu fiquei a observar um auxiliar a empurrar um carrinho com comida para um quarto ao fundo 
do corredor. A meio do corredor, estava um grupo de enfermeiras reunido em volta do posto. Por detrs da porta do outro lado do corredor, ouvia algum a tentar vomitar.
- Pronto - chamou-me a Savannah, espreitando com a cabea para fora do quarto. Por debaixo da aparncia corajosa, a sua tristeza era notria. - J podes entrar. 
Eu disse-lhe que lhe queria fazer uma surpresa.
Fui atrs dela, preparando-me para o pior. Encontrei o Tim sentado na cama com um cateter de alimentao intravenosa no brao. Tinha um aspecto exausto, e a sua 
pele estava to plida que parecia quase translcida. Havia perdido ainda mais peso que o meu pai, e, enquanto fiquei a olhar para ele, no conseguia deixar de pensar 
que estava a morrer. Apenas a bondade do seu olhar se mantinha inalterada. Na outra extremidade do quarto, encontrava-se um jovem (andaria talvez na casa dos vinte), 
a virar a cabea dum lado para o outro, e eu percebi de imediato que se tratava do Alan. O quarto estava inundado de flores; dzias de ramos e cartes a desejar 
as melhoras colocados em todas as mesas e peitoris disponveis. A Savannah sentou-se na cama ao lado do marido e deu-lhe a mo.
- Ol, Tim - cumprimentei-o eu.
Ele parecia estar demasiado cansado para sorrir, mas, a muito custo, l conseguiu. - Ol, John. Prazer em ver-te.
- O prazer  meu - retribu-lhe. - Como  que vai isso?
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-- Mal acabei de dizer aquelas palavras, apercebi-me de imediato do ridculo da situao. O Tim j devia estar habituado, porque nem pestanejou.
- Est tudo bem - respondeu ele. - Agora j me sinto melhor. Eu assenti com a cabea. O Alan continuava a revirar a cabea, e eu dei por mim a olhar para ele, sentindo-me 
um intruso em acontecimentos que preferia ter evitado.
- Este  o meu irmo, o Alan - disse ele.
- Ol, Alan.
Quando o Alan no respondeu, ouvi o Tim sussurrar-lhe: - Ento, Alan? No faz mal. Ele no  um mdico.  um amigo. Vai l cumpriment-lo.
Levou alguns instantes, porm o Alan acabou por se levantar do lugar. Encaminhou-se na minha direco, e embora se recusasse a olhar-me de frente, estendeu-me a 
mo. - Ol, sou o Alan - apresentou-se ele num tom surpreendentemente grave e montono.
-  um prazer conhecer-te - respondi-lhe, apertando-lhe a mo. Era frouxa; o Alan abanou-a uma vez, em seguida sacudiu-a e voltou ao seu lugar.
- Se te quiseres sentar, tens a uma cadeira - sugeriu-me o Tim. Eu deambulei pelo quarto e instalei-me na cadeira. Antes de ter oportunidade sequer de lhe perguntar, 
ouvi o Tim a responder  pergunta que no me saa do pensamento.
- Melanoma - afirmou ele. - Para o caso de teres ficado admirado.
- Mas vais ficar bom, no vais?
A cabea do Alan comeou a virar ainda com maior rapidez, e ele ps-se a dar palmadas nas prprias coxas. A Savannah desviou o olhar. Eu j sabia a resposta e desejei 
no ter feito aquela pergunta.
-  isso que os mdicos andam a tentar fazer - afirmou o Tim.
- Estou em boas mos. - Eu percebi que a resposta era mais para o Alan que para mim prprio, e o Alan l se comeou a acalmar.
O Tim fechou os olhos e tornou a abri-los de seguida, como se estivesse a tentar reunir foras. - Fico feliz por ver que voltaste so e salvo
- observou ele. - Rezei sempre por ti enquanto estiveste no Iraque.
- Obrigado - disse eu.
- E o que  que tens andado a fazer? Calculo que continues no exrcito.
Ele dirigiu um aceno para o meu cabelo cortado  escovinha, e eu passei a mo pela cabea. - Pois . Parece-me que estou condenado a l ficar.
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- Ainda bem - congratulou-se o Tim. - O exrcito precisa de pessoas como tu.
Eu no disse nada. A cena pareceu-me surreal, como se me estivesse a ver a mim prprio num sonho. O Tim virou-se para a Savannah. - Minha querida, no queres ir 
tomar um refresco com o Alan? Ele est sem comer desde manh. Talvez o consigas convencer a comer alguma coisa.
- Claro - acedeu ela. Deu-lhe um beijo na testa e levantou-se da cama. Deteve-se na soleira da porta. - Anda, Alan. Vamos tomar uma bebida, est bem?
A mim, pareceu-me que o Alan tinha dificuldade em processar o que ouvia. Por fim, l se levantou e seguiu a Savannah; enquanto abandonavam o quarto, ela apoiou-lhe 
uma mo delicadamente nas costas. Depois de ambos se irem embora, o Tim tornou a virar-se para mim.
- Tudo isto tem sido muito duro para o Alan. Est a custar-lhe muito a aceitar.
- O contrrio  que seria de admirar.
- Mas no te deixes enganar por ele estar constantemente a abanar a cabea dum lado para o outro. No tem nada que ver com o autismo nem com o facto de ser inteligente 
ou no. E mais uma espcie de tique que ele apanhou sempre que est nervoso. O mesmo se aplica ao hbito de bater nas coxas. Ele compreende o que se passa, mas isso 
afecta-o de formas que em geral deixam as outras pessoas pouco  vontade.
Entrelacei as mos. - Eu no me senti pouco  vontade - observei. - O meu pai tambm tinha l as suas coisas.  teu irmo e  natural que esteja preocupado. Faz 
sentido.
O Tim esboou um sorriso. -  muito amvel da tua parte dizeres isso. H muitas pessoas que ficam assustadas.
- Eu no - insisti, abanando a cabea. - Sei que seria capaz de o aguentar.
Por estranho que pudesse parecer, ele riu-se, apesar de isso lhe ter custado um enorme esforo.
- Quanto a isso no tenho dvidas - afirmou. - O Alan  meigo. Talvez meigo de mais, at. Nem sequer as moscas ele enxota.
Eu assenti com a cabea, reconhecendo que toda aquela conversa de circunstncia era apenas a forma de o Tim me tentar pr mais  vontade. No estava a dar resultado.
- Quando  que descobriste?
- H um ano. Um sinal que eu tinha na barriga da perna comeou a fazer-me comicho, e quando eu cocei, deitou sangue.  claro
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que naquela altura no dei muita importncia ao caso, at que me tornou a fazer comicho, eu tornei a coar e sangrou novamente. H seis meses, fui ao mdico. Foi 
numa sexta-feira. Fui operado num sbado e na segunda-feira puseram-me a interferon. E agora, aqui estou. - Tens estado este tempo todo no hospital?
- No. S sou internado de vez em quando. Em geral, o interferon  administrado a doentes externos, mas eu e o interferon no nos damos bem. No tolero bem o medicamento, 
por isso agora decidiram administrar-mo aqui. Para prevenir a eventualidade de eu ficar com nuseas e comear a entrar em desidratao. Como me aconteceu ontem.
- Lamento - disse eu.
- Tambm eu.
Olhei em redor do quarto, e os meus olhos detiveram-se numa moldura barata com uma fotografia do Tim e da Savannah abraados ao Alan. - Como  que a Savannah se 
tem estado a aguentar? - perguntei-lhe.
- Como tu possas imaginar. - O Tim fez deslizar a mo que tinha livre por uma prega no lenol. - Ela tem sido extraordinria. No apenas comigo, mas tambm com o 
rancho. Ultimamente tem sido ela a tomar conta de tudo, mas nunca a ouvi queixar-se. E sempre que est ao p de mim, esfora-se por se mostrar forte. Nunca se cansa 
de me dizer que vou ficar bom. - Esboou o vislumbre dum sorriso. - Metade das vezes, at acredito nela.
Quando viu que eu no respondia, o Tim debateu-se para se sentar mais direito. Retraiu-se, mas a dor acabou por desaparecer, e ele voltou a ser o mesmo. - A Savannah 
contou-me que ontem jantaste no rancho.
- Pois foi - confirmei.
- Aposto que ela ficou contente por te ver. Sei que ela no se sente bem consigo prpria por as coisas terem acabado da maneira que acabaram, e eu tambm no. Devo-te 
um pedido de desculpas.
- Nem penses nisso. - Levantei as mos. - No tem importncia.
O Tim forou um sorriso. - S ests a dizer isso, porque me vs aqui doente. Se eu estivesse bem de sade, provavelmente apetecia-te partires-me outra vez o nariz.
-  possvel - admiti, e embora o Tim se risse novamente, desta feita a sua gargalhada deixou transparecer a doena.
- Seria bem merecido - disse ele, alheio aos meus pensamentos.
- Sei que talvez possas no acreditar, mas sinto-me mal a respeito do que sucedeu. Eu sei que vocs gostavam mesmo um do outro.
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Eu debrucei-me para a frente, apoiando-me nos cotovelos. - So guas passadas - declarei.
Eu no acreditava naquilo, e percebi que o Tim tambm no acreditou. Mas foi o suficiente para pormos o assunto de lado. - O qu  que te traz por c ao fim de tanto 
tempo? H
- O meu pai faleceu - contei-lhe. - A semana passada.
No obstante a doena, o seu rosto reflectia compaixo genuna.
- Os meus sentimentos, John. Eu sei o quanto ele significava para ti. Foi de repente?
- No fim,  sempre assim que acaba por ser. Mas j h uns tempos que ele andava doente.
- No  por isso que nos custa menos a aceitar.
Dei por mim a perguntar-me se o Tim se estaria a referir apenas a mim ou tambm  Savannah e ao Alan.
- A Savannah contou-me que os teus pais tambm morreram.
- Num acidente de automvel - afirmou ele, arrastando as palavras. - Foi... inacreditvel. Tnhamos estado a jantar com eles h uma questo de dias e quando dou 
por mim, sabes, estou a tratar dos preparativos para o funeral deles. Nem conseguia acreditar. Quando estou em casa, estou sempre  espera de ver a minha me na 
cozinha ou o meu pai entretido com o jardim. - Teve um momento de hesitao, e eu percebi que estava a recordar aquelas imagens. Por fim, abanou a cabea. - No 
te acontecia o mesmo quando estavas em casa?
- A todo o instante.
O Tim recostou a cabea. - Acho que os ltimos dois anos no tm sido nada fceis para ns. No h dvida de que  um grande teste de f.
- At mesmo para ti?
Ele esboou-me um sorriso desanimado. - Eu disse teste. No disse que era o fim.
- No, julgo que no  caso para isso.
Ouvi a voz da enfermeira a aproximar-se, e embora eu estivesse  espera de a ver entrar, ela dirigiu-se a um quarto mais adiante.
- Ainda bem que vieste visitar a Savannah - disse o Tim. Sei que pode parecer trivial tendo em conta tudo por que tens passado, mas neste momento ela precisa dum 
amigo.
Senti um aperto na garganta. - Pois precisa - foi tudo o que consegui dizer.
O Tim ficou em silncio, e eu percebi que no tornaria a tocar naquele assunto. A seu tempo, acabou por adormecer, e eu sentei-me a observ-lo, sentindo a mente 
curiosamente vazia.
- Desculpa no te ter contado ontem - disse a Savannah uma hora mais tarde. Quando ela e o Alan tinham voltado ao quarto e encontrado o Tim a dormir, ela fez-me 
sinal para que a acompanhasse ao piso inferior, at  cafetaria. - Fiquei admirada por te ver ali e sei que te deveria ter dito alguma coisa, mas sempre que me preparava 
para isso, perdia a coragem.
Estavam apenas duas chvenas de ch em cima da mesa, visto que a nenhum de ns apetecia comer. A Savannah levantou a chvena e tornou a pous-la.
-  que ontem foi um daqueles dias, sabes? Passei horas no hospital, e as enfermeiras no paravam de me deitar aqueles olhares de comiserao... bom, daqueles que 
parecem que nos vo matando aos poucos. Eu sei que parece ridculo tendo em conta aquilo por que o Tim tem passado, mas custa-me tanto v-lo maldisposto. No suporto. 
Eu sei que o meu dever  estar ao lado dele, a apoi-lo, e a verdade  que  isso que tenho vontade de fazer, mas  sempre pior que imagino. Ontem, depois do tratamento, 
ele ficou to agoniado que eu pensei que estivesse a morrer. No conseguia controlar os vmitos, e quando j no tinha mais nada para vomitar, continuava a ter arranques. 
A cada cinco ou dez minutos, comeava a gemer e a contorcer-se na cama para tentar conter os vmitos, mas no havia nada a fazer. Eu abracei-o e tentei consol-lo, 
mas nem encontro palavras para descrever a impotncia que senti. - A Savannah tirou a saqueta de ch da gua e tornou a met-la. -  sempre assim - concluiu.
Eu entretive-me com a asa da minha chvena. - Quem me dera saber o que dizer para te ajudar.
- No h nada que possas dizer, como eu bem sei.  por isso que estou a conversar contigo. Porque sei que s capaz de aguentar. No tenho mais ningum com quem desabafar. 
Os meus amigos nem se conseguem aperceber daquilo por que eu tenho passado. Os meus pais tm sido ptimos... mais ou menos. Eu sei que fariam tudo o que eu lhes 
pedisse, e que se mostram sempre prontos a ajudar, e a minha me traz-me as refeies, mas sempre que passa l por casa, vem uma pilha de nervos. Est sempre  beira 
das lgrimas. E como se tivesse um medo terrvel de dizer ou fazer alguma coisa errada, por isso, apesar de ser ela que me est a tentar ajudar, tenho de ser eu 
a dar-lhe tambm apoio, em vez de ser ao contrrio. A juntar a tudo o resto, por vezes  de mais. Detesto ter de dizer isto dela, porque est a dar o seu melhor, 
e  minha me, e eu adoro-a, mas quem me dera que ela fosse mais forte, sabes?
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Recordando a me dela, eu assenti com a cabea. - Ento e o teu pai?
-  o mesmo, mas duma maneira diferente. Ele evita o assunto. Recusa-se simplesmente a falar nisso. Quando estamos os dois, pe-se a falar do rancho ou do meu trabalho... 
de tudo menos do Tim.  como se se esforasse por compensar o estado de preocupao constante da minha me, mas nunca me pergunta como esto as coisas nem como  
que eu estou a reagir. - A Savannah abanou a cabea. - E depois h o problema do Alan. O Tim tem tanto jeito para ele, e eu gosto de pensar que tambm estou a comear 
a apanh-lo, mas ainda assim. H ocasies em que ele comea a agredir-se a si prprio ou a partir coisas, e eu acabo lavada em lgrimas, porque no sei o que  que 
lhe hei-de fazer. No me interpretes mal... Eu esforo-me, mas no sou o Tim e ambos sabemos disso.
Os olhos da Savannah fitaram os meus durante um momento, at que eu desviei o olhar. Bebi um gole de ch, tentando imaginar o tipo de vida que ela levaria agora.
- O Tim contou-te o que  que se passa? Disse-te que tem um melanoma?
- Alguma coisa - respondi-lhe. - Mas no entrou em grandes detalhes. Contou-me que tinha encontrado um sinal na barriga da perna e que deitava sangue. Durante uns 
tempos ele no fez caso, mas depois acabou por ter de ir ao mdico.
A Savannah assentiu com a cabea. -  uma daquelas coisas em que at custa a acreditar, no ? Quer dizer, se o Tim passasse a vida deitado ao sol, talvez eu conseguisse 
compreender. Mas o sinal apareceu-lhe na barriga da perna. Tu conhece-lo... ests a v-lo de bermudas? Ele raramente anda de cales, mesmo na praia, e andava sempre 
a atazanar-nos para no nos esquecermos de aplicar protector solar. No bebe lcool, no fuma, tem cuidado com o que come. Mas, sabe-se l por que razo, apanha 
um melanoma. Removeram-lhe a zona em volta do sinal e, por causa do tamanho, retiraram-lhe dezoito ndulos linfticos. Dos dezoito, um deles acusou melanoma. Comearam 
a administrar-lhe interferon...  o tratamento-padro e prolonga-se por um ano... e ns fizemos o possvel por no perdermos o optimismo. Mas as coisas foram correndo 
mal. Primeiro com o interferon e depois, umas semanas decorridas sobre a operao, comeou a aparecer-lhe celulite infecciosa junto s virilhas.
Quando me viu franzir o sobrolho, ela conteve-se.
- Desculpa.  que ultimamente no fao outra coisa que falar com mdicos e j me habituei. A celulite  uma inflamao da pele, e a do Tim  bastante grave.  conta 
disso, passou dez dias na unidade de cuidados intensivos. A certa altura pensei que ia perd-lo, mas ele  um verdadeiro lutador, sabias? Conseguiu ultrapassar essa 
fase e continuar com o tratamento, mas no ms passado descobriram-lhe leses cancerosas prximas da zona onde lhe tinha aparecido o melanoma. Isso, como podes imaginar, 
implicou mais uma ronda de operaes, mas desta vez ainda foi pior, porque significava que o interferon provavelmente no estava a funcionar to bem como devia. 
Fizeram-lhe uma tomografia por emisso de positres e uma ressonncia magntica, e, como j seria de esperar, detectaram-lhe clulas cancerosas num dos pulmes.
A Savannah ps-se a olhar fixamente para a chvena de ch. Eu sentia-me esgotado e sem palavras e, durante muito tempo, permanecemos em silncio.
- Lamento imenso - sussurrei-lhe por fim.
As minhas palavras trouxeram-na de volta  realidade. - Eu no vou desistir - disse ela com a voz a comear a faltar-lhe. - Ele  uma pessoa to boa. E meigo,  
paciente e eu gosto tanto dele. No  justo. Ainda nem fizemos dois anos de casados.
Ela olhou para mim e respirou fundo algumas vezes, num esforo para recuperar a compostura.
- O Tim precisa de sair daqui. Do hospital. Eles aqui no sabem fazer mais nada a no ser p-lo a interferon, e, tal como te acabei de dizer, no est a dar os resultados 
pretendidos. Ele precisa de ir para um stio como o MD Anderson, ou a Mayo Clinic, ou o John Hopkins. E nesses stios que actualmente decorrem as investigaes de 
ponta. Se o interferon no est a cumprir os objectivos, talvez exista outro medicamento que lhe possam associar: esto sempre a testar combinaes diferentes, ainda 
que seja a nvel experimental. H stios em que se fazem bioquimioterapia e testes clnicos. O MD Anderson tem mesmo previsto comear a testar uma vacina em Novembro... 
no para preveno, como a maior parte das vacinas, mas para tratamento... e os dados preliminares parecem apresentar resultados promissores. Eu quero que o Tim 
seja integrado nesse teste.
- Ento fora - encorajei-a.
A Savannah soltou uma curta gargalhada. - No  assim to fcil quanto isso.
- Porqu? A mim, parece-me bastante bvio. Mal o consigas tirar daqui, metem-se no carro e vo para l.
- O nosso seguro no paga o tratamento - esclareceu-me ela. Pelo menos, no neste momento. O Tim tem recebido os cuidados considerados apropriados... e, quer acredites 
quer no, a seguradora
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tem-se mostrado bastante receptiva. Tm pago todas as hospitalizaes, o interferon, e todos os extras sem levantarem problemas. At me atriburam uma assistente 
social e, acredita no que te digo, ela tem revelado grande interesse pela situao difcil que estamos a atravessar. Mas enquanto o nosso mdico considerar que se 
deve continuar com o interferon por mais uns tempos, no h nada que ela possa fazer. Nenhuma seguradora neste mundo se dispe a pagar tratamentos experimentais. 
E nenhuma aceitar pagar tratamentos para alm dos convencionais, sobretudo se eles so realizados noutro estado e se baseiam na experimentao de novas terapias 
na esperana de que talvez possam resultar.
- Processa-os se preciso for.
- John, at agora a nossa seguradora no levantou a mais pequena objeco a pagar todas as despesas dos cuidados intensivos e das vrias hospitalizaes, e a verdade 
 que o Tim est a receber o tratamento apropriado. O problema  que eu no posso provar que o Tim iria melhorar se recebesse tratamentos alternativos noutro stio. 
Eu acho que poderia ajudar, eu espero que o ajude, mas ningum pode afirmar com certeza absoluta que isso ir acontecer. - A Savannah abanou a cabea.
- Seja como for, mesmo que eu levasse a companhia de seguros a tribunal e esta fosse obrigada a pagar tudo o que eu lhe exigisse, isso levaria tempo... e tempo  
uma coisa que ns no temos. - Ela soltou um suspiro. - Aonde eu quero chegar  que no se trata apenas dum problema de dinheiro, mas sobretudo dum problema de tempo.
- De quanto dinheiro  que ests a falar?
- Muito. E se o Tim acabar por ir parar  unidade de cuidados intensivos com uma infeco... como j aconteceu... nem consigo imaginar. Mais que eu algum dia poderei 
pagar, isso  garantido.
- E o que  que ests a pensar fazer?
- Arranjar o dinheiro - disse ela. - No me resta outra alternativa. E a comunidade tem-nos mostrado o seu apoio. Mal a histria do Tim se comeou a espalhar, fizeram 
uma reportagem para o noticirio da estao local e saiu um artigo no jornal, e houve gente de toda a cidade que prometeu comear a fazer uma colecta. At abriram 
uma conta no banco propositadamente para isso, e tudo. Os meus pais tambm ajudaram, tal como o stio onde eu trabalho. At j ouvi dizer que em muitas lojas tm 
boies para os donativos  vista.
A minha memria foi projectada para a imagem do frasco no balco do salo de jogos, no dia da minha chegada a Lenoir. Eu contribura com alguns dlares, porm, subitamente, 
senti que era de todo insuficiente.
- Ainda te falta muito?
- No fao ideia. - A Savannah abanou a cabea, como se estivesse relutante em debruar-se sobre o assunto. - Tudo comeou h muito pouco tempo, e desde que o Tim 
est a receber tratamento, a minha vida tem-se dividido unicamente entre o hospital e o rancho. Mas estamos a falar de muito dinheiro. - Ela afastou a chvena e 
ofereceu-me um sorriso melanclico. - Nem sei por que  que me deu para te contar isto. Afinal, nem sequer posso garantir que qualquer dos outros hospitais o v 
ajudar. Tudo o que te consigo dizer com certeza  que, se continuarmos aqui, no ter qualquer hiptese. Pode no ter hipteses em mais lugar nenhum, mas pelo menos 
ainda h uma possibilidade... e neste momento,  tudo o que
nos resta.
A Savannah calou-se, incapaz de prosseguir, fitando abstraidamente o tampo manchado da mesa.
- Sabes o mais estranho de toda esta situao? - acabou ela por indagar. - s a nica pessoa a quem contei isto. No sei explicar porqu, mas tenho a sensao de 
que s a nica pessoa em condies de compreender aquilo por que estou a passar, sem eu sentir que tenho de medir as palavras. - Levantou a chvena, em seguida tornou 
a pous-la. - Eu sei que no  justo tendo em conta que o teu pai...
- No faz mal - tranquilizei-a.
- Talvez no faa - disse ela. - Mas no deixa por isso de ser egosta. Tu j ests a braos com o sofrimento que a perda do teu pai te causou, e eu para aqui, a 
sobrecarregar-te com as minhas angstias relativamente a uma coisa que poder ou no acontecer. - A Savannah desviou o olhar para a janela da cafetaria, mas eu sabia 
que ela no estava a ver o relvado em declive que dali se avistava.
- Eh - chamei-a, pegando-lhe na mo. - Estou a falar a srio. Ainda bem que me contaste, quanto mais no seja para desabafares. Por que  que achas que vim aqui? 
Porque precisava de encontrar uma pessoa disposta a ouvir-me.
A seu tempo, a Savannah encolheu os ombros. - Ento  isso que ns somos, no ? Dois guerreiros feridos  procura de consolo.
- Parece-me uma boa descrio.
Os olhos dela ergueram-se para encontrarem os meus. - Que sorte a nossa - murmurou.
Apesar de tudo, senti um leve sobressalto no peito.
- Pois  - ecoei. - Que sorte a nossa.
Passmos quase toda a tarde no quarto do Tim. Quando l chegmos, encontrmo-lo ainda a dormir, depois acordou durante uns dez minutos para logo tornar a adormecer. 
O Alan mantinha-se de viglia aos ps da cama dele, alheio  minha presena e completamente concentrado no irmo. A Savannah ou estava  cabeceira do Tim, ou numa 
cadeira ao lado da minha. Enquanto esteve junto a mim, conversmos da doena que afectava o Tim, do cancro de pele em geral, acerca dos pormenores de possveis tratamentos 
alternativos. Ela estivera semanas ocupada a fazer pesquisa na Internet e conhecia detalhadamente todos os testes clnicos em curso. A sua voz nunca se elevava para 
alm dum suspiro; a Savannah no queria que o Alan a ouvisse. Quando ela acabou, eu sabia mais acerca do melanoma que algum dia pensei vir a saber.
J passava um pouco da hora do jantar quando a Savannah finalmente se levantou. O Tim estivera quase toda a tarde a dormir, e pela ternura do beijo com que ela se 
despediu dele, percebi que estava convencida de que a noite seria tambm tranquila. Beijou-o uma vez mais, em seguida apertou-lhe a mo e encaminhou-se para a porta. 
Samos sem fazer barulho.
- Vamos para o carro - disse-me a Savannah mal nos encontrmos c fora, no corredor.
- Ainda voltas c hoje?
- S amanh. Se o Tim acordar, no quero que ele se sinta na obrigao de ficar acordado para me fazer companhia. Ele precisa de repouso.
- Ento e o Alan?
- Ele veio de bicicleta - esclareceu-me ela. - Vem todas as manhs para aqui de bicicleta e s volta para casa  noite. Recusa-se a ir comigo, mesmo que seja eu 
a pedir-lhe. Mas no h problema. H meses que ele faz o mesmo trajecto.
Decorridos alguns minutos, abandonmos o parque de estacionamento do hospital e embrenhmo-nos na corrente do trfego do fim da tarde. O cu estava a ficar cinzento-chumbo, 
e no horizonte viam-se nuvens carregadas, prometendo uma tempestade como aquelas que assolavam regularmente a costa. A Savannah seguia perdida nos seus pensamentos 
e no falou muito. Vislumbrei-lhe reflectida no rosto a mesma fadiga que eu prprio sentia. No me conseguia imaginar a regressar ali no dia seguinte, e no outro, 
e no outro ainda, sabendo que havia a possibilidade de o Tim poder melhorar noutro hospital.
Quando encostmos ao acesso, olhei para a Savannah e vi uma lgrima a deslizar-lhe lentamente pela face. Pouco faltou para o corao se me partir, porm, quando 
ela reparou que eu estava a observ-la, limpou a lgrima, mostrando-se surpreendida pelo seu surgimento.
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Estacionei o carro debaixo do salgueiro, prximo da carrinha velha. Foi ento que as primeiras gotas de chuva comearam a atingir o pra-brisas.
com o carro em ponto morto, interroguei-me se seria chegado o momento de nos despedirmos. Antes de eu ter tempo de pensar em algo que dizer, a Savannah virou-se 
para mim. - Ests com fome?
- perguntou-me ela. - Tenho o frigorfico cheio de comida.
Algo no olhar dela me avisou que era melhor recusar, mas dei por mim a assentir com a cabea. - Gostava imenso de comer qualquer coisa - aceitei.
- Ainda bem - disse ela, com voz suave. - Esta noite no me est a apetecer nada ficar sozinha.
Samos do carro quando a chuva se comeou a intensificar. Demos uma corrida at  porta, contudo, quando chegmos ao alpendre, eu j sentia a roupa encharcada a 
colar-se-me ao corpo. A Molly ouviu-nos, e, quando a Savannah abriu a porta, a cadela passou por mim de repente vinda da cozinha at ao que eu presumia ser a sala 
de estar.  medida que a observava, ia pensando na minha chegada ali no dia anterior e no quanto as nossas vidas haviam mudado durante o tempo em que estivramos 
separados. Era demasiado para conseguir assimilar duma s vez. Duma forma semelhante ao que fazia quando andava em patrulhamento no Iraque, esforcei-me por me concentrar 
apenas no presente, sem no entanto deixar de me manter alerta para o que pudesse acontecer.
- H um pouco de tudo - gritou-me a Savannah a caminho da cozinha. -  assim que a minha me tem encarado a situao. A cozinhar. Temos guisado, chili, empado de 
galinha, costeletas de porco grelhadas, lasanha... - Quando entrei na cozinha, vi a cabea dela espreitar para fora do frigorfico. - Alguma coisa te tenta o paladar?
- No faz diferena - assegurei-lhe. - Como o mesmo que tu comeres.
Perante a minha resposta, vi um laivo de desapontamento perpassar-lhe pelo rosto, e percebi instantaneamente que ela estava cansada de ter de tomar decises. Clareei 
a voz.
- A lasanha talvez no fosse m ideia.
- Est bem - assentiu a Savannah. - vou j aquecer uma dose para cada um. Ests com fome para jantar ou s para petiscar alguma coisa?
Reflecti um instante. - com fome para jantar, acho eu.
- Vais querer salada? Tenho a azeitonas pretas e tomates para acompanhar. Fica uma delcia com molho de rancho e pedaos de po torrado.
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- J me est a crescer gua na boca. v,
- Ainda bem - disse ela. - No demora nada. Vi a Savannah a tirar um molho de alface e tomate da gaveta inferior do frigorfico. Lavou-os debaixo de gua corrente, 
cortou os tomates em cubos e a alface e em seguida deitou-os para uma taa de madeira. Depois decorou a salada com as azeitonas e levou a taa para a mesa. com a 
ajuda duma colher, serviu doses generosas de lasanha nos pratos e introduziu o primeiro no microondas. Os seus movimentos obedeciam a um ritmo regular, como se a 
simples tarefa que tinha entre mos a tranquilizasse.
- No sei o que pensas da ideia, mas eu no dizia que no a um copo de vinho. - A Savannah apontou para um pequeno suporte em cima da bancada junto ao lava-loia. 
- Tenho um Pinot Noir excelente.
- Posso provar um copo - acedi. - Precisas da minha ajuda para o abrir?
- No, deixa que eu trato disso. O meu saca-rolhas  um bocado temperamental.
A Savannah abriu a garrafa e encheu dois copos de vinho. No tardou a que se viesse sentar defronte a mim, os nossos pratos diante de ns. A lasanha fumegava, e 
o aroma fez-me tomar conscincia da fome que tinha. Depois de dar uma garfada, apontei com o garfo para o prato.
- Uau - comentei. - Est uma verdadeira delcia.
- , no ? - concordou a Savannah. Todavia, em lugar de comear a comer, ela preferiu tomar um gole de vinho. - Tambm  o prato preferido do Tim. Quando nos casmos, 
ele estava sempre a pedir  minha me para lhe fazer uma fornada. Ela adora cozinhar, e fica feliz por ver que as pessoas apreciam os seus cozinhados.
Do lado oposto da mesa, via-a deslizar o dedo pela beira do copo. O vinho tinto aprisionava a luz como a faceta dum rubi.
- Se quiseres mais, tenho que chegue - acrescentou a Savannah.
- Acredita que  um favor que me fazes. A maior parte das vezes a comida acaba por ir parar ao lixo. Eu sei que devia dizer  minha me para no trazer tanta, mas 
ela levaria a mal.
- Deve ser difcil para ela - reconheci eu. - Custa-lhe ver-te a sofrer.
- Eu sei. - Bebeu mais um gole de vinho.
- Mas vais comer, no vais? - Apontei-lhe para o prato com a comida ainda por tocar.
- No tenho fome - respondeu-me a Savannah. -  sempre assim quando.o Tim est no hospital... Aqueo qualquer coisa para
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comer, sento-me  mesa cheia de apetite, mas, mal olho para o prato,  como se o estmago se me fechasse. - Fixou o olhar no prato como se estivesse disposta a tentar, 
em seguida abanou a cabea.
- Faz-me l a vontade - encorajei-a. - Tens de comer.
- Eu estou bem.
Fiz uma pausa, o garfo a meio caminho da boca. - Ento e se for eu a pedir-te? No estou habituado a ter pessoas a olharem para mim enquanto como. E uma sensao 
estranha.
- Est bem. - A Savannah pegou no garfo, cortou um bocadinho de lasanha e levou-o  boca. - E agora, j ests contente?
- Oh, claro - ripostei com ar de desdm. - Era exactamente a isso que eu me estava a referir. Assim j me sinto muitssimo melhor. E  sobremesa, talvez possamos 
dividir algumas migalhas de po entre ambos. At l, s tens de continuar a segurar o garfo e a fingir que comes.
Ela riu-se. - Ainda bem que aqui ests - congratulou-se. Numa altura como esta, s a nica pessoa a quem passaria pela cabea falar comigo nesse tom.
- Em que tom? A srio?
-  isso mesmo - insistiu ela. - Quer acredites, quer no,  tal e qual isso que eu quis dizer. - Pousou o garfo e afastou o prato para o lado, ignorando o meu pedido. 
- Sempre tiveste jeito para isso.
- Lembro-me de pensar o mesmo a teu respeito.
A Savannah atirou o guardanapo para cima da mesa. - Bons velhos tempos, ha?
A maneira como ela olhou para mim fez o passado vir-me subitamente  memria, e por um instante, revivi cada emoo, cada esperana, cada sonho que alimentara em 
relao a ns dois. A Savannah voltava a ser a jovem que eu conhecera na praia, com a vida toda  sua frente, uma vida que eu desejava tornar parte da minha.
Ento ela passou uma mo pelo cabelo, e a aliana que tinha no dedo reflectiu a luz. Eu baixei o olhar, concentrando-o no prato.
- L isso  verdade.
Levei mais uma garfada  boca, esforando-me sem xito por apagar aquelas imagens. Mal acabei de engolir, tornei a enfiar o garfo na lasanha.
- O que  que se passa? - indagou ela. - Ests zangado comigo?
- No - menti-lhe.
- Mas olha que pareces.
A Savannah era a mesma mulher que eu guardava na memria.. s que agora era casada. Bebi um trago de vinho... um trago, reparei eu, que era equivalente a todos os 
goles que ela dera. Recostei-me na cadeira. - O que  que eu estou aqui a fazer, Savannah?
- No percebo aonde queres chegar - retorquiu ela.
- A isto - elucidei, fazendo um gesto que abrangeu toda a cozinha. - A convidares-me para jantar, apesar de no quereres comer. A recordar os velhos tempos. O que 
 que se passa?
- No se passa nada - insistiu.
- Ento o que  que ? Por que  que me convidaste?
Em lugar de responder  minha pergunta, a Savannah levantou-se e serviu-se de nova dose de vinho. - Talvez eu estivesse a precisar de algum com quem conversar - 
disse ela num sussurro. - Tal como te expliquei, no posso desabafar com os meus pais; nem sequer com o Tim eu posso falar assim. - A sua voz deixava transparecer 
um travo de derrota. - Toda a gente precisa de ter algum com quem desabafar.
Ela tinha razo, como eu bem sabia. Fora esse o motivo que me levara a Lenoir.
- Eu consigo compreender isso - assegurei-lhe, fechando os olhos. Quando os tornei a abrir, reparei no olhar avaliador da Savannah fixo em mim. - O que se passa 
 que no sei o que hei-de fazer quanto a tudo isto. Ao passado. A ns. Ao facto de tu seres casada. At mesmo ao que est a acontecer ao Tim. Nada parece fazer 
sentido.
O sorriso dela estava repleto de pesar. - E achas que para mim faz?
Quando viu que eu no dizia nada, a Savannah ps o copo de lado. - Queres saber a verdade? - indagou ela, sem esperar pela resposta. - Limito-me a chegar ao fim 
do dia com energia suficiente para enfrentar o seguinte. - Fechou os olhos como se admitir aquilo lhe causasse sofrimento, depois tornou a abri-los. - Eu sei o que 
tu continuas a sentir por mim, e gostaria imenso de te poder dizer que alimento um desejo secreto de que me contes tudo por que passaste desde que te mandei aquela 
carta horrvel, mas queres que seja franca? - A Savannah hesitou. - No tenho a certeza de querer saber. Tudo o que eu sei  que, quando aqui apareceste ontem, me 
senti... razovel. No ptima, no bem, mas tambm no me senti mal. E a questo  essa. Levei os ltimos seis meses a sentir-me mal. Acordo todos os dias a sentir-me 
tensa, nervosa, zangada, frustrada e cheia de medo de poder perder o homem que amo.  tudo o que sinto at que o Sol se torna a pr - prosseguiu ela. - Todos os 
dias, durante .todo o dia, durante os ltimos seis meses. Neste
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momento a minha vida  esta, mas o que mais me custa  saber que, daqui em diante, as coisas vo ficar ainda piores. Agora tenho a responsabilidade acrescida de 
tentar arranjar maneira de ajudar o meu marido. De tentar arranjar um tratamento capaz de o ajudar. De lhe tentar salvar a vida.
A Savannah interrompeu-se por um instante e olhou-me atentamente, num esforo para avaliar a minha reaco.
Eu sabia que deveriam existir palavras capazes de a consolar, porm, como sempre, no soube o que dizer. Tudo o que eu sabia  que ela era a mulher por quem eu em 
tempos me apaixonara, a mulher a que eu ainda amava, mas que nunca seria minha.
- Desculpa - acabou ela por dizer, com voz consumida. - No tive inteno de te embaraar. - Esboou-me um sorriso dbil. S queria que soubesses que estou feliz 
por aqui estares.
Concentrei o olhar na textura da madeira da mesa, esforando-me por manter as minhas emoes sob controlo apertado. - Ainda bem
- respondi-lhe.
A Savannah aproximou-se lentamente da mesa. Serviu-me mais vinho, embora eu ainda no o tivesse bebido todo. - Eu abro-te o meu corao e tudo o que tens a dizer 
: "Ainda bem"?
- O que querias tu que eu dissesse?
A Savannah afastou-se de mim e dirigiu-se  porta da cozinha.
- Podias dizer que tambm ests feliz por aqui estares - afirmou ela numa voz que mal se ouvia.
Dito isto, foi-se embora. No ouvi a porta da rua a abrir, por isso presumi que ela se retirara para a sala de estar.
O comentrio dela incomodara-me, mas no me senti na disposio de ir atrs dela. As coisas tinham mudado entre ns, e no havia forma de voltarem a ser o que eram. 
Fui levando a lasanha  boca num gesto de teimosia rebelde, enquanto me perguntava o que quereria a Savannah de mim. Fora ela quem me enviara a carta, fora ela quem 
acabara comigo. Fora ela quem se casara. Deveramos ns comportar-nos como se nada disto tivesse acontecido?
Acabei de comer, levei ambos os pratos para o lava-loia e passei-os por gua. Atravs da janela salpicada de chuva, avistei o meu carro e percebi que me deveria 
limitar a ir embora sem olhar para trs sequer. Assim, seria mais fcil para ambos. Contudo, quando meti as mos aos bolsos  procura das chaves, fiquei paralisado. 
Acima do som da chuva a tamborilar no telhado, ouvi um barulho vindo da sala de estar, um barulho que fez dissipar a minha raiva e a minha confuso. A Savannah, 
apercebi-me ento, estava a chorar.
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Tentei ignorar o barulho, mas no fui capaz. Peguei no meu copo de vinho e dirigi-me at  sala de estar.
Deparei-me com a Savannah sentada no sof, com o copo de vinho aninhado nas mos em concha. Quando me viu entrar, ergueu os olhos.
L fora, comeara a levantar-se vento, e a chuva caa cada vez com mais fora. Para alm da janela da sala de estar, os relmpagos retalhavam o cu, seguidos do 
ribombar imperturbvel do trovo, baixo e prolongado.
Sentando-me ao lado dela, pousei o copo na mesinha de apoio e olhei em redor da sala. Em cima da consola da lareira viam-se fotografias do dia do casamento da Savannah 
e do Tim: numa delas estavam ambos a cortar o bolo e outra fora tirada na igreja. A Savannah exibia um sorriso radiante, e eu dei por mim a desejar ser eu o homem 
a seu lado na fotografia.
- Desculpa - disse-me ela. - Eu sei que no devia estar a chorar, mas no consegui conter-me.
-  compreensvel - murmurei. - Tens motivos de sobra para isso.
Por entre o silncio, eu ouvia as btegas de chuva a fustigar as janelas.
- Mas que tempestade - observei,  procura de palavras capazes de preencher o silncio tenso.
- Pois  - concordou ela, mal me dando ateno.
- Achas que o Alan vai conseguir chegar a casa?
A Savannah tamborilou com os dedos no copo. - Ele s vai sair do hospital quando parar de chover. Tem medo de relmpagos. Mas j no deve demorar muito. O vento 
vai empurrar a tempestade em direco  costa. Pelo menos,  assim que tem sido ultimamente. Ela hesitou. - Lembras-te daquela vez em que tivemos de esperar que 
a tempestade passasse? Quando eu te fui mostrar a casa que andvamos a construir?
-  claro que lembro.
- Ainda me recordo dessa noite. Foi a primeira vez que eu te disse que te amava. Ainda outro dia me lembrei dessa noite. Estava aqui sentada, tal como estou agora. 
O Tim estava no hospital, o Alan estava a fazer-lhe companhia, e,  medida que eu via a chuva a cair, tudo me veio  memria. A recordao era to ntida, que tive 
a sensao de que tinha acabado de acontecer. E foi ento que a chuva parou e eu percebi que era altura de ir dar de comer aos cavalos. Voltei novamente  minha 
vida normal, e, de repente, senti-me como se tudo no tivesse passado de imaginao minha. Como
se tivesse sucedido a outra pessoa, uma pessoa com quem eu j nem sequer me desse.
A Savannah inclinou-se para mim. - Do que  que te lembras mais? - questionou-me.
- De tudo - respondi-lhe.
Ela olhou para mim por entre as pestanas. - Nada em especial?
A tempestade l fora tornava a sala escura e ntima, e eu senti um arrepio de expectativa culpada a pensar at aonde aquilo nos poderia conduzir. Desejava-a mais 
que alguma vez desejara algum, mas, bem l no fundo, sabia que a Savannah j no era minha. Sentia a presena do Tim a todo o meu redor, e percebia que ela no 
estava em si prpria.
Bebi um trago de vinho, em seguida pousei o copo em cima da mesa.
- No. - Mantive a voz serena. - No h nada em especial. Mas foi por esse motivo que me pediste para eu nunca me esquecer de contemplar a lua cheia, no foi? Para 
que me pudesse lembrar de tudo?
O que eu no lhe confessei foi que ainda continuava a contemplar a Lua e, no obstante a culpa que a minha presena ali me causava, perguntei-me se ela no faria 
o mesmo.
- Queres saber do que  que eu me lembro melhor? - indagou a Savannah.
- Da vez em que eu parti o nariz ao Tim?
- No. - Ela riu-se, depois comps um ar srio. - Lembro-me da vez em que fomos  missa. J reparaste que foi a nica altura em que te vi de gravata? Devias vestir-te 
a preceito mais vezes. Fica-te bem. - Pareceu deter-se a reflectir naquilo antes de tornar a virar os olhos para mim.
- Andas com algum? - perguntou-me.
- No.
A Savannah assentiu com a cabea. - Tambm me pareceu que no. Calculei que, a ser verdade, j tivesses tocado no assunto.
Ela virou-se para a janela. Ao longe, avistei um dos cavalos a galopar  chuva.
- No tarda nada, vou ter de lhes ir dar de comer. J devem estar admirados de eu ainda no ter aparecido.
- Eles podem esperar um bocadinho - garanti-lhe.
- Para ti,  fcil dizeres isso. Acredita em mim: quando esto com fome, so capazes de ficar to rabugentos como as pessoas.
- Deve estar a ser difcil para ti teres de lidar com tudo isto sozinha.
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- Podes ter a certeza. Mas que alternativa me resta? Pelo menos, o nosso patro tem-se mostrado compreensivo. O Tim est de licena e, quando ele  internado, eles 
deixam-me faltar sempre que preciso.
- Depois, em tom de provocao, a Savannah acrescentou: - Tal e qual como na tropa, no ?
- Oh, claro.  tal e qual a mesma coisa.
Ela soltou uma leve gargalhada, mas logo tornou a ficar sria.
- Ento e o Iraque?
Eu j me estava a preparar para fazer a piada do costume a respeito da areia, mas ao invs respondi-lhe: - E difcil descrever.
A Savannah ficou a aguardar, e eu peguei no meu copo de vinho, para ganhar tempo. Mesmo com ela, no estava certo de querer entrar naquele assunto. Todavia, alguma 
coisa se estava a passar entre ns, algo que eu, por um lado, queria, por outro no queria. Obriguei-me a olhar para a aliana da Savannah e a imaginar o arrependimento 
que ela no deixaria certamente de sentir depois. Fechei os olhos e comecei pela noite da invaso.
No sei precisar ao certo quanto tempo durou a nossa conversa, mas foi o suficiente para a chuva parar. com o Sol ainda a mergulhar lentamente por detrs das montanhas, 
o horizonte reflectia as cores dum arco-ris. A Savannah tornou a encher o copo. Quando acabei, sentia-me completamente esgotado e tive a certeza de que nunca mais 
tornaria a tocar naquele assunto.
A Savannah deixou-se ficar a ouvir-me em silncio, fazendo apenas uma pergunta ocasional para que eu percebesse que ouvia com ateno tudo o que eu lhe dizia.
-  diferente de tudo o que imaginei - observou ela.
- Ai sim? - indaguei.
- Quando passamos os olhos pelos ttulos ou lemos os artigos dos jornais, os nomes dos soldados e das cidades iraquianas no passam de meras palavras. Mas para ti, 
 uma coisa pessoal...  real. Talvez at real de mais.
Eu no tinha mais nada a acrescentar, e senti a mo dela segurar na minha. O toque dela provocou-me um sobressalto no peito.
- Quem me dera que nunca tivesses sido obrigado a passar por nada disso.
Apertei-lhe a mo, e senti-a reagir em conformidade. Quando por fim a Savannah soltou a minha mo, a sensao do toque permaneceu, e, tal como um velho hbito redescoberto, 
vi-a prender uma madeixa de cabelo atrs da orelha. Aquela imagem angustiou-me.
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-  estranho como o destino funciona - comentou ela, a voz reduzida praticamente a um murmrio. - Alguma vez imaginaste que a tua vida seguiria o rumo que seguiu?
- No - admiti.
- Nem eu - disse a Savannah. - Da primeira vez que foste para a Alemanha, tinha a certeza absoluta de que um dia nos iramos casar. Nada na minha vida me inspirava 
uma certeza to grande.
 medida que ela prosseguia, eu mantinha-me de olhar fixo no copo.
- E depois, durante a tua segunda licena, ainda me sentia mais segura. Sobretudo depois de termos feito amor.
- No... - Abanei a cabea. - No vamos por a. :;i
- Porqu? - indagou ela. - Ests arrependido?
- No. - Sentia-me incapaz de olhar para ela. -  claro que no. Mas agora s casada.
- Mas aconteceu - insistiu a Savannah. - Queres que eu esquea tudo assim sem mais nem menos?
- No sei - respondi-lhe. - Talvez.
- No posso - declarou ela, com um ar surpreso e magoado. Foi a minha primeira vez. Nunca haverei de esquecer esse momento, e, de certa forma, ser sempre especial 
para mim. O que se passou entre ns foi uma experincia linda.
No me atrevi a responder-lhe e, passado um instante, ela pareceu recuperar o autodomnio. Inclinando-se para a frente, perguntou-me:
- Quando descobriste que eu me tinha casado com o Tim, o que  que pensaste?
Reflecti antes de responder, escolhendo as palavras com cuidado.
- A primeira coisa que me ocorreu foi que, sob certos aspectos, fazia sentido. H anos que ele estava apaixonado por ti. Mal o conheci, percebi logo isso. - Fiz 
deslizar uma mo pela cara. - Depois, senti-me... dividido. Fiquei contente por teres escolhido algum como ele, porque  uma boa pessoa e tm ambos muita coisa 
em comum, mas, por outro lado, tambm fiquei... triste. No faltava assim tanto tempo quanto isso para ficarmos juntos. H quase dois anos que eu j teria sado 
do exrcito.
A Savannah comprimiu os lbios. - Lamento - murmurou.
- Tambm eu. - Tentei forar um sorriso. - Se queres a minha opinio sincera, acho que devias ter esperado por mim.
Ela soltou uma gargalhada hesitante, e eu deixei-me surpreender pela expresso de desejo que lhe assomou ao rosto. Estendeu a mo para chegar ao copo.
- Eu tambm tenho andado a pensar nisso. Para onde teramos
ido, onde estaramos a morar, o que andaramos a fazer das nossas vidas. Sobretudo ultimamente. Ontem  noite, depois de te teres ido
embora, no conseguia pensar noutra coisa. Bem sei que deves estar com uma pssima impresso de mim, mas tenho passado estes ltimos dois anos a tentar convencer-me 
de que, apesar de o nosso amor ser verdadeiro, nunca poderia ter durado muito tempo. - A sua
expresso era desolada. - Tu ter-te-ias mesmo casado comigo, no terias?
- Sem pensar duas vezes. E, se ainda pudesse, era isso que faria. Sentimos o passado pairar subitamente sobre ns, arrebatador em
toda a sua intensidade.
- Foi de verdade, no foi? - A voz tremia-lhe. - Tu e eu?
A luz mortia do crepsculo reflectia-se-lhe no olhar enquanto ela esperava pela minha resposta. Nos momentos que decorreram entretanto, senti o peso do diagnstico 
do Tim a pesar entre ns. Os meus pensamentos corriam velozes e eram mrbidos e condenveis, mas nem por isso me abandonavam. Senti-me mal comigo prprio por me 
" atrever sequer a pensar na vida depois do Tim, desejoso de que aquela
ideia se fosse embora.
Mas ela recusava-se a faz-lo. S tinha vontade de tomar a Savannah nos meus braos, apert-la contra mim, recuperar tudo o que havamos perdido durante os anos 
em que estivramos longe um do outro.
Instintivamente, comecei a inclinar-me para ela.
A Savannah sabia o que a vinha, mas no se afastou. No a princpio. No entanto, quando os meus lbios se aproximaram dos dela, virou-se repentinamente e o vinho 
que estava no copo salpicou-nos a ambos.
Ela levantou-se dum pulo, pousando o copo em cima da mesa e afastando a blusa da pele.
- Desculpa - disse-lhe eu.
- No faz mal - respondeu-me. - Mas preciso de ir mudar de roupa. Tenho de pr esta blusa de molho.  uma das minhas preferidas.
- Est bem, vai.
Fiquei a v-la sair da sala de estar e a percorrer o corredor. Virou para o quarto  direita e, quando desapareceu, roguei uma praga. Abanei a cabea, incrdulo 
perante a minha estupidez, depois reparei no vinho na camisa. Levantei-me e dirigi-me ao corredor,  procura duma casa de banho.
Ao girar uma maaneta ao calhas, encontrei-me frente a frente
comigo mesmo no espelho da casa de banho. Pelo reflexo do plano de
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fundo, via a Savannah atravs da fresta da porta do quarto do lado contrrio do corredor. Estava nua da cintura para cima e, mesmo contra a minha vontade, no consegui 
desviar os olhos.
Ela deve ter pressentido que eu estava a observ-la, porque olhou para mim por cima do ombro. Pensei que iria fechar a porta de repente ou tapar-se, mas no. Ao 
invs, os seus olhos procuraram os meus e fixaram-nos, convidando-me a que eu continuasse a contempl-la. E depois, lentamente, foi-se virando.
Ficmos ali, a olhar um para o outro atravs do reflexo no espelho, apenas com o estreito corredor a separar-nos. Vi-lhe os lbios ligeiramente entreabertos e o 
queixo a empertigar-se um pouco; soube que, ainda que vivesse mil anos, nunca haveria de me esquecer da beleza dela naquele momento. S me apetecia atravessar o 
corredor e ir ter com a Savannah, ciente de que ela me desejava a mim tanto como eu a desejava a ela. Contudo, fiquei onde estava, paralisado pela ideia de que algum 
dia a Savannah haveria de me odiar por aquilo que ambos to obviamente desejvamos.
E a Savannah, que me conhecia melhor que ningum, baixou os olhos, como se tivesse chegado subitamente  mesma concluso. Tornou a virar-se de costas para mim no 
preciso momento em que a porta da rua se abriu de rompante e eu ouvi um guincho de lamento irromper na escurido.
O Alan...
Dei meia-volta e apressei-me a voltar  sala; o Alan j desaparecera na cozinha, e eu ouvia as portas dos armrios a abrirem e a fecharem com fora enquanto ele 
continuava a gemer, como se estivesse prestes a morrer. Passado um instante, a Savannah passou por mim a correr, ajeitando a camisola no seu lugar.
- Alan! J vou! - gritou ela, a voz ansiosa. - Est tudo bem! O Alan no parava de gemer, e as portas do armrio, de bater.
- Precisas de ajuda? - ofereci-me eu.
- No - Abanou a cabea com fora. - Deixa-me ser eu a tratar disto. Acontece s vezes quando chega do hospital.
 medida que a Savannah se precipitava para a cozinha, eu mal conseguia ouvi-la a tentar falar com ele. A sua voz quase se perdia por entre o alarido, mas eu pressentia-lhe 
a firmeza, e, afastando-me para o lado, vi-a junto a ele, a tentar acalm-lo. No parecia dar qualquer resultado, e eu senti-me tentado a ajudar, mas a Savannah 
manteve-se calma. Continuou a conversar tranquilamente com o Alan, em seguida colocou uma mo em cima da dele, acompanhando o abrir e fechar das portas.
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Por fim, aps o que me pareceu uma eternidade, o bater das portas comeou a abrandar e a tornar-se mais ritmado; a partir da, foi-se desvanecendo lentamente. Os 
gemidos do Alan seguiram o mesmo padro. A voz da Savannah era agora mais suave, e eu j no conseguia distinguir as suas palavras.
Sentei-me no sof. Uns minutos decorridos, levantei-me e fui at  janela. Estava escuro; as nuvens j se tinham afastado, e acima das montanhas pairava uma espiral 
de estrelas. Admirado com o que se estaria a passar, postei-me numa ponta da sala a partir da qual se apanhava um vislumbre da cozinha.
A Savannah e o Alan achavam-se sentados no cho da cozinha. As costas dela estavam recostadas contra um armrio, e o Alan tinha a cabea pousada no peito dela enquanto 
a mo da Savannah lhe ia acariciando o cabelo. Os olhos dele piscavam rapidamente, como se estivessem ligados  corrente para estarem em perptuo movimento. Os olhos 
da Savannah estavam reluzentes de lgrimas, mas eu via o seu ar de concentrao e sabia que ela estava determinada a no o deixar perceber o quanto sofria.
- Eu gosto tanto dele - ouvi o Alan dizer. A sua voz j nada tinha do tom cavo que apresentara no hospital; aquela era a splica desesperada dum rapazinho assustado.
- Eu sei, meu querido. Eu tambm gosto muito do Tim. Gosto mesmo muito. Sei que ests com medo, mas eu tambm estou com medo.
Pelo tom de voz da Savannah, eu pressentia a sinceridade das suas palavras.
- Eu gosto tanto dele - repetiu o Alan.
- Dentro duns dias ele j vai sair do hospital. Os mdicos esto a fazer tudo o que podem.
- Eu gosto tanto dele.
A Savannah deu-lhe um beijo no cocuruto. - O Tim tambm gosta muito de ti, Alan. E eu tambm. E eu sei que ele est desejoso de poder ir andar a cavalo contigo outra 
vez. Ele j me disse que sim. E est to orgulhoso de ti. Nunca se cansa de me elogiar o trabalho que tu tens feito por aqui.
- Tenho medo.
- Tambm eu, meu querido. Mas os mdicos esto a fazer tudo o que podem.
- Eu gosto tanto dele.
- Eu sei. Eu tambm gosto muito do Tim. Mais que tu algum dia possas imaginar.
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Eu continuei a observ-los, sentindo-me um intruso, apercebendo-me subitamente de que no pertencia quele lugar. Durante todo o tempo em que ali estive, a Savannah 
nunca levantou os olhos, e eu senti-me assombrado por tudo o que havamos perdido.
Levei a mo ao bolso, tirei as chaves e dei meia-volta, preparando-me para me ir embora, sentindo as lgrimas a ameaarem irromper. Abri a porta, e, apesar de esta 
ranger bem alto, sabia que a Savannah no daria por nada.
Desci os degraus aos tropees, perguntando-me se alguma vez na vida me teria sentido to cansado como naquele momento. E mais tarde, j a caminho do motel e enquanto 
ouvia o barulho do motor em ponto morto  espera de que um semforo abrisse, sabia que os transeuntes veriam um homem a chorar, um homem cujas lgrimas pareciam 
no ter fim.
Passei o resto da noite sozinho no quarto do motel. L fora, ouvia estranhos a passar levando atrs de si as suas malas com rodas. Sempre que algum carro entrava 
no parque de estacionamento, o meu quarto era momentaneamente iluminado por faris que projectavam imagens fantasmagricas contra as paredes. Gente de passagem, 
gente que seguia em frente com a prpria vida. Estendido na cama, sentia-me cheio de inveja e interrogava-me se algum dia poderia dizer o mesmo.
No fiz qualquer esforo por adormecer. Pensei no Tim, mas, por estranho que possa parecer, em lugar da figura emaciada com que me deparara no hospital, via o jovem 
que conhecera na praia, o estudante bem-parecido com um sorriso sempre pronto para toda a gente. Lembrei-me do meu pai e perguntei-me como teriam sido as suas derradeiras 
semanas de vida. Tentei imaginar os funcionrios do lar a ouvirem-no atentamente enquanto ele lhes ia falando de moedas e rezava para que o director estivesse certo 
quando me assegurara de que o meu pai falecera tranquilamente durante o sono. Pensei no Alan e no mundo estranho onde a sua mente habitava. Porm, acima de tudo, 
pensei na Savannah. Recordei o dia que acabramos de passar juntos, e deixei-me levar por memrias de tempos idos, na tentativa de me evadir a um vazio que se recusava 
a abandonar-me.
De manh, fiquei a ver o Sol elevar-se acima do horizonte, uma esfera de mrmore dourado a emergir da terra. Tomei um duche e tornei a arrumar no carro os poucos 
pertences que trouxera comigo. Entrei num pequeno restaurante situado do lado oposto da rua e pedi que me trouxessem o pequeno-almoo; contudo, quando vi o prato 
a
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fumegar  minha frente, afastei-o para o lado e segurei uma chvena de caf entre as mos, perguntando-me se a Savannah j andaria a p, a dar de comer aos cavalos.
Eram nove da manh quando cheguei ao hospital. Assinei o registo e tomei o elevador at ao terceiro piso; percorri o mesmo corredor que percorrera no dia anterior. 
A porta do quarto do Tim achava-se entreaberta, e ouvia-se um televisor.
Ele viu-me e esboou um sorriso de surpresa. - Ol, John - cumprimentou-me, desligando a televiso. -- Entra. Eu estava apenas a passar o tempo.
Quando ia a sentar-me na mesma cadeira em que me sentara no dia anterior, reparei que ele estava com melhores cores. Endireitou-se com dificuldade na cama e s depois 
tornou a concentrar a sua ateno em mim.
- O que te traz aqui to cedo?
- Estou a preparar-me para me ir embora - expliquei-lhe. Amanh tenho de apanhar o avio para voltar  Alemanha. Sabes como .
- ptimo - disse ele. - Fico satisfeito por ouvir isso. Observei-o atentamente,  procura de qualquer indcio de suspeita
no seu olhar, qualquer pressentimento do que estivera prestes a acontecer na noite anterior, mas no detectei nada.
- Por que  que aqui vieste, John? - questionou-me.
- No sei ao certo - confessei-lhe. - Sentia apenas necessidade de vos ver. E tinha esperana de que talvez vocs tambm estivessem com vontade de me ver a mim.
O Tim assentiu com a cabea e virou-se para a janela; do quarto dele, no havia nada que ver  excepo duma enorme unidade de ar condicionado. - Queres saber o 
pior nisto tudo? - No ficou a aguardar da minha resposta. - Estou preocupado com o Alan - disse ele. - Eu tenho noo do que me est a acontecer. Sei que as probabilidades 
no esto a meu favor e que  bem possvel que no me consiga safar.  uma coisa que no me custa a aceitar. Tal como te disse ontem, no perdi a minha f e, sei... 
ou pelo menos tenho esperana de que haja algo melhor  minha espera. E a Savannah... eu sei que se alguma coisa me acontecer, ela vai ficar devastada. Mas sabes 
o que a perda dos meus pais me ensinou?
- Que a vida no  justa?
- Pois, isso tambm,  claro. Mas tambm aprendi que  possvel seguir em frente, por muito impossvel que nos parea, e que, com o tempo, o sofrimento... acaba 
por diminuir. Pode nunca mais
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desaparecer completamente, mas passado algum tempo j no  to avassalador.  isso que vai acontecer  Savannah. Ela  jovem e forte, e vai conseguir seguir em 
frente. Mas o Alan... no fao ideia do que lhe ir acontecer. Quem  que vai tomar conta dele? Onde  que ele vai morar?
- A Savannah toma conta dele.
- Eu sei que sim. Mas ser isso justo para ela? Estar  espera de que ela acarrete com essa responsabilidade?
- No importa se  justo ou no. Ela no ir permitir que nada de mal lhe acontea.
- Como? Ela vai ter de trabalhar... quem  que nessa altura ficar a tomar conta do Alan? No te esqueas de que ele ainda  um mido. S tem dezanove anos. Poderei 
eu esperar que ela v tomar conta dele durante os prximos cinquenta anos? Para mim, era fcil. O Alan  meu irmo. Mas a Savannah... - Abanou a cabea. - Ela  
jovem e bonita. Ser justo estar  espera de que ela nunca mais se volte a casar?
- De que  que ests para a a falar?
- Estaria o novo marido dela disposto a tomar conta do Alan? Quando viu que eu no tinha resposta para a sua pergunta, o Tim arqueou as sobrancelhas. - Tu estarias? 
- acrescentou.
Abri a boca a preparar-me para responder, mas as palavras recusaram-se a sair. A expresso do Tim suavizou.
-  nisso que eu penso enquanto aqui estou deitado. Isto quando no estou com nuseas, claro. Na verdade, penso em muitas coisas. Incluindo em ti.
- Em mim?
- Ainda ests apaixonado por ela, no ests?
Procurei manter a minha expresso inaltervel, mas o Tim no se deixou iludir. - No tem importncia - disse ele. - Eu j sabia. Sempre soube. - Tinha um ar quase 
saudoso. - Ainda me lembro da cara da Savannah da primeira vez que me falou a teu respeito. Nunca a tinha visto assim. Fiquei contente por ela, porque vi logo que 
tinhas qualquer coisa que me levou de imediato a confiar em ti. No primeiro ano em que estiveste na Alemanha, ela teve tantas saudades tuas. Era como se o corao 
se lhe fosse despedaando um pouco mais a cada dia que passava. A Savannah no conseguia pensar em mais nada para alm de ti. E depois ela ficou a saber que tu no 
ias regressar, e ns acabmos por vir para Lenoir, e os meus pais morreram, e... - Ele no concluiu a frase. - Tu sempre soubeste que eu tambm estava apaixonado 
por ela, no soubeste?
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Assenti com a cabea. ,,."M>ra";.".y-"-.'i.jjrf"i'.--v'
- Foi essa a minha impresso. - O Tim clareou a voz. - Desde os doze anos de idade que estou apaixonado por ela. Mas, para mim, o mais importante sempre foi v-la 
feliz. E, a pouco e pouco, ela tambm se foi apaixonando por mim.
- Por que  que me ests a contar isso?
- Porque - justificou-se ele - no foi a mesma coisa. Eu sei que a Savannah gosta muito de mim, mas nunca gostou tanto de mim como gostou de ti. Nunca sentiu por 
mim aquela paixo avassaladora, mas ns levvamos uma boa vida juntos. A Savannah andava to feliz quando crimos o rancho... e eu tambm me sentia muito satisfeito 
por poder fazer alguma coisa assim por ela. Ns ramos felizes, e depois eu adoeci, mas ela tem-se mantido sempre a meu lado, a tratar de mim tal e qual eu trataria 
dela se fosse ela a ter ficado doente. - Nesse momento o Tim interrompeu-se, debatendo-se para encontrar as palavras adequadas, e eu reparei na sua expresso de 
ansiedade.
- Ontem, quando aqui vieste, eu vi a maneira como a Savannah olhava para ti, e percebi que ela ainda est apaixonada por ti. Parte-me o corao, mas sabes duma coisa? 
Eu continuo apaixonado por ela, e, para mim, isso significa que tudo o que quero na vida  que ela seja feliz.  o meu maior desejo. Foi o que sempre desejei para 
ela.
Eu sentia a garganta to seca que mal conseguia falar. - O que  que queres dizer com isso?
- Estou a pedir-te para que, se alguma coisa me acontecer, no te esqueas da Savannah. E que me prometas que sempre a irs estimar como eu a estimo.
- Tim...
- No digas nada, John. - Ergueu uma mo, ou para me fazer calar, ou para se despedir de mim. - No te esqueas do que eu te disse, est bem?
Quando o via desviar o olhar, percebi que a nossa conversa estava terminada.
Ento levantei-me e abandonei o quarto sem fazer barulho, fechando a porta ao sair.
J fora do hospital, semicerrei os olhos  luz intensa do Sol matinal. Ouvia os pssaros a chilrear nas rvores, mas embora olhasse em meu redor  procura deles, 
estes permaneciam ocultos  minha vista.
O parque de estacionamento estava meio cheio. Aqui e ali, via pessoas que se dirigiam  entrada do hospital ou que regressavam s respectivas
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viaturas. Todas elas me pareciam to esgotadas como eu prprio me sentia, como se o optimismo que se esforavam por transmitir aos seus entes queridos internados 
se desvanecesse mal se encontravam sozinhos. Eu sabia que, por muito doente que uma pessoa estivesse, era sempre possvel um milagre, e que as mulheres que se encontravam 
na maternidade estavam a sentir alegria ao segurarem os seus recm-nascidos no colo, mas no deixava de intuir que, tal como eu, a maioria das visitas do hospital 
mal conseguiam levar a vida para diante.
Sentei-me num banco defronte, perguntando-me por que motivo ali estava e desejando no ter vindo. Recordei vezes sem conta a conversa que travara com o Tim, e a 
imagem da angstia que dele transparecia obrigava-me a fechar os olhos. Pela primeira vez em anos, o meu amor  Savannah pareceu-me algo... errado. O amor devia 
ser fonte de alegria, devia proporcionar-nos paz, contudo, aqui e agora, apenas me estava a trazer sofrimento. Ao Tim,  Savannah, at mesmo a mim. Eu no viera 
ali para tentar a Savannah nem para lhe estragar o casamento... ou ser que viera? J no tinha a certeza de ser to nobre quanto o que estava convencido que era, 
e essa constatao fez-me sentir to vazio como uma lata de tinta ferrugenta.
Tirei a fotografia da Savannah que tinha na carteira. Estava amarrotada e gasta. Enquanto olhava para o rosto dela, dei por mim a imaginar o que o ano vindouro nos 
traria. No sabia se o Tim conseguiria sobreviver ou no, e no queria pensar nisso. Sabia que, independentemente do que sucedesse, a minha relao com a Savannah 
nunca mais seria a mesma. Conhecramo-nos numa poca livre de preocupaes, num momento cheio de promessas; a substitui-lo, agora, estavam as lies do mundo real.
Esfreguei as tmporas, apercebendo-me subitamente de que o Tim sabia o que estivera prestes a acontecer entre mim e a Savannah na noite anterior, talvez at que 
j estivesse  espera disso. As palavras dele haviam deixado isso bem claro, tal como o pedido que me fizera de a amar sempre com a mesma devoo que ele prprio 
lhe tinha. Eu no tinha qualquer dvida a respeito do que ele me estava a sugerir que eu fizesse no caso de ele morrer, mas, no sei porqu, a sua permisso ainda 
me fez sentir pior.
Acabei por me levantar e encaminhei-me lentamente para o meu carro. No sabia ao certo qual o destino que desejava tomar, para alm de que precisava de me afastar 
o mais possvel do hospital. Sentia necessidade de sair de Lenoir, quanto mais no fosse para me dar a oportunidade de reflectir. Enterrei as mos nos bolsos e tirei 
de l as chaves.
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Foi s quando me acerquei do carro que reparei que a carrinha da Savannah estava estacionada ao lado do meu carro. A Savannah achava-se sentada ao volante e, quando 
me viu a aproximar-me, abriu a porta e saiu. Ficou  minha espera, enquanto ajeitava a blusa.
Detive-me a escassos metros dela.
- John -? chamou-me -, ontem  noite foste-te embora sem te despedires de ns.
- Eu sei.
Ela assentiu ligeiramente com a cabea. Ambos compreendamos o motivo.
- Como  que soubeste que eu estava aqui?
- No sabia - respondeu-me. - Passei pelo motel e l disseram-me que j tinhas feito as contas e ido embora. Quando aqui cheguei, vi o teu carro e decidi ficar  
tua espera. Viste o Tim?
- Vi. Ele est melhor. Est convencido de que ainda o vo deixar voltar para casa hoje.
- Que boa notcia - congratulou-se a Savannah. Apontou para o meu carro. - Vais-te embora?
- Tem de ser. A minha licena est a acabar.
A Savannah cruzou os braos. - Estavas a pensar ir despedir-te de mim?
- No sei - admiti. - Ainda no tinha pensado nisso.
Vi um lampejo de angstia e desiluso perpassar-lhe pelo rosto.
- De que  que estiveste a conversar com o Tim?
Por cima do ombro, olhei para o hospital, depois novamente para a Savannah. - Talvez seja melhor seres tu a fazer-lhe essa pergunta.
A boca dela cerrou-se numa linha apertada, e o corpo pareceu ficar rgido. - Ento ficamos assim?
Ouvi um carro buzinar na estrada em frente e vi uma srie de veculos a abrandar subitamente. O condutor dum Toyota guinou para a faixa contrria, fazendo o possvel 
por contornar o trfego. Enquanto estava a v-lo, percebi que estava a tentar ganhar tempo e que ela merecia uma resposta.
- Sim - disse-lhe, virando-lhe as costas devagar. - Acho que sim.
Os ns dos dedos dela perderam a cor tal a fora com que a Savannah se agarrou aos braos. - Posso escrever-te?
Obriguei-me a desviar o olhar, desejando uma vez mais que nos tivessem calhado outras cartas do baralho. - No sei se ser boa ideia.
- No percebo porqu.
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? - Ai isso  que percebes - retorqui eu. - Tu s casada com o Tim, no comigo. - Deixei que aquelas palavras assentassem enquanto reunia coragem para dizer o que 
pretendia dizer em seguida. - Ele  um bom homem, Savannah. Um homem muito melhor que eu, disso no h dvidas, e fico contente por te teres casado com ele. Por 
muito que eu possa gostar de ti, no estou disposto a estragar um casamento por causa disso. E, l no fundo, creio que tu tambm no ests. Ainda que me ames, no 
 por isso que deixas de o amar a ele. Levei algum tempo a compreender isso, mas agora tenho a certeza.
Por mencionar ficou o futuro incerto do Tim, e eu reparei que os olhos se lhe comeavam a inundar de lgrimas.
- Voltaremos a ver-nos?
- No sei. - As palavras queimavam-me a garganta. - Mas espero que no.
- Como  que tens coragem de dizer isso? - indignou-se a Savannah, com a voz prestes a faltar-lhe.
- Porque isso significa que o Tim vai ficar bom. E eu tenho um pressentimento de que tudo se vai acabar por resolver pelo melhor.
- No podes dizer isso! No podes prometer-me isso!
- Pois no - admiti. - No posso.
- Ento por que  que tem de acabar tudo agora? Desta maneira? Uma lgrima escorreu-lhe pela face, e, apesar de eu saber que me devia limitar a ir embora, dei um 
passo na direco da Savannah. Quando me cheguei a ela, limpei-lhe delicadamente o rosto. Os olhos dela deixavam transparecer medo e tristeza, raiva e traio. Mas, 
acima de tudo, eu via-os suplicarem-me para que eu mudasse de ideias.
Engoli a custo.
- Tu ests casada com o Tim, e o teu marido precisa de ti. De ti toda. No h espao para mim, e ambos sabemos que  assim que deve ser.
 medida que mais lgrimas lhe iam escorrendo pelo rosto, inclinei-me para a Savannah e beijei-a ao de leve nos lbios, em seguida tomei-a nos meus braos e apertei-a 
bem contra mim.
- Eu amo-te, Savannah, e nunca deixarei de te amar - murmurei. - s a melhor coisa que me aconteceu na vida. Foste a minha melhor amiga e a minha namorada, e no 
me arrependo dum nico momento que passei contigo. Deste-me nova vida e, acima de tudo, deste-me o meu pai. Nunca me esquecerei de ti por isso. Irs sempre ser a 
melhor parte de mim. Lamento que tenha de ser assim, mas eu tenho de me ir embora, e tu tens de ir ter com o teu marido.
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Enquanto eu falava, sentia o corpo estremecer-lhe dos soluos, e continuei ainda muito tempo abraado a ela. Quando finalmente nos separmos, soube que nunca mais 
tornaria a abra-la. Recuei, o meu olhar fixo no da Savannah.
- Adeus. - Ergui uma mo.
E dito isto, ela limpou as lgrimas e encaminhou-se para o hospital.
Despedir-me da Savannah foi a coisa que mais me custou na vida. Uma parte de mim queria dar meia-volta e precipitar-me para o hospital, dizer-lhe que poderia contar 
sempre comigo, confessar-lhe as coisas que o Tim me dissera. Mas no foi isso que fiz.
A caminho da cidade, passei por uma pequena loja de convenincia. Estava a precisar de gasolina e enchi o depsito; l dentro, comprei uma garrafa de gua. Quando 
me aproximei do balco, reparei num frasco que o proprietrio ali colocara para recolher fundos para o Tim, e pus-me a olhar fixamente para ele. Estava cheio de 
trocos e de moedas dum dlar; na etiqueta, tinha o nmero duma conta dum banco da zona. Pedi que me trocassem umas notas em moedas de vinte e cinco cntimos, e o 
empregado que estava ao balco agradeceu-me.
 medida que voltava para o carro, sentia os movimentos tolhidos. Abri a porta do veculo e comecei a remexer nos documentos que o advogado me entregara, e tambm 
 procura dum lpis. Encontrei o que precisava, em seguida dirigi-me a uma cabina telefnica. Ficava  beira da estrada, ouvia-se o barulho dos carros que por ali 
passavam. Liguei para as informaes e vi-me obrigado a encostar o auscultador com fora ao ouvido enquanto uma voz computorizada me dava o nmero que lhe pedira. 
Rabisquei-o nos documentos e em seguida desliguei. Enfiei algumas moedas na ranhura, marquei o nmero de longa distncia, e ouvi novamente uma voz gerada por computador 
pedir-me ainda mais dinheiro. No tardei a ouvir o telefone tocar.
Quando atenderam, expliquei ao homem quem era e perguntei-lhe se ele se lembrava de mim.
-  claro que lembro, John. Como tens passado?
- bom, obrigado. O meu pai faleceu.
Fez-se um breve silncio. - Lamento ouvir essa notcia - disse ele. - Ests a reagir bem?
- No sei - confessei-lhe.
- H alguma coisa que eu possa fazer por ti?
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Fechei os olhos, a pensar na Savannah e no Tim com a esperana de que o meu pai me perdoasse o que me preparava para fazer. - Sim - disse eu ao negociante de moedas 
-, para dizer a verdade, at h. Eu quero vender a coleco de moedas do meu pai, e preciso do dinheiro o mais depressa possvel.
EPLOGO
O que significa realmente o verdadeiro amor?
Reflicto nesta questo enquanto estou sentado na colina a ver a Savannah a movimentar-se por entre os cavalos. Por um breve instante, a minha memria regressa  
noite em que apareci  procura dela no rancho... mas essa visita, faz agora um ano, parece-me cada vez mais um sonho.
Vendi as moedas por menos que realmente valiam, e, uma a uma, soube que os despojos da coleco do meu pai seriam distribudos por entre pessoas que nunca as saberiam 
apreciar tanto como ele apreciara. No fim, acabei por ficar apenas com a moeda de cinco cntimos com o bfalo no verso, pois foi-rne completamente impossvel desfazer-me 
dela. Para alm da fotografia,  tudo o que me resta do meu pai, e nunca me separo dela.  uma espcie de talism, que transporta consigo todas as recordaes que 
guardo do meu pai; de quando em vez, tiro-a do bolso e deixo-me ficar a olhar para ela. Fao deslizar os dedos pelo estojo de plstico que a contm, e, de repente, 
consigo ver o meu pai a ler o Greysheet no escritrio ou ento chega-me o cheiro do bacon a fritar na cozinha. Dou por mim a sorrir e, durante um momento, j no 
me sinto sozinho.
Mas a verdade  que estou, e h algo em mim que me diz que sempre assim ser. Procuro agarrar-me a este pensamento enquanto procuro as silhuetas da Savannah e do 
Tim  distncia, de mos dadas enquanto tomam o caminho de casa; vejo-os a tocarem-se duma forma que traduz o afecto genuno que nutrem um pelo outro. Parecem um 
excelente casal, sou forado a admitir. Quando o Tim chama o Alan, este vai juntar-se a eles, e entram os trs em casa. Por um instante,
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pergunto-me no que estaro a pensar, pois sinto curiosidade em relao aos pequenos detalhes das suas vidas, mas tenho a noo clara de que nada disso me diz respeito. 
Contudo, j ouvi dizer que o Tim j acabou os tratamentos, e que na cidade a esperana de que ele venha a recuperar  quase geral.
Quem me deu a notcia foi o advogado da localidade que contratei na minha ltima visita a Lenoir. Entrei no escritrio dele com um cheque e pedi-lhe que mo depositasse 
na conta que fora aberta para recolher fundos para o tratamento do Tim. Estava a par da relao de confidencialidade entre advogados e clientes e sabia por isso 
que ele no iria contar a ningum. Era importante que a Savannah no descobrisse o que eu fizera. No h casamento que comporte mais de duas pessoas.
Todavia, pedi ao advogado para me ir mantendo informado, e, ao longo do ano que passou, falei com ele por diversas vezes a partir da Alemanha. O advogado contou-me 
que, quando entrara em contacto com a Savannah para a informar de que um cliente dele desejava fazer um donativo annimo - mas que insistia em ser mantido a par 
da evoluo do Tim - ela se desfez em lgrimas ao saber de que quantia se tratava. Contou-me que, decorrida uma semana, ela j levara o Tim para o MD Anderson, onde 
a informaram de que o marido era o candidato ideal para o teste de vacinao que o instituto planeava levar a cabo em Novembro. Disse-me que, antes de ser submetido 
ao teste clnico, o Tim recebera quimioterapia e terapia adjuvante, e que os mdicos estavam com esperanas de que os tratamentos conseguiriam eliminar as clulas 
cancerosas que se haviam concentrado nos seus pulmes. H questo de dois meses, o advogado telefonou-me para me contar que o tratamento tivera ainda mais xito 
que aquilo que os mdicos estavam  espera e que, do ponto de vista tcnico, se considerava que o Tim se encontrava naquele momento em remisso.
No era garantia de que ele pudesse chegar  velhice, porm, do que no havia dvida era de que lhe dava pelo menos uma oportunidade de lutar contra a doena, e 
isso era tudo o que eu desejava para ambos. Desejava que fossem felizes. Desejava que a Savannah fosse feliz. E, pelo que pude observar hoje, eram-no de facto. Eu 
fora at ali, porque precisava de ter a certeza de que tomara a deciso acertada ao vender as moedas para financiar o tratamento do Tim, que fizera o que era certo 
quando decidira nunca mais procurar a Savannah, e, a partir do ponto onde estava sentado, soube que isso era verdade.
Vendi a coleco, porque finalmente compreendi o significado do verdadeiro amor. O Tim mostrou-me que o amor significa preocuparmo-nos mais com a felicidade da outra 
pessoa que com a nossa prpria felicidade, por muito dolorosas que as opes com que nos deparemos sejam. Abandonei o quarto do Tim no hospital com a certeza de 
que ele estava certo. Mas agir da maneira certa no foi fcil. Ultimamente, conduzo a minha vida com a sensao permanente de que alguma coisa me falta, que, no 
sei bem como, tenho de preencher a lacuna que me aflige. Sei que os meus sentimentos pela Savannah nunca iro mudar, e sei que nunca deixarei de ter dvidas a respeito 
da escolha que fiz.
E, por vezes, mesmo contrafeito, pergunto-me se a Savannah sentir o mesmo. O que,  claro, explica o outro motivo da minha vinda a Lenoir.
Deixo-me ficar a contemplar o rancho  medida que a noite cai.  a noite difcil da lua cheia, a noite em que as minhas recordaes vm  superfcie. Nunca deixam 
de o fazer. Sustenho a respirao ao ver a Lua a dar incio  sua subida lenta no horizonte, o seu reflexo leitoso a elevar-se mesmo por cima da montanha. As rvores 
adquirem uma tonalidade prateada cristalina, e embora eu deseje regressar a essas memrias agridoces, desvio o olhar e volto a concentr-lo no rancho.
Durante muito tempo, espero em vo. O Luar continua a descrever o seu longo arco atravs do cu, e, uma a uma, as luzes da casa vo-se apagando. Dou por mim com 
os olhos ansiosamente fixos na porta da frente,  espera do impossvel. Eu sei que ela no vai aparecer, mas no  por isso que me consigo obrigar a ir embora. Inspiro 
lentamente, como se tivesse esperana de assim a trazer c para fora.
E quando finalmente a vejo sair de casa, sinto um estranho formigueiro percorrer-me as costas, uma sensao completamente nova para mim. Ela detm-se nos degraus, 
e eu fico a v-la virar-se, dando a ideia de que est a olhar na minha direco. Fico paralisado sem motivo - sei que  impossvel ela ver-me. Do meu poiso, vejo 
a Savannah a fechar a porta silenciosamente atrs de si. Desce lentamente os degraus e deambula at ao centro do ptio.
A pra e cruza os braos, deitando uma olhadela por cima do ombro para ter a certeza de que no veio ningum atrs dela. Por fim, parece descontrair-se. E ento 
eu sinto-me como se estivesse a presenciar um milagre, quando, com extrema lentido, a vejo a virar o rosto ao luar. Observo-a a contemplar a lua cheia, a sentir 
a corrente de emoes que ela desencadeou e a desejar apenas dizer-lhe que me encontro aqui. Porm, ao invs, deixo-me ficar onde estou e dirijo tambm o olhar para 
a Lua. E, por um breve instante, quase tenho a sensao de que estamos novamente juntos.

Coleco Grandes Narrativas:
1. O Mundo de Sofia, JOSTEIN GAARDER
2. Os Filhos do Graal, PETER BERLING
3. Outrora Agora, AUGUSTO ABELAIRA
4. O Riso de Deus, ANTNIO ALADA BAPTISTA
5. O Xang de Baker Street, J SOARES
6. Crnica Esquecida d'El Rei D. Joo II, SEOMARA DA VEIGA FERREIRA
7. Priso Maior, GUILHERME PEREIRA
8. Vai Aonde Te Leva o Corao, SUSANNA TAMARO
9. O Mistrio do Jogo das Pacincias, JOSTEIN GAARDER
10. Os Ns e os Laos, ANTNIO ALADA BAPTISTA
11. No  o Fim do Mundo, ANA NOBRE DE GUSMO
12. O Perfume, PATRICK SSKIND
13. Um Amor Feliz, DAVID MOURO-FERREIRA
14. A Desordem do Teu Nome, JUAN JOS MILLAS
15. Com a Cabea nas Nuvens, SUSANNA TAMARO
16. Os Cem Sentidos Secretos, AMY TAN
17. A Histria Interminvel, MICHAEL ENDE
18. A Pele do Tambor, ARTURO PREZ-REVERTE
19. Concerto no Fim da Viagem, ERIK FOSNES HANSEN
20. Persuaso, JANE AUSTEN
21. Neandertal, JOHN DARNTON
22. Cidadela, ANTOINE DE SAINT-EXUPRY
23. Gaivotas em Terra, DAVID MOURO-FERREIRA
24. A Voz de Lila, CHIMO
25. A Alma do Mundo, SUSANNA TAMARO
26. Higiene do Assassino, AMLIE NOTHOMB
27. Enseada Amena, AUGUSTO ABELAIRA
28. Mr. Vertigo, PAUL AUSTER
29. A Repblica dos Sonhos, NLIDA PION
30. Os Pioneiros, LUSA BELTRO
31. O Enigma e o Espelho, JOSTEIN GAARDER
32. Benjamim, CHICO BUARQUE
33. Os Impetuosos, LUSA BELTRO
34. Os Bem-Aventurados, LUSA BELTRO
35. Os Mal-Amados, LUSA BELTRO
36. Territrio Comanche, ARTURO PREZ-REVERTE
37. O Grande Gatsby, F. SCOTT FITZGERALD
38. A Msica do Acaso, PAUL AUSTER
39. Para Uma Voz S, SUSANNA TAMARO
40. A Homenagem a Vnus, AMADEU LOPES SABINO
41. Malena  Um Nome de Tango, ALMUDENA GRANDES
42. As Cinzas de Angela, FRANK McCOURT
43. O Sangue dos Reis, PETER BERLING
44. Peas em Fuga, ANNE MICHAELS
45. Crnicas de Um Portuense Arrependido, ALBANO ESTRELA
46. Leviathan, PAUL AUSTER
47. A Filha do Canibal, ROSA MONTERO
48. A Pesca  Linha - Algumas Memrias, ANTNIO ALADA BAPTISTA
49. O Fogo Interior, CARLOS CASTANEDA
50. Pedro e Paula, HELDER MACEDO
51. Dia da Independncia, RICHARD FORD
52. A Memria das Pedras, CAROL SHIELDS
53. Querida Mathilda, SUSANNA TAMARO
54. Palcio da Lua, PAUL AUSTER
55. A Tragdia do Titanic, WALTER LORD
56. A Carta de Amor, CATHLEEN SCHINE
57. Profundo como o Mar, JACQUELYN MITCHARD
58. O Dirio de Bridget Jones, HELEN FIELDING
59. As Filhas de Hanna, MARIANNE FREDRIKSSON
60. Leonor Teles ou o Canto da Salamandra, SEOMARA DA VEIGA FERREIRA
61. Uma Longa Histria, GNTER GRASS
62. Educao para a Tristeza, LUSA COSTA GOMES
63. Histrias do Paranormal - I Volume, Direco de RIC ALeXANDER
64. Sete Mulheres, ALMUDENA GRANDES
65. O Anatomista, FEDERICO ANDAHAZI
66. A Vida  Breve, JOSTEIN GAARDER
67. Memrias de Uma Gueixa, ARTHUR GOLDEN
68. As Contadoras de Histrias, FERNANDA BOTELHO
69. O Dirio da Nossa Paixo, NICHOLAS SPARKS
70. Histrias do Paranormal - II Volume, Direco de RIC ALEXANDER
71. Peregrinao Interior - I Volume, ANTNIO ALADA BAPTISTA
72. O Jogo de Morte, PAOLO MAURENSIG
73. Amantes e Inimigos, ROSA MONTERO
74. As Palavras Que Nunca Te Direi, NICHOLAS SPARKS
75. Alexandre, O Grande - O Filho do Sonho, VALERIO MASSIMO MANFREDI
76. Peregrinao Interior - II Volume ANTNIO ALADA BAPTISTA
77. Este  o Teu Reino, ABLIO ESTVEZ
78. O Homem Que Matou Getlio Vargas, J SOARES
79. As Piedosas, FEDERICO ANDAHAZI
80. A Evoluo de Jane, CATHLEEN SCHINE
81. Alexandre, O Grande - O Segredo do Orculo, VALERIO MASSIMO MANFREDI
82. Um Ms com Montalbano, ANDREA CAMILLERI
83. O Tecido do Outono, ANTNIO ALADA BAPTISTA
84. O Violinista, PAOLO MAURENSIG
85. As Vises de Simo, MARIANNE FREDRIKSSON
86. As Desventuras de Margaret, CATHLEEN SCHINE
87. Terra de Lobos, NICHOLAS EVANS
88. Manual de Caa e Pesca para Raparigas, MELISSA BANK
89. Alexandre, o Grande - No Fim do Mundo, VALERIO MASSIMO MANFREDI
90. Atlas de Geografia Humana, ALMUDENA GRANDES
91. Um Momento Inesquecvel, NICHOLAS SPARKS
92. O ltimo Dia, GLENN KLEIER
93. O Crculo Mgico, KATHERINE NEVILLE
94. Receitas de Amor para Mulheres Tristes, HCTOR ABAD FACIOLINCE
95. Todos Vulnerveis, LUSA BELTRO
96. A Concesso do Telefone, ANDREA CAMILLERI
97. Doce Companhia, LAURA RESTREPO
98. A Namorada dos Meus Sonhos, MIKE GAYLE
99. A Mais Amada, JACQUELYN MITCHARD
100. Ricos, Famosos e Benemritos, HELEN FIELDING
101. As Bailarinas Mortas, ANTNIO SLER
102. Paixes, ROSA MONTERO
103. As Casas da Celeste, THERESA SCHEDEL
104. A Cidadela Branca, ORHAN PAMUK
105. Esta  a Minha Terra, FRANK McCOURT
106. Simplesmente Divina, WENDY HOLDEN
107. Uma Proposta de Casamento, MIKE GAYLE
108. O Novo Dirio de Bridget Jones, HELEN FIELDING
109. Crazy - A Histria de Um Jovem, BENJAMIN LEBERT 142.
110. Finalmente Juntos, JOSIE LLOYD E EMLYN REES
111. Os Pssaros da Morte, MO HAYDER
112. A Papisa Joana, DONNA WOOLFOLK CROSS
113. O Aloendro Branco, JANET FITCH
114. O Terceiro Servo, JOEL NETO
115. O Tempo nas Palavras, ANTNIO ALADA BAPTISTA
116. Vcios e Virtudes, HELDER MACEDO
117. Uma Histria de Famlia, SOFIA MARRECAS FERREIRA 150.
118. Almas  Deriva, RICHARD MASON
119. Coraes em Silncio, NICHOLAS SPARKS 152.
120. O Casamento de Amanda, JENNY COLGAN
121. Enquanto Estiveres A, MARC LEVY
122. Um Olhar Mil Abismos, MARIA TERESA LOUREIRO
123. A Marca do Anjo, NANCY HUSTON
124. O Quarto do Plen, 156. ZO JENNY
125. Responde-me, SUSANNA TAMARO
126. O Convidado de Alberta, BIRGIT VNDERBEKE
127. A Outra Metade da Laranja, JOANA MIRANDA
128. Uma Viagem Espiritual, BILLY MILLS e NICHOLAS SPARKS
129. Fragmentos de Amor Furtivo, HCTOR ABAD FACIOLINCE
130. Os Homens So como Chocolate, TINA GRUBE
131. Para Ti, Uma Vida Nova, TIAGO REBELO
132. Manuela, PHILIPPE LABRO
133. A Ilha Dcima, MARIA LUSA SOARES
134. Maya, JOSTEIN GAARDER
135. Amor  Uma Palavra de Quatro Letras, CLAIRE CALMAN
136. Em Memria de Mary, JULIE PARSONS
137. Lua-de-Mel, AMY JENKINS
138. NOVAMENTE JUNTOS, JOSIE LLOYD E EMLYN REES
139. Ao Virar dos Trinta, MIKE GAYLE
140. o Marido Infiel, BRIAN GALLAGHER
141. O QUE SIGNIFICA AMAR, DAVID BADDIEL .
142. A CASA DA LOUCURA, PATRICK McGRATH .
143. Quatro Amigos, DAVID TRUEBA.
144. Estou-me nas Tintas para os Homens Bonitos, TINA GRUBE
145. Eu at Sei Voar, PAOLA MASTROCOLA
146. O Homem Que Sabia Contar, MALBA TAHAN
147. A poca da Caa, ANDREA CAMILLERI
148. No Vou Chorar o Passado, TIAGO REBELO
149. Vida Amorosa de Uma Mulher, ZERUYA SHALEV
150. Danny Boy, Jo-ANN GDWIN
151. Uma Promessa para Toda a Vida, NICHOLAS SPARKS
152. o Romance de Nostradamus
- O Pressgio, VALERIO EVANGELISTI
153. Cenas da Vida de Um Pai Solteiro, TONY PARSONS
154. Aquele Momento, ANDREA DE CARLO
155. Renascimento Privado, MARIA BELLONCI
156. A Morte de Uma Senhora, THERESA SCHEDEL
157. O Leopardo ao Sol, LAURA RESTREPO
158. Os Rapazes da Minha Vida, BEVERLY DONOFRIO
159. O Romance de Nostradamus - O Engano, VALERIO EVANGELISTI
160. Uma Mulher Desobediente, JANE HAMILTON
161. Duas Mulheres, Um Destino, MARIANNE FREDRIKSSON
162. Sem Lgrimas Nem Risos, JOANA MIRANDA
163. Uma Promessa de Amor, TIAGO REBELO
164. O Jovem da Porta ao Lado, JOSIE LLOYD & EMLYN REES
165. 14,99 - A Outra Face da Moeda, FRDRIC BEIGBEDER
166. Precisa-se de Homem Nu, TINA GRUBE
167. O Prncipe Siddharta - Fuga do Palcio, PATRiCIA CHENDI
168. O Romance de Nostradamus - O Abismo, VALERIO EVANGELISTI
169. O Citroen Que Escrevia Novelas Mexicanas, JOEL NETO
170. Antnio Vieira - O Fogo e a Rosa, SEOMARA DA VEIGA FERREIRA
171. Jantar a Dois, MIKE GAYLE
172. Um Bom Partido - I Volume, VIKRAM SETH
173. Um Encontro Inesperado, RAMIRO MARQUES
174. No Me Esquecerei de Ti, TONY PARSONS
175. O Prncipe Siddharta - As Quatro Verdades, PATRCIA CHENDI
176. O Claustro do Silncio, LUS ROSA
177. Um Bom Partido - II Volume, VIKRAM SETH
178. As Confisses de Uma Adolescente, CAMILLA GIBB
179. Bons na Cama, JENNIFER WEINER
180. Spider, PATRICK McGRATH
181. O Prncipe Siddharta - O Sorriso do Buda, PATRCIA CHENDI
182. O Palcio das Lgrimas, ALEV LYTLE CROUTIER
183. Apenas Amigos, ROBYN SISMAN
184. O Fogo e o Vento, SUSANNA TAMARO
185.Henry & June, ANAS NIN
186. Um Bom Partido - III Volume, VIKRAM SETH
187. Um Olhar  Nossa Volta, ANTNIO ALADA BAPTISTA
188. O Sorriso das Estrelas, NICHOLAS SPARKS
189. O Espelho da Lua, JOANA MIRANDA
190. Quatro Amigas e Um Par de Calas, ANN BRASHARES
191. O Pianista, WLADYSLAW SZPILMAN
192. A Rosa de Alexandria, MARIA LUCLIA MELEIRO
193. Um Pai muito Especial, JACQUELYN MITCHARD
194. A Filha do Curandeiro, AMY TAN
195. Comear de Novo, ANDREW MARK
196. A Casa das Velas, K. C. McKINNON
197. ltimas Notcias do Paraso, CLARA SNCHEZ
198. O Corao do Trtaro, ROSA MONTERO
199. Um Pas para L do Azul do Cu, SUSANNATAMARO
200. As Ligaes Culinrias, ANDREAS STAKOS
201. De Mos Dadas com a Perfeio, SOFIA BRAGANA BUCHHOLZ
202. O Vendedor de Histrias, JOSTEIN GAARDER
203. Dirio de Uma Me, JAMES PATTERSON
204. Nao Prozac, ELIZABETH WURTZEL
205. Uma Questo de Confiana, TIAGO REBELO
206. Sem Destino, IMRE KERTSZ
207. Laos Que Perduram, NICHOLAS SPARKS
208. Um Vero Inesperado, KITTY ALDRIDGE
209. D'Acordo, MARIA JOO LEHNING
210. Um Casamento Feliz, ANDREW KLAVAN
211. A Viagem da Minha Vida - Pela ndia de Mochila s Costas, WILLIAM SUTCLIFFE
212. Gritos da Minha Dana, FERNANDA BOTELHO
213. O ltimo Homem Disponvel, CINDY BLAKE
214. Solteira, Independente E Bem Acompanhada, LUCIANA LITTIZZETTO
215. O Estranho Caso do Co Morto, MARK HADDON
216. O Segundo Vero das Quatro Amigas e Um Par de Calas, aNN BRASHARES
217. No Sei como  Que Ela Consegue, ALLISON PEARSON
218. Marido e Mulher, TONY PARSONS
219. Ins de Castro,
MARIA PILAR QUERALT HIERRO
220. No Me Olhes nos Olhos, TINA GRUBE
221. O Mosteiro e a Coroa, THERESA SCHEDEL
222. A Rapariga das Laranjas, JOSTEIN GAARDER
223. A Recusa, IMRE KERTSZ
224. A Alquimia do Amor, NICHOLAS SPARKS
225. A Cor dos Dias - Memrias e Peregrinaes, ANTNIO ALADA BAPTISTA
226. A Esperana Reencontrada, ANDREW MARK
227. Eu e as Mulheres da Minha Vida, JOO TOMS BELO
228. O Golpe Milionrio, BRAD MELTZER
229. A Noiva Prometida, BAPSI SIDHWA
230. Jack, o Estripador - Retrato de Um Assassino, PATRCIA CORNWELL
231. O Livreiro de Cabul, SNE SEIERSTAD
232. Ali e Nino - Uma Histria de Amor, KURBAN SAID
233. A Rapariga de Pequim, CHUN SHU
234. No Se Escolhe Quem Se Ama, JOANA MIRANDA
235. s Duas por Trs, CECLIA CALADO
236. Mulheres, Namorados, Maridos e Sogras, LUCIANA LITTIZZETTO
237. Estranho Encontro, BENJAMIN LEBERT
238. Pai ao Domingo, CLAIRE CALMAN
239. Perdas e Ganhos, LYA LUFT
240. Sete Casas, ALEV LYTLE CROUTIER
241. A Noiva Obscura, LAURA RESTREPO
242. Santo Desejo, PEDRO ALADA BAPTISTA
243. Uma Me quase Perfeita, PAOLA MASTROCOLA
244. Romance em Amesterdo, TIAGO REBELO
245. Nem S Mas Tambm, AUGUSTO ABELAIRA
246. Ao Sabor do Vento, RAMIRO MARQUES
247. A Agncia n 1 de Mulheres Detectives, ALEXANDER McCALL SMITH
248. Os Homens em Geral Agradam-me Muito, VERONIQUE OVALD
249. Os Jardins da Memria, ORHAN PAMUK
250. Trs Semanas com o Meu Irmo, NICHOLAS SPARKS e MICAH SPARKS
251. Nunca  Tarde para Recomear, CATHERINE DUNNE
252. A Cidade das Flores, AUGUSTO ABELAIRA
253. Kaddish para Uma Criana Que No Vai Nascer, IMRE KERTSZ
254. 101 Dias em Bagdad, SNE SEIERSTAD
255. Uma Famlia Diferente, THERESA SCHEDEL
256. Depois de Tu Partires, MAGGIE O'FARRELL
257. Homem em Fria, A. J. QUINNELL
258. Uma Segunda Oportunidade, KRISTIN HANNAH
259. A Regra de Quatro, IAN CALDWELL e DUSTIN THOMASON
260. As Lgrimas da Girafa, ALEXANDER McCALL SMITH
261. Lcia, Lcia, ADRIANA TRIGIANI
262. A Mulher do Viajante no Tempo, AUDREY NIFFENEGGER
263. Abre o Teu Corao, JAMES PATTERSON
264. Um Natal Que no Esquecemos, JACQUELYN MITCHARD
265. Imprimatur - O Segredo do Papa, FRANCESCO SORTI e RITA MONALDI
266. A Vida em Stereo, PEDRO DE FREITAS BRANCO
267. O Terramoto de Lisboa e a Inveno do Mundo, LUS ROSA
268. Filhas Rebeldes, Manju Kapur.
269. Bolor, Augusto Abelaira.
270. Profecia da Curandeira, Hermn Huarache Mamani.
271. O Cdice Secreto, Lev Grossman.
272. Olhando o Nosso Cu, Maria Lusa Soares.
273. Moralidade e Raparigas Bonitas, Alexander McCall Smith.
274. Sem Nome, Hlder Macedo.
275. Quimera, Valerio Maximo Manfredi.
276. Uma Outra Maneira de Ser, Elizabeth Moon.
277. Encontro em Jerusalm, Tiago Rebelo.
278. Lucrcia e o Papa Alexandre Vi, John Founce.
279. Me e Filha, Marianne Frederiksson.
280. O Segredo dos Conclaves, Atto Melani.
281. Contigo Esta Noite, Joana Miranda.
282. Dante e os Crimes do Mosaico, de Giulio Leoni.
283. A Bela Angevina, Jos-Augusto Frana.
284. O Segredo da ltima Ceia, Javier Sierra.
285. Est uma Noite Quente de Vero, Isabel Ramos.
286. O Terceiro Vero das Quatro Amigas e um par de Calas, Ann Brashares.
287. Quem Ama Acredita, Nicholas Sparks.
288. O melhor que um homem pode Ter, John O'Farrell.
289. A gata e a fbula, Fernanda Botelho.
290. Incertezas do corao, Naggie O'Farrell.
291. Crepsculo fatal, Nelson Demille.
292. Como da primeira vez, Mike Gayle.
293. A Inconstncia dos Teus Caprichos, CRISTINA FLORA
294. A Year in the Merde - Um Ano em Frana, STEPHEN CLARKE
295. A ltima Legio, VALERIO MASSIMO MANFREDI
296. As Horas Nuas, LYGiA FAGUNDES TELLES
297. O cone Sagrado, NEIl OLSON
298. Na Sua Pele, JENNIFER WEINER
299. O Mistrio da Atlntida, DAVID GIBBINS
300. O Amor Infinito de Pedro e Ins, LUS ROSA
301. Uma Rapariga Cheia de Sonhos, STEVE MARTIN
302. As Meninas, LYGIA FAGUNDES TELLES
303. Jesus e Maria Madalena, MARIANNE FREDRIKSSON
304. s o Meu Segredo, TIAGO REBELO
305. O Enigma Vivaldi, PETER HARRIS
306. A Vingana de Uma Mulher de Meia-Idade, ELIZABETH BUCHAN
307. Jogos de Vida e Morte, BEN RICHARDS
308. A Mulher Que Viveu por Um Sonho, MARIA ROSA CUTRUFELLI
309. Um Amor Irresistvel - Gordon, EDITH TEMPLETON
310. Parania, JOSeF PHINDER
311.  Primeira Vista, NICHOLAS SPARKS
312. Nas Asas de Um Anjo, MIGUEL VILA
313. Vero no Aqurio, LYGIA FAGUNDES TELLES
314. Scriptum - O Manuscrito Secreto, RAYMOND KHOURY
315. Jos e os Outros - Almada e Pessoa Romance dos Anos 20, JOS-AUGUSTO FRANA
316. O Espio de Deus, JUAN GMEZ-JURADO
317. As Mulheres de Mozart, STEPHANIE COWELL
318. O Esprito do Amor, BEN SHERWOOD
319. O Segredo dos Beatles, PEDRO DE FREITAS BRANCO
320. Sete Mulheres, Sete Histrias, MERCEDES BALSEMO, VERA DESLANDES PINTO BASTO, VERA PINTO BASTO, MARIA JOO BORDALLO, TERESA AVILLEZ PEREIRA, MARIA HELENA MAIA, 
MARIA TERESA SALEMA
321. Os Nossos Dias ao Ritmo do Rock, MIKAEL NIEMI
322. A Histria Secreta de A Noiva Judia, LUIGI GUARNIERI
323. Atraco Perigosa, DOUGLAS KENNEDY
324. Em Nome do Amor, MEG ROSOFF
325. O Leque Secreto, LISA SEE
326. O Que Faz Bater o Corao dos Homens?, LUCIANA LITTIZZETTO
327. Erasmus de Salnica, ANTNIO PAISANA
328. Trs Metros Acima do Cu, FEDERICO MOCCIA
329. Assassinatos na Academia Brasileira de Letras, J SOARES
330. O Fabuloso Teatro do Gigante, DAVID MACHADO
331. De Mos Dadas com o Amor, JAN GOLDSTEIN
332. A Outra Face do Amor, CATHERINE DUNNE
333. Escuta a Minha Voz, SUSANNA TAMARO
334. As Naves de Calgula, Maria Grazia Siliato.
335. Juntos ao Luar, Nicholas Sparks.

Fim
